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A segunda volta das eleições autárquicas francesas deste domingo, 22 de Março, expôs um país politicamente fragmentado, onde nenhuma força reclama vitória clara. A esquerda resiste nas grandes cidades, mas perde influência territorial; a direita e o centro consolidam posições; e a extrema-direita cresce localmente sem conquistar grandes municípios. Para o politólogo Eric Monteiro, os resultados antecipam um cenário “incerto e competitivo” a um ano das presidenciais.
A leitura dos resultados das autárquicas em França revela um paradoxo: todos os principais partidos reclamam vitórias, mas nenhum emerge como vencedor inequívoco. Segundo Eric Monteiro, docente em Ciências Políticas na Universidade de La Rochelle, esta ambiguidade decorre, em grande medida, do próprio sistema eleitoral autárquico francês.
“O sistema atribui um bónus de maioria de 50% à lista vencedora, o que amplifica resultados e dificulta comparações com eleições nacionais”, explica. Assim, derrotas tangenciais traduzem-se frequentemente em maiorias confortáveis nos executivos municipais, distorcendo a leitura política.
Esquerda urbana, mas em retração territorialA esquerda manteve bastiões emblemáticos como Paris, Lyon e Marselha, confirma a sua força nos grandes centros urbanos. Contudo, perdeu cidades relevantes como Estrasburgo, Clermont-Ferrand ou Brest, sinal da fragilidade fora dos grandes pólos metropolitanos.
Eric Monteiro sublinha que esta dualidade expõe uma divisão estrutural: “A esquerda ganha nas grandes cidades, mas perde no território.” As alianças com a França Insubmissa (LFI) revelaram-se, na maioria dos casos, penalizadoras. O eleitorado mostrou-se relutante em seguir entendimentos considerados artificiais ou excessivamente ideológicos.
Excepções como Nantes, onde houve uma coligação técnica sem integração efectiva da LFI no executivo, não alteram a tendência. Pelo contrário, reforçam a ideia de que a cooperação à esquerda permanece frágil.
Direita e centro consolidam, sem triunfarÀ direita e ao centro, os resultados traduzem-se numa consolidação mais do que numa expansão. Sem grandes conquistas, estes campos políticos asseguraram reeleições estratégicas e beneficiaram das divisões à esquerda.
Eric Monteiro destaca um factor decisivo: a recusa de alianças com a extrema-direita. “Quando a direita respeita a linha histórica de não pactuar com a extrema-direita, pode vencer”, afirma, evocando a tradição iniciada por Jacques Chirac.
Ainda assim, casos isolados como Nice, marcados por rivalidades pessoais e alianças heterodoxas, mostram que a disciplina estratégica não é uniforme.
Extrema-direita cresce, mas falha objectivos maioresA União Nacional (RN) não conseguiu conquistar grandes cidades, falhou objectivos simbólicos como Marselha, Toulon ou Paris. No entanto, ampliou a presença nas pequenas e médias cidades, beneficiando de uma participação eleitoral relativamente baixa.
Este crescimento territorial, ainda que discreto, não deve ser subestimado. “Os extremos começam a ter uma implantação que antes não tinham”, alerta o docente, referindo tanto o RN como a esquerda radical.
O sul de França permanece um bastião importante da extrema-direita, mas a incapacidade de conquistar grandes centros urbanos limita, para já, a sua projecção nacional.
Quatro blocos e o regresso do “arco governativo”Contrariando previsões recentes, os partidos tradicionais: socialistas e republicanos, demonstraram resiliência. O sistema político francês mantém-se estruturado em quatro blocos: esquerda moderada, direita moderada, extrema-esquerda e extrema-direita.
Eric Monteiro identifica um reforço do chamado “bloco republicano”, composto por forças de centro-esquerda e centro-direita com vocação governativa. Este espaço político beneficiou de um eleitorado mais pragmático, sensível a questões de gestão e rigor orçamental. “O eleitorado rejeitou promessas irrealistas e valorizou candidatos com credibilidade governativa”, observa.
Ecologistas perdem centralidadeOutro dado relevante destas eleições foi o recuo dos partidos ecologistas, que perderam várias autarquias conquistadas nas últimas eleições de 2020. Segundo Eric Monteiro, esta perda não representa um retrocesso da agenda ambiental, mas antes a sua integração transversal.
“As questões ecológicas deixaram de ser monopólio dos ecologistas e passaram a fazer parte dos programas de governo”, afirma, interpretando esta evolução como um sinal de maturidade política.
A faltar um ano das eleições presidenciais, o cenário permanece altamente aberto. Os resultados autárquicos sugerem uma competição intensa, com risco de os candidatos dos extremos dominarem a primeira volta.
Eric Monteiro aponta para um dado preocupante: sondagens que colocam Jordan Bardella acima de potenciais candidatos moderados. Num sistema em que apenas dois candidatos passam à segunda volta, a fragmentação do centro pode favorecer a extrema-direita. Entre os nomes já posicionados, destaca-se o de Édouard Philippe, antigo primeiro-ministro de Emmanuel Macron, cuja candidatura assenta numa legitimidade local já testada.
O livro Tudo sobre o Irão é apresentado este sábado, 21 de Março, em Lisboa, Ricardo Alexandre traça um retrato de um país no centro da tensão internacional. Entre ataques israelitas, narrativas de poder e o risco de escalada. O jornalista português expõe as múltiplas camadas do regime iraniano, da sociedade civil e da geopolítica.
Na véspera da apresentação de Tudo sobre o Irão, Ricardo Alexandre fala de um país que raramente se deixa ver por inteiro. É assim que começa: com a ideia de opacidade, de camadas sobrepostas, num momento em que o Irão regressa ao centro da actualidade internacional, entre ataques, retaliações e a permanente ameaça de escalada.
Os recentes bombardeamentos de Israel no sul do Líbano e em Teerão, diz, não surgem do vazio. “Israel quer há muito tempo dominar o Médio Oriente”, afirma, apontando para “uma narrativa dentro deste governo” que procura uma “grande Israel” para lá das fronteiras actuais. E acrescenta: “do ponto de vista militar e tecnológico, Israel já é a grande potência do Médio Oriente”, sem concorrência comparável na região.
Mas mais do que mudança estratégica, há uma demonstração contínua de força. “Não há nenhuma potência no Médio Oriente que se possa sequer aproximar do poder de Israel”, afirma, sublinhando também o domínio no campo da informação. A guerra, hoje, joga-se em múltiplos tabuleiros e nem todos visíveis.
Do lado iraniano, a narrativa de fragilidade difundida por Israel tem limites. “Não me parece que a estratégia iraniana nesta altura seja a de desistir”, diz. Apesar das mortes sucessivas de figuras-chave, “essas pessoas têm sido substituídas de forma imediata”.
A ideia de um Irão em colapso, defende, é simplificação. “Aquilo que parece ser uma narrativa que Israel vende de que o Irão está num caos absoluto, não corresponde ao que se observa”, afirma. Há continuidade, há adaptação, há uma máquina de poder que se recompõe, mesmo sob pressão.
No centro das tensões permanece a questão nuclear. “O Irão nunca afirmou querer ter uma arma nuclear”, lembra, evocando a fátua que proíbe esse caminho. Para Ricardo Alexandre, a viragem dá-se com a saída dos Estados Unidos do acordo de 2015: “Donald Trump, assim que entrou em funções, deu cabo disso tudo”. A partir daí, “é só depois disso que o Irão começa a enriquecer urânio a níveis superiores”.
E aponta responsabilidades europeias: “perante a passividade europeia, com medo de represálias norte-americanas”, o equilíbrio rompeu-se. O resultado foi um aumento das tensões e dos receios internacionais; “uma evolução que só aconteceu depois de os Estados Unidos terem rompido unilateralmente com os compromissos”.
O livro, resultado de mais de duas décadas de investigação, é uma tentativa de fugir ao preto e branco. “Há muitas nuances e muitas camadas”, diz. E sublinha: “não é um livro que tente passar um pano sobre a repressão”, mas também não ignora “o contexto em que determinadas decisões políticas são tomadas”.
Essa complexidade estende-se à sociedade. “Temos tendência para fazer leituras através daquilo que nos chega em dois minutos de televisão”, aponta. Sobre as mulheres iranianas, desmonta estereótipos: “não é assim” que se resume a realidade. As mulheres “têm uma participação política e cívica muito mais forte do que em muitas monarquias do Golfo”.
Ainda assim, o presente pesa sobre o futuro. “O grande perigo desta guerra é provocar ainda mais o fecho do país”, alerta. E termina com uma ideia que atravessa tudo: “vai ser mais difícil às vozes progressistas poderem fazer-se ouvir”. No meio da guerra, há um país que resiste e que continua, em grande parte, por compreender.
Só nas últimas 24 horas, mais duas figuras importantes do regime dos ayatollahs foram abatidas pelos ataques norte-americanos e israelitas. No entanto, as mortes destas figuras, entretanto já substituídas na cúpula do poder em Teerão, não significam o fim do regime e tornam cada vez mais difícil que as figuras moderadas e a oposição se exprimam no Irão.
O conflito no Médio Oriente continua a sua escalada de violência, com Teerão a confirmar a morte de Ali Larijani, chefe da segurança do país, e também, nas últimas horas, de Esmail Khatib, ministro dos Serviços Secretos iranianos. Estas mortes não parecem abalar a determinação do regime no Irão, que continuam a enviar drones contra os países da região.
"A estratégia americana e israelita é decapitar o regime pensando que matando quadros superiores do regime e líderes fazem cair o regime ayatollahs. Ora, nada disso parece estar a acontecer, não é? Morrem uns, são substituídos por outros. Há muitos quadros do regime e nunca se viu na História, pelo menos que eu me lembre, que a morte de um dirigente num regime autoritário ditatorial signifique necessariamente o fim desse regime. Isto não tem precedentes históricos", explicou Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.
Para este especialista em Relações Internacionais, as acções dos Estados Unidos e de Israel no Irão estão a fazer com sectores mais moderados no país sejam "completamente marginalizados e substituídos por sectores muito mais duros, muito mais violentos e muito mais repressivos". Quanto à oposição que restava no país e que nos últimos anos se tinha vindo a organizar, face ao corte da internet e aos bombardeamentos constantes, também não se consegue manifestar.
"Temos que pensar que a oposição iraniana, que é forte, que mostrou em manifestações significativas o seu poder, a sua influência, a sua capacidade de mobilização, usando as redes sociais, redes sociais que agora estão todas cortadas, não é nesta situação de guerra que essa oposição vai para a rua, sabendo que o aparelho repressivo iraniano, nomeadamente os Guardas da Revolução e não só, continuam intactos e que seriam dizimados de uma forma ainda mais terrível do que foram no passado. Portanto, não é sobre as bombas que vai surgir uma oposição forte no Irão que irá, no fundo, pôr em causa o regime dos ayatollahs", avisou Álvaro Vasconcelos.
