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A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.
Nesta segunda-feira, ouvimos Levy Nazaré, líder e cabeça de lista do Movimento Basta, na oposição. Rosto conhecido da vida política são-tomense por ter ocupado vários cargos, Levy Nazaré defende uma política de saúde preventiva, um investimento nas fontes de energia sustentáveis e reformas institucionais.
RFI: Qual é o programa do ‘Movimento Basta’?
Levy Nazaré: Primeiro, acima de tudo, é preciso um consenso nacional para se alterar a Constituição, mas não no sentido de criar um novo regime presidencialista. São reformas constitucionais que ajudam ao melhor funcionamento das próprias instituições do Estado. Mas para isso, é preciso consenso político. Nós também temos a reforma da Assembleia Nacional pela dimensão da Assembleia. Com 55 deputados, penso eu que hoje não se justifica termos tantos deputados. É preciso profissionalizar de facto a Assembleia Nacional, reduzindo o número de deputados, dar as condições necessárias para órgãos de soberania, melhorar os salários. A questão da mobilidade dos deputados, para que haja maior produtividade, nós propomos reduzir para 25 ou 30 deputados, não mais. Há a questão da reforma da Justiça. Também já se falou muito da reforma da Justiça, que é um cancro para o nosso desenvolvimento. Eu defendo sempre que a Justiça tem um papel muito importante a desempenhar para o São Tomé e Príncipe que se pretende, um São Tomé e Príncipe mais desenvolvido, mais justo, mais equitativo. Não pode ter a nossa justiça tão lenta, tão burocratizada, tão politizada como nos últimos tempos nós fomos assistindo. Nós precisamos de apoio dos nossos parceiros para permitir que haja uma cooperação a nível da Justiça, de modo que venham magistrados nos ajudar aqui ditar o direito. Não é para sempre e de uma forma transitória. Estabelece-se no espaço de cinco a dez anos, de forma que venham magistrados para um ou dois anos, porque eles não são de cá, eles não conhecem as pessoas, eles não têm relações familiares numa sociedade tão pequena. Para não entrar no vício, não pode durar muito tempo: dois anos, depois vem outro e assim sucessivamente. Por isso, essa é uma das propostas que nós temos. Não podemos ser só para umas coisas e outras coisas, não sermos soberanos.
RFI: Nestes últimos meses, o país foi submetido a alguma pressão devido aos cortes de energia, tornando de facto esta questão, uma questão crucial. Quais são os vossos planos?
Levy Nazaré: Aquilo que os nossos parceiros do Banco Mundial e não só, os nossos parceiros de Bretton Woods, têm sempre nos proposto. É essa a solução. Nós temos que renovar a nossa fonte energética. Não podemos continuar com energia a diesel, com geradores permanentemente. Esse tipo de energia também está dependente das variações do preço dos combustíveis no mercado internacional. Até há casos mesmo, como sabe, de ruptura de combustíveis por algum tempo na nossa sociedade. Logo, é preciso investir nas energias renováveis. Já há um processo a decorrer para a energia com painéis solares, mas também temos condições para energia eólica. Nem toda a energia tem de ser energia limpa, mas coadjuvado também com alguns geradores, caso haja um ou outro problema.
RFI: Falou de energias limpas. Isto é uma transição para a questão ambiental. Há também uma expectativa internacional relativamente a São Tomé e Príncipe, que nestes últimos anos foi reconhecida, nomeadamente pela sua qualidade natural pela UNESCO. O que é que se pretende relativamente à questão ambiental em São Tomé e Príncipe?
Levy Nazaré: Todo o território nacional já é património da Biosfera, como sabe. É transformar esse património num exemplo para o mundo e termos políticas de desenvolvimento sustentável e que esse desenvolvimento não venha pôr em causa as nossas condições de fauna e flora. Só que temos também de ter a capacidade de dizer aos nossos parceiros "ok, nós não podemos mais continuar, por exemplo, a desflorestação, a tirar areias nas praias para a construção. Então nós precisamos de ajuda nesse sentido'. Mas o grande problema que o país tem hoje é como tratar os resíduos. Nós importamos muito plástico. Há muito lixo. E como é que nós vamos transformar esses resíduos em fonte de energia e tornar a ilha mais limpa, mais consentânea com todas as políticas ambientais? Quer a ilha de São Tomé, quer a ilha do Príncipe estão a passos gigantes rumo a uma economia de turismo sustentável. Daí os desafios que nós também temos nessa área de tratamento dos resíduos.
RFI: Relativamente também à questão do acesso à saúde. Isso é uma questão que é universal. Como tornar a saúde mais acessível a todos?
Levy Nazaré: Temos que direccionar a nossa política de saúde acima de tudo, numa saúde preventiva. Estamos com uma política de saúde mais curativa, isto é, quando acontece os problemas, as pessoas já estão doentes, já estão enfermas, já estão hospitalizadas e nós agora temos que encontrar formas para curar essas pessoas, logo, direccionarmos a nossa política para uma saúde preventiva. Logo, eu aproveito já para falar da questão de água potável, porque muitas das nossas doenças são de origem hídrica, não havendo água potável para toda a população, para melhorar a questão do imunização da população, faz com que possamos diminuir os custos e os problemas que nós temos na saúde. É um desafio grande, mas tudo isso também tem a ver com o próprio desenvolvimento do país. Para nós, temos condições para construir o tal hospital de referência que tanto se fala também aqui, entrando também o turismo. O nosso Sistema Nacional de Saúde hoje não é consentâneo com o turismo que se pretende, o desenvolvimento do turismo que se preconiza. Logo, temos que criar todas as condições para termos um sistema Nacional de Saúde que dê resposta não só a toda a população nacional, em primeiro lugar, mas todos aqueles que nos visitam também. Também começar a formar técnicos especializados, não só médicos, como enfermeiros em todas as áreas de especialidade que o país precisa. Tem acontecido, já agora, não só nesta área, mas em todas. Mas já que estamos a falar de saúde, muitos enfermeiros, muitos técnicos de saúde, por questões que o país atravessa, têm emigrado, logo é preciso criar uma política para reter os nossos quadros, não só de saúde, como todas as áreas. Dar-lhes formação, termos mais técnicos especializados para darmos resposta aos desafios que o país enfrenta e que há-de enfrentar no futuro.
RFI: Como financiar todas estas medidas que está a propor?
Levy Nazaré: No nosso programa, também falámos da política fiscal. Primeiro, é preciso uma política fiscal que seja mais abrangente possível e não apenas ficar circunscrita ao sector formal. Nós temos uma informalidade muito grande na nossa economia. É preciso políticas tributárias específicas para massificar a tributação com taxas únicas para todo o sector informal. É preciso trazer o sector informal para sector formal. Baixar a taxa de imposto que nós temos, também uma política fiscal que não ajuda o surgimento de novos empresários ou aqueles que já estão no mercado para desenvolver. É preciso dar mais atenção àquelas pessoas que decidam enveredar por esse caminho que é do empresariado. É preciso um esforço interno, reduzir as despesas públicas. Melhor gestão das nossas finanças e dos apoios que nós recebemos. O combate à corrupção. É preciso investir na agricultura. Nós não temos terra suficiente para ter uma agricultura competitiva, mas nós temos uma marca que é a marca, o nome 'São Tomé e Príncipe'. Logo, desenvolver uma agricultura doméstica para abastecer o mercado interno, depois uma agricultura de transformação para exportação, mas exportar já produtos 'gourmet'. Já está a começar. Há pequenas células. E também direccionado para o mar, porque em vez de nós termos acordos de cooperação com a União Europeia, com o Japão, a China e outros países, de pesca nos nossos mares e que nós nem temos capacidade de controlo desta mesma pesca, porque não pedir apoios para termos aqui internamente pequenas empresas de transformação de pescado, como acontece com alguns países como Cabo Verde, que eu sei. Logo, todas essas políticas são políticas que poderão ajudar a encontrarmos formas de financiar esse desenvolvimento de que se falou. É preciso trabalharmos também mais. Nós temos um horário de trabalho da função pública, por exemplo, que não é compatível com as exigências do mundo moderno hoje. Mas tudo isso também, tem a ver com a própria reforma da nossa administração pública, que também faz parte do nosso programa.
