A leitura da Epístola aos Colossenses marca o início de umasecção que vamos ouvir nos próximos domingos, centrada na identidade de Jesus.Quem é Jesus?
São Paulo afirma que Cristo é a imagem do Deus invisível, oprimogénito de todas as criaturas, pois “nele foram criadas todas as coisas”.Chamar-Lhe “imagem do Deus invisível” parece contraditório. Mas aqui, “imagem”significa revelação da identidade: aquilo que torna claro o que é complexo.
Ver Jesus é imitá-Lo: viver como Ele, amar como Ele. Esta éa plenitude dos mandamentos.
Na primeira leitura, do Deuteronómio, Moisés diz:“Escutarás a voz do Senhor teu Deus, cumprindo os seus mandamentos, econverter-te-ás a Ele com todo o teu coração e com toda a tua alma.”
Eis o centro da conversão: entregar todo o ser a Deus. Istoganha ainda mais sentido quando recordamos que o Papa Francisco nos ofereceuuma encíclica sobre o Sagrado Coração de Jesus (Praedica Evangelium),dizendo: “Dixit nobis: amou-nos.” Já Pio XI também escrevera sobre a água vivaque brota do coração de Cristo.
O coração de Cristo é o centro da sua vida — e isso não éestranho para nós: o Deuteronómio lembra que os mandamentos não estão longe —estão próximos, dentro de nós, no coração.
Escutar a voz do Senhor é um escutar ativo: ouvir parapraticar. Só se compreende verdadeiramente quando se vive. Não se trata deinteligência, mas de conversão: o coração convertido vê o essencial e reconheceDeus.
Neste horizonte, o evangelho torna-se mais claro.Apresenta-nos duas formas de viver a fé: uma religião formalista, legalista,ritualista, centrada em normas; e a fé que transforma o coração, cumprindo omandamento de se converter ao Senhor com todo o ser.
A pergunta do doutor da Lei é clara:
— “Mestre, que hei de fazer para receber a vida eterna?”
Jesus devolve:
— “Que está escrito na Lei?”
E ele responde: “Amarás o Senhor… e ao próximo como a ti mesmo.”
Jesus confirma:
— “Faz isso e viverás.”
Mas o doutor insiste:
— “E quem é o meu próximo?”
Jesus responde com a parábola do bom samaritano. Um homem éespancado e abandonado. Um sacerdote passa — e desvia-se. Um levita também.Provavelmente, por temor da impureza ritual. A norma era mais importante do quea vida.
Mas vem um samaritano — tido como herético, impuro. E é eleque se aproxima, cuida, trata, paga, assume a responsabilidade. Jesus pergunta:
— “Quem foi o próximo daquele homem?”
O próximo não é quem está ao lado.
O próximo é aquele de quem nos aproximamos.
Não é uma casualidade. É uma escolha. Eu escolhoaproximar-me. Escolho comprometer-me. Escolho importar-me.
Esta é a diferença entre uma fé exterior e uma fé que amapor dentro. Não se trata de fazer o que me calha, mas o que escolho fazer poramor.
Cumprir a Lei é viver uma experiência de salvação. Quandonos gastamos pelos outros, somos nós os beneficiados. Quando amamos por amor deDeus, Deus cura-nos, liberta-nos, salva-nos.
Assim, a grande questão é:
— Que tipo de fé queremos viver?
Uma fé estruturada, mas fria? Ou uma fé vivida, relacional,que toca, transforma e salva?