Boca Poética

Boca Poética

By Larissa OliveiraArts
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Boca Poética episodes

  • Eu ainda posso te chamar de amor?
    amor
    eu ainda posso te chamar de amor?
    não em voz alta
    porque o som não toca
    a minha boca não toca mais em você
    te chamo no canto do meu peito
    dizem que é do lado esquerdo
    não sei direito
    mas sei que ainda existe algum amor
    não há nenhum conto de fadas
    você merece ser amada
    respeitada
    acalentada
    em outros braços, outros cheiros, outros corpos
    que a rotina e a distância não atrapalhem os seus sentimentos
    lamento pelo o que não está no nosso controle
    mas se eu pudesse controlar aquele dia em que percebi que o para sempre não existia
    viveria a nossa história de novo
    para sentir o que eu nunca senti
    conhecer lugares novos que habitamos em corpos
    caminhar por caminhos incertos
    mesmo que os quilômetros sejam imensos
    sempre estarei por perto.
    1 min
  • Controle ausente
    ódio e amor no mesmo cômodo
    raiva do amor
    seria cômico se não fosse trágico
    memórias violentas atravessadas por um tempo ainda mais selvagem
    diziam que iria passar rápido
    insuportável é a dor da falta de controle
    o que nunca tivemos
    nunca teremos
    desejo ser egoísta
    acabar com a falta.
    1 min
  • Viagem
    quando fui embora levei o retrato que tirei com os meus olhos dos seus olhos
    a sua íris reflete na minha e eu sinto conforto e excitação
    guardei a rolha da garrafa daquela noite como se ela pudesse guardar o momento
    o vinho acabou rápido
    o tesão veio cedo
    antes de deitar sobre o meu colo
    antes de encaixar suas pernas entre as minhas
    eu te quis cedo e logo depois da despedida
    eu te sinto quando distraída atendo o telefone do meu trabalho
    não era você do outro lado
    na memória era você nua
    você me levou para outra dimensão
    assumo a paixão, a química
    as nossas risadas depois do brigadeiro
    penso o dia inteiro
    nosso beijo antes do sexo
    depois
    durante
    te beijar nunca é o bastante
    e é
    se você estiver do outro lado do mundo
    por muito tempo
    vou precisar comprar a minha primeira passagem de avião.
    1 min
  • Doce vida
    Juro, não vou morrer de overdose
    embora as doses de uísque tenham aumentado
    sair do quarto é a primeira vitória do dia que ninguém comemora
    o futuro parece ser dessa gente que é feliz no presente e não chora
    eu choro
    mas como Lins diz em sua canção
    eu tô bem
    apesar da insônia ainda tenho sonhos
    sonhar é necessário
    vivo alguns pesadelos
    mas lembro que nada é eterno
    as vezes parece que é
    fica difícil me manter em pé quando me sinto fraca
    mas toda dor suportada revela a força que tenho
    sento
    respiro
    tem dias que não me levanto
    manco
    mas ando
    tem muita gente andando ao meu lado
    não posso me esquecer que mesmo amarga a vida também é doce
    a morte não é um medo que carrego
    viver assusta
    mas o futuro também é meu
    saio do quarto e comemoro
    viver é a vitória diária
    mesmo que a felicidade não seja
    eu tô bem.
    2 min
  • A existência convoca à sentir
    Me recuso a acreditar que o amor é cego
    O amor é bastante vivo, faz querer viver
    Se olhar de perto consegue perceber o sentimento que tenho
    Que sinto
    Entre nós
    Entre
    Sente
    O silêncio também é palavra
    O amor deixa gente boba
    É sério
    E sorri.
    1 min
  • Amo amor
    Amo a banda
    Amo a rua
    Amo a casa
    Amo o gato
    Amo o quintal
    Amo a rota da relação
    Amo a viagem
    Amo ser mais do que carnal
    Amo o carnal
    Amo os traços
    Amo o contorno
    Amo a canção em outra língua
    Amo a língua
    Amo ali
    Amo lá
    Amo o lugar
    Amo o encaixe
    Amo a parte
    Amo fazer parte
    Amo a voz da manhã
    Amo o suspiro da noite
    Amo a divisão do travesseiro
    Amo o dia inteiro
    Amo
    Você
    Amor.
    1 min
  • Quer que eu desenhe?
    Igual uma criança que tem as suas primeiras descobertas, você me coloca para sentir, de longe, o seu afeto bem perto. Complexas as nossas conversas, eu tropeço me aproveitando do seu peito aberto. Se o amor me chama eu danço em frente ao espelho com sorriso de orelha a orelha. Tanto tempo a gente perde evitando o convite que a paixão insiste em mandar. Não precisou sinal de fumaça para eu perceber no seu olhar o desejo de tentar. Uma vez você me disse que tinha como separar o beijo do envolvimento, mas eu me vi envolvida sem te tocar. Será que a arte vem nos salvar daquilo que a gente não pode explicar? Você me faz perder as palavras e eu sou poeta. Ainda me engasgo, travo, enrolo a língua, mas falo: estou apaixonada por você.
    1 min
  • Feijão queimou
    Atenção.
    Cuidado para não queimar o feijão.
    Aquele dia você esqueceu o fogão com a chama acesa.
    Outro fogo queimava atrás das suas bochechas.
    Já pensou se você esquece o chuveiro ligado em uma vídeo chamada?
    Ou "esquece" a câmera ligada enquanto se molha no banho?
    Eu me molho porque me assanho com pensamentos sobre o nosso primeiro momento.
    Escrevi uma ficção, mas é melhor não seguir o roteiro.
    Escuta de novo.
    Algumas certezas precisam ser quebradas, mesmo quando faladas pelo povo.
    A voz do povo não é a voz de Deus.
    Tenho rezado pouco, mas agradeço muito a sua chegada.
    Será que a distância tem gosto de feijão queimado?
    Do seu lado o fogo não consegue ser apagado.
    As luzes eu apago.
    1 min
  • Amor platônico
    Vi
    o amor platônico ali
    olho no meu olho
    tensão de pele arrepiada
    era uma casa muito engraçada
    com fantasias da gente bebendo qualquer destilado
    você do meu lado
    o meu corpo virando cômoda para o seu retrato
    você virando tinta no meu diário
    te vi
    só ali
    preciso de mais passagens
    passar na sua rua
    nem que seja uma vez por mês
    fingir que foi sem querer
    aquele encontro na esquina do seu trabalho
    eu sou mais uma qualquer
    que enxerga paixão em sorriso de gentileza
    não vou cair aos seus pés
    tampouco suplico afeto
    se olhar no meu olho
    de novo
    posso até queimar
    me derreter
    imaginando o seu beijo
    ninguém podia entrar ali
    aqui você invadiu
    entupiu minhas veias de amor
    platônico
    sempre há vagas
    viu?
    1 min
  • Não é óbvio
    Bebe água. Acaba com esse soluço. Não engole o choro. Arruma um topo e solta esse grito. O omito não precisa ser dito se não é a hora, mas a palavra precisa ser pronunciada em algum momento. Combinado? Não dá para prever o plano indo por água abaixo. Faz um relato do que deu errado para lembrar de fazer diferente. Bilhetes funcionam. Cartas de amor confortam. Tem gente que se importa, tem gente que bate a porta na nossa cara. Desde criança, a gente tropeça. Por meses moramos em um lar seguro, ficar sozinha assusta. A verdade absoluta é que fomos lançados nesse mundo sem escolha. Assusta. Criar possibilidades no escuro. Enxergar o óbvio não é óbvio.
    1 min

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A boca que tem a droga do amor.