IronMan e Yoga - Podcast #105
Neste podcast contei como foram minhas duas provas de IronMan e como o Yoga me ajudou nessa jornada.
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Transcrição
IronMan e Yoga
Música de hoje é trilha sonora do filme “A Vida Secreta de Walter Mitty” filme que saiu no Brasil final de 2013, início de 2014. Dirigido e estrelado pelo Ben Stiller. Walter Mitty é um personagem (sei que é a personagem, mas acho isso tão feio que prefiro falar errado) bem tímido que trabalha na parte de revelação de fotos numa revista famosa, estilo Time, chama Life. Ele é muito imaginativo e cria várias histórias na cabeça, mas nunca realiza nada.
A Revista vai para de publicar no papel e quer fazer uma última capa comemorativa com uma foto do seu fotógrafo mais talentoso e também mais excêntrico. O fotógrafo, interpretado pelo Sean Pain, tem um estilo de vida de aventureiro, não tem celular e vive por locais remotos do mundo.
O diretor da revista diz a Walter Mitty que o fotógrafo deu uma foto a ele e essa foto é que deve ser usada na última capa da revista. Walter descobre que perdeu a foto e de alguma forma precisa encontrar o fotógrafo para recuperá-la. O filme mostra a transformação de Walter Mitty que começa a viajar para os lugares mais inusitados para encontrar o fotógrafo. Groelândia, Islandia, Himalayas.
Quem acessar o post desse episódio vai poder ver uma das minhas cenas favoritas que é quando eles se encontram.
Esse filme eu vi no começo 2014, comecei a me questionar seriamente sobre o que nos impede de realizar as coisas, e minha conclusão é que medo, que numa nuance mais superficial torna-se preguiça. Uns 2 anos depois, eu tinha um currículo de viagens maior que o Walter Mitty.
2014 foi o ano do meu primeiro IronMan.
Comecei a correr em 2005, porque um amigo que morava comigo queria emagrecer para o verão (que belo motivo). Na época eu fazia muito asana com longa permanência, então achava que eu era super preparado fisicamente. Só que cada tipo de exercício produz um determinado tipo de resistência e a resistência cardio vascular é bem pouco aprimorada no Hatha Yoga.
Em menos de 2km tive que parar por causa daquela dor no baço. Comecei a gostar da corrida, pois sempre fiz esportes, mas quando a gente fica mais velho é difícil reunir várias pessoas para jogar futebol ou outro esporte. A corrida me dava autonomia e na época vários amigos meus também começaram a correr. Não pensava em fazer Maratona porque sempre achei que fazia mal. Só que em setembro de 2005, eu já estava fazendo uma meia maratona em Buenos Ayres. Mas achava que deveria parar nessa distância.
Em 2009, fiz minha primeira Maratona em Porto Alegre.
Contar caso da parada.
Depois continuei fazendo uma Maratona por ano, mas o Iron era algo muito distante para mim, eu havia lido aquele trecho do livro do Jim Collins que já pus aqui no podcast (POR o trecho) mas o Iron era algo inatingível para mim. Eu não conhecia ninguém que corria meia maratona quando fiz a primeira, também não tinha nenhum amigo que havia feito maratonas em 2009 e o mesmo acontecia com o Iron. Quando você não tem uma referência próxima, não consegue imaginar que você é capaz porque você pensa que um Ironman é um atleta olímpico que só se dedica a isso.
Quando comprei uma bike e decidi que iria treinar para o Iron em 2013, o que era sempre presente nos meus treinamentos era o medo. Sempre tinha medo que eu não fosse conseguir terminar. Por que um Iron man é composto de 3,8km de natação, 180km de bike e no final uma maratona de corrida de 42km. Então você nem sequer nada 3km, como vai conseguir no dia ainda sair da água e pedalar uma distância equivalente a minha casa em Sp e Maresias no litoral Norte depois disso, põe um tênis e corre até depois da Ilhabela.
Foi um ano de muito esforço que produziu o resultado que descrevi um dia após a prova nesse texto.
A PROVA DE AÇOmaio 26, 2014
Escrevo sob um efeito enebriante - isso realmente aconteceu? E desse jeito?
O Davi já havia me falado "o dia da prova é um dia iluminado". Eu levava aquilo como uma figura de linguagem, pois para 99% dos que estão ali, é o dia do maior desafio de suas vidas. Mas não, ontem realmente foi um dia que levarei para eternidade (não exagero para enaltecer o texto).
Antes de falar de tudo o que aconteceu ontem, penso na quantidade de coisas que não deram errado, e que somente uma delas poderia estragar tudo. Raramente paramos para pensar que quando algo dá certo, por trás, milhares de coisas não deram errado. E aqui falo de coisas bobas, simples, mas que podiam ter acabado com um sonho. Por exemplo, na quinta, estava muito frio e minha roupa de borracha não havia chegado, mesmo assim eu nadei o simulado da natação só de short, poderia ter pegado uma gripe e me debilitado, ou como aconteceu com o Davi que venceu todas as dificuldades de um ano de treino, uma inflamação na cabeça do fêmur que o impediu de correr por três meses e foi derrubado há três dias da prova por uma folha de alface mal lavada.
