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Na terceira temporada do Camadas, resolvi perguntar aos meus convidados sobre o que é que lhes apetecia falar se tivessem um podcast. O instinto da Constança foi para a bissexualidade, mas ficou-se pelas aulas de escrita criativa em áudio. Um programa que aborda vários capítulos: moral da história, personagens, espaço e tempo, obstáculos, público-alvo, estrutura da narrativa, o prazer de escrever, a diferença entre gostar e amar e até exercícios práticos. Pode parecer difícil, but it s not a catastrophe!
Com referência a: Richard Zimler, Ross Welford, Raya e o Último Dragão, Moana, Fangirl (de Rainbow Rowell), projeto READ ON, Pretend It's a City (com Fran Lebowitz).
🎶 Not a Catastrophe - Tom Rosenthal
Podíamos ter-nos cruzado nas aulas de natação, ténis, piano ou alemão, mas conhecemo-nos como alunas de teatro e voltamos a conversar só agora, meia vida depois. Não chegou com o casaco ao contrário, nem com um sapato de cada cor, mas veio cheia de liberdade, sem pressas. Em criança, “gato” foi uma das suas primeiras palavras. Em adulta, dar mimos à felina cá de casa foi um dos seus primeiros instintos. De tal forma que, se falasse, a Dalila diria “Constança”. Escreve histórias para crianças, compra livros para os sobrinhos e fala das coisas que a apaixonam com a capacidade de nos fazer apaixonar. Diz que teve muita sorte na vida. Sorte a nossa que a partilhe connosco!
No último episódio desta temporada, a Maria Inês, que é conhecida por elogiar muito as pessoas, começou logo por elogiar uma série de pessoas maravilhosas que merecem ser celebradas. Falámos do Invasão, da exigência e responsabilidade de apresentar um espetáculo a partir d’Os Lusíadas, e da Mão Esquerda, preenchida das suas delicadezas e sensibilidades. Depois, elogiámos a própria Maria Inês: a vontade de cuidar, a ternura nas amizades, o companheirismo nas relações e a crença de que todas as pessoas são boas. Eu descobri o seu enorme fascínio por mãos, o interesse pela pintura no primeiro confinamento e, quando precisei de pôr o computador a carregar, já no fim da conversa, pisei o cabo do microfone e piorei drasticamente a qualidade de som da gravação, só para ficar mais parecida com o tempo dos apanhados. Mas, aqui, neste caso, a senhora da patite faz recomendações literárias.
A Minês, coroada rainha dos apanhados, Inês um bocadinho minha, passa a ser também um bocadinho vossa, neste episódio em que nos fala da infância passada na aldeia de Roriz (com ó bem aberto), da experiência em dois cursos de teatro diferentes e da entrada no mercado de trabalho. Dos dias em que tentava fazer xixi de pé e dizia mentiras malvadinhas aos tempos em que, para fugir de si própria, se tornou atriz e partilhou o palco com antigos professores vão apenas alguns anos. Passou-os a atirar livros por detrás das cortinas, a definir o melhor plano para ajudar os outros e a lidar com a insegurança que a acompanha. Falámos da necessidade de continuar o processo de aprendizagem na vida profissional, da disponibilidade e sensibilidade características do trabalho artístico e, como não podia deixar de ser, de precariedade - nas finanças e nas relações humanas.
Retomamos, nesta segunda parte, com a dificuldade em exteriorizar sentimentos vinda de uma pessoa defensiva e desconfiada que se entregou para fazer os chamados amigos da universidade, que são para a vida toda. Falámos do quarto do povo, da vida clandestina nas residências universitárias, do mestrado em Inglaterra que, feito à distância, tem permitido o melhor dos dois mundos e da vontade de fazer tudo, elevada pela pandemia. A Mariana, do rés do chão do mesmo prédio em Luton, a tia Cristiana, que é um anjo da guarda, e a Dona Esmeralda, que é cúmplice das ilegalidades residenciais, traçam o caminho para as crises de uma vida: o medo da morte e a passagem do tempo. Mas, nem com temas tão duros, ela deixa de ser um ar fresco na vida de toda a gente: trabalha na mudança para ser uma pessoa melhor e continua a inspirar aqueles à sua volta (e a emocionar-se com a valorização que não espera).