Braga recebe a 4.ª edição do festival Paraíso, dedicada ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Cinema, música, dança, gastronomia e conversas servem de ponto de partida para pensar memória, representatividade e pertença. Para o coordenador do festival, Nuno Abreu, o objectivo é criar um espaço onde diferentes comunidades possam não apenas assistir, mas também participar na construção das narrativas.
O Paraíso regressa a Braga com uma pergunta que atravessa toda a programação: o que fazer, no presente, com aquilo que se herda do passado? Na 4.ª edição, o festival escolheu colocar “Passado e Futuro na Afrodescendência” no centro de dois dias de cinema, dança, música, gastronomia e reflexão.
Para o coordenador de Assessoria de Imprensa, Conteúdos e Acessibilidade do Paraíso, Nuno Abreu, juntar estas duas temporalidades não significa apenas olhar para trás e imaginar o que vem depois. Significa, sobretudo, interrogar o presente. “Todos os anos elegemos um tema associado às questões afrodescendentes. Este ano escolhemos passado e futuro porque queremos propor uma reflexão colectiva”, explica.
Essa reflexão começa em Braga e com quem vive na cidade. O festival procura envolver estudantes, investigadores, artistas, agentes culturais e organizações locais na própria construção da edição. “Queremos pensar as formas de existir daquilo que recebemos desta herança que é a afrodescendência e pensar nas realidades que queremos construir e que, neste momento, já estão a ser construídas.”
Entre os participantes estão representantes da Secção de Estudantes Africanos da Universidade do Minho, agentes culturais residentes na região e organizações que trabalham com comunidades migrantes e afrodescendentes. Para Nuno Abreu, esta ligação ao território é essencial. “O Paraíso quer demonstrar essa realidade: as pessoas que trabalham cá, que vivem cá e que querem mostrar à população e às comunidades o trabalho que tem sido feito para que a nossa sociedade seja o mais justa possível.”
Mas programar culturas afrodescendentes envolve também um risco: transformá-las numa sucessão de manifestações artísticas apresentadas a partir de fora, como se fossem apenas objectos de exposição. É precisamente isso que o festival procura evitar. Em vez de construir toda a programação a partir de uma direcção central, o Paraíso entrega parte da curadoria a pessoas e organizações ligadas aos temas em discussão.
“O que fazemos desde o início é convidar pessoas e organizações para fazerem a curadoria das várias áreas, tanto no pensamento como na mediação e nas artes de palco”, explica Nuno Abreu. “Convidamo-las para idealizarem aquilo que querem fazer, quem querem convidar e sobre o que querem conversar e discutir.”
É também desta lógica que nasce, por exemplo, a curadoria de cinema entregue a Kitty Furtado, que escolheu uma obra da realizadora Vanessa Fernandes e participa na construção da conversa em torno do filme. A opção responde, segundo Nuno Abreu, a uma questão mais profunda de representatividade. “Talvez por falta de representatividade de artistas afrodescendentes nos teatros nacionais, nós convidamos sempre pessoas e organizações para fazerem a curadoria destes elementos.”
A 4.ª edição cruza-se com as comemorações dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma associação que nasce precisamente de países ligados por uma história marcada também pelo colonialismo português. Nuno Abreu não foge à contradição. Pelo contrário, considera-a matéria para discussão. “Todas as contradições interessam para a construção de pensamento. Queremos que o Paraíso seja um espaço plural em termos de perspectivas sobre o que é a afrodescendência e também sobre o que é a afrodescendência lusófona.”
A própria língua entra, assim, no debate. “O que é que a nossa língua representa para toda a gente? E o que representam outras línguas, como os crioulos dos vários países africanos de língua oficial portuguesa?”, questiona. Para o responsável, memória e futuro não precisam de aparecer como forças incompatíveis. “Falamos sobre o que são as heranças e sobre o que são as construções do futuro. Elas podem, se calhar, andar de mão dada.”
Também não é indiferente que esta conversa aconteça em Braga. Se grande parte dos debates sobre racismo, imigração ou afrodescendência tende a concentrar-se em Lisboa, o Paraíso nasceu precisamente da vontade de descentralizar essas discussões. “A maior parte da população afrodescendente reside em Lisboa, mas em Braga também reside, também existe”, lembra Nuno Abreu. “É preciso perceber se estas pessoas estão felizes cá, se usufruem culturalmente dos espaços, se são artistas ou investigadores e que espaço é que essas pessoas têm.”
A questão, sustenta, é perceber como se vive a experiência afrodescendente fora da capital. “É importante Braga estar no mapa com um programa artístico como este e conseguir perceber de que forma todas estas pessoas vivem uma cidade como Braga e não uma capital.”
Essa preocupação conduz a outra palavra central do festival: acessibilidade. Não apenas no sentido físico de entrar num espaço cultural, mas também no sentido económico e simbólico de sentir que esse espaço é para todos. Cerca de 80% da programação do Paraíso é gratuita. Conversas, sessões de cinema e outras actividades podem ser frequentadas sem compra de bilhete. “Não é obviamente só uma população afrodescendente que tem dificuldade em comprar um bilhete para ir a um espectáculo. Uma população portuguesa que não seja afrodescendente também tem”, lembra Nuno Abreu. Por isso, acrescenta, “o Paraíso tem-se pautado por ser um evento maioritariamente gratuito, para que o número máximo possível de pessoas, de qualquer nacionalidade, que vivam em Braga sejam bem-vindas”.
A ambição vai além de aumentar o público. “Queremos que partilhem este espaço, que espero que seja seguro. Um espaço de liberdade para pensar, para conhecer e para sonhar.” O festival concentra-se em dois dias, mas Nuno Abreu rejeita a ideia de que o sucesso possa ser medido apenas pelo número de pessoas que atravessam as salas durante esse período. “Sucesso na área das artes é sempre um pouco discutível”, reconhece. “Obviamente, temos vindo a assistir a um número cada vez maior de pessoas nas acções do Paraíso, mas talvez o mais importante seja existir continuidade.”
É essa continuidade, considera, que impede que as questões debatidas no festival desapareçam quando se desmonta o palco. Artistas de diferentes nacionalidades, conversas, espectáculos e criações continuam a integrar a programação cultural da cidade ao longo do ano.
Henrique Mano foi um dos primeiros jornalistas portugueses a chegarem ao Ground Zero depois do ataque de há 25 anos às Torres Gémeas, em Nova Iorque, no qual morreram cerca de três mil pessoas. À hora dos atentados, a 11 de Setembro de 2001, o repórter já estava no Jornal Luso-Americano de Newark e contou-nos como foi cobrir o trágico acontecimento que mudou o mundo e a sua própria vida na cidade onde vivia e ainda vive. “Há um antes e um depois do 11 de Setembro”, resume o jornalista.
Já passou um quarto de século desde os ataques que são considerados como um momento de viragem na história contemporânea. A 11 de Setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por terroristas da Al-Qaeda, com dois deles a colidirem de forma intencional contra as Torres Gémeas do World Trade Center, que acabariam por desabar algum tempo depois. O terceiro avião de passageiros colidiu com o edifício do Pentágono, nos arredores de Washington, e o quarto caiu num campo no estado da Pensilvânia, depois de alguns passageiros e tripulantes terem tentado retomar o controlo do aparelho. Morreram cerca de três mil pessoas nesse dia e não se sabe quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então. A queda dos edifícios libertou uma nuvem tóxica e provocou um desastre ambiental urbano sem precedentes nos Estados Unidos, ao qual foram expostas quase 500 mil pessoas e cujo impacto ainda perdura.
Neste programa, falamos com Henrique Mano, editor do Jornal Luso-Americano de Newark, que foi um dos primeiros jornalistas portugueses a chegarem ao Ground Zero e que ajudou a identificar vítimas luso-americanas. Esta sexta-feira, o jornalista vai cobrir uma cerimónia inédita em Newark, “um pequeno Portugal”, que vai lembrar as vítimas dos atentados, nomeadamente as de ascendência portuguesa, paralelamente às homenagens que vão decorrer em Nova Iorque.
