Sobre a criação desta música
Esta música nasceu de uma experiência que mistura política, cultura indígena e inteligência artificial.
A primeira fonte foi o discurso da deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG), representante do povo Xakriabá. Para construir a letra, selecionei ideias, imagens e expressões presentes em suas falas públicas e transformei esse material em uma composição musical. A Câmara dos Deputados registra Célia Xakriabá como deputada federal por Minas Gerais, integrante do PSOL.
A segunda fonte foi a própria musicalidade indígena.
Usei inteligência artificial não apenas para organizar as ideias e transformá-las em música, mas também para tentar fugir, tanto quanto possível, das estruturas convencionais da música popular ocidental. Procurei trabalhar com repetição, chamada e resposta, canto coletivo, frases curtas e uma estrutura mais próxima das características que encontrei na documentação disponível sobre os cantos Xakriabá.
Uma parte particularmente interessante está no refrão.
O trecho:
“Hea hea hea hea hea hea ha
Na na para ya nan ga mu mi ni sha...”
não foi inventado pela IA. Ele veio de uma gravação indígena que encontrei durante a pesquisa. Foi extremamente difícil encontrar uma gravação que pudesse ser utilizada como referência sonora sem uma camada de produção moderna por cima. Muitos dos vídeos disponíveis são documentários, apresentações editadas ou gravações com instrumentos e músicas adicionadas posteriormente.
Depois de procurar bastante, encontrei um trecho de aproximadamente 30 segundos em que o canto aparecia sem essa interferência. Esse pequeno trecho foi utilizado como referência para a construção da música.
Há uma questão que me chamou ainda mais atenção durante a pesquisa.
Foi relativamente fácil encontrar informações extremamente detalhadas sobre povos antigos do Oriente Médio. Temos especialistas em hebraico, aramaico, grego antigo, arqueologia bíblica, história, religião e literatura antiga. Conhecemos até detalhes bastante específicos dos costumes descritos na Bíblia. Por exemplo, Deuteronômio 23:12–14 descreve uma prática relacionada a sair do acampamento, levar uma pá e cobrir as fezes.
E, ao mesmo tempo, quando procurei informações sobre um povo indígena que vive no nosso próprio país, encontrei uma dificuldade muito maior.
A documentação existe, mas é muito mais escassa e fragmentada. No caso do povo Xakriabá, encontrei trabalhos acadêmicos sobre sua língua, seus cantos e o processo contemporâneo de retomada do Akwẽ Xakriabá. A própria literatura acadêmica destaca que a língua está em processo de retomada e que existem dificuldades importantes de documentação e tradução.
Isso me parece revelar uma espécie de miopia histórica.
Conhecemos profundamente aspectos de povos que viveram há milhares de quilômetros daqui e há milhares de anos, enquanto ainda sabemos relativamente pouco sobre povos indígenas que fazem parte da história do território onde vivemos.
Por isso, esta música é também um experimento.
Eu tentei produzir uma segunda composição utilizando elementos da língua Akwẽ Xakriabá documentados em pesquisas. Mas, diante das limitações da documentação disponível, optei por não inventar uma suposta tradução. A ideia foi misturar o português com palavras e expressões Xakriabá que consegui encontrar em fontes linguísticas e acadêmicas.
O resultado não pretende ser uma reconstrução autêntica de uma música tradicional Xakriabá. É uma composição contemporânea inspirada em materiais públicos e documentados, feita com auxílio de inteligência artificial.
E talvez essa seja justamente a parte mais importante do experimento:
quanto menos conhecemos uma cultura, maior deveria ser nossa curiosidade sobre ela.
Esta música é uma pequena tentativa de chamar atenção para isso.
E, naturalmente, também é uma obra de caráter político. Ela nasceu das ideias e discursos de Célia Xakriabá e dialoga com sua atuação política. Quem quiser conhecer sua candidatura, suas propostas e seu trabalho parlamentar deve consultar diretamente suas fontes oficiais e formar sua própria opinião sobre ela.
Ateísmo em forma de música. Álbum completo.