Como se aproximar da beleza?
Com a ponta dos dedos, tateando, mas também mergulhando com ímpeto, corajosamente.
Neste seu Esplendor, Maria Carolina Machado faz os dois movimentos, para trazer a nós as vivências e o percurso de alguém que precisa se perguntar: “Onde eu estou? Quais são os meus limites e contornos?”.
A vida tem cheiros, cores, tatos – nossos corpos se aproximam de sua beleza pulsante, intensa, por vezes dolorosa de tão desafiadora. É belo o descontrole da maternidade, uma das experiências que percorrem este livro; diante de seus desafios, a escrita é um modo de chegar ao essencial, ao coração do que significa o encontro com uma alteridade que nos transformará definitivamente.
Tudo isso acontece numa língua que é do cotidiano, clara e concisa, mas que, ao mesmo tempo, trabalha com a dicção lacunar da memória. Mais ainda, com a ferocidade poética de uma mulher que escreve com o corpo – seu sangue, seu desejo, seu gozo:
“Dois flashes rasgados no baixo ventre. Imaginei que assim viriam as contrações antes de um bebê nascer. Pisei numa poça de lama. Pensei que fosse rasa, mas, à medida que enfiava o pé, ele afundava vagarosamente. Orgasmos. Respingos ficaram enrolados nos lençóis e no decalque do vinco do travesseiro em meu rosto”.
Uma escrita assim é necessariamente performativa. Ela vai criando enquanto se faz, ela faz surgir paisagens, sensações, objetos. Estamos diante da emoção do começo, que estas páginas transmitem com a força de quem já esteve em cena, partilhando um encontro único.
“Vem, vem” – este livro é um convite. Aceitemos.
Paloma Vidal
Escritora, tradutora e professora de Teoria Literária da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)