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UMA REVOLUÇÃO SEM PôVO


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Laurentino Gomes

A história da independência do Brasil é repleta de mitos e fantasias. Nas escolas aprende-se que em 1822 os brasileiros estavam mobilizados e determinados, de norte a sul, a romper seus vínculos com Portugal e defender a Independência do Brasil a todo custo. No filme Independência ou Morte, de 1972, o príncipe regente dom Pedro, herdeiro da coroa portuguesa, aparece na pele do ator Tarcísio Meira como o protagonista de uma avalanche cívica nacional que parecia incontrolável e irreversível. Antes e depois do Grito do Ipiranga é aclamado nas ruas pelos “vivas!” da multidão e pelo badalar dos sinos das igrejas.

Uma surpresa para quem se habituou a ver a história por essa perspectiva: em 1822 poucos eram os brasileiros que, de fato, desejavam o rompimento dos vínculos com Portugal. Até as vésperas do Grito do Ipiranga, a maioria das lideranças nacionais defendia ainda a manutenção do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, na forma criada por dom João em 1815. Os brasileiros tinham interesse na continuidade do Reino Unido por razões econômicas. Antes mesmo da chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, a colônia já se havia tornado a mais rica e influente porção dos domínios portugueses. Os traficantes de escravos, então um grande negócio, e os principais comerciantes de açúcar, tabaco, algodão, ouro, diamantes e outras riquezas estavam estabelecidos no Brasil, em especial em Salvador e Rio de Janeiro. Em alguns casos, mantinham poucas relações com a metrópole. A permanência do Reino Unido dava a esses comerciantes acesso privilegiado às outras partes do império colonial e também ao rico mercado europeu.

Por essa razão, nos primeiros meses de 1822, o tom dos discursos dos deputados brasileiros às Cortes Constituintes de Lisboa era de conciliação. Na sessão de 21 de maio de 1822, ou seja, menos de quatro meses antes do 7 de Setembro, o deputado paulista Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, irmão do ministro José Bonifácio, chegou a negar a existência de um Partido da Independência no Brasil. “Que haja um ou outro doido que pense nisso, pode ser, mas digo que não existe um partido da independência”, afirmou. “Estou plenamente convencido que Portugal ganha com a união do Brasil, e o Brasil com a de Portugal, por isso pugno pela união.” Caso tivesse prevalecido a proposta brasileira, o império lusitano se converteria numa entidade semelhante ao da atual British Commonwealth, a comunidade dos países que antigamente compunham o Império Britânico e que concordaram em manter a rainha da Inglaterra como símbolo dos

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Malhete PodcastBy Luiz Sérgio F. Castro