A partir da Sala Oval, na Casa Branca, Donald Trump continua a lamentar a falta de apoio dos europeus à abertura do Estreito de Ormuz, tendo dito que se trata de um “erro ridículo” por parte dos países da NATO. O Presidente norte-americano não quer dar o braço a torcer, adicionando que os Estados Unidos também não precisam de ajuda para nada, mas esta guerra está já a causar fissuras internas na sua administração, com Joe Kent, director do Centro Nacional de Contraterrorismo norte-americano, a demitir-se, afirmando não poder apoiar a guerra no Irão. Para Kent, não havia qualquer ameaça directa do Irão aos Estados Unidos e esta foi uma guerra que começou devido à influência de Israel sobre Donald Trump.
"Este isolamento internacional para Trump, na sua visão do mundo, não é verdadeiramente um problema. Porque Trump vive na ideia de destruir a ordem internacional, de achar que o poder americano é tal e o seu poder pessoal é tal que nada o poderá limitar, nem o facto de se isolar dos seus aliados europeus, que aliás, não deu qualquer importância nem os informou de que ia começar uma guerra, nem de ter contra si a opinião pública mundial. Aliás, é uma estratégia semelhante a Netanyahu. O isolamento de Israel depois da Guerra de Gaza é praticamente total. Esse isolamento internacional que nós constatamos para Trump, verdadeiramente, na sua visão brutal de poder absoluto que ele crê que pode ter e crê que tem, com um ego que ultrapassa muito de longe o poder que tem realmente, não é para Trump, verdadeiramente um problema. É um problema para os Estados Unidos, é um problema para a ordem internacional e um problema para a paz e a prazo, um problema para Trump. Mas de imediato, é um poder grotesco, como dizia Foucault. É um poder brutal que não mede as consequências dos seus actos", concluiu.
O Ruanda admitiu retirar o contingente militar destacado no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, caso não sejam asseguradas garantias de financiamento sustentável para a operação. No terreno desde 2021, cerca de mil militares ruandeses apoiam as forças moçambicanas no combate à insurgência armada activa desde 2017, associada ao grupo jihadista Estado Islâmico. O aviso surge numa altura em que se aproxima o fim do apoio financeiro da União Europeia à missão, previsto para Maio, ao fim de 36 meses e após um total de 40 milhões de euros desembolsados. Em Bruxelas, o Presidente Daniel Chapo tenta assegurar a continuidade desse financiamento. O investigador do Observatório do Meio Rural, João Feijó, considera que não há interesse em ver as forças ruandesas abandonarem o país.
O Ruanda admitiu retirar o contingente militar destacado no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, caso não sejam asseguradas garantias de financiamento sustentável para a operação. Quais serão as consequências dessa decisão para a estabilidade de Moçambique?
Não é uma decisão. É uma chamada de atenção para a necessidade do apoio do Ruanda a Moçambique, para que possam continuar as operações.
Esta posição surge numa altura em que há sanções dos Estados Unidos às forças de defesa do Ruanda, devido ao conflito na República Democrática do Congo. Há aqui um certo aproveitamento por parte do país?
A situação é distinta, porque essas sanções visam obrigar o Ruanda a deixar de intervir da forma como está a intervir nz RDC. Em Moçambique, pelo contrário, a acção do Ruanda tem sido benéfica para o capital internacional, nomeadamente para os interesses estratégicos do gás e do grafite, que pertencem a multinacionais com capital francês, americano e, no fundo, global.
As tropas ruandesas estão em Moçambique desde 2021. A verdade é que o conflito ainda não foi resolvido e até alastrou a Nampula. Há o risco de este conflito se eternizar?
O Ruanda teve como função não necessariamente acabar com a insurgência, mas proteger o raio em torno das zonas onde estão os investimentos. As forças estavam sobretudo localizadas em Palma e na faixa costeira. O objectivo foi claramente criar uma “green zone”, restabelecer a segurança e retomar a exploração de gás.
A insurgência movimentou-se, de forma estratégica, para zonas onde o inimigo é mais fraco. Deslocou-se para áreas com geografia muito complicada, onde historicamente movimentos de guerrilha -como a Renamo ou mesmo a Frelimo- nunca foram derrotados. Estes grupos têm, assim, a vantagem do terreno.
Ainda assim, já não têm a mesma força que tinham em 2021, nem a mesma capacidade para atacar ou ocupar vilas distritais. Chegaram a realizar vários ataques a sedes distritais, algumas mais do que uma vez, mas hoje essa capacidade está bastante reduzida.
Por outro lado, também não interessa ao Ruanda eliminar totalmente a insurgência. Interessa contê-la, reduzir a sua capacidade operacional, sobretudo nas zonas de grande investimento económico, mas manter o risco suficientemente presente para justificar a sua presença em Moçambique.
Há um interesse em manter Moçambique dependente do Ruanda?
Exactamente. Dessa forma, o Ruanda mantém o processo de internacionalização das suas empresas, nomeadamente nos sectores da construção, do acesso a recursos naturais e até da presença militar. Procura afirmar-se como uma espécie de “polícia africana” na estabilização de zonas de indústria extractiva, financiadas pelo capital do Norte global.
No dia em que os ruandeses saíssem, é possível que surgissem dinâmicas que voltassem a criar instabilidade, pressionando os grandes interesses económicos a recorrer novamente à sua presença. Não será fácil retirar os ruandeses, até porque não existe uma alternativa viável. O exército moçambicano ainda não tem capacidade para enfrentar sozinho os grupos insurgentes. Pelo contrário, uma retirada poderia facilitar a reorganização desses grupos.
A população tem dito, muitas vezes, que se sente mais segura com as tropas ruandesas do que com os soldados moçambicanos…
Isso é natural. Os ruandeses dominam as línguas locais, têm bons equipamentos, estão bem treinados, são disciplinados e conseguem estabelecer uma relação de confiança com a população. Conseguem, através da comunicação directa, distinguir quem colabora com a insurgência.
Já as forças moçambicanas enfrentam problemas logísticos, falta de equipamento, fragilidades na organização e na liderança e, sobretudo, dificuldades de comunicação com a população. O que é irónico: militares e população do mesmo país não conseguem comunicar entre si.
Além disso, há muitos relatos e indícios de abusos cometidos por militares moçambicanos contra civis, o que gera medo e desconfiança. A população fica, muitas vezes, presa entre dois lados em conflito, numa situação extremamente vulnerável.
O Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, está em Bruxelas para pedir a continuação do apoio da União Europeia. Acredita que será bem-sucedido?
Terá de apresentar garantias e contrapartidas. Esses apoios terão certamente um custo. Não se sabe se será através de concessões mineiras, benefícios fiscais ou outras formas.
Moçambique encontra-se numa posição muito difícil: precisa de garantir a segurança dos grandes projectos, mas não tem capacidade interna para o fazer. Isso obriga ao recurso a apoio internacional, que tem um preço.
O problema é estrutural: um Estado frágil, com dificuldades em assegurar direitos fundamentais como justiça, educação, saúde ou emprego. Isso gera descontentamento e fragiliza ainda mais a relação entre o Estado e a população.
Daniel Chapo enfrenta um desafio enorme. As receitas do gás só deverão começar a chegar dentro de cinco ou seis anos. Até lá, será difícil manter a estabilidade. O país atravessa - e continuará a atravessar - um período muito complexo.
Daniel Chapo poderá contar com o apoio da França, tendo em conta os interesses franceses no país?
É possível que tenha havido um esforço diplomático francês para mobilizar a União Europeia a apoiar a intervenção do Ruanda, com recurso a financiamento de vários Estados-membros, tendo em vista a protecção de investimentos como os da Total em Moçambique.
Durante estes dias, deverão decorrer várias negociações em Bruxelas para encontrar soluções. A saída dos ruandeses não interessa a ninguém, tendo em conta a importância estratégica da região - incluindo os corredores de Pemba, Lichinga e Nacala - ricos em recursos como carvão, areias pesadas, grafite, gás e pedras preciosas.
A interrupção da exploração destes recursos poderia ter impactos nos mercados energéticos e alimentares globais.
E não há interesse nessa interrupção…
Exactamente. Além disso, o custo das forças ruandesas é relativamente baixo - cerca de 50 milhões de dólares por ano - quando comparado com alternativas como forças norte-americanas ou europeias, que seriam significativamente mais dispendiosas.
É provável que este cenário faça parte de uma estratégia negocial, eventualmente para transferir custos para o Estado moçambicano ou garantir novas condições para investimento internacional. Neste momento, trata-se sobretudo de negociações políticas em curso nos bastidores de Bruxelas.
O cinema português do pós-25 de Abril também fez a sua revolução política e estética, enquanto retratava o momento histórico que se vivia em Portugal depois de 48 anos de ditadura. O espírito e os bastidores desse “ideal colectivo do cinema português” foi estudado pelo historiador de cinema Mickaël Robert-Gonçalves que agora publica, em França, o livro "Cinéma Portugais en Révolution : 1974-1982". A RFI falou com o autor no lançamento da obra, a 13 de Março, em Paris.
Mickaël Robert-Gonçalves começa por contar à RFI que “o livro trata de como a revolução portuguesa foi filmada e como os cineastas organizaram a revolução dentro da instituição do cinema”, mas também aborda “um estudo estético dos filmes” e “uma reflexão” sobre o percurso dos filmes e o seu contacto com o público.
O que foi, afinal, este “cinema português em revolução” e o que levou Mickaël Robert-Gonçalves a fazer deste assunto o tema central da sua tese de doutoramento numa universidade francesa? A descoberta do filme Bom Povo Português (1981) de Rui Simões foi o ponto de partida para o investigador, que também se rendeu a Gestos & Fragmentos - Ensaio sobre os Militares e o Poder (1982) de Alberto Seixas Santos. Ambas as obras marcam, para ele, “o fim de um espírito sobre os filmes revolucionários” e “o fim, talvez, do ideal colectivo do cinema português”, o que também explica as datas do título do livro.
Mickaël Robert-Gonçalves mergulhou, então, nessa “outra forma de fazer cinema” em Portugal, um cinema radical, na forma e no conteúdo, que abordou temas calados por 48 anos de ditadura e que retratou as lutas do Período Revolucionário em Curso, deixando-se simultaneamente absorver pelo próprio ímpeto revolucionário.