“A cidade de Newark é onde está concentrada a grande comunidade portuguesa na costa leste dos Estados Unidos, é uma espécie de pequeno Portugal. Uma das vítimas portuguesas nasceu aqui, cresceu aqui. Eu digo aqui porque estou na redacção do jornal e o jornal está também sediado em Newark. O vereador português de Newark, o Michael Silva, pela primeira vez, vai fazer uma cerimónia do içar da bandeira, que é uma tradição americana, para lembrar as vítimas não só luso-americanas, mas todas as vítimas dos atentados. Eu vou estar ocupado a fazer a cobertura desse evento”, conta Henrique Mano.
Há 25 anos, quando os aviões embateram nas Torres Gémeas de Nova Iorque, a cidade onde vivia e vive, o repórter “tinha acabado de chegar à redacção”, em Newark, nos arredores de Nova Iorque. “Nesse dia já não consegui regressar a Nova Iorque porque os acessos da cidade estavam todos interrompidos. Não havia comboios, os túneis estavam fechados. Portanto, só no dia seguinte, logo de manhã, consegui apanhar um comboio e fui para Nova Iorque. Fui imediatamente para a zona do Ground Zero tentar sobretudo auscultar a comunidade portuguesa que havia ali nos bairros de Soho e Tribeca - que estavam literalmente à sombra das Torres”, acrescenta. A partir daí, o jornalista e a equipa do jornal Luso-Americano ajudaram na identificação das nove vítimas portuguesas e lusodescendentes dos atentados, ajudando a compor uma lista oficial que até hoje é usada pelas autoridades portuguesas e norte-americanas.
Há memórias que continuam muito presentes e são dificilmente imagináveis: “Morreram ali quase 3.000 pessoas no espaço de uma hora. Isto é difícil de explicar às pessoas, mas dos escombros das duas torres emanava um cheiro a morgue - estavam ali 3.000 corpos - que se manteve na ilha toda de Manhattan, para aí, durante uma semana. Nós em casa, dentro de casa, sentíamos este cheiro. Para além do aspecto prático de termos percebido que, em uma hora, as nossas vidas tinham mudado completamente, as medidas de segurança, a forma como viajamos, tudo isso. Há um antes e um depois do 11 de Setembro.”
Na terça-feira, o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, anunciou a divulgação de dezenas de milhares de documentos que mostram que a cidade não revelou tudo o que sabia sobre a toxicidade do ar após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Nos anos seguintes, mais de 9.400 pessoas morreram de doenças relacionadas com a exposição à área, de acordo com um programa federal de monitorização médica. Após a nuvem de poeira inicial que se seguiu ao colapso do World Trade Center, meses de poluição e poeira persistente causaram cancros que ainda afectam milhares de nova-iorquinos.
"Estes documentos mostram o que a cidade sabia sobre o ar tóxico em redor do Ground Zero, quando o soube e como agiu para limitar a responsabilidade", disse o autarca de Nova Iorque, Zohran Mamdani numa conferência de Imprensa após a divulgação online de 170 mil páginas de documentos sobre preocupações com a saúde, a qualidade do ar e a resposta da cidade aos ataques. A divulgação faz parte de um acordo com a 9/11 Health Watch, um grupo de defesa das vítimas que interpôs uma ação judicial para obrigar a cidade a tornar os documentos públicos. "Durante 25 anos, quatro Administrações municipais diferentes ocultaram do público, do Congresso dos EUA e da Câmara Municipal documentos que mostravam o que a cidade realmente sabia sobre o perigo dos produtos químicos tóxicos no sul de Manhattan e no oeste de Brooklyn após o colapso do World Trade Center, mesmo enquanto as autoridades municipais continuavam a afirmar ao público que o ar era 'seguro e aceitável'", disse o director do grupo, Benjamin Chevat, em comunicado.
Como milhares de pessoas, Henrique Mano também se expôs e continuou a fazer as suas reportagens no local, sem nunca ter colocado qualquer máscara. Conta até que conheceu um bombeiro lusodescendente que “trabalhou no Ground Zero durante seis meses na operação de recuperação dos restos mortais, a identificar pedaços de corpos que encontravam” e que “teve que se reformar prematuramente porque contraiu uma doença pulmonar associada ao 11 de Setembro”.
“[As autoridades] não alertaram. A documentação agora prova que até as companhias de seguros estavam cientes do perigo e optaram por fazer segredo disso. Portanto, nem sei se não é matéria criminal. Não sei como é que as autoridades vão agora lidar com o assunto, mas isso tem sido muito falado agora, nesta semana dos 25 anos”, acrescenta o jornalista.
Oiça a entrevista neste programa.
Angola quer transformar o investimento no espaço numa ferramenta de soberania digital, desenvolvimento económico e formação. Em Paris, onde participa na Cimeira Internacional do Espaço, o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, defendeu a criação de capacidades nacionais, sem abdicar da cooperação, e destacou as aplicações dos satélites nas comunicações, agricultura e protecção dos oceanos.
Angola chegou à Cimeira Internacional do Espaço, em Paris, com uma ambição que ultrapassa a presença de um satélite em órbita. O objectivo, segundo o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, é adquirir progressivamente conhecimento, infra-estruturas e recursos humanos que permitam a Angola reduzir dependências e construir aquilo a que Luanda chama “soberania digital”.
“Temos um programa espacial nacional, temos um satélite de comunicações em órbita e estamos a trabalhar num satélite de observação da Terra”, explicou Mário Oliveira. “Estamos a trabalhar no sentido de criarmos capacidades próprias e de interagir com aquilo que se passa um pouco por todo o mundo, particularmente em África.”
O ministro refere-se ao ANGOSAT-2, utilizado nas telecomunicações, e ao futuro ANGEO-1, primeiro satélite angolano dedicado à observação da Terra. O projecto ANGEO-1 arrancou oficialmente em Março nas instalações da Airbus Defence and Space, em Toulouse, e integra a estratégia angolana de reforço da capacidade tecnológica nacional.
Para o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, porém, soberania digital não significa produzir tudo dentro das fronteiras. Significa sobretudo adquirir capacidade para dominar e gerir as tecnologias utilizadas pelo país. “Passa não só pelo ecossistema de satélites, mas também por todo o ecossistema de comunicações, aplicações e formação”, afirma.
É precisamente na formação que o governante coloca uma das maiores apostas. “Estamos fortemente empenhados em formar jovens angolanos para que possam ser os angolanos a gerir e a criar plataformas”, sublinha. A intenção é diminuir gradualmente uma dependência tecnológica que reconhece existir. Num território extenso e com populações dispersas, os satélites e a fibra óptica são apresentados como instrumentos para levar comunicações a regiões onde a instalação de redes convencionais é pouco atractiva comercialmente.
O representante angolano destaca projectos destinados a aumentar a cobertura móvel, levar Internet a localidades remotas e equipar escolas públicas com salas de informática. “Temos estado a levar Internet e comunicações a zonas recônditas do país, a escolas públicas situadas nas vilas e nas aldeias”, afirma.
A tecnologia espacial é também associada à diversificação económica. “O Governo tem estado a apostar muito no agronegócio, na agro-indústria e na agricultura”, lembra o ministro. “A agricultura hoje já não se faz como nos anos 60 e 70. Exige muita tecnologia, exige acesso à Internet.” É nesse contexto que o ministro angolano vê os investimentos em satélites e fibra óptica como infra-estruturas que podem servir também os produtores agrícolas, dando-lhes acesso a comunicações, informação e serviços digitais. “Temos estado a levar essas facilidades aos nossos empresários agrícolas”, explica.
A participação em Paris serve para procurar conhecimento fora do país. Angola tem contactos previstos com diferentes actores do sector, entre os quais a Agência Espacial Africana, a Agência Espacial Portuguesa e a Airbus Defence and Space. Para o ministro, não se trata de substituir incapacidade interna por soluções estrangeiras, mas de acelerar a aprendizagem.