Deitei às 9, mas o sono só chegou duas horas depois, isso era esperado e se eu dormisse conforme o planejado até às 5 da manhã tudo estaria certo. Entretanto, às 2:30 imagens da prova invadem meu sono, uma descarga de adrenalina entra no meu sangue e pronto, nem o mais poderoso dos calmantes me faria voltar para os sonhos. Revirei-me na cama até às 4:30 e decidi acordar. Comi e comi muito, conforme deve-se fazer em provas de resistência, arrumei minhas coisas, levei os special bags (sacolas de emergência com tênis extra, meia, agasalho, gel de carboidrato que são deixados em pontos estratégicos da prova) e voltei para casa para acordar meu staff (amigos e familiares que o tempo todo me apoiaram, sem os quais eu jamais conseguiria fazer uma prova tão boa). Quando o pessoal acorda, aí é alegria, todo mundo fala besteira, ri e eu até esqueço que pelo menos 11 horas de esforço me aguardam. Caminhamos juntos até a largada. A natação não me preocupava muito, pois como expus em outros textos, eu nado desde criança e os triatletas em geral não fazem isso muito bem. Larguei bem na frente, com bastante força para não ficar no tumulto das braçadas e ser cotovelado ou chutado pelos companheiros. Sai da primeira perna da natação, 2300 metros, com uma média de velocidade de 1min16segundos para cada 100 metros. Isso é forte demais. Precisava reduzir o ritmo para não quebrar. Na véspera da prova recebi uma ligação do Bruno Ramos e ele me falou algo que foi fundamental "esquece o tempo, curta a prova". Embora isso pareça óbvio, quando você treina de verdade, invariavelmente pensa em tempo e o que fazer para baixá-lo, mas por todo o trajeto da natação e também da bicicleta sempre me invadiam esses pensamentos - você ama fazer esporte, então faça-o enquanto você se sente bem, o tempo é para os outros, o prazer é seu. Outra coisa que fazia eu segurar o ritmo era falar para mim mesmo - isto não é uma prova de natação/ciclismo isso é um triathlon.
No final da natação, entrei num estado de harmonia com as braçadas, a água e a paisagem que eu não queria que aquilo acabasse, mais ou menos o que vivenciamos na meditação do Yoga.
Sai da água com 54 minutos, tendo nadado quase 400metros a mais que o trajeto oficial (pois você nunca nada em linha reta) e com um ritmo de 1min 19segundos.
Aqui cometi um erro que poderia ter sido fatal. Eu havia congelado as garrafinhas que se leva na bike e a que eu ia tomar na transição, como estava um pouco frio, sai para pedalar sem absolutamente nada de água. Numa prova dessas, se você fica uma hora sem beber algo, pode ter uma desidratação que acaba com suas forças. Por sorte, a organização do evento é muito competente e a cada 10km do ciclismo haviam postos de hidratação que me abasteciam com água e Gatorade. Embora eu perdesse um tempo para pegar duas garrafas de cada vez, ali não havia opção. A medida que o gelo foi derretendo, consegui ir colocando água para dentro das garrafinhas e ficando menos dependente dos postos. Pedalei numa velocidade e num prazer que eu jamais esperava, minha média estava muito alta (33,7km/h) e depois do km 100 eu dizia para mim mesmo - isso não é uma prova de ciclismo, estou disposto a jogar essa média lá para baixo para poder chegar bem para correr. Pelo incrível que pareça, não precisei fazer isso. No km 160 eu pedalava a quase 40km/h com batimento de 140bpm. Estava leve e nem sentia a perna girando.
Quando cheguei para correr, estava bem, o meu tempo era ótimo e eu sabia que só a soberba me tiraria os sub 11h (minha meta desde que comecei a treinar). Com um pace de 6min a cada km eu alcançaria o objetivo. A corrida, não posso falar que foi prazerosa, é duro correr uma maratona por si só, uma maratona depois de tudo isso então, é realmente um exercício de auto-superação. No meu caso, foi também um exercício de humildade. Toda vez que meu ritmo batia em 5:30 ou 5:20, mesmo estando bem, dizia a mim mesmo - não, seu ritmo é o 6. Consegui me manter esse pace o tempo todo da prova, sem precisar caminhar ou parar. Nos últimos 10km meu irmão e meu primo Ícaro correram ao meu lado me incentivando e dizendo "Daniel, você vai terminar um Ironman, a gente não está acreditando.." Nem eu acreditava bem no que estava acontecendo, mas naquele momento, tive a certeza que não apenas terminaria mas que o sub 11h seria meu.