A partir de Paris, o historiador lusodescendente agarrou num tema “ainda muito desconhecido” em Portugal e foi pesquisar esse cinema colaborativo que - conta - “questionou o lugar do autor e do poder no cinema” através, nomeadamente, de “uma variedade de cooperativas que tinham um modelo diferente de produção e uma discussão permanente, como era possível num período revolucionário”.
Na apresentação da obra, em Paris, Raquel Schefer, professora de cinema na universidade Sorbonne Nouvelle, resumiu o livro como “a mais importante sistematização do cinema revolucionário português até à data”.
Oiça a entrevista com Mickaël Robert-Gonçalves neste programa.
RFI: Do que fala este livro Cinéma Portugais en Révolution:1974-1982?
Mickaël Robert-Gonçalves, Autor do livro Cinéma portugais en révolution : 1974-1982: “Este livro é uma espécie de síntese da minha tese de doutoramento que foi defendida em Paris 3-Sorbonne Nouvelle, em 2018. O livro trata de como a revolução portuguesa foi filmada e de como os cineastas organizaram a revolução dentro da instituição do cinema, na primeira parte. Na segunda parte é mais um livro sobre os filmes e como os filmes foram feitos durante a revolução, um estudo estético dos filmes. E, depois, é uma reflexão sobre o destino dos filmes, como foram projectados, como circularam nos festivais, nas salas de cinema, etc.”
Como é que a revolução entrou e se manifestou no cinema português?
“É um cinema interessante porque questionou, por exemplo, o lugar do autor, sendo que o cinema português é um cinema de autor, e no período revolucionário foi um cinema colaborativo, um cinema colectivo. Por isso, foi uma das primeiras maneiras de fazer um cinema diferente. Também questionou as questões do poder no cinema porque houve uma tentativa de socialização da produção cinematográfica em Portugal durante a revolução, que durou mais ou menos dois anos, e havia uma variedade de cooperativas que tinham um modelo diferente de produção e foi uma discussão permanente, como era possível num período revolucionário.”
Há dois filmes que estruturam o seu livro. Quais são e porquê a escolha destes dois?
“O primeiro é ‘Bom Povo Português’ de Rui Simões, foi o primeiro filme que descobri sobre a revolução. É um dos filmes mais conhecidos sobre a revolução. Era um filme que sintetizava toda a revolução e, ao mesmo tempo, é um filme também muito poético e havia muitas imagens que eu queria descobrir e foi a minha maneira mais fácil e mais rica de entrar no período revolucionário. Este filme foi terminado no início dos anos 80.
O segundo filme é ‘Gestos & Fragmentos - Ensaio sobre os Militares e o Poder’ de Alberto Seixas Santos. Este é um filme mais radical, um filme mais intelectual talvez, também foi um filme que foi difícil de acabar para a equipa do filme e só foi finalizado em 1982. Para mim, era já o fim de um período, de um espírito sobre os filmes revolucionários. Era também, talvez, o fim do ideal cooperativo, o ideal colectivo do cinema português. Acabou com ‘Gestos & Fragmentos’ e Bom Povo Português’.”
Daí a escolha das datas 1974-1982?
“Sim, para mim, era uma maneira poética ou filosófica de acabar a revolução com os filmes, não com o processo histórico, porque claro que a revolução acabou antes de 1982, mas houve mais influências e referências da revolução depois do fim da revolução. Então, para mim, era lógico acabar em 1982 com ‘Gestos & Fragmentos’”.
Olhando para além de 1982, até que ponto hoje essa vaga revolucionária toca algum cinema português?
“É uma questão complicada porque não sei se há mesmo um eco agora nos filmes contemporâneos. Há uma referência, por exemplo, nos filmes do Colectivo Terratreme e, por exemplo, acabei o meu livro com o filme ‘A Fábrica de Nada’. Para mim, no modelo de criação do filme, havia um eco do período revolucionário, mas não sei se é uma ligação voluntária ou se é qualquer coisa que os realizadores conscientizaram quando estavam a fazer este filme, espero que fosse uma espécie de referência e influência. Mas também é preciso conhecer este património cinematográfico dos anos 70 e não sei se isso está a ser ensinado nas escolas de cinema. É um período ainda muito desconhecido.”
Quais são os temas que até então não tinham aparecido na história do cinema português e que aparecem nessa altura?
“Há muitos, porque neste cinema militante havia muitos problemas que surgiram no período revolucionário, problemas que já existiam durante a ditadura, por exemplo, a questão do aborto, a questão da reforma agrária, a questão da organização dos trabalhadores, várias questões políticas e de sociedade, a questão do direito ao alojamento, a questão do hospital psiquiátrico, por exemplo. Foi um período onde era possível ter todos esse objectos de trabalho e foi um período decisivo.”
Qual foi o papel das cooperativas de cineastas? Além de apagarem, entre aspas, o nome do autor, fizeram um trabalho colectivo que, muitas vezes, se associa a uma utopia colectiva e revolucionária…
“Sim, mas como uma utopia, também é sempre difícil que isso fique no tempo. Foi uma experiência. Para os realizadores era uma maneira de experimentar, fazer um cinema diferente também e experimentar outras formas de fazer cinema. Depois, a figura do autor voltou em Portugal, então, só foi um período muito curto na história do cinema português.”
Além de ser um cinema revolucionário nos temas, com temas que até então não tinham sido abordados, em termos formais, houve também uma radicalização das formas, algo novo?
“Sim, houve uma radicalização das formas porque era um cinema que estava influenciado pelas formas de cinema político da Europa: o cinema político francês, o cinema militante que já havia na América Latina, por exemplo. Era possível porque havia uma revolução. Havia também formas de cinema mais antigas e, às vezes, menos valorizadas, porque já havia este tipo de cinema em França, em Itália, na América do Norte, mas não havia este tipo de cinema em Portugal. Então era uma descoberta e também foi uma maneira de experimentar este tipo de cinema em Portugal.”
Além destes dois filmes que falou, que outros poderia recomendar às pessoas que querem descobrir este cinema revolucionário português?
“Posso recomendar não os filmes, porque é difícil, mas as plataformas onde é possível ver esses filmes, como a RTP Arquivos onde podem encontrar os filmes do programa ‘Nome Mulher’ e ‘Ver e Pensar’ que é um outro programa. Também a plataforma da Real Ficção de Rui Simões, que é uma sociedade de produção portuguesa, e há uma possibilidade de ver os filmes do Grupo Zero: ‘A Lei da Terra’, ‘Gestos & Fragmentos’, ‘Assim começa uma cooperativa’, por exemplo, e os filmes da Cooperativa VirVer de Rui Simões que estão também na plataforma Real Ficção.”
Na apresentação da obra, a historiadora de cinema Raquel Schefer disse que é uma obra que sistematiza e desmistifica a história do cinema revolucionário português, desidealizando a história das cooperativas de cineastas. Houve esse intuito?
“Não sei. Acho que isso é a percepção da Raquel [Schefer], mas acho que talvez seja verdade porque talvez seja uma coisa que está ligada com o facto de que eu não vivi em Portugal, nasci aqui em França e tenho uma espécie de um olhar sobre Portugal que é um olhar um pouco estrangeirado sobre a História de Portugal. Então, talvez seja por isso que eu possa olhar para esta história e para estes filmes, talvez, com distância e uma maneira de analisar que permite essa sistematização e esse olhar específico que eu tenho no meu livro.”
Em França, a primeira volta das eleições autárquicas ficou marcada por um aumento dos extremos tanto à direita como à esquerda, assim como pelo quase desaparecimento do partido do Presidente, Emmanuel Macron. O investigador Victor Pereira explica as tendências destas eleições.
A primeira volta das eleições autárquicas em França decorreu no domingo e, especialmente nas grandes cidades, deixou muitos resultados em aberto, já que haverá uma segunda volta no dia 22 de março, onde se conhecerá o desfecho político para os próximos seis anos de cidades como Paris, Marselha, Lyon, Lille, Toulouse, Nice ou Bordéus.
A subida da extrema-direita, através da União Nacional de Marine Le Pen, e da extrema-esquerda, com a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, marcam esta primeira volta, assim como o desaparecimento do partido de Emmanuel Macron, como explicou Victor Pereira, investigador principal no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista à RFI.
"Assistimos ao quase desaparecimento do partido de Emmanuel Macron. Isto é, o centro à volta do Presidente da República quase não ganhou nenhumas cidades e as pessoas que estão nesse campo e conseguiram ter resultados é porque já traziam bons resultados antes. Outro ponto importante são os dois extremos. A extrema-direita, a União Nacional, consegue guardar várias cidades. O caso mais evidente é em Perpinhã, com Louis Aliot, que ganhou logo na primeira volta. Então a extrema-direita guarda as suas câmaras — o que não tinha sido o caso nos anos 90, por exemplo — e consegue ampliar os bons resultados, sobretudo no sudeste. Uma das principais surpresas do voto foi o resultado da França Insubmissa, que consegue bons resultados no norte da França; provavelmente vai ganhar Roubaix, tem um bom resultado em Lille e ganhou Saint-Denis, junto a Paris", detalhou o académico.
Até terça-feira à noite, as listas com mais de 10% que passaram para a segunda volta vão tentar criar alianças ou desistir em prol umas das outras, de forma a afinar o escrutínio de dia 22. Com várias eleições onde passaram quatro, cinco ou até seis candidatos diferentes, todas as possibilidades estão em cima da mesa.
"Vai haver vários casos. Nalguns casos, pessoas do mesmo campo político, seja esquerda, direita ou centro, talvez não vão encontrar soluções e vão manter-se. Na segunda volta não é preciso ter a maioria, é só preciso ficar à frente. Noutros casos, onde os candidatos se podiam manter, vão desistir para não permitir que o outro campo, direita ou esquerda, ganhe, e isso vai acontecer em vários sítios. Há ainda um terceiro caso, mais complicado, até porque há uma certa polarização, que é o caso das fusões. Isto é, de duas listas fundirem-se numa só. E isso implica negociações. Implica, às vezes, o sentimento de diluir os seus princípios e os valores", explicou Victor Pereira.
Estas eleições autárquicas permitem já fazer algumas reflexões sobre as eleições presidenciais que se realizam em 2027. Parece haver um desinteresse dos franceses pela política e, também, o aumento da extrema-direita e da extrema-esquerda mostra já possíveis desfechos para a escolha do próximo Presidente.