“O ecossistema das tecnologias exige troca de experiências. Nós começámos o nosso programa espacial há relativamente pouco tempo”, afirma. No plano africano, considera que a criação da Agência Espacial Africana oferece uma oportunidade adicional: “África tem estado junta à procura do seu espaço no ecossistema de satélites.”
Com Portugal, Mário Oliveira destaca a relação entre as respectivas estruturas espaciais. “Temos uma boa relação ao nível do nosso Gabinete de Gestão do Programa Espacial e da Agência Espacial Portuguesa. Sempre que podemos estar juntos, conversar sobre as nossas ideias, sobre os nossos projectos e sobre aquilo que pode ser o intercâmbio entre nós, essas oportunidades são bem-vindas.”
A França ocupa também uma posição importante. É em parceria com a Airbus que está a ser desenvolvido o ANGEO-1, e jovens angolanos deverão deslocar-se para formação especializada. “Está a chegar, nos próximos dias, uma equipa de jovens angolanos que vai fazer mestrado e formação ao nível dos satélites”, anunciou o ministro.
O objectivo é fazer com que o investimento em equipamentos seja acompanhado pela criação de conhecimento dentro do país. “Sem formação podemos fazer todos os programas que quisermos”, mas será difícil assegurar a sustentabilidade, reconhece. Angola pretende, por isso, avançar também para formação especializada no ensino superior nacional.
“Estamos a preparar-nos para, juntamente com o Ministério do Ensino Superior, podermos ter em Angola uma formação específica nesta matéria”, adianta. “Temos grandes ambições. É para isso que estamos aqui, junto dos melhores e dos maiores.”
A estratégia estende-se agora também ao Atlântico. Angola assinou durante a cimeira a adesão à iniciativa Space4Ocean, que procura utilizar tecnologias e dados espaciais na protecção dos mares e na exploração sustentável dos recursos oceânicos. “Temos uma costa extensa e hoje falamos muito da economia azul no país”, explica. A adesão vai permitir, segundo o governante, conhecer tecnologias já utilizadas por outros Estados “em defesa do mar, da costa e da própria economia marinha” e integrá-las no trabalho que Angola desenvolve nesta área.
A Cimeira Internacional do Espaço decorre a 9 e 10 de Setembro no Grand Palais, em Paris, reunindo responsáveis políticos, agências, cientistas, astronautas e empresas de dezenas de países para discutir a transformação de um sector que adquiriu uma dimensão económica e estratégica crescente.
Braga recebe a 4.ª edição do festival Paraíso, este ano dedicado ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Entre cinema, música, dança, gastronomia e conversas, o encontro propõe interrogar as heranças coloniais e imaginar outros futuros. Para a curadora Kitty Furtado, olhar o passado é também um exercício de reparação e de transformação do presente.
No festival Paraíso, passado e futuro não aparecem como extremos de uma linha do tempo. Encontram-se, sobrepõem-se e ajudam a interrogar o presente. A 4.ª edição do encontro, em Braga, parte das experiências afrodescendentes para pensar aquilo que permanece do passado colonial, mas também aquilo que pode ser reconstruído a partir dele.
É nesse cruzamento que surge um filme realizado por Vanessa Fernandes em 2015, escolhido por Kitty Furtado, crítica cultural, investigadora e curadora do festival. “A escolha deste filme tem precisamente a ver com essa relação que estabelece entre o presente, um futuro possível e o passado”, explica.
A obra aborda a mutilação genital feminina, mas fá-lo também através daquilo que não se diz. Para Kitty Furtado, o filme mostra como determinadas tradições atravessam gerações e continuam a condicionar vidas muito depois de a sua origem se ter perdido no tempo.
“É um filme que nos fala muito de leis, de tradições que vêm de um passado que se perde no tempo e que, de forma silenciosa, penetram as nossas vidas hoje e condicionam, neste caso, a vida de mulheres negras”, afirma. Há, acrescenta, uma transmissão que acontece através da ausência de palavras: “Fala-nos disto também através dos silêncios que se instalam nas famílias e da transmissão silenciosa desse passado.”
Onze anos depois, a curadora considera que esse silêncio não desapareceu. Pelo contrário. “No caso português, é até mais silencioso hoje do que em 2015. Em 2015 estávamos a começar a conseguir falar sobre isto”, observa, criticando uma abordagem que, na sua perspectiva, tende a reaparecer sobretudo pela via da criminalização das comunidades e das mulheres afectadas.
Mas a distância entre 2015 e 2026 não se mede apenas na forma como se fala deste tema. Kitty Furtado vê também uma mudança mais ampla no clima político e social português. Recorda um período em que persistia a ideia de que Portugal seria uma excepção numa Europa em transformação e em que ainda era comum negar a existência de racismo no país. “Hoje já não há vergonha, já não há pudor nos discursos racistas, nos discursos de ódio”, afirma. “Estamos num outro Portugal que nós sempre soubemos que existia, que sempre existiu.”
Essa mudança no modo de olhar a sociedade conduz directamente a uma das ideias centrais do trabalho de Kitty Furtado: o conceito de Black Gaze. A investigadora evita traduzir a expressão simplesmente por “olhar”, porque considera que a palavra portuguesa não contém toda a dimensão política que lhe atribui. “Gaze implica essa relação de poder entre quem olha e quem é olhado. Implica a construção de um discurso sobre aquilo que se olha e implica uma duração do olhar”, explica.
Durante séculos, argumenta, a cultura visual foi construída a partir de uma posição dominante. “O discurso da visualidade foi sempre construído por pessoas brancas, maioritariamente homens brancos, que se arrogam o direito de compreender e de dizer o que é o mundo.”
O Black Gaze altera essa relação porque transfere o poder de enquadrar e narrar para quem durante muito tempo apareceu sobretudo como objecto de representação. “Quando dizemos Black Gaze, é o olhar daquele que sempre foi olhado. Ora, isto altera toda a mundivisão.” E essa inversão, sublinha, não transforma apenas quem olha. Transforma também aquilo que passa a ser visível. Permite “humanizar este outro que foi desumanizado”, recuperar histórias sistematicamente apagadas e “reformular, ressignificar a história tal como a conhecemos”.
Nem sempre são necessárias narrativas extraordinárias. Muitas vezes, diz Kitty Furtado, basta deslocar o ponto de vista: “São as mesmas histórias de família, as mesmas histórias de viagem, os mesmos dramas amorosos. A matéria humana é a mesma. A perspectiva é que é outra.”
É também dessa mudança de perspectiva que nasce a relação entre memória e reparação. Para a investigadora, não são dois processos separados. A memória é reconstruída a partir do presente e, no caso das populações negras, essa reconstrução enfrenta um problema adicional: a ausência ou destruição de grande parte do arquivo. “É um arquivo muito delapidado. Foi muitas vezes queimado, foi muitas vezes invisibilizado, mas, mais do que invisibilizado, foi mesmo destruído”, sublinha.
Perante essas lacunas, reconstruir a memória implica juntar fragmentos, estabelecer relações e imaginar aquilo que desapareceu entre os documentos que sobreviveram. “É preciso ligar momentos deste arquivo, os documentos deste arquivo, imaginar o que está entre eles através desse exercício de fabulação crítica.”
Esse gesto de reconstrução já é, para Kitty Furtado, uma forma de reparação. “Este exercício de reconstrução da memória, este exercício de pensamento sobre um passado, é, em si mesmo, um acto de reparação. De reparação histórica, de auto-reparação.” E essa auto-reparação, sustenta, não pode ser delegada em quem produziu a violência. “O trabalho de reparação dessa interioridade é nosso, não pode ser do perpetrador. Temos de ser nós a fazer esse exercício de auto-reparação.”
O problema surge quando conceitos como reparação, representatividade ou decolonialidade entram no vocabulário das instituições sem alterarem necessariamente o seu funcionamento. Museus, universidades e bienais apropriaram-se progressivamente desta linguagem, mas Kitty Furtado alerta para a distância entre reconhecer uma crítica e transformar uma estrutura. “A alteração discursiva não implica uma alteração política, de facto”, afirma.