A lição que vamos tirar deste episódio é que as coisas se desenrolam como têm de se desenrolar. E foi assim que aconteceu neste domingo de manhã, em que falámos da Vista Alegre e da liberdade de sair depois de almoço para brincar com os vizinhos, da experiência de uma vida no curso de teatro em que novos horários eram enviados todas as semanas, quando não havia boicotes na forma de mantas espalhadas pelos cobertores da escola, e da formatação dos alunos que são encaminhados para duas únicas saídas profissionais possíveis, que ignoram a possibilidade de reflexão. Pelo meio, houve tempo para a mãe que se apaixonou pelo pai porque estava farta de “gajos inocentes”, para a irmã que um dia se transforma em agente, para a amiga que a fez deixar de passear livros e para a professora que reagiu a uma PAP com a admiração de quem vê uma atriz “a dar tudo”.
Enquanto o Rui fazia os seus rabiscos - que, um dia, alguém há-de interpretar - e jurava não estar sob o efeito de substâncias “estupidifacientes”, contou-me como chegou ao trabalho de barman, as melhores e piores coisas de se trabalhar na noite, a beleza do contacto com clientes habituais e, ainda, talvez o mais importante: partilhou todos os truques de que precisamos para ser atendidos mais depressa ao balcão de um bar. Falámos do impacto da pandemia, dos interesses artísticos que não são óbvios num engenheiro, da componente visual transversal a todas as artes. E, no fim, o Rui (que também é DJ, embora humilde e modesto tenha dito que não) fez umas quantas recomendações musicais, saídas do seu gosto eclético “salada de frutas”, que vão das Ágatas do mundo a Massive Attack e Sevdaliza.
Convidei a única pessoa que conheço com experiência a gerir um bar para matar as saudades da vida noturna, beber um copo, festejar o São João de véspera e falar da vida. Falámos sobre “a infância de campo”, numa aldeia com trinta e cinco habitantes, duas ou três crianças e uma mão cheia de casas na árvore - empreitada que explica o percurso em engenharia civil, inspirado pelo avô e pelos vários verões passados em obras. O Rui partilhou a história de um primeiro São João, o “feeling” que o levou a escolher o Porto como a sua nova cidade, a adaptação a um exercício de relações públicas e os planos para o futuro. Para não dizerem que só falo sobre teatro, fiquei a saber quais são os quatro ramos da engenharia civil e olhei para alguns edifícios (sobretudo, imaginários) da perspetiva de alguém que lhes conhece os segredos. E nos confidencia os seus!
Nesta segunda parte, a conversa foi mais aleatória, como a própria convidada, que é uma montanha russa de emoções. Falámos de gostos musicais, sobretudo de hip hop, da relação especial com a natureza, que atingiu o auge no regresso a Mondim e, em particular, com a assistência ao nascimento de 12 bebés cachorros (uma das experiências mais incríveis e mais nojentas da vida) e, ainda, de manter a sanidade mental com um dia livre de ecrãs por semana. Na era do excesso - de informação e de opções -, dos falsos YOLOs e Namastês, a Sofia destaca a importância da responsabilidade afetiva e do compromisso. Contou-nos sobre o projeto Fora da Caixa, partilhou a experiência de uma (não-)relação tóxica, o início da sua jornada de autodescoberta, e a terapia como forma de ganhar estofo emocional e poder de aceitação. Não se esqueçam, malta: ouçam as vossas mães!
No terceiro episódio consecutivo com alguém da minha turma do Balleteatro, no dia em que descobre que estragou um gira-discos e no lugar do condutor de um carro, a Sofia Afonso assume que, quando sai de casa, a vida lhe acontece (normalmente mais do que às outras pessoas). Falámos da descoberta do teatro, ainda em Mondim, da partida para o Porto em busca do sonho, das audições em mais do que uma escola e da vida que se começa sozinha. A Sofia desdobrou-se em estudante recém-chegada à faculdade que pergunta “where’s the drama?”, em adulta com os seus momentos Eureka altamente reveladores e em conselheira que nos elucida sobre as duas fases principais da vida. Partilhou a escolha pelo Design, como consequência de pensar por imagens, a mudança para Comunicação Empresarial, a doença do pai, a aproximação emocional à família e o regresso às artes.
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