Quando você se aproxima do pórtico uma emoção invade sua pele, você vê as luzes, as arquibancadas cheias de gente vibrando, tudo se ilumina, é indescritível. No meu caso, ainda veio o meu pai emocionado, chorando me abraçar - aquilo valeu cada minuto de todo o meu esforço - 10h 46min 50segundos nem nos meus melhores sonhos, sonhei.
Quando terminei o Iron em 2014, meus amigos começaram a me incentivar a tentar uma vaga para Kona, que é o mundial no Hawaii no qual só se classificam os melhores de cada categoria. Isso é bastante difícil e passa a depender não apenas de você mas também do desempenho de outras pessoas. Uma das coisas mais bacanas que tem no Ironman é que embora você tenha amigos que treinam com você e que querem chegar na sua frente, no fundo você está ali por algo pessoal e não para vencer o outro.
Continuei treinando, mas diminui bastante a intensidade, pois eu já sabia qual era o esforço para fazer essa prova.
Escrevi esse texto dias antes do Iron de 2015.
MINHAS EXPECTATIVAS PARA O SEGUNDO IRONMANmaio 19, 2015
Um ciclo chega ao fim! Foi mais um ano de continuidade no treinamento desde que cruzei a linha de chegada do IronMan em 2014.
Acredito que o segundo IronMan seja mais difícil que o primeiro. No primeiro, você tem muito medo da prova (especialmente no meu caso que não tinha feito nenhuma prova de triathlon anteriormente) e esse sentimento bem ou mal, estimula sua disciplina. Você faz tudo e mais um pouco do que te pedem. Já no segundo, tem ideia do tamanho do esforço, já encarou o monstro e sabe que ele não tem sete cabeças e isso te deixa mais relaxado para os treinos. Por outro lado, embora você já tenha uma estrutura muscular mais calejada, esses mesmos músculos acumularam um ano a mais de tensão e o risco de lesão é maior. Acredito que nesta área eu tenha feito um bom trabalho apenas com Yôga, não fiz nada complementar como musculação ou funcional. As técnicas do Yoga, através de exercícios de isometria geram um fortalecimento profundo na musculatura que protege das lesões e ao mesmo tempo, os alongamentos vão desfazendo a tensão que os músculos acumulam. Nesses dois anos treinando de 15 a 20 horas por semana, eu não tive nenhuma lesão e ponho isso na conta do Yoga.
Agora o grande desafio é psicológico. O IronMan é um ambiente recheado de pessoas bem-sucedidas em suas vidas profissionais, a maior parte delas com o ego bem acima da média. Só gente com muita auto-confiança pode olhar um desafio de nadar 3,8km, pedalar 180km e correr 42km e pensar "se eu quiser eu termino". Não considero o ego algo ruim nesse caso, pois sem ele ninguém faria uma prova desta magnitude. O problema é a armadilha que ele arma.
Onde há ego há competitividade e aí que entra o perigo do segundo IronMan. No primeiro, o principal objetivo de quase todos os estreantes é terminar. Você até tem uma meta de tempo, mas como fez treinos de no máximo 6hs, não tem muita certeza que pode aguentar até o final. No segundo, você tende a entrar numa paranoia de tempo e saber a cada km que velocidade e que distância você deveria estar. Mas num IronMan, não há como fugir da realidade e nisso o ego atrapalha. Você tem um nível de condicionamento para fazer a prova, se seu ego fizer você achar que o seu nível é maior, a prova mostrará isso e fará que seu tempo seja pior do que que poderia. Não há como escapar, tem que aceitar a realidade. Para quem nunca fez esse tipo de treinamento pode ler isso e achar uma grande bobagem e não entender como nós atletas não nos contentamos em simplesmente terminar. Entretanto, o ambiente de IronMan cobra melhoria, ninguém quer treinar um ano e fazer um tempo pior que o ano anterior, todos querem baixar seus tempos e é isso que me preocupa esse ano. Ano passado fiz uma prova muito boa, beirando a perfeição, não errei pace (como chamamos o ritmo da velocidade) não caminhei, terminei bem fisicamente e com um excelente tempo para um primeiro Iron (10h 46min).
Nesse ano estou no grupo do risco. Não posso entrar em competitividade com companheiros de treino, isso é tranquilo, sei que estou fazendo a prova para mim e não para vencer alguém, mas essa tentação existe. Não posso deixar meu ego me enganar e querer provar que sou melhor do que realmente sou. Entretanto, se eu não arriscar um pouco não conseguirei baixar o meu tempo do ano passado. O trabalho interno para que tudo isso seja bem administrado durante a prova é bastante difícil, mas estou confiante de que se as condições climáticas estiverem iguais as de 2014 conseguirei cruzar a linha de chegada abaixo de 10h 30min. Agora é esperar para ver se meu ago não está me enganando.
Contar como foi a segunda prova.
Meu foco a partir de 2015.
YogIN App, desafio maior.
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