Na sua leitura, instituições historicamente construídas dentro de relações de poder têm também uma grande capacidade de absorver os discursos que as contestam. “Conseguem fazer sobre si próprias um discurso muito elevado, de boas intenções, de capacidade de autocrítica, de construção de um mundo cada vez melhor, mais igualitário, cada vez menos violento. Mas essa construção fica no plano meramente discursivo.”
Kitty Furtado aponta desigualdades persistentes no sistema prisional, no acesso à habitação, na organização das cidades e no funcionamento da justiça. “As coisas continuam como sempre foram, mas o discurso vai mudando para que tudo possa continuar na mesma.”
O paradoxo estende-se às próprias instituições culturais. A crítica ao colonialismo entra hoje em museus, universidades e bienais que, historicamente, também participaram na construção das narrativas que agora são questionadas. Para Kitty Furtado, essa entrada pode produzir dois efeitos contraditórios. “Por um lado, corre realmente o risco de ficar numa gaveta muito bem arrumadinha” e até de funcionar como uma forma de legitimação: “Já reparámos, já nos corrigimos, agora somos diferentes.”
Mas não é apenas isso que acontece. “O acesso a estes discursos, a discussão que estes eventos proporcionam, chega cada vez a mais pessoas”, reconhece. E a presença crescente de pessoas racializadas dentro dessas instituições tem permitido, segundo a investigadora, “uma alteração subtil no próprio funcionamento”, nomeadamente pela entrada de outros públicos, outras memórias e outras formas de produzir conhecimento. É neste ponto que o Paraíso se desloca do passado para o futuro, embora Kitty Furtado questione a própria ideia de que estes dois tempos possam ser rigorosamente separados.
A curadora rejeita a expectativa de que artistas e intelectuais negros tenham de regressar permanentemente ao colonialismo, ao racismo ou ao trauma para legitimarem a sua criação. “Há uma geração de artistas africanos e afrodescendentes que está precisamente a negar fazer esse regresso ao arquivo”, observa. O afrofuturismo é uma das expressões dessa ruptura. Não porque abandone o passado, mas porque propõe outra relação com o tempo. “Há uma ideia de tempo circular em que passado, presente e futuro estão sempre a ser. Nós somos agora o resultado de um passado e uma semente de futuro.”
É talvez aí que se encontra uma das ideias mais fortes desta edição do Paraíso: não pensar a memória apenas como aquilo que ficou para trás, nem o futuro como uma promessa distante. Entre os dois existe um presente em curso, onde cada gesto de criação pode também reconstruir aquilo que foi apagado. Nas palavras de Kitty Furtado, trata-se de pensar cada pessoa como “esse ponto no tempo que congrega todos os pontos do tempo”.
Os Estados Unidos da América e Israel lançaram uma série de ataques conjuntos contra áreas densamente povoadas de Teerão, em março de 2026, que deixaram dezenas de mortos e feridos. A Amnistia Internacional, num novo relatório publicado hoje, defende de que estes ataques devem ser investigados com urgência, de forma independente e imparcial, para determinar se constituem crimes de guerra.
Em entrevista à RFI, André Julião, um dos porta-vozes da Amnistia Internacional, começa por dar conta de que foram utilizadas armas explosivas em áreas onde existia uma grande concentração de pessoas.
"Segundo este novo relatório lançado pela Amnistia Internacional, foram utilizadas armas explosivas de amplo raio de acção em áreas densamente povoadas, matando e ferindo civis e causando danos com enorme extensão. Estes ataques dos Estados Unidos e de Israel em Teerão foram investigados pela Amnistia Internacional. Podem constituir ataques indiscriminados, o que equivale a crimes de guerra. Como tal, devem ser objecto de investigações independentes, imparciais e eficazes o mais brevemente possível", começou por explicar, evocando o relatório publicado esta terça-feira pela Amnistia Internacional.
André Julião dá conta de que a Amnistia Internacional tem, na sua posse, várias provas de que foram efectivamente usadas estas armas: "A Amnistia Internacional analisou imagens de satélite e verificou mais de 60 vídeos publicados online relacionados com três ataques aéreos, nomeadamente nas cidades de Niloufar, Resalat e Javadieh. E, além disso, analisou declarações públicas oficiais feitas pelas autoridades do Irão, de Israel e dos Estados Unidos, tendo ainda realizado entrevistas com várias pessoas no Irão".
A RFI questionou ainda como é que pode ser garantida uma investigação independente quando os próprios países envolvidos no conflito podem ter interesse em controlar e contestar as provas. André Julião evoca a necessidade da realização de inquéritos por parte da Comissão Internacional de Apuramento de Factos humanitários.
"A Amnistia Internacional apela a todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos e Israel e o Irão, para que convidem a Comissão Internacional de apuramento de Factos humanitários a conduzir inquéritos sobre as alegações de violações do Direito internacional humanitário por todas as partes. Desta forma, conseguir se ia uma investigação imparcial, independente e de facto, pudesse conduzir a conclusões e as reparações devidas", rematou o responsável.
Entretanto, o Irão continua a usar o estreito de Ormuz como arma de guerra. Nas últimas horas, Teerão atacou navios e um drone naval dos EUA que fazia a travessia do Estreito de Ormuz. Os bloqueios dos últimos meses aumentam os receios de que possamos assistir a uma crise energética generalizada em breve, uma vez que esta é uma das rotas mais estratégicas do mundo. É pelo Estreito de Ormuz que passa cerca de 25% do petróleo e do gás natural liquefeito a nível mundial.
O acidente de sábado na ilha do Fogo, em Cabo Verde, que vitimou mortalmente 25 pessoas, entre elas muitas crianças, aconteceu numa estrada conhecida por ser perigosa e estreita. O autocarro levaria também mais passageiros do que o limite aconselhado. Um acidente que deve "unir forças" para implementar mais medidas de segurança rodoviária no Fogo e em todo o país.
Na ilha do Fogo, em Cabo Verde, um acidente matou no ssábadp 25 pessoas, entre elas muitas crianças, e fez 14 feridos. Será o acidente rodoviário com maior número de mortos no arquipélago desde que há registos e aconteceu numa estrada perigosa, com um autocarro sobrelotado.
Djoy Gonçalves é técnico de segurança rodoviária em Cabo Verde e diz que o Fogo é a ilha com mais dificuldades na circulação rodoviária e que precisa de mais cuidados por parte do Governo, alertando ainda que também é importante mudar o comportamento dos condutores no país, já que o arquipélago regista cerca de cinco mil acidentes nas estradas por ano.
"Eu conheço essa estrada. É uma estrada traiçoeira porque é muito íngreme e é bem estreita. E, infelizmente, a estrada ainda não terminou a sua construção, ou seja, falta a colocação de guarda metálica. Mas o condutor dessa viatura especifica era um condutor experiente, conhece bem a ilha, uma pessoa com mais de 40 anos de condução. São falhas que acontecem no ser humano. Só ele sabe o que aconteceu. Na verdade, pela minha experiência, pelo meu conhecimento como condutor, como instrutor, eu acredito que ele tenha exagerado no peso das pessoas. Se repararmos nos números, foram 25 mortes, 14 feridos, chegamos rápido a 39 pessoas, independentemente do peso. Sendo crianças, é claro que o peso é menor, mas não há assentos para toda essa gente. Isso quer dizer que havia pessoas de pé", deduziu Djoy Gonçalves.
o grupo de adultos e crianças estariam numa viagem organizada pelo motorista, Henrique Cardoso, também conhecido como "Djijino", para encerrar as férias escolares e marcar o regresso à escola. O condutor é uma das vítimas mortais do acidente.
Devido à sua geografia, o Fogo é uma das ilhas que, segundo Djoy Gonçalves, precisa de mais atenção por parte das autoridades em Cabo Verde.
