Sou engenheiro com mestrado em transportes, sempre trabalhei na área de eng. de tráfego e segurança de trânsito. Motociclista desde 1975, sempre me admiro que nos meios técnicos e legais relacionados à segurança de trânsito existem pouquíssimos motociclistas, e consequentemente, nenhum esforço organizado em criar medidas específicas para nosso modo de transporte. Contran, Denatram, Detrans, CET/SP, CET/Rio, BHTrans, ANTP e afins se preocupam com os acidentes de moto e a primeira reação é proibir a circulação em determinadas situações. Os projetos de lei que aparecem modificando o Código de Trânsito Brasileiro que tratam a motocicleta geralmente são desastrosos. O processo de habilitação é verdadeiramente criminoso, um mundo de fantasia divorciado da realidade. Até o exame de legislação e direção defensiva não trata a moto, é o mesmo para motoristas e motociclistas. Assim, os parcos esforços em educação são insignificantes face à quantidade de novos habilitados sem nenhuma preparação.
Piloto desde 1975, não sei mais quanto já rodei. Minha experiência mais recente foi um percurso de cerca de 2 mil km nos EUA passando pela Tail of the Dragon, da Carolina do Norte ao Tennessee, numa Honda STR 1300. Tenho uma CB1300, uso como lazer. Já fiz algumas matérias na TV Globo sobre segurança de motos e participei de alguns debates como palestrante por aqui.
Aprendi que quase todos os acidentes com moto podem ser considerados como culpa do motociclista. Estranho, mas pensem só: na maioria das situações de risco e dos acidentes que acontecem, após um exame de consciência feito pelo motociclista, este chega à conclusão de que poderia ter evitado a situação se tivesse tomado algum tipo de precaução específico, até mesmo imaginar que o outro veículo fosse fazer algo a princípio imprevisível. Pensamentos como: se eu soubesse que ele não estava me vendo não teria entrado, ou se eu percebesse que ele poderia virar não teria cortado, ou se eu tivesse visto o pedestre teria freado, se eu tivesse dado mais atenção ao estado do piso teria feito a curva mais devagar, ou se eu pensasse que poderia ter um buraco na curva não teria entrado quente, enfim, mesmo quando tecnicamente a culpa não é do motociclista, este, sabendo que num acidente sempre leva a pior (mesmo!), se alguma coisa, por menor que fosse, que pudesse ter feito evitasse o acidente mas não a fez, a princípio a culpa é dele. Significa: temos, pela nossa fragilidade, que ter muito mais cuidado com tudo, prever, imaginar, não exceder, respeitar, desconfiar, mais do que qualquer outro condutor. Enfim, estarmos certos não nos exime de morrer ou matar.