"Um ponto importante é a taxa de abstenção, que é muito alta, um bocadinho mais de 40%. As eleições municipais eram muitas vezes eleições em que as pessoas iam votar porque são as eleições do quotidiano, as eleições em que se fala do lixo, das ruas, da limpeza, e é bastante raro haver tanta abstenção, fora as últimas eleições por causa da Covid-19. Há um cansaço dos eleitores, que não vão votar e que acham que o voto já não faz assim tanta diferença. Depois, tanto a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, como a União Nacional, de Marine Le Pen, veem estas eleições como um estímulo, já que conseguem ver os seus bastiões e a França Insubmissa vai ganhando cidades. Por outro lado, os candidatos mais centrais, mais moderados, parecem não conseguir ter bons resultados", concluiu.
O conflito no Médio Oriente já vai no seu 13° dia sem sinais de abrandar, apesar de Donald Trump ter dito no começo da semana que a "guerra estava prestes a terminar". Em quase duas semanas de ofensiva israelo-americana, fontes oficiais dão conta de mais de 630 mortos no Líbano, enquanto o Irão contabiliza mais de 1.230 mortos. Paralelamente, os países do Golfo registaram dezenas de mortos, Israel, 14 mortos, entre os quais dois militares, e do lado americano, sete soldados foram mortos.
Para além do balanço humano, estes 13 dias de guerra tiveram igualmente consequências materiais não só no Irão como também nos países da região, onde Teerão visa as bases militares americanas, aeroportos e infra-estruturas petrolíferas, com o efeito imediato de obrigar os países do Golfo a diminuir de 10 milhões de barris a sua produção diária.
O Estreito de Ormuz, por onde passava até agora 20% do comércio mundial de petróleo, está bloqueado pelo Irão. Apesar de Trump prometer retaliações "nunca vistas" se Teerão persistir nesta direcção, as autoridades iranianas garantem que "nenhuma exportação vai transpor" este ponto de passagem, que o mundo "vai ter que se preparar para um barril a 200 Dólares" e que "vai ser impossível fazer baixar o preço do petróleo artificialmente".
Uma resposta implícita à iniciativa tomada pela Agência Internacional da Energia, uma entidade que junta 32 países, nomeadamente os Estados Unidos, que acaba de anunciar a sua decisão de colocar no mercado 400 milhões de barris provenientes das suas reservas estratégicas, no intuito de tentar evitar uma explosão dos preços, numa altura em que o barril já ronda os 100 Dólares.
Um momento particular aqui analisado por Ivo Sobral, Coordenador de Mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi.
RFI: Ficou surpreendido com este conflito?
Ivo Sobral: O Irão, estrategicamente é o país mais importante do Médio Oriente. Sempre foi assim desde o tempo de Alexandre Magno. Historicamente, na Antiguidade, é a passagem entre o Oriente e o Ocidente e o país é zona fulcral, assim como o Iraque. O Iraque antes era uma província do Império Persa. E olhando por esta óptica, o grande Império oriental que é a China tinha fez um acordo estratégico com a República Islâmica do Irão, no valor de 400 biliões de Dólares, um acordo de várias dezenas de anos para cooperação. Ou seja, a China tentou unir o Irão no seu projecto futuro de superpotência mundial, obviamente, accionando uma série de alarmes, particularmente no Pentágono, em Washington. Relativamente à posição estratégica dos Estados Unidos na zona, era uma situação inconfortável também. Existem três factores: o factor número um, a população iraniana, mais que sobejamente, várias vezes tentou libertar-se. Mas a crueldade do Governo da República Islâmica do Irão é quase inimaginável para nós, ocidentais. As informações que eu tenho, tenho ligações bastante grandes, faz cerca de 25 anos que visito o Irão, trabalhei no Irão e operei no Irão e é uma situação que de facto conheço bem. De facto, a população queria modificar o 'status quo' do país. Outra questão é a questão económica pura e dura. O Irão está sem controlo da sua moeda e completamente paralisado, com as pessoas a perderem todas as suas poupanças que arduamente conseguiram pôr de parte para tentar comprar uma casa e sobreviver nesta ditadura. O desemprego é enorme, particularmente nos jovens. Uma fórmula já vista que mais cedo ou mais tarde iria explodir em alguma coisa.
RFI: Estávamos a falar da situação económica do Irão. Dá a sensação, no fundo, que o Irão está a jogar tudo por tudo e que, apesar das dificuldades, tinha a sua estratégia bem montada.
Ivo Sobral: Sim, era a sobrevivência a todos os custos do regime. Ou seja, vender e basicamente dar como garantia todos os recursos naturais do país, pondo em xeque todas as gerações futuras de cidadãos iranianos. Dando basicamente a exploração do gás e petróleo do Irão, assim como muitos outros contratos multibilionários que iriam ser dados à China, neste caso, em troca de um apoio chinês ao Irão. Portanto, era este o grande negócio. Depois há uma linha vermelha que foi cruzada amplamente, que é a posição do Irão em relação à Rússia. Eu relembro que desde a criação da República Islâmica, a Rússia, em particular a União Soviética, foi um país que era visto com hostilidade pelo Irão. Não nos esqueçamos que o Khomeini, o fundador da República Islâmica do Irão, disse várias vezes que a Rússia era o "outro diabo que tinha que ser abatido". Portanto, o primeiro era os Estados Unidos e a União Soviética era o segundo. Existiu sempre alguma cooperação, particularmente nos anos 90 e a partir do ano 2000 com a Rússia, mas foram sempre contactos superficiais, em que o Irão esteve sempre um pouco à distância da Rússia, apesar de a Rússia tentar sempre atirar o Irão para a sua esfera de cooperação, sem nunca conseguir. Finalmente, foi preciso a guerra da Ucrânia para o Irão cruzar essa meta e apoiar a invasão russa da Ucrânia, com os célebres drones Shahed que agora estão a sobrevoar basicamente todo o Médio Oriente. Foram exportados para a Rússia e as vítimas dos drones iranianos foram e continuam a ser os civis da Ucrânia. Portanto, há aqui uma ligação, um eixo Rússia, Irão e China, que atiraram o Irão para o xadrez estratégico mundial como um alvo. Como dizia Churchill, um "softbelly" (elo fraco) do novo Império russo-chinês. Falando aqui também de questões puramente económicas e interesses estratégicos, o Irão tem uma economia gigantesca, com uma população altamente educada, com níveis de ensino, de engenheiros, médicos, muito superiores até ao Ocidente. Falamos de um país que normalmente fica em segundo ou terceiro lugar em termos de evolução da matemática nas escolas. A nível mundial, normalmente o primeiro é o Japão, depois é a Coreia do Sul e a seguir é o Irão. Portanto, é deste tipo de pessoas que estamos a falar. O Irão tem uma população acima de 90 milhões de pessoas, com todos os investimentos financeiros internacionais completamente congelados há quase 48 anos e um mercado central para o Médio Oriente, central para a Ásia Central e para o próprio subcontinente indiano. Portanto, é uma potencial economia que irá precisar de centenas de milhões de investimento para o futuro e é um país absolutamente crucial para qualquer cooperação internacional, americana e europeia. É uma conjugação de factores que consolidaram provavelmente esta guerra.
RFI: Neste momento, fala-se para os Estados Unidos de gastos em 13 dias de mais de 11 biliões de Dólares neste conflito. Mas há também outras consequências, nomeadamente a subida do preço do petróleo e os receios causados pelo facto do Irão estar a bloquear o estreito de Ormuz. Pode durar muito tempo?
Ivo Sobral: Eu não creio que irá durar muito tempo, porque é incomportável. Agora, no curto prazo, é óbvio. É uma outra crise petrolífera e muito parecida aos anos 70. Mas existem países que serão mais expostos à crise. A Europa normalmente é mais exposta, assim como países na Ásia, como o Japão, a China. Dos dois lados do Golfo, a China, particularmente, depende do petróleo iraniano. Todo o outro golfo, o Kuwait, os Emirados, a Arábia Saudita, Bahrein, dão o petróleo para, por exemplo, a Coreia do Sul e o Japão, assim como para o Ocidente. A Europa e a Ásia serão os que irão mais sofrer em termos económicos, a curto prazo, deste mesmo bloqueio. Agora o bloqueio, é um bloqueio efectivo do Ormuz? Não. Neste momento é mais uma ameaça, um outro tipo de ameaça terrorista. O Irão não tem meios para efectivar este bloqueio. O que o Irão neste momento usa é uma estratégia de terror. Portanto, existe uma estratégia baseada em mísseis e drones que foi montada há mais de 30 anos. O Irão investiu maciçamente na criação de meios para projectar estrategicamente as suas posições. Um bloqueio, não creio que seja possível. Os Estados Unidos, assim como Israel e outros países não irão deixar que isso aconteça. E depois, estrategicamente, particularmente, os Emirados Árabes Unidos possuem vários 'pipelines' que trazem o petróleo não através do estreito de Ormuz, mas directamente para o Oceano Indico. Uma zona muito perto de Omã, onde exportam o petróleo, sem passar pela posição do controlo de Ormuz. Portanto, é uma maneira de estar ao lado desta zona de Ormuz. Existirão, obviamente perturbações, porque há perturbações vindas também ainda do petróleo russo que está a ser alvo de um boicote internacional e o mercado internacional já estava com algumas fontes de pressão. Esta nova pressão obviamente desequilibra no curto prazo. Agora, no longo prazo, não creio que isso irá acontecer. Esta estratégia foi feita já há algum tempo. Existem reservas energéticas, existem outras fontes energéticas. E se esta guerra tivesse ser feita pelo menos dez anos atrás, seria pior. Neste momento, existem outras fontes alternativas. Obviamente, não ajuda termos a crise russo-ucraniana e uma guerra a ocorrer ao mesmo tempo. Esse facto é o problema.
RFI: Em resposta ao facto de os países do Golfo serem obrigados, neste momento a produzir menos e também haver esse problema no Estreito de Ormuz, a Agência Internacional da Energia disponibiliza 400 milhões de barris de petróleo para manter o preço mais ou menos estável. Julga que esta medida pode ser eficaz?
Ivo Sobral: No curto prazo, irá ajudar, seguramente para melhorar a situação. Eu recordo que o valor do petróleo estava relativamente há pouco tempo atrás, a menos de 50 Dólares o barril e aqui já se fala talvez em 100 Dólares até ao final desta semana. 100 Dólares ainda é muito abaixo dos preços que nós normalmente pagamos quando tínhamos crises. Eu recordo que quando foi o Iraque, o petróleo chegou a um pico de 150 Dólares cada barril. Ainda é financeiramente barato. Existem também, obviamente, as enormes reservas americanas e depois há aqui um gigante petrolífero que poderia ajudar a equilibrar toda esta situação que é a Venezuela. A Venezuela, neste momento, está ainda sob embargo. Ainda há a possibilidade de explorar outros acordos com o governo vigente, onde o petróleo seria libertado para o mercado. Teria algum impacto limitado, talvez 10%, porque o petróleo venezuelano é ligeiramente diferente do petróleo produzido no Médio Oriente. Existem condicionantes técnicas para a sua refinação, enquanto as refinarias europeias e asiáticas estão mais centralizadas no petróleo do Médio Oriente. Portanto, há aqui uma facilidade para isso. Agora, penso que todas estas reservas a ser libertadas neste momento são reservas que foram de criadas depois da guerra do Iraque e que visam fazer uma espécie de protecção e isolamento relativamente a choques energéticos futuros. E veremos se serão eficientes ou não. 400 milhões de barris não é uma quantidade bastante importante, mas obviamente poderá durar talvez duas semanas. A partir daí, a situação terá que voltar à normalidade. Se não voltar à normalidade, aí o petróleo vai ultrapassar muito mais os 100 Dólares, talvez chegar aos 150. Depende. Tudo o que acontecer nestas próximas duas semanas, como a guerra e como a questão do governo iraniano estará solucionada, que tipo de governo será instaurado, o que é que vai sair de Teerão para o futuro, o que vai acontecer, isto tudo está dependente da guerra.
RFI: Tem-se a sensação que os países do Golfo estão relativamente desprotegidos no âmbito deste conflito. Para já, os Estados Unidos não conseguem garantir a segurança dos navios que andam pelo Golfo e designadamente junto do estreito de Ormuz. E durante todas estas ofensivas por parte do Irão contra as diversas monarquias do Golfo, elas tiveram que responder pelos seus próprios meios.
Ivo Sobral: Isto era relativamente expectável. Já tinham existido outros ataques no passado por parte das milícias Hutis, pelo menos dois incidentes bastante graves, em que drones Hutis de longo alcance aparentemente foram bombardear a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. E desde que isto aconteceu, estes dois países prepararam-se abundantemente para um conflito futuro em que estes drones iriam vir directamente do Irão. E foi isso que aconteceu. Portanto, em termos estratégicos, em particular os Emirados Árabes Unidos, tem uma série de sistemas antimíssil e anti-drones de várias nacionalidades e sistemas antimísseis Americanos, antiga e nova geração, tem sistemas antimísseis da Coreia do Sul que são bastante eficientes. E temos ainda vários sistemas antiaéreos de origem alemã que são utilizados para garantir uma protecção de médio e curto alcance em zonas específicas e que são também bastante eficientes. São sistemas que protegem fábricas e zonas estratégicas na Ucrânia contra os mesmos drones utilizados pela Rússia. E estes sistemas, por exemplo, existem também nos Emirados. A Arábia Saudita também tem vários sistemas antiaéreos. E a questão é que, obviamente, o Irão, uma vez mais, prova que não é um parceiro recomendável. Eu recordo que estes ataques visaram todos os países do Golfo, inclusive o Qatar, que era visto como um aliado do Irão, assim como Omã. Omã, até há pouco tempo, fazia exercícios militares com a própria República Islâmica do Irão. A Academia Militar de Omã tinha oficiais iranianos que vinham estudar e trabalhar com os seus congéneres e nem sequer Omã e Mascate escaparam aos drones iranianos. Portanto, estes ataques ocorreram em todos os países do Golfo, Omã, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Arábia Saudita, Kuwait, Iraque. Todos os países foram visados unilateralmente por estes ataques iranianos e indiscriminadamente. O Irão, ao início, falou de ataques em zonas onde estão bases americanas. Mas afinal visou aeroportos, shoppings, hotéis. Agora falam em bancos. O que normalmente acontece quer em zonas completamente civis, indiscriminadamente, como tecnicamente, estes mísseis de cruzeiro e drones não têm qualquer precisão e caiem indiscriminadamente em qualquer sítio, inclusive dentro do próprio território iraniano. Por 100 mísseis e drones iranianos, dez caem no próprio território iraniano, o que é impressionante. Portanto, muitos dos países do Golfo já tinham alguma protecção. Eu relembro os números, por exemplo, Israel teve um ataque com por volta de mil drones e mísseis, em particular mísseis balísticos, que são muito mais difíceis de serem detectados. Os Emirados já foram visados por 1800 ataques. Só os Emirados foram ainda mais visados do que Israel. Também houve ataques de várias centenas de drones na Arábia Saudita e no Koweit. Houve também uma tentativa de ataque no Azerbaijão. Portanto, o Irão, nos dez minutos após o seu ministro dos Negócios Estrangeiros dizer que o "Irão é um país que visa a paz e que visa a cooperação com o Golfo para acabar com esta agressão iraniana", dez minutos após este discurso, atacou com drones os Emirados, a Arábia Saudita, o Kuwait e Omã. Portanto, aqui demonstra que o governo islâmico do Irão é uma ameaça regional e internacional. Não só é um absolutamente brutal ao nível medieval, com a sua própria população, como é também um país extremamente perigoso para qualquer dos seus vizinhos mais próximos. Um dos princípios da sua própria Constituição é a destruição de outros Estados, assim como a imposição da sua própria religião em todos os países à volta e chegar, inclusive à própria Europa. Isso está escrito em vários documentos basilares da República Islâmica do Irão desde 47 anos atrás. Portanto, é interessante que os países da Europa continuarão a fazer negócios com o Irão, pensando que os iranianos eram realistas. Mas não são. O governo iraniano é um governo ideologicamente conectado, com uma forma de radicalização islâmica xiita. Muito recentemente, foram descobertos vários detalhes, inclusive em França, e este é um livro bastante conhecido feito pelo chefe dos serviços secretos franceses, que fala especificamente na cooperação entre o governo francês e a República Islâmica do Irão, em termos de perseguição, monitorização de todos os iranianos dentro da França, assim como a Inteligência francesa deixou os membros da República Islâmica do Irão executar, raptar e torturar cidadãos iranianos dentro da França. Isto aconteceu na França e aconteceu noutros países. Há outro país que foi um grande amigo do Irão, no passado, que é a Áustria com a qual houve contratos de cooperação técnica. Os motores actualmente utilizados pelo Irão, que mataram milhares de pessoas na Ucrânia e continuam a matar neste momento em todo o Médio Oriente, foram desenvolvidos na Áustria, foram copiados pela República Islâmica do Irão num projecto de cooperação e são utilizados para fazer puro mal. As suas maiores vítimas são a sua própria população. Um dia, quando o governo cair e nós iremos todos, todos os jornalistas europeus, americanos irão filmar as prisões, serão numa escala gigantesca. Eu lembro-me muito bem que vimos na Síria as salas onde os guardas prisionais eliminavam os restos humanos das pessoas que matavam. Quando nós queremos observar isto, não podemos perceber a escala do puro mal que estará dentro deste país. Continuo a receber contactos, apesar de neste momento a internet não estar bloqueada há várias semanas, mas existe ainda a possibilidade de mandar mensagens a partir dos próprios cartões da Telecom do Irão para fora do país. É uma coisa que eles não conseguiram bloquear. Eu tenho algumas informações secundárias sobre o que está a acontecer no Irão e as pessoas, neste momento, olham para este ataque como um mal necessário. Estão bastante contentes para o futuro, porque se neste momento não existir uma mudança de governo e se Israel e os Estados Unidos perderem esta guerra. A República Islâmica do Irão, irá massacrar ulteriormente à sua própria população. Isto é uma realidade. Falamos das prisões que foram descobertas na Síria. Falamos de dezenas de valas comuns. Na Síria, a população era quase 18 milhões de pessoas. Num país como o Irão, com 90 milhões, com um regime de 47 anos, eu não tenho imaginação suficiente para pensar na mortandade que foi feita no passado e poderá ser feita ainda mais no futuro, se não existir uma mudança de governo.
A segunda edição do Festival de cinema português "Olá Paris" decorre até este domingo.
A abertura, nesta sexta-feira, contou com a ante estreia de "A vida luminosa", a primeira longa metragem de ficção do cineasta João Rosas, que estreou em Portugal no ano passado.
O retrato de um jovem lisboeta, à procura de um lugar ao sol, entre uma ruptura amorosa, e a descoberta de uma jovem cuja luz o vai ajudar a afirmar-se.
A RFI esteve no local e falou com a actriz Cécile Matignon, o co produtor François d'Artemare e, obviamente, com o próprio realizador João Rosas que começa por comentar como descobriu Francisco Melo, quando este era apenas um adolescente de 11 anos.
O actor não profissional que deu corpo a Nicolau, hoje com 24 anos, e o protagonista de "A vida luminosa" e que vimos crescer, nas três curtas metragens que antecederam esta longa.
Descobri-lo foi um acaso, porque quando ele participou no "Entrecampos", ele nem sequer era o protagonista desse filme. Na altura ele tinha 11 anos, portanto era apenas uma criança engraçada. Enfim, como outras que participaram no filme, mas com quem eu me entendia bem. E como eu na altura, depois já estava logo a seguir escrevi o "Maria do Mar", que era sobre um jovem de 13, 14 anos e como protagonista e tinha que estar a trabalhar com o Francisco... Depois decidi continuar a trabalhar com ele e a partir daí é que começou um bocadinho a ganhar forma. A ideia, depois de ser uma história mais longa e de continuá-la noutros filmes.
Apesar de lhe dizerem que ele até nem tinha muito jeito para isso, não é ?
Sim, ele próprio o diz. O que é interessante e para mim, fascinante, a um nível puramente pessoal é que de facto, acompanhar o crescimento dele também foi acompanhar o meu próprio crescimento como cineasta e, portanto, ir aprendendo a olhar o mundo através do cinema, construindo o meu próprio olhar, mas também através do olhar do Francisco, ão é ?
Portanto, do Francisco/Nicolau que é esta personagem em que todos os filmes ele está em períodos de transição e, portanto, perante o ter que tomar decisões ou descobertas, pequenas descobertas do quotidiano, mas que podem por vezes ter o valor de uma epifania no curso da nossa vida.
E, portanto, para este filme foi mais uma vez essa ideia de retratá-lo num período de transição, um bocadinho de no final da juventude, para o que seria o início de uma idade adulta. E como é que essa idade adulta é vista ou vivida pelos jovens de hoje em dia ?
Portanto, até nem é só ele, também há a Mariana também há o Miguel, não é ? Há duas personagens que já acompanha há algum tempo.
Mas também há agora aqui a personagens novas. Cécile Matignon, por exemplo, um elenco também internacional. As cenas são muito escritas, pensadas, concebidas. Pode falar-nos do processo de escrita, do guião e depois da rodagem?
Sim, o processo acaba por ser um vai e vem entre o meu trabalho, mais solitário de escrita e, depois de dramaturgia e de preparação, ão é ? Um trabalho de secretária, é um trabalho de diálogo e de partilha com as pessoas que vão entrando no filme ao longo do processo. E, portanto, é um processo muito longo, porque, de facto, eu aproveito também o casting para saciar a minha própria curiosidade por pessoas que quer conhecer, neste caso os jovens, muitos deles estrangeiros, que estão a viver em Lisboa e que mudaram também uma certa maneira de viver em Lisboa.
E, portanto, aproveito ao máximo os recursos da produção para estender este casting e saciar a minha própria curiosidade. E depois os ensaios também são um período muito longo em que há, de facto este vai e vem entre o que as pessoas, a voz das pessoas ao ler o texto e a voz que eu quero, depois, também dar aos personagens escrevendo.
É por isso é que os filmes são muito escritos. Mas a partir deste trabalho conjunto. Mas claro, pois isto tudo é fixado numa dada altura através dos ensaios, não é? E há muitos ensaios. E, portanto, são muitos escritos, mas escritos muitas vezes a várias mãos, sendo que depois eu tenho de tomar a decisão como um maestro que decide quem é que fala quando, mas respeitando a linguagem e a música de cada um.
Neste filme em particular, interessava-me também trabalhar esta ideia dos vários sotaques de portugueses, os estrangeiros. Do Brasil e dentro, mesmo de Portugal, portanto do Sul do Norte, enfim, ter esta riqueza também polifónica de uma língua.
E você também gosta muito de tratar a dúvida. A dúvida, que é uma coisa desorienta muita gente, não é? E o Nicolau está cheio de dúvidas. Tem 24 anos. Gostaria, eventualmente, de ser autónomo, mas não é. Ter um trabalho, ter estabilidade, mas não tem. Também há uma denúncia de uma precariedade que se calhar tomou conta também de Lisboa, a sua cidade ?
Sim. Enfim, a precariedade, não é que tenha chegado agora, não é ? Portanto, a precariedade, também já se falava em precariedade quando eu tinha a idade do Nicolau e a vida também já era precária na altura. Agora era uma precariedade talvez menos evidente. E era diferente. Obviamente. Era uma cidade muito diferente, não necessariamente melhor, mas já existia precariedade nessa altura, não é? E, portanto, eu acho que a dúvida que...
É introduzida aqui num canto magnífico no início do filme.
Sim, sim, de uma peça do Brecht. Mas eu acho que a dúvida, embora possa ser paralisante, não é ? Porque todos nós provavelmente passámos por isso momentos que temos dúvidas e não conseguimos decidir. E isso paralisa-nos e cria-nos angústia.
Mas há também uma dúvida que é um questionamento que faz avançar e como é que nós, através da dúvida, do questionamento, podemos avançar e descobrir coisas ? É, portanto, a dúvida é sempre um caminho para uma descoberta e, portanto, para mim, o próprio fazer o filme e daí também ter começado com esse canto.
Para além de espelhar um bocadinho o estado emocional do protagonista do Nicolau, reflecte o próprio processo em que as dúvidas que eu tenho sobre o filme são o que fazem o filme avançar e, portanto, acho que também, hoje em dia, em particular em que vivemos numa época em que há todo um discurso identitário em que apresenta certezas e visões fechadas sobre o mundo... A dúvida, pelo contrário, é porosidade e abertura. E acho que isso é cada vez mais um gesto político que é preciso sublinhar.
Precisamente, falemos um pouco da multiculturalidade. Já no filme anterior, no documentário, você tinha se aproximado e de que maneira, dos operários das obras, naquele estaleiro de um prédio que se veio a tornar um hotel de luxo em Lisboa. Uma Lisboa a mudar a uma velocidade muito rápida. E são pessoas que vêm dos quatro cantos do mundo, nomeadamente de África.
Guiné-Bissau, sim ! Diria que os protagonistas, embora seja um filme plural, portanto, não há propriamente um protagonista. talvez a cidade, mas não é um filme. Portanto, num estaleiro de obra onde há dezenas de trabalhadores e nenhum acaba por ter mais protagonismo que os outros, uma regra um bocadinho de todos são protagonistas por igual nessa ideia de filme coral.
Mas é verdade que, em particular, um grupo de trabalhadores da Guiné-Bissau foi aquele do qual eu me senti mais próximo e que, depois, mais uma vez, como neste filme de ficção, perante uma realidade completamente diferente.
O filme foi também uma maneira de desenvolver relações de amizade com estas pessoas e o filme foi feito nesse espírito da partilha, do diálogo e não necessariamente de um gesto meu de lançar um olhar sobre este grupo de pessoas, neste caso guineenses, mas de estar tempo com eles.
E, portanto, o filme ser feito a partir desse tempo passado em conjunto. No fundo, como este filme de ficção, portanto, a ideia acaba por ser sempre essa.
Tanto na ficção como no documentário e o cinema ser uma forma também de passar tempo com as pessoas que eu convido para os filmes ou que a realidade me traz, por acaso e por ser uma forma de relacionamento com a cidade, o próprio cinema.
A vida luminosa pode ser vida do Nicolau, o protagonista, mas é também, de alguma forma, a vida de Lisboa, a capital portuguesa, que é uma personagem de pleno direito, diria eu no seu filme.
Você continua apaixonado pelas cidades, pela sua arquitectura e pela maré humana que lá vive, não é ?
Sim, eu acho que filmar cidades foi um bocadinho o que me levou a começar a pensar o cinema.
Com "Birth of a city" [filme documental de 2009 rodado em Londres].
Sim, mas mesmo como espectador. Lembro-me de, ainda adolescente, ver por acaso, com a minha mãe no cinema, o filme "Caro Diário", do Nanni Moretti. E aliás, até adormeci a meio do filme. Mas [o cinesta iraniano] Kiarostami dizia que alguns dos filmes preferidos dele eram filmes em que ele tinha adormecido.
Portanto, ele, no início do filme diz isso ao filmar umas imensas fachadas e bairros de Roma. "Que belo Seria um filme feito apenas com fachadas !" Portanto, eu desde aí isso ficou como uma espécie de mantra que, pela minha própria depois vivência das cidades em que vivi. Tornou-se um fascínio de facto pela vida urbana, não tanto pela arquitectura, embora a arquitectura obviamente também faça parte de uma cidade, mas mais as práticas do quotidiano e, portanto, a vivência quotidiana.
E como é que a cidade é um lugar de encontro entre pessoas diferentes? E como é que essa negociação da alteridade ou com a alteridade não é com as pessoas que são diferentes de nós e com quem nós partilhamos o espaço?
E como é que as cidades podem ser vistas, pelo menos para mim, como arquivos de histórias, Seja a própria cidade enquanto espaço físico que me dá elementos que me inspiram para escrever as cenas, sejam bairros, ruas, cafés, esquinas, paragens de autocarro ou de metro ou as próprias pessoas, obviamente. Que levam cada uma a sua história pela cidade e que através de viver a cidade, constroem a cidade. E assim me ajudam a construir cada fio.
Cécile Matignon encarna Chloé, jovem francesa instalada em Portugal, cuja energia positiva vai iluminar um Nicolau, algo perdido perante os tantos desafios com que a juventude o confronta.
Esta começa por se referir ao gosto desta estreia na sua terra natal, a França, do filme de João Rosas.
Teve o sabor de uma viagem, de uma viagem de volta a uma das minhas casas. E foi um excelente pretexto para voltar a ver os meus amigos e esta cidade que já conhecia há alguns anos. E também de ver quais são as reacções do filme num país que não é lusófono.
E ver como é que isto está recebido. E finalmente ver com algumas conversas, já que começamos a ter que essas questões que aparecem no filme finalmente são transversais a outros países também são questões de gerações que partilhamos de um país a outro.
Há muito de Chloé em si ?
Há muito de Chloé em mim ? Sim, acho que temos uma energia parecida. Acho que é uma coisa que nos diferencia muito é que eu sou muito mais precária do que Chloé. Porque a Chloé, no filme, é esta pessoa que é menos precária de todos porque vem de fora e tem essa energia de" Pá, vou trabalhar em França e vou viajar e não sei o quê ! Insurge-se contra os preços dos salários em Portugal. E é uma coisa que é muito engraçada. É que no filme digo nunca vou trabalhar por 5 € a hora. E o que faço eu, que fiz e que faço, às vezes, porque a realidade é assim.
Mas, ou seja, é engraçado. Essa diferença de "Eu não sou portuguesa, venho de fora, mas fiz a escolha de trabalhar para a cultura portuguesa e para o país português". E então também estou a jogar este jogo dessa precariedade. E finalmente, eu acho que me identifico mais neste aspecto a outras personagens do filme do que à própria Chloé. Mas de resto, energia e tudo, somos parecidas.
François d'Artemare, presença assídua no cinema português, com Manoel de Oliveira, João Canijo, ou lusófono, como com o guineense Flora Gomes, ou francês, como com Nadine Trintignant, este produtor dos Filmes do Tejo e dos Films de l'Après midi, co-produziu "A vida luminosa". Ele comenta a satisfação desta estreia parisisense no cinema Club de l'étoile com o qual tem tantas ligações.
É um percurso um pouco... tortuoso, não, quase direito... Porque esta estreia aqui no "Clube de l'étoile", quando estava a preparar o filme de Nadine Trintignan em Paris, em 94, até... Era aqui no Club de l'étoile, era com uma produtora francesa que era na época dona do Clube de l'étoile. E o nosso escritório era no Club de l'étoile. Era no prédio ao lado, e passávamos todo o nosso tempo aqui no Clube de l'étoile.
Não imaginava nesta época, onde tinha 28 anos, era jovem director de produção que 32 anos depois, já assistia a projecções de filmes que produzi, que co-produzi.
Mas não imaginava, nesta época, que eu ia continuar a fazer, a organizar projecções aqui. Estou feliz com isso. Estou feliz de continuar a guardar uma ligação com Portugal. É óbvio que tenho uma ligação com Portugal. O meu filho é português. Depois de viver alguns anos em Barcelona, voltou a viver em Portugal há dois meses atrás. Continuo a ir aí a Portugal imensas vezes. Mas o facto de continuar a fazer filmes em Portugal e continuar a produzir em Portugal é para mim importante.
É uma coisa natural que me permite guardar uma ligação profissional de que gosto. Estava a produzir o filme do João Canijo...
Que entretanto nos deixou...
Que nos deixou agora. Era o quarto filme do João que estava a produzir. Gostava imenso do João e gosto de continuar a ter esta ligação com Portugal.
Trabalhou também, penso, obviamente em Flora Gomes. A maior parte dos nossos ouvintes estão precisamente em África e conhecem este cineasta da África Ocidental da Guiné-Bissau. O que é que viu aqui no João Rosas e neste filme para apostar nele?
Conheço o João há imenso tempo também. Há 20 anos acho. Eu tinha tinha visto as curtas do João e o documentário do João sobre Lisboa.
A morte de uma cidade !
Sim, e gostei imenso do olhar que João tinha sobre os personagens. Nas curtas que ele fez e do olhar que João tinha sobre o personagem da cidade de Lisboa enquanto personagem. No documentário é sobre a evolução da cidade. Vivia esta evolução desde o fim dos anos, um meio dos anos 90 até hoje. Acho que o olhar do João era bastante pertinente e sensível. Sentia isso no guião. E sinto isso no filme dele.
Instantâneos da reportagem da ante estreia parisiense de "A vida luminosa" no âmbito da segunda edição do Festival de cinema português "Olá Paris" que decorre até este domingo, 8 de Março.
Esta semana, o Burundi, que exerce a presidência rotativa da União Africana, apresentou a candidatura do ex-Presidente senegalês ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Até agora, os Estados africanos ainda não reagiram oficialmente a esta proposta. A candidatura de Macky Sall não conta com o apoio do Senegal, uma vez que o ex-chefe de Estado é acusado pela nova liderança do país de ocultar dados económicos importantes, como a dívida pública. O último mandato do Presidente senegalês ficou ainda marcado por episódios de violência e repressão da população. Régio Conrado, professor de Ciência Política e Direito na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, afirma que “Macky Sall não é a pessoa certa para representar os interesses africanos”.
Esta semana, o Burundi, que exerce a presidência rotativa da União Africana, apresentou a candidatura do ex-Presidente senegalês ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Que comentário lhe merece esta candidatura?
É profundamente complicado que um Presidente que já foi chefe de Estado num país que não o reconhece como candidato oficial -e, portanto, não é apoiado pelas autoridades do seu próprio país -seja apresentado pelo actual presidente da União Africana, o Presidente do Burundi, e não necessariamente pela própria União Africana. Isto já significa que há um duplo problema.
Por um lado, há um problema de legitimidade no próprio país de origem, onde foi chefe de Estado. Por outro lado, os restantes chefes de Estado do continente africano ainda não se pronunciaram sobre o assunto, o que mostra que esta é uma iniciativa particular do Presidente do Burundi.
É muito provavelmente uma má iniciativa e Macky Sall está, provavelmente, à procura de uma saída internacional, talvez para escapar a eventuais responsabilizações que possam recair sobre ele, não só no plano interno do país, mas também como uma forma de sobrevivência política através de dinâmicas internacionais.
O antigo chefe de Estado do Senegal é a pessoa certa para representar o continente africano nos fóruns internacionais?
Não, ele não é a pessoa certa para representar os interesses africanos. Quando esteve na presidência do Senegal e mesmo na presidência rotativa da União Africana, esteve muito mais ligado aos interesses franceses, funcionando quase como um dispositivo operativo -um cipaio, digamos -não dos interesses africanos, mas sobretudo dos interesses franceses e, por consequência, dos interesses europeus.
Não é uma figura que, no continente africano, possa ser vista como a mais razoável para ocupar este lugar neste momento. Precisamos de uma figura pan-africana, com uma percepção de independência profundamente entranhada. Alguém que tenha uma visão de África fora das relações de subordinação ou de neocolonialismo com o Ocidente.
Portanto, uma figura que congregue e agregue respeitabilidade no plano da defesa dos interesses africanos.
E quem poderia ser essa pessoa?
A actual Presidente da Tanzânia poderia, provavelmente, sugerir alguém da sua máxima confiança para representar os interesses africanos. Temos também Carlos Lopes, que é uma grande figura no continente africano e que tem estado sempre na linha da frente da defesa dos interesses africanos.
Para além da sua carreira académica, é uma figura que já trabalhou com vários secretários-gerais das Nações Unidas e que tem uma longa experiência dentro das estruturas da organização e da União Africana. É uma figura alinhada com a defesa dos interesses africanos.
Carlos Lopes, antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas em África , poderia reunir o consenso dos líderes africanos?
Penso que ele tem todo o potencial para reunir muitos consensos. Primeiro, porque não se trata de uma figura amarrada a um determinado país. Mesmo sendo originário da Guiné-Bissau, é uma figura completamente pan-africana.
Isso poderia evitar, talvez, algumas clivagens regionais. Agora, também sabemos que os processos de negociação para apresentar uma candidatura são sempre profundamente complexos. E, obviamente, esses processos nem sempre traduzem aquilo que são as verdadeiras convicções de todos os actores envolvidos.
África tem reclamado uma maior presença nas diferentes organizações das Nações Unidas. Já houve dois secretários-gerais africanos, Boutros Boutros-Ghali e Kofi Annan. Há possibilidade de o próximo secretário-geral das Nações Unidas ser oriundo do continente africano?
Fica muito difícil. O que podemos dizer é que, neste momento, tendo em conta aquilo que África tem defendido -uma maior presença nos diferentes organismos das Nações Unidas, e muito particularmente ao nível do Conselho de Segurança, essa reivindicação faz sentido.
Estamos a falar de 54 países e de um continente com uma população que ultrapassa mil milhões de pessoas. É um continente que tem um peso muito profundo e determinante para o futuro do mundo. O problema é que o mundo em que vivemos hoje mostra que várias potências procuram também controlar as Nações Unidas.
Até ao momento foram apresentadas duas candidaturas oficiais: a da ex-Presidente chilena Michelle Bachelet e a do responsável da Agência Internacional de Energia Atómica, Rafael Grossi. A Costa Rica também nomeou a ex-Presidente Rebeca Grynspan, mas a candidatura ainda não é oficial. Segundo uma tradição de rotação geográfica, que nem sempre é observada, o cargo estaria agora a ser disputado pela América Latina. Muitos países defendem também que uma mulher deveria ocupar este cargo. A organização está preparada para ter uma mulher na liderança?
Neste momento, o continente que está melhor posicionado parece ser a América Latina, onde há quase um consenso generalizado. Grandes potências regionais como o Brasil e a Argentina, bem como outros países que orbitam à volta destas potências, podem ser determinantes para orientar a dinâmica da escolha do próximo secretário-geral.
Na minha opinião, mais do que nunca ficou demonstrado que as mulheres têm capacidade para dirigir determinadas agências das Nações Unidas, grandes programas e a diplomacia de alto nível no sistema internacional.
Não me parece irrazoável pensar que uma mulher possa reunir consensos para dirigir a organização. Seria também uma forma de chamar a atenção para a necessidade de confiar responsabilidades às mulheres que demonstraram competências, ao longo das suas carreiras, sobretudo quando se trata de figuras que têm estado empenhadas em temas centrais como a paz, o desenvolvimento e outras questões fundamentais da agenda internacional.
Relativamente à questão da paz: de que forma o contexto actual, com uma guerra no Médio Oriente e outros conflitos em várias partes do mundo, pode influenciar a escolha do novo secretário-geral da ONU?
Está cada vez mais evidente que as Nações Unidas precisam de uma reforma profunda para aprimorar a sua capacidade de resolução dos grandes conflitos.
Com a emergência de novos conflitos, marcados pela força física e pela brutalidade nas relações internacionais, assistimos também à erosão do direito internacional e à fragmentação da capacidade das Nações Unidas para resolver problemas complexos.
Veja-se, por exemplo, a situação envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos. Torna-se claro que chegou o momento de repensar a arquitectura das Nações Unidas, a arquitectura do Conselho de Segurança e o próprio sistema internacional de promoção da paz.
O que é facto é que, neste momento, as Nações Unidas têm demonstrado limitações profundas - para não dizer fragilidades - na capacidade de conter os conflitos no mundo. Muitos dos conflitos em que a organização interveio continuam por resolver.
São os membros do Conselho de Segurança que deverão iniciar o processo de selecção até ao final de Julho, em particular os cinco membros permanentes com poder de veto -Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França - que detêm, na prática, o futuro dos candidatos nas mãos. São conhecidas as divergências actuais. O que se pode esperar desta eleição?
A Grã-Bretanha é hoje um país que pesa muito pouco no sistema internacional. Tem pouca capacidade de influenciar o processo. O verdadeiro debate vai acontecer entre as grandes potências.
A China e a Rússia estão em confrontação directa com o Ocidente e encontram apoio em vários países do chamado Sul global, como o Brasil e a África do Sul, que são actores importantes. Há também países como o Irão e outros que defendem que não é positivo que haja uma dominação ocidental das instituições internacionais.
Estas clivagens já existentes e o agravamento das tensões internacionais -como a situação envolvendo o Irão - vão certamente tornar o processo mais complexo.
O que está em jogo nas próximas eleições para secretário-geral das Nações Unidas não é apenas a questão da eficácia, como defende a Grã-Bretanha. O que está em jogo é quem vai influenciar o rumo do sistema internacional nos próximos anos: sobre que bases serão tomadas as decisões, qual será a arquitectura das Nações Unidas e sob que orientação política actuará o próximo secretário-geral. Essas são as grandes questões.
Que força terão os países africanos nesta escolha?
Hoje não é possível pensar qualquer arquitectura das Nações Unidas sem considerar os 54 países do continente africano.
O que será profundamente importante é perceber até que ponto os países africanos conseguirão articular posições comuns. Muitos deles estão hoje mais alinhados com o discurso do chamado Sul global, nomeadamente com posições defendidas pela China, pela Rússia e pelo Brasil, e menos próximos das posições do Ocidente.
Infelizmente, há também divisões dentro do próprio continente. Existem países que estão mais alinhados com interesses externos. A Costa do Marfim, por exemplo, mantém uma forte proximidade com a França e, por consequência, com a União Europeia. Há também outros países pequenos que seguem essa linha.
Mas há igualmente países com posições fortemente pan-africanas -como a África do Sul, o Quénia, a Tanzânia, Moçambique ou Angola -que podem defender um posicionamento mais autónomo do Sul global.
O peso do continente africano dependerá da capacidade de coordenação política entre os seus líderes e da capacidade do presidente da União Africana de construir consensos entre os diferentes países e regiões.
Mas tudo começa mal quando um presidente da União Africana decide avançar com uma candidatura sem um consenso mínimo, porque isso revela desde logo um processo de divisão desnecessária.
António Lobo Antunes foi um escritor “radical”, revolucionário, que “desmontou tudo” e “inventou um estilo próprio, uma língua sem equivalente". As palavras são de Dominique Nédellec, tradutor em França daquele que foi um dos maiores nomes da literatura portuguesa contemporânea e que morreu, esta quinta-feira, aos 83 anos. Ana Lima, editora e parceira da Livraria Portuguesa & Brasileira, em Paris, explica que António Lobo Antunes é “um dos autores portugueses mais conhecidos em França” e “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas”.
A morte de António Lobo Antunes, esta quinta-feira, marca o desaparecimento de uma das figuras maiores da literatura portuguesa contemporânea. António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1 de Setembro de 1942, licenciou-se em Medicina em 1969 e especializou-se em Psiquiatria, mas optou pela escrita a tempo inteiro em 1985. Foi aos 37 anos que publicou o seu primeiro romance, “Memória de Elefante”, em 1979, ano em que também lançou “Os Cus de Judas” e iniciou a sua revolução na literatura portuguesa pós-25 de Abril.
A guerra colonial atravessou toda a sua obra, a partir da sua passagem por Angola entre 1971 e 1973 ao serviço do Exército colonial como médico. A sua forma de escrever e de explorar a condição humana no que tem de mais “terrível, cómico, ridículo e comovente” percorreu, como “um rio, uma tempestade”, os seus mais de três dezenas de romances, no entender de Dominique Nédellec, tradutor de António Lobo Antunes em França nos últimos quase 15 anos. O tradutor acrescenta que ele foi um escritor “radical”, revolucionário, que “desmontou tudo” e “inventou um estilo próprio, uma língua sem equivalente". “Ele frequentemente dizia que ninguém escrevia como ele, nem sequer ele próprio. Ele desmontou tudo, foi um golpe terrível no estilo normal, habitual, tradicional. Ele inventou um estilo próprio, conseguiu elaborar uma língua sem equivalente", resumiu.
Lobo Antunes foi , sem dúvida, “um dos autores portugueses mais conhecidos em França”, sublinha Ana Lima, parceira da Livraria Portuguesa & Brasileira, em Paris, falando em “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas, as grandes e as independentes”, ao lado de nomes como Fernando Pessoa e José Saramago. A editora fala de um escritor de “um grande modernismo”, com “um tipo de escrita que é um fluxo de consciência permanente” e “sem compromisso”.
Dominique Nédellec: "Não é todos os dias que se tem a sensação de se traduzir um génio”
RFI: O que representa António Lobo Antunes para a literatura portuguesa e mundial contemporânea?
Dominique Nédellec, Tradutor de António Lobo Antunes: “O trunfo maior de Lobo Antunes foi este jeito de fazer uma revolução estilística. Ele frequentemente dizia que ninguém escrevia como ele, nem sequer ele próprio. Eu acho que ele desmontou tudo, foi um golpe terrível no estilo normal, habitual, tradicional, e ele inventou um estilo próprio, uma língua super tensa, uma língua que parece ao mesmo tempo um rio, uma tempestade, que mistura as histórias, que mistura os planos temporários, em que os mortos têm a mesma importância que os vivos, em que os mortos estão sempre a chegar, a falar, a participar na vida dos vivos. Ele conseguiu elaborar uma língua sem equivalente, carregada de sentimentos e da experiência humana no que tem de terrível, de cómico, de ridículo, de comovente. Para mim, o Lobo Antunes é isto tudo.”
Como foi traduzir toda esta “experiência humana” no que tem de mais complexo?
“É uma experiência única também porque exige um mergulho total na obra dele para ouvir principalmente. São livros que devem ser lidos com o ouvido. É muito sensorial, chama a atenção de todos os sentidos. Então, tentar traduzir a riqueza do estilo dele exige muito tempo, paciência, perseverança também. O paradoxo é que traduzir exige uma lentidão imensa para agenciar todo aquele esquema muito complexo, mas o objectivo final é que a última leitura seja tão fácil e tão fluida e rápida como no original. No dia a dia, eu avanço passo a passo, muito lentamente e só fico contente quando, no final, na altura da última leitura, eu recupero aquela naturalidade, aquela fluidez da mistura que ele consegue e da pungência do estilo dele. É uma tarefa complicada, mas ao mesmo tempo muito gratificante porque não é todos os dias que se tem a sensação de se traduzir um génio.”
Dos livros que traduziu de António Lobo Antunes ou da sua obra em geral, qual é aquele que mais o tocou pessoalmente?
“Há um que realmente faz a súmula de tudo o que ele sabe fazer e dos temas de predileção do autor. Se calhar seria ‘Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água” porque está lá tudo ao mesmo tempo. Está lá ‘Os Cus de Judas’ com o tema da guerra em Angola, o que foi obviamente fundamental para ele, mas é um livro que vai muito mais longe do que ‘Os Cus de Judas’. Tem uma mestria, um domínio total da técnica que ele elaborou ao longo dos anos. Então, para mim é uma soma, realmente é uma obra-prima total e para quem nunca leu o Lobo Antunes está lá tudo com uma virtuosidade ímpar.”
António Lobo Antunes fala da guerra colonial e dos seus fantasmas de uma forma muito particular e, também, se calhar, revolucionária. Quer falar-nos sobre sobre esse tema e outros que atravessem a obra dele?
“Bom, obviamente é central na vida dele e na obra dele. E, aliás, é possível reparar que são temas que voltaram sempre na cabeça dele e tem imagens ou episódios que se encontram logo em ‘Os Cus de Judas’, mas que também se encontram contados nas cartas que enviou para a mulher durante a guerra e que voltam nos últimos livros. Ou seja, na vida toda houve episódios que nunca conseguiu eliminar, que ficaram lá para sempre gravados na cabeça dele, na vida dele, no corpo dele. Ele conseguiu fazer desta matéria-prima traumatizante o motivo de uma obra e através destes temas conseguiu dar uma dimensão diferente daquela tragédia. Este tema alimentou a obra dele, mas também queria salientar que é preciso não limitar a obra do Lobo Antunes à guerra e a Angola. Depois, cada vez mais, ficou longe dos primeiros volumes muito autobiográficos e cada vez mais aprofundou uma pesquisa estilística. Também queria que as pessoas entendessem que há humor, há muito humor na obra dele, humor negro, mas também humor burlesco, há coisas muito divertidas, sem cinismo, humor também leve. Há de tudo, obviamente e também é uma das marcas dele passar de uma coisa leve e engraçada e infantil, pueril até, a uma coisa gravíssima ou negra ou deprimente. É aquela fornalha toda sem equivalente.”
Por que é que António Lobo Antunes não teve o Prémio Nobel da Literatura?
“Eu acho que, se calhar, porque é demasiado fora das categorias normais, não é liso o suficiente se calhar. É demasiado abrupto, demasiado inclassificável, demasiado exigente com ele próprio. Ele nunca fez nada para facilitar o acesso dos leitores à obra dele. É demasiado radical, se calhar. Se calhar é esta a explicação. Nos últimos anos, foi sempre complicado perceber o raciocínio dos júris do Prémio Nobel, mas não temos de chorar por isso. Até seria uma marca de nobreza porque claro que ele merecia o prémio, mas será que o prémio merecia o Lobo Antunes? Não tenho a certeza porque ele estava acima disto tudo.”
Falou na “sensação de traduzir um génio”. E a pessoa? Como é que era António Lobo Antunes?
“Também foi uma surpresa para mim porque fui sempre avisado que ele era uma personagem complicada, abrupta, mas comigo foi sempre de uma grande ternura, uma grande generosidade. Acho que ele gostava do meu trabalho e ele repetiu isso várias vezes, em privado, mas também em público e foi sempre um incentivo e uma honra enormes. Eu lembro-me desta ternura, era capaz de dar uma piscadela, um abraço forte e são as imagens que vou lembrar.”
Quais foram os livros de Lobo Antunes que traduziu em França?
“Eu traduzo-o desde 2011, ou seja, quase 15 anos, e acabo de entregar a décima tradução de Lobo Antunes, que é o ‘Dicionário da linguagem das Flores’. Os nove anteriores fui eu que traduzi. Comecei com ‘O Meu Nome é Legião’ e desde então fui eu a traduzi-lo.”
Ana Lima: António Lobo Antunes é “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas”
RFI: O que representa António Lobo Antunes nas livrarias em França?
Ana Lima, Parceira da Librairie Portugaise & Brésilienne: “António Lobo Antunes é, pelo menos em França, um dos autores mais conhecidos do século XX e início do século XXI e talvez o que conseguiu que a literatura portuguesa, com Fernando Pessoa e Saramago, tivesse uma presença em praticamente todas as livrarias francesas, as grandes e as independentes. É um dos autores mais conhecidos portugueses, mesmo se não foi necessariamente lido pelos que o conhecem, e os autores contemporâneos portugueses, também traduzidos em França actualmente, muitos também se reivindicam dele. Portanto, há um contínuo e há uma presença dele bastante importante.”
Qual é o ADN que compõe a literatura de António Lobo Antunes que faz dele um dos grandes autores do século XX e XXI?
“Antes de mais, foram umas temáticas muito importantes sobre a guerra colonial, sobre o Portugal pós-25 de Abril, sobre uma descrição da sociedade sempre sem compromisso, sempre com uma visão entre ironia e uma visão muito clara que era, às vezes, um bocado feroz e também um tipo de escrita que é um fluxo de consciência permanente, um texto sempre a fluir, que era uma maneira de escrever um bocado nova na literatura portuguesa, que teve um impacto muito grande, um grande modernismo.”
Que livros de António Lobo Antunes recomenda?
“Desde logo ‘Os Cus de Judas’ que foi mesmo um marco na literatura portuguesa, o ‘Fado Alexandrino’, ‘O Regresso das Caravelas’, ‘A Morte de Carlos Gardel’. Quer dizer, há assim estes que eu pessoalmente gostei muito e que foram importantes para mim. Agora, ele produziu muito, muito. Aconselho a ler tudo, mas se se tiver que ler alguns é ‘Os Cus de Judas’, ‘Fado Alexandrino’, ‘O Regresso das Caravelas’ e talvez ‘A Morte de Carlos Gardel’. Mas isso é a minha escolha.”
Por que é que ele nunca chegou a ter o Prémio Nobel da Literatura?
“Isso é uma história bastante complicada. O Saramago teve o Prémio Nobel, sabe-se que era um bocado uma competição no prémio entre os dois. O Saramago teve o prémio e foi o primeiro Prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa e antes que se desse outro sabíamos que íamos esperar um bocadinho, portanto era uma questão de tempo, o que é uma injustiça porque de língua portuguesa há autores enormes, também brasileiros que não tiveram e que deveriam ter tido.”
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