"A Ilha do Fogo é uma ilha que precisa de segurança rodoviária de fundo. [...] Nós fizemos parte do Plano Nacional de Segurança Rodoviária e no plano do Fogo está bem escrito como é a ilha com mais dificuldade na circulação rodoviária, pelo número de habitantes, pelo número de viaturas e a ilha que precisa de mais atenção, mais cuidado. Sendo sincero, a falha é nossa. Eu faço parte integrante da segurança rodoviária. [...] Eu fui lá, eu fiz um levantamento, vi as necessidades, eu aconselhei uma urgência de intervenção na Ilha do Fogo. Ligaram-me na sexta feira e disseram 'Vamos trabalhar no plano para o Fogo'. Morreram no sábado. Já era tarde para eles. Agora eu espero que tenham tirado lições sobre os avisos que nós fizemos. Já morreram. Não podemos voltar atrás. Agora é preciso fazer um trabalho para que não volte a acontecer. Nem no Fogo, nem qualquer outra ilha de Cabo Verde", detalhou Djoy Gonçalves.
Actualmente há quatro pessoas em estado grave e foi mobilizada para o Hospital Regional São Francisco de Assis, no Fogo, uma equipa especializada de 16 médicos para responder às necessidades dos feridos deste acidente.
Djoy Gonçalves espera agora que este acidente seja uma forma de mudar consciências, desde logo dos condutores, mas também das autoridades já que, por ano, há cerca de 5 mil acidentes rodoviários por ano que fazem dezenas de mortes e centenas de feridos.
"E o acidente com maior perda de vida em Cabo Verde. Em 2011, 30 de Novembro, ocorreu até então o maior acidente de Cabo Verde. Perderam a vida na altura 16 pessoas e através dessa data marcou-se o 30 de Novembro como o Dia Nacional de Segurança Rodoviária. E agora temos número maior? A mim não me passava pela cabeça que depois de 15 anos íamos ter um acidente com maior perda de vida. É impensável. Eu posso dizer e afirmar que nesta parte não avançamos. Não avançamos. Cabo Verde tem anualmente 5000 acidentes e perdemos, por ano, 54 vidas ao longo de 15 anos, 1700 feridos, 570 feridos graves. É muito. Com o tratamento médico e evacuação, gasta-se em Cabo Verde aproximadamente 10 milhões de euros por ano em acidente, comparando com outro país não é muito. Mas pela nossa pequenez, pelo número de pessoas, somos tão poucos. É muita perda. É muito desperdício, muito, muita, muita dor, muito luto que não havia essa necessidade. É preciso fazer esforços e juntar forças", concluiu.
Neste fim de semana, a AfD, partido de extrema-direita alemão, pode conseguir uma grande vitória elegendo o seu primeiro líder estadual na Saxónia-Anhalt. Ulrich Siegmund tem 35 anos, diz-se pró-russo e anti-imigração, tendo já participado em reuniões europeias que defendem o regresso do regime nazi.
No domingo, o estado federado da Saxónia-Anhalt, na Alemanha, vai a votos e pode fazer história. Pode ser o primeiro estado alemão desde a Segunda Guerra Mundial a eleger um líder de extrema-direita. O candidato à frente de todas as sondagens é Ulrich Siegmund, de 35 anos, uma estrela do partido AfD, Alternativa para a Alemanha, que se apresenta como pró-russo e anti-imigração, jogando com a nostalgia da antiga República Democrática da Alemanha, que abrangia a Saxónia-Anhalt, e que sabe utilizar as redes sociais a seu favor. A revista Der Spiegel chama-lhe o homem mais perigoso da Alemanha.
No entanto, para chegar a ministro-presidente deste estado, Siegmund terá de assegurar uma maioria que lhe permita governar, já que o sistema de coligações na Alemanha permitirá aos outros partidos formar Governo, mesmo em caso de vitória da extrema-direita. Em entrevista à RFI, Domingos Luvumbo, economista e residente na Alemanha há quase 40 anos, explica quem é Ulrich Siegmund.
"Ele é classificado oficialmente na República Federal da Alemanha como fazendo parte do braço mais radical da AfD, Alternativa para a Alemanha, e é considerado oficialmente como um racista. Já fez parte de encontros e reuniões da extrema-direita, onde políticos falam abertamente a favor do nazismo, e faz parte daqueles políticos racistas alemães que dizem que na República Federal da Alemanha alguém que só em alemão quem tem sangue alemão. Os outros, independentemente de serem de raça negra, de serem asiáticos, de serem também pessoas da raça branca que tenham vindo de um outro canto do mundo, devem ser considerados como alemães do papel que para eles a definição ao alemão biológico. Eles gostariam de expulsar todos os estrangeiros ou indivíduos de origem estrangeira e mandarem regressar à República Federal da Alemanha todos os emigrantes alemães que abandonaram o território alemão já há muito tempo. Estou a falar de gerações. É oficialmente o homem mais perigoso, tal todo o seu grupo", explicou Domingos Luvumbo.
Durante o domínio soviético de uma parte da Alemanha, a Saxónia-Anhal encontrava-se atrás da cortina de ferro e desde a queda do Muro de Berlim que a Alemanha tenta equilibrar as desigualdades geradas ela cortina de ferro. No entanto, e apesar de a reunificação já ter ocorrido oficialmente há mais de 35 anos, os seis Estados que constituíam a RDA defendem que são tratados de forma diferente dos estados alinhados com o Ocidente e dizem-se discriminados sobretudo no que diz respeito ao nível de vida e medidas financeiras decididas por Berlim.
Para Domingos Luvumbo estas são algumas das principais razões para adesão em massa da população às ideias da AfD.
"Eles estiveram sob um regime comunista durante 40 anos, portanto, eles sentem-se mais próximos da antiga União Soviética, e hoje sentem-se mais próximos da Federação Russa do que da Alemanha Federal. Apesar de os alemães terem feito quase o impossível a nível de reconstrução e bastava passar nos estados da antiga Alemanha do Leste, para ver o atraso em que os homens estavam mergulhados, eles dizem que são discriminados, o que não é verdade. Até pode haver alguma diferença, mas, contas feitas, os alemães fizeram tudo para devolver-lhes a dignidade. Dizem que, mesmo em termos de investimentos, que o Estado Central tem feito alguma discriminação para com aquela área, o que não é verdade. E são estados onde as pessoas são abertamente racistas, porque durante 40 anos estiveram isolados, nem podiam deixar o território da Alemanha do Leste. Podemos ver isso também a nível da Europa, como a Polónia, a Hungria, a ex-república da Checoslováquia que agora está dividida, em todos eles há mais racismo abertamente do que qualquer país da Europa Ocidental. Portanto, ainda continua aquele isolamento que viveram durante 40 anos", considerou.
Resta agora saber se no domingo Ulrich Siegmund conseguirá uma maioria, tendo em conta o sistema de coligações na Alemanha. Mesmo não conseguindo ser líder no seu estado, o estatuto de Ulrich Siegmund faz prever um crescimento ainda mais acelerado da AfD um pouco por toda a Alemanha.
"A nível federal, a AfD não tinha impacto, mas já têm. Porque basta ver a líder que a senhora doutora Alice Weidel, presidente deste partido fascista, é da Alemanha Ocidental. É assim que eles começaram, porque antes dificilmente se encontrava alguém da Alemanha Ocidental que fizesse parte desta formação política. Mas a partir do momento que começaram a juntar-se e a dizer 'vamos expulsar os estrangeiros'. Uma das filosofias muito perigosas que estão a utilizar é que a República Federal da Alemanha tem desperdiçado mais de mil milhões de euros anualmente, ajudando outros países ou ajudando pessoas provenientes de países do terceiro mundo. E se estes indivíduos forem expulsos, mesmo aqueles que não trabalham passaram a viver bem, e com isso, então eles vão ganhando terreno", concluiu.
Na Guiné-Bissau, apesar dos avanços, o paludismo continua a ser uma doença endémica e uma das maiores preocupações de saúde pública, sobretudo no leste, no sul e no arquipélago dos Bijagós.
Em entrevista à RFI, a coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, a doutora Vanira Pires de Almada, destaca que, embora o país já esteja a administrar vacinas em crianças e distribuir regularmente cerca de um milhão e meio de mosquiteiros com o apoio do Fundo Mundial, o grande desafio continua a ser a adesão da população ao uso correcto das redes.
Garantir testes, medicamentos a tempo e recursos humanos no interior profundo são as metas apontadas para caminhar rumo à pré-eliminação da doença.
O paludismo continua a ser uma das principais preocupações do Ministério da Saúde nas regiões sanitárias de Bafatá, Gabu, Biombo, Bolama, Quinará e Tombali.
Embora o financiamento da estratégia nacional dependa quase na totalidade do Fundo Mundial, que sofreu cortes em 2024, o programa conseguiu alargar a Quimioprevenção do Paludismo Sazonal (QPS) de três para quatro meses, administrando medicamentos preventivos a cerca de 300 mil crianças menores de cinco anos.
A coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, Vanira Pires de Almada, diz que, apesar de todas as dificuldades, a Guiné-Bissau tem feito progressos assinaláveis.
"Nos últimos anos, conseguimos avançar e reforçar a prevenção, diagnóstico e tratamento oportuno, ou seja, atempado, e aumentar a utilização das intervenções, como o uso dos mosquiteiros impregnados e ampliar a prevenção do paludismo sazonal nas crianças. Em 2024, conseguimos fazer a extensão da faixa etária no que diz respeito à prevenção do paludismo sazonal na região sanitária de Bafatá, Gabu, Bolama, Tombali, conseguimos fazer a extensão de três meses a 120 meses, mas devido ao corte do fundo não conseguimos progredir ou prosseguir para o próximo ano. Quer dizer, em 2025. Mas conseguimos alcançar o objectivo. Conseguimos dar a cobertura para aquelas crianças naquele ano, cerca de 295.000 crianças. Também é importante destacar que em 2024, praticamente todos os casos suspeitos foram testados e os casos confirmados tiveram o tratamento ou acesso ao tratamento, segundo a política do programa do Paludismo", destaca a responsável.
Com o apoio do Fundo Mundial, são regularmente distribuídos de forma gratuita mosquiteiros impregnados com insecticidas aos agregados familiares com crianças menores de cinco anos e grávidas. A 6.ª campanha de distribuição entregou cerca de um milhão e quinhentos mil mosquiteiros.
O problema continua a ser o uso daqueles artefactos, pois muita gente simplesmente se recusa a dormir debaixo dos mosquiteiros.
"Existem várias razões. Algumas pessoas sentem calor ou desconforto. Outras pessoas não percebem imediatamente o benefício, o porquê de usar mosquiteiro. O mosquito é invisível e a doença pode aparecer dias depois da picada, conforme a epidemiologia nos indica. Também existem crenças na nossa comunidade, hábitos familiares e, em alguns casos, problemas relacionados com a instalação e conservação dos mosquiteiros. Porque há populações que não percebem como instalar ou montar e desmontar um mosquiteiro e em que período deve usar mosquiteiros. Por isso, a nossa abordagem não deve ser apenas distribuir o mosquiteiro. Temos que explicar as razões pelas quais protege, demonstrar como deve ser instalada e utilizar perante a família e há uma mensagem muito simples acerca disso. O mosquiteiro não é apenas para quando há muitos mosquitos. Deve ser utilizado todas as noites e durante todo o ano. Significa que a utilização do mosquiteiro é permanente, segundo a recomendação da OMS", sublinha Vanira Pires de Almada.
A Guiné-Bissau é um dos países de África que já estão a administrar vacinas de prevenção contra o paludismo em crianças. A coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, Vanira Pires de Almada, observa, no entanto, que o combate à doença envolve vários mecanismos que devem ser combinados.
"O combate ao paludismo não depende de uma única intervenção. O programa aborda esta situação em várias ocasiões. Temos mosquiteiros impregnados de longa duração e acção. Temos diagnóstico precoce e tratamento eficaz dos casos. A prevenção do paludismo durante a gravidez. O programa fornece o tratamento preventivo e intermitente, a administração de ansiedade durante a gestação e depois, actualmente, o programa tem a vacina aprovada e já há implementação contra o paludismo para as crianças menores de cinco anos. Temos uma maior prevenção no paludismo sazonal, que é a que se faz a campanha anualmente durante os meses de pico, quer dizer, de alta transmissão que são são a partir de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro, quatro meses consecutivos ao ano. E cada mês, a criança deve tomar três medicamentos, quer dizer, três dias consecutivos. Isso se faz nas zonas de alta transmissão", explicita a médica.
Por tudo o que já foi feito, a Guiné-Bissau até pode admitir que caminha para a fase da pré-eliminação do paludismo nas comunidades. A coordenadora do programa nacional de combate à doença elenca as metas que devem ser atingidas, impreterivelmente, nos próximos anos.
"Se queremos caminhar para a eliminação, precisamos de saber exactamente onde estão os casos e onde persiste a transmissão. E, finalmente, queremos reforçar o papel das comunidades e dos agentes comunitários, porque não conseguiremos eliminar o paludismo apenas através da estrutura sanitária. O apoio do Fundo Global é muito importante, mas o objectivo é utilizá-lo estrategicamente para alcançar os resultados e, simultaneamente, fortalecer o sistema de saúde", conclui a responsável.
Outros desafios consistem em garantir que os mosquiteiros sejam usados por todos e de forma correcta, que os testes e medicamentos sejam disponibilizados no tempo certo nas comunidades, que os meios de diagnóstico cheguem às regiões do interior profundo da Guiné-Bissau, e que haja recursos humanos e financiamento suficientes para evitar retrocessos.
Estas são as preocupações elencadas pela médica Vanira Pires de Almada, coordenadora nacional do Programa de Luta contra o Paludismo na Guiné-Bissau.
O Major-General do exército português Carlos Branco que tem partilhado periodicamente na RFI as suas análises sobre os conflitos vigentes no Médio Oriente e entre Kiev e Moscovo, lançou no passado mês de Julho um livro especificamente dedicado às raízes da guerra na Ucrânia. Intitulado "Ucrânia, variações de uma guerra inacabada", este livro compila uma série de artigos que o Major-General publicou nestes últimos anos sobre a história recente da Ucrânia.
Autor de cinco livros publicados sobre a Guerra Fria, o Afeganistão, ou ainda sobre o conflito na ex-Jugoslávia, o Major-General Carlos Branco analisa ao pormenor e desfaz o discurso oficial em torno do conflito na Ucrânia, baseando-se em fontes documentais e na sua experiência em diversas organizações internacionais, nomeadamente a Aliança Atlântica, no seio da qual ocupou o cargo de Director da Divisão de Cooperação e Segurança Regional, do Estado-Maior Militar Internacional da NATO, em Bruxelas.
Em entrevista à RFI, o Major-General Carlos Branco começa por apresentar no que consiste a sua obra sobre a Ucrânia.
RFI: Do que fala concretamente o seu livro?
Major-General Carlos Branco: Este livro é a compilação de mais de 70 artigos que eu fui publicando sobre o tema da guerra na Ucrânia, com uma série de artigos anteriores ao início da guerra propriamente dita em 2022, artigos publicados a seguir a 2014. Porque, na prática, a guerra não começa em 2022, começa em 2014 e é fundamentalmente uma reflexão no seu conjunto, claro, de uma uma interpretação realista das relações internacionais aplicadas ao caso concreto da guerra na Ucrânia. Basicamente, é uma análise centrada no papel das grandes potências na cena internacional. Neste caso concreto, o papel dos Estados Unidos e da Rússia e, no fundo, apresentar este conflito fundamentalmente com duas vertentes: a vertente internacional que envolve a afirmação hegemónica dos Estados Unidos. É apenas um capítulo, a guerra na Ucrânia, como outros, o Irão, como agora mais recentemente estas iniciativas para a Gronelândia, o controlo da Venezuela, o controlo do Canal do Panamá, etc. Portanto, uma dinâmica de conflito entre grandes potências e, nesse caso, uma tentativa dos Estados Unidos chegarem às fronteiras da Rússia, algo que uma grande potência não autoriza, não autoriza a Rússia, como também não autorizam os Estados Unidos, como também não autoriza a China. E depois há a outra dinâmica, que é um conflito que é fundamentalmente interno na Ucrânia, entre os diferentes grupos ucranianos. Porque a Ucrânia não é um país uno, é um país multinacional, é um país com vários grupos étnicos. E o que nós estamos a assistir é a tentativa de um grupo prevalecer relativamente aos outros, impondo-lhes uma série de coisas que para eles são inaceitáveis. Podíamos começar pelo exemplo da língua. O grupo que nesta altura se encontra no poder na Ucrânia, tenta que a língua ucraniana seja a única língua falada na Ucrânia. Quando nós sabemos perfeitamente que por toda a Europa democrática existem vários países multilingues e isso não é de modo nenhum uma excepção. São vários os países em que isso acontece. Não se compreende porque é que isto também não acontece na Ucrânia, um país que tem vários grupos étnicos e linguísticos. Portanto, a estes dois confrontos, este segundo confronto acabou por ser um confronto Ucrânia-Rússia. Uma vez que a esmagadora maioria da população do leste da Ucrânia é a população russa. Quando a população russa começou a ser atacada no rescaldo de um golpe de Estado de 2014 que derrubou um governo, um Presidente da República democraticamente eleito e instrumentalizado, sem qualquer margem para dúvidas e com a imensa evidência, por parte dos Estados Unidos, essas populações naturalmente reagiram. E houve, portanto, depois, uma solidariedade russa entre Moscovo e os seus 'irmãos' russos, que se encontravam inseridos na Ucrânia. Portanto, o livro elabora muito à volta dessas duas dinâmicas. Como é que elas se interceptam, como é que elas se influem mutuamente e como é que, em última análise, uma acaba por servir de instrumento à materialização da outra. Concretamente, refiro-me ao projecto hegemónico norte-americano que procura impor à Rússia uma derrota estratégica. Uma derrota estratégica essa que terá seguramente várias matizes, mas que fundamentalmente passa por colocar um governo que lhe seja favorável no Kremlin. E, portanto, a partir daí, desenvolver todas as suas acções, nomeadamente no domínio económico, do controlo energético, etc, etc. Se isso acontecesse, seria um controlo mundial por parte dos Estados Unidos e isso não vai acontecer. O que é de salientar, é mais um erro de cálculo estratégico dos Estados Unidos que nos tem vindo a habituar. Tiveram erros de cálculo no Vietname, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia. É mais um erro de cálculo estratégico no Irão, porque as coisas saíram quase que diametralmente opostas àquilo que eles queriam fazer. E é sempre a mesma tentativa de substituir um governo por outro que lhe seja favorável. E a partir daí, conseguem manobrar. Foi o que fizeram em Kiev. E portanto, Kiev, na prática, é peão deste grande xadrez entre as grandes potências.
RFI: Precisamente, desfaz uma série de mitos em torno das raízes da guerra, aquilo que foi apresentado como uma revolução em 2014, também desfaz os mitos sobre o que acontece dentro da própria Ucrânia, também sobre o estado da oposição dentro da Rússia e também dos próprios interesses, não só dos Estados Unidos, como também da Europa. No meio deste conflito, como é que está a Europa no meio disto tudo?
Major-General Carlos Branco: A Europa está num beco sem saída porque com estes dirigentes que estão no poder nesta altura, é difícil ver uma saída para este conflito. Inicialmente, a Europa acabou por aliar-se aos Estados Unidos e apoiar os Estados Unidos neste esforço contra a Rússia. Temos presente, por exemplo, a questão das sanções, etc. Mas a Europa, no meio disto tudo, foi extremamente prejudicada. Por exemplo, a questão energética. O modelo de desenvolvimento industrial europeu baseava-se muito na energia barata que era fornecida pela Rússia e isso acabou. E nós sabemos quem é que fez isso. Os Estados Unidos não permitiram que existisse essa relação entre a Europa, mas fundamentalmente, entre a Alemanha e a Rússia. Isso não é nada de agora, é uma coisa antiga. E a Europa, nesta altura, acaba por, em termos energéticos, consumir muito mais caro. O gás natural, vai comprá-lo aos Estados Unidos e não só, mas é muito mais caro e está a ter grandes dificuldades do ponto de vista do desenvolvimento económico e industrial, fundamentalmente porque não tem as matérias-primas que são indispensáveis para o novo paradigma económico, que passa fundamentalmente pela computação, a computação quântica, grande consumo de dados e a Europa não tem terras raras, para não falar na questão energética. Portanto, tem uma grande dependência. Mas o que é curioso é que a Europa está a falar para dentro, porque quando fala de autonomia, tem que perceber que não é autónoma e portanto, tem que considerar este elemento no processo de decisão e provavelmente terá que se adaptar do ponto de vista das políticas. Mas eu acho que o problema da Europa não é só a questão das matérias-primas. Repare, se nós tivermos em consideração as grandes tecnológicas mundiais, as 'sete magníficas' são todas americanas e nenhuma delas é europeia. E além disso, temos também a juntar-se a este grupo de grandes tecnológicas, também as chinesas. E quando falamos, por exemplo, de 'chips', a Europa é absolutamente deficitária nessa matéria. E se quisermos fazer uma análise mais profunda e verificarmos, por exemplo, as patentes nos mais variados domínios registadas pelos europeus e registadas pelos americanos e pela China, então pela China, muito mais, nós cada vez percebemos que existe uma 'décalage' aí. Repare, há cerca de talvez 20 anos, o PIB agregado da Europa era muito semelhante ao dos Estados Unidos. Hoje é cerca de dois terços. Portanto, quando falamos em dados concretos, nós podemos ter uma dimensão despida de preconceitos ideológicos e perceber que a Europa está numa regressão. Portanto, devia ter tomado uma série de medidas que pudessem inverter esse caminho. Mas as pessoas que estão nesta altura à frente da União Europeia e também dos países da Europa, não são pessoas qualificadas e, portanto, o caminho é escuro. Por exemplo, o comportamento da Europa relativamente a esta guerra na Rússia é uma coisa absolutamente difícil de explicar.
RFI: Precisamente, no seu livro fala da deterioração das relações da Europa não só com a China, mas também com a Rússia. E, portanto, tendo em conta que a Europa, ou pelo menos os seus dirigentes, conhecem qual é a agenda dos Estados Unidos relativamente a este conflito, como é que se explica que hoje em dia, os líderes europeus, nomeadamente do Reino Unido, da Alemanha e da França, estejam actualmente com um discurso que tende a dar crédito à possibilidade de um conflito aberto com a Rússia?
Major-General Carlos Branco: A explicação é difícil. Há várias possíveis. Uma delas é o facto de terem prometido às suas populações mundos e fundos e agora têm um nada para lhes dar. Não têm nada para lhes dar porque andaram a enganar as suas populações. Andaram a dizer que a Rússia não tinha mísseis, não tinha tecnologia, era apenas uma estação de serviços com armas nucleares. Portanto, deram uma imagem absolutamente errada da situação. Inclusivamente alinharam também num erro de cálculo estratégico, descurando a história. E nós sabemos o que tem sido o comportamento dos europeus relativamente às diferentes Rússias desde o século XVII que tem havido sempre tentativas de invasão da Rússia. A última foi no século XX, esta levada a cabo pelo presidente Biden. Era mais uma aventura, mas essa aí a iniciativa vinha do outro lado do Atlântico. A situação dos europeus relativamente à Rússia é diferente de país para país. Há um ódio visceral entre os russos e os ingleses. Relativamente à Alemanha, a situação tem outros matizes. Mas para responder à sua questão, esta gente andou a dizer que o caminho era a vitória, que íamos ser todos muito felizes e iriam fazer-se grandes negócios na Rússia, aliás, preferencialmente provocando a implosão da Federação e fazer negócios com as diferentes federações e ganhar muito dinheiro. Onde é que estamos? Agora estamos passados cinco anos numa Rússia que está na mó de cima do ponto de vista militar, como do ponto de vista económico, independentemente dos ