Com Ciência

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By Brasil de Fato MGEducation
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Com Ciência episodes

  • The last of us: será que o que aconteceu na série pode acontecer conosco?

    Um fungo parasita pessoas e as transforma em zumbis assassinos. Os inspiradores do jogo e da série do momento se inspiraram em um fungo real, que parasita insetos. Mas será que a manipulação do comportamento do hospedeiro, uma hipótese trabalhada pela ciência, deve se motivo de preocupação para seres humanos? 


    Foto: Daniel Newman / Adobe Stock


    3 min
  • Velas de Citronela repelem mosquitos?

    Picada de mosquito está na minha lista de 10 Coisas Mais Irritantes do Mundo. Provavelmente na sua também, né? Ali entre os “defensores de presidente genocida” e os “antivacinas”. Outro dia, perdi uma noite de sono porque alguns desses infelizes (os mosquitos, no caso) não cansavam de zunir em meus ouvidos. Na manhã seguinte, um amigo sugeriu o uso de velas de citronela. Fiquei curioso sobre o que a ciência diz da eficácia delas como repelente.

    Citronela é o nome popular de uma erva bastante comum, parente do capim-limão. Dela é extraído um óleo que contém, entre outras substâncias, o citronelal e o citronelol, compostos que supostamente apresentam ação repelente. Passa-se o óleo diretamente na pele ou libera-se ele na forma de vapor no ambiente, por meio de difusores e velas.

    É bastante óbvio que plantas produzam substâncias em suas folhas que apresentem ação inseticida. É uma estratégia que usam para evitar serem comidas. Retiramos várias dessas substâncias das plantas e as usamos em nossa luta particular contra os insetos parasitas.

    Diversos estudos científicos já testaram a eficácia dessas substâncias em repelir e eliminar diferentes tipos de insetos. Nesses testes, é sempre importante medir a concentração das substâncias, as formas como as aplicamos e o tempo que conferem de proteção.

    De maneira geral, os estudos realizados até hoje demonstram que a citronela possui sim algum efeito repelente para algumas espécies de mosquito, ligeiramente superior a não se usar repelente algum. Porém, em comparação com outras substâncias (como o DEET, principal repelente sintético; e o PMD, presente no óleo de Eucalipto) a eficiência da Citronela se mostrou baixa.

    A aplicação do óleo de citronela na pele diminuirá as picadas de mosquito, mas não as impedirá por completo. E esse efeito diminui drasticamente após uma hora da aplicação. Já as velas poderão afastar alguns mosquitos do seu entorno, desde que em ambientes pequenos e pouco ventilados. Mas nenhuma das formas de uso será completamente eficaz em eliminar os pequenos demônios da sua vida.

    Assim, se você está realmente preocupado com as picadas de insetos (principalmente ao considerar que elas podem transmitir doenças como dengue e malária) saiba que há formas mais eficientes do que o uso das velas de citronela para isso. O uso de repelentes sintéticos com base no DEET ou na icaridina, uso de telas e o controle do nascedouro das larvas (o bom e velho combate à água parada!).

    Um abraço e até a próxima!

    Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

    5 min
  • Você sabe o que é uma IST?

    Provavelmente, você conhece a sigla DST, de Doença Sexualmente Transmissível. Mas sabia que, desde 2016, o mais indicado é usar o termo IST, de Infecção Sexualmente Transmissível? Isso se deve ao fato que uma infecção pode ocorrer sem que uma doença se manifeste. Ou seja, alguém pode se contaminar com um patógeno, e passar a ser transmissor do mesmo, sem, contudo, desenvolver a doença relacionada.

    Uma IST ocorre, principalmente, por meio do sexo. Envolve a troca de fluidos entre o ânus, a boca, o pênis e a vagina. Também pode se dar da mãe para o filho, durante a gestação, o parto ou a amamentação. E, mais raramente, por meios não sexuais, que envolvam o contato de sangue e fluídos com mucosas ou pele machucadas.

    Destacam-se entre as IST as viroses (Hepatite B e C, Herpes, HIV, HPV e HTVL), as bacterioses (Cancro Mole, Clamídia, Gonorreia e Sífilis) e a protozoose Tricomoníase. Na maioria delas os sintomas se manifestam nos órgãos sexuais. Mas, isso não é uma regra. O HIV, por exemplo, se instala nas células sanguíneas de defesa.

    O SUS oferece testes rápidos para HIV, Sífilis e Hepatites B e C. Basta procurar uma unidade de saúde e se informar sobre como e onde realizá-los em sua região.

    A melhor forma de se evitar as IST é só transar com camisinha. A barreira física oferecida por ela impede que haja a troca de fluidos durante o sexo. O SUS distribui camisinhas gratuitamente.

    No caso do HIV, também é possível a profilaxia pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP), que envolvem o uso de medicamentos que diminuem a chance de a infecção ocorrer em situações de emergência, principalmente quando há sexo sem camisinha. A PrEP e a PEP também estão disponíveis no SUS.

    A transmissão materno fetal das IST é evitada por meio do acompanhamento pré-natal. E para a Hepatite B e o HPV existem vacinas eficazes e que são oferecidas pelo SUS.

    Nosso sistema de saúde é referência mundial em relação às IST, principalmente o HIV. O que envolve amplas políticas de testagem, prevenção, educação e tratamento da população.

    Sexo é algo estruturante em nossas vidas e pode ser muito prazeroso. Por isso, é importante desenvolver uma relação saudável com ele. E isso passa por se informar, se preocupar e falar sobre as IST.

    Converse com seu(s) parceiro(s) sexuais e busque sempre o sistema de saúde. Use camisinha e faça os testes periodicamente. E, caso ocorra uma infecção, mantenha a calma e busque tratamento, que na maioria das vezes será eficaz para reestabelecer sua saúde.

    Um abraço e até a próxima!

    Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

    5 min
  • Cravos de pele são bichinhos?

    O tema de hoje foi sugestão de minha amiga Cláudia. Ela ouviu dizer que os cravos de pele, quando escuros, indicam a presença de um animal parasita na pele. Lembro de já ter ouvido várias vezes algo do tipo, que os cravinhos são pequenos bichinhos que vivem na gente. E aí, você acha que isso é real?

    Nossa pele possui poros denominados folículos. É onde se formam os pelos e produzido o sebo, aquela substância semelhante a uma gordura que lustra nosso cabelo e pele. Algumas regiões do corpo produzem mais sebo que outras, como é o caso do rosto e das costas.

    As vezes o orifício do poro se obstrui, o que acaba por dificultar ou impedir a saída do sebo que é produzido no interior do folículo. Eis a formação do que chamamos de cravo.

    Acontece que há inúmeras bactérias que vivem e se alimentam desse sebo. Quando a proliferação de bactérias é grande o suficiente para desencadear uma reação inflamatória em nosso corpo, temos o surgimento das terríveis espinhas. A espinha é um cravo infeccionado.

    E, além das bactérias, há um outro ser que também vive no sebo de nossa pele, um ácaro chamado Demodex (há duas espécies principais que vivem em seres humanos: o Demodex folliculorum e o Demodex brevis).

    Os ácaros são animais do grupo dos Aracnídeos, cujos representantes mais famosos são as aranhas e os escorpiões. Um carrapato é um ácaro grande, mas a maioria deles são bem pequenininhos, invisíveis ao olho nu.

    Estima-se que mais da metade dos seres humanos possuam o Demodex vivendo em suas peles. É algo normal e que não causa prejuízos à saúde. A fêmea do ácaro deposita seus ovos na saída do poro ou no próprio sebo. Quando ele é liberado leva os ovos para o ambiente. Assim, alguém que não tenha se contaminado pode acabar com novos moradores em seus folículos, por causa do contato com os ovos microscópicos

    E a dúvida da Cláudia? Quando o cravo é escuro, é um sinal que nele vivem os Demodex? Não. Os cravos originalmente são claros. Mas, em contato com o ar, podem naturalmente escurecer devido às reações causadas pela presença das bactérias. Assim, quanto maior o orifício do folículo, maior o contato com o ar, e maior a tendência do cravo escurecer.

    É incrível pensar que nosso corpo abrigue tantos outros seres, não é mesmo? Tanto a superfície quanto o interior estão repletos de vida! Somos um ecossistema bastante diverso formado por seres minúsculos. Estima-se que para cada célula humana há uma outra de alguma espécie vivendo em nosso organismo. Legal demais, né?

    Um abraço (especial pra Cláudia desta vez) e até a próxima!

    Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

    4 min
  • Alpha, Beta, Delta: o que são as variantes do coronavírus?

    Enquanto o Brasil e o mundo avançam na vacinação de suas populações, uma preocupação ronda a comunidade científica. Como o surgimento de variações virais pode impactar as estratégias de controle da pandemia?

    Toda vez que um material genético (seja DNA ou RNA) é copiado por uma célula, pequenos erros podem ocorrer. Isso é algo raro, aleatório e natural. Na maioria das vezes, não gera alterações nas características do organismo. Contudo, em seres em que a replicação se dá de forma muito acelerada, como é o caso dos vírus e bactérias, esses erros tornam-se mais frequentes.

    Isso explica o surgimento das inúmeras variantes desde que a pandemia começou, em março de 2020.

    O SARS-CoV-2 original, que surgiu na China, sofreu pequenas alterações em suas características ao longo do tempo. Cada vez que essas características alteram a dinâmica de propagação do vírus e os efeitos dele sobre o nosso organismo, tal variante merece nossa atenção, e recebe um nome específico por isso.

    A variante Delta é aquela que mais preocupa. As mudanças em sua estrutura fizeram com que ela fosse capaz de aderir às células humanas de uma forma mais eficiente. Assim, ela tem uma maior capacidade de transmissão.

    Uma pessoa que se infecta com o SARS-CoV-2 original demora de 5 a 6 dias para começar a transmitir novos vírus para o ambiente. E só após isso é que os primeiros sintomas da doença podem aparecer. Já com a variante Delta, esse tempo é de 3 a 4 dias. E a carga viral liberada é cerca de mil vezes maior.

    Além disso, a variante Delta é melhor em enganar nosso sistema imunológico. Nossos anticorpos têm mais dificuldade em identificar e aderir à estrutura dela em comparação com a variante original.

    Daí a preocupação óbvia: o efeito das vacinas já desenvolvidas é menor para a variante Delta? O que os primeiros estudos sugerem é que sim. Um pouco menor.

    Na Índia (onde a Delta se originou), nos EUA e na maioria dos países da Europa e Ásia, a variante Delta já se tornou a principal em circulação. No Brasil, isso ainda não ocorreu. Mas estimativas apontam que pode acontecer até setembro.

    Por isso é fundamental mantermos as medidas de cuidado necessárias. Uso de máscara, distanciamento social e higiene pessoal. E, principalmente, seguir com a campanha de vacinação para toda a população.

    Se você ainda não se vacinou ou não retornou para a segunda dose, não deixe de fazê-lo!

    Um abraço e até a próxima!

    4 min
  • Um choque térmico pode entortar o rosto?

    Outro dia curtia uma cachoeira com um grupo de amigos. O clima estava quente mas, como de costume, a água estava super gelada. Quando finalmente tomamos coragem para um mergulho, após uma hora no sol, um dos membros do grupo lembrou a todos: “Ei! Cuidado com o choque térmico! Ninguém aqui quer ficar com o rosto torto, né?”

    Todo mundo já deve ter ouvido uma história semelhante. Fulano abriu o congelador e ficou com a boca torta. Ciclano entrou numa sala com ar condicionado e o mesmo ocorreu. Afinal, o frio brusco pode “entortar o rosto”?

    A Paralisia Facial (ou Paralisia de Bell) é o distúrbio que se relaciona com essas histórias. Ela acontece quando um dos nervos do par craniano facial se inflama. Esses dois nervos são os responsáveis por ligar cada hemisfério cerebral aos diversos músculos do nosso rosto. Ou seja, todos os nossos movimentos faciais se relacionam com o funcionamento deles. Inclusive os da boca e dos olhos.

    Quando o nervo inflama a paralisia afeta um dos lados da face. A boa notícia é que a grande maioria dos casos regride totalmente após um tempo (de 1 a 6 meses). Em raros casos, podem haver sequelas irreversíveis. O ideal é, ao notar os primeiros sintomas, procurar o médico e iniciar o tratamento, que envolve fisioterapia e o uso de medicamentos para que a recuperação seja plena.

    Mas o que causa essa inflamação? A ciência ainda busca essa resposta. Ao que tudo indica, vários fatores podem originar essa repentina inflamação do nervo. Infecções por bactérias e vírus (como o da Herpes), estresse, sobrecarga do sistema imunológico, tumores e traumas parecem ser os responsáveis pela maioria dos casos.

    E sim, há relatos na literatura médica que sugerem uma relação entre a exposição ao frio brusco e o aparecimento da Paralisia de Bell. Contudo, como ainda é uma questão aberta para a ciência, devemos tratar isso como uma hipótese, e não como uma certeza.

    Os nervos faciais saem do crânio próximo à região inferior da orelha. O que pode explicar a relação entre dores no ouvido e o aparecimento dos primeiros sintomas. Assim, é sugestivo pensar que a exposição dessa região ao frio intenso seja mais relacionada ao desenvolvimento da paralisia.

    Porém, como os estudos se baseiam em relatos dos pacientes, é possível que os mesmos relacionem o aparecimento dos sintomas com os episódios de choque térmico sem que, contudo, essa relação exista na prática. Por isso, precisamos aguardar novos estudos para ter quaisquer certezas nessa história.

    Um abraço e até a próxima!

    4 min
  • “Só mais uns minutinhos!” A função soneca faz bem?

    Paulo geralmente acorda sem despertador. Quando tem um compromisso, coloca o celular para tocar a tempo suficiente para não se atrasar. Tocou, ele logo desliga o aparelho e se levanta. Já Felipe, seu namorado, prefere programar o celular para tocar uma hora antes do necessário e abusa da função soneca do aparelho, aquela que repete o alarme a cada 10 minutos.

    Quando dormem juntos, o conflito se instaura. Paulo reclama da tortura que é para ele ser acordado a cada 10 minutos. Já Felipe argumenta que, sem esse ritual, não consegue levantar a tempo.

    E aí, o que a ciência diz sobre cada uma dessas técnicas?

    Para responder a essa pergunta, vejamos como o sono humano funciona. Nossa espécie precisa de, em média, oito horas de sono por dia. Só que nosso sono não é algo uniforme. Ele possui um comportamento cíclico. Em média, durante uma noite temos entre quatro e seis ciclos de sono, cada um dividido em quatro fases.

    A primeira fase é de um sono leve, em que começamos a sair do estado de vigília. Dura cerca de 15 minutos. Em seguida, na segunda e terceira fases o sono se aprofunda até que os músculos se relaxem completamente e nossa percepção de estímulos do ambiente fique quase nula. Esses dois estágios duram cerca de uma hora. Essa fase do sono profundo é essencial para algumas funções do organismo como o crescimento e a manutenção da imunidade.

    Já a última fase recebe um nome próprio. É o chamado sono REM (Rapid Eye Movement, ou Movimento Rápido dos Olhos). Nela, o cérebro adota um estado de maior atividade, quase próximo ao de quando estamos acordados. É nesse momento em que mais sonhamos e que importantes funções relacionadas à memória e ao aprendizado ocorrem no cérebro.


    Uma boa noite de sono, que traga disposição e bem-estar para o dia seguinte, é aquela que garante que essas várias fases aconteçam ao longo da noite, sem interrupções.

    Assim, quando Felipe deixa seu despertador durante uma hora na função soneca, ele terá seu ciclo de sono reiniciado a cada vez que o alarme toca. Ou seja, será uma hora de um sono leve que não progride para as demais fases do ciclo, fundamentais para um sono de qualidade.

    Diversos experimentos já demonstraram os malefícios do uso recorrente dessa estratégia para a qualidade do sono. Maior cansaço e irritabilidade e menor capacidade de concentração, de memória e de aprendizado são alguns desses efeitos de curto prazo. No longo prazo, uma má qualidade de sono pode trazer problemas sérios à saúde e inclusive encurtar nossa expectativa de vida.

    Por isso, boa noite, bons sonhos e até a próxima!

    4 min
  • Por que temos peles de cores diferentes?

    A melanina é uma proteína presente nos seres vivos relacionada à pigmentação. No caso dos seres humanos, há produção de dois tipos: a eumelanina (tons marrons e pretos) e a feomelanina (tons amarelos e vermelhos). Vários genes regulam a produção dessas substâncias em algumas partes do corpo, como a pele, os pelos e a íris do olho.

    A exposição à radiação solar pode causar queimaduras e câncer na pele, e atrapalhar a produção da Vitamina B9, essencial para várias funções do organismo. A melanina age como uma barreira a essa radiação.

    Com a ausência dos pelos e a alta exposição ao sol, ter mais melanina na pele foi uma vantagem para os nossos ancestrais que viviam na África. Assim, os indivíduos com a pele mais escura foram mais bem sucedidos em sobreviver e deixar descendentes naquele local.

    Há cerca de 100 mil anos, alguns humanos migraram da África em direção ao Oriente Médio, Europa e Ásia. Quanto mais ao norte eles iam, mais se deparavam com regiões com menor incidência solar.

    A luz do Sol é essencial na produção da Vitamina D, substância que está relacionada à calcificação dos ossos. Assim, a baixa exposição ao sol pode resultar em carência dessa vitamina e sérios problemas à saúde.

    Imagine aqueles humanos ancestrais que foram viver em regiões do norte da Europa e da Ásia em que há pouco sol. Eles passaram a enfrentar problemas na síntese de Vitamina D. Assim, quem possuía menos melanina, uma pele mais clara, era mais eficiente em absorver a luz solar necessária para a produção dessa vitamina.

    Nossa história evolutiva e as diferentes cores de pele predominantes em cada região do planeta são um ótimo exemplo da seleção natural agindo. E de como uma característica é mais ou menos vantajosa de acordo com o ambiente em que o organismo se encontra.

    Hoje, pessoas negras que vivem em regiões mais próximas dos polos precisam se atentar para seus níveis de Vitamina D e, se necessário, tomar suplementos vitamínicos. Já brancos que vivem em regiões tropicais usam vestimentas e protetor solar para defender a pele. Ou seja, nosso desenvolvimento tecnológico possibilitou que driblemos a seleção natural.

    Um abraço e até a próxima!


    Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

    5 min
  • Por que tanta gente ainda acredita que cloroquina trata a covid-19?

    A pandemia da covid-19 completou um ano e três meses. Talvez esse seja um dos episódios na história que mais levou as pessoas a ouvirem e conversarem sobre ciência. E é estranho perceber que, mesmo assim, há tanta desinformação e negacionismo científico.

    Me choca ver o número de pessoas que ainda creem no tal “tratamento precoce” contra a doença (composto por remédios como Cloroquina, Ivermectina e Azitromicina).

    Em momento algum houve qualquer evidência científica relevante que indicasse uma relação mínima entre esses medicamentos e a prevenção ou tratamento da covid.

    É possível tentar entender tal fenômeno sob diferentes aspectos. Meu enfoque aqui será mais a partir da psicologia: por que acreditamos em coisas que não fazem sentido racional?

    Estudos de áreas como a neuropsicologia nos dão pistas sobre esse enigma. Algo já demonstrado experimentalmente é a existência dos chamados vieses cognitivos. Todos somos vítimas deles, uma vez que os mesmos decorrem da forma como nossos cérebros naturalmente funcionam.

    Por exemplo: o viés de confirmação tende a nos fazer prestar mais atenção em informações que reforçam nossas crenças e menos nas que as combatem. Já o viés de retrospectiva faz com que nossa memória reorganize acontecimentos passados de acordo com nosso conhecimento atual sobre eles.

    Todos sofremos os efeitos desses mecanismos cerebrais. A evolução programou nosso cérebro para melhor garantir a nossa sobrevivência e reprodução, e não para que compreendamos o mundo da forma mais correta. Ou seja, a ciência e a busca pela verdade sobre a realidade que ela propõe não é algo que nosso cérebro intrinsecamente almeja. Apesar de ser um órgão formidável para isso.

    Assim, para diminuir os efeitos desses vieses cognitivos que nos fazem ver a realidade de forma distorcida, é preciso esforço e educação. Precisamos ser treinados desde cedo a pensar cientificamente. Só assim teremos uma sociedade que não perde tanto tempo (e vidas) com falsas soluções.

    Um abraço e até a próxima!

    4 min
  • Raspar engrossa os pelos?

    O cabelo nada mais é do que um pelo que cresce na cabeça. A ciência possui até uma área específica para eles, a Tricologia. Os pelos são estruturas presentes na pele dos mamíferos (não confundir com as cerdas dos insetos e aranhas), em sua camada intermediária, a derme.

    Na derme há uma estrutura chamada folículo piloso onde o pelo é produzido. Ele é formado basicamente por feixes de células mortas ricas na proteína queratina. Com exceção da raiz, todo o resto do pelo está morto. Por isso, cortar cabelo é algo que não dói, diferente de quando arrancamos um!
    Todo mundo já ouviu que raspar os pelos faz com que eles cresçam mais e engrossem. Isso é verdade? Diversas pesquisas já mostraram que não. Em uma delas, homens tiveram apenas uma de suas pernas raspada durante vários meses. Ao final desse tempo, comparou-se o número, o tamanho e a espessura dos fios de ambas as pernas. Não houve qualquer diferença entre elas.
    Mas, quando raspamos o pelo temos a nítida sensação de maior aspereza. Isso acontece simplesmente porque, ao cortar o pelo, tiramos a parte mais fina dele, a ponta. Ou seja, fica pra trás justamente a parte mais grossa, próxima à pele. Com o crescimento do pelo, a ponta volta a afinar e essa sensação desaparece.
    E depilar sempre uma região, diminui os pelos? Às vezes sim. Pesquisas mostram que arrancar repetidamente um pelo pode ocasionalmente gerar traumas ao folículo, o que pode diminuir o número de pelos de uma área. Na depilação a laser esse processo é amplificado. O laser literalmente torra o folículo!
    E tem algo que podemos fazer para o cabelo crescer mais rápido? Não. Ele cresce em média 0,5 a 1 cm por mês e nada que façamos até hoje consegue acelerar isso. Portanto, todo cuidado com as receitas milagrosas que se espalham por aí! 
    O que os cientistas já descobriram são formas de se evitar a queda de cabelos (não a calvície, que segue sem uma “cura”) e que eles cresçam mais fortes e saudáveis. Por exemplo, manter uma dieta rica em proteínas, zinco e vitamina B. Mas, nada disso interfere no ritmo do crescimento, apenas na qualidade dos fios.

    Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

    5 min

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Quinzenalmente o professor e biólogo Renan Santos traz análises sobre os mistérios da vida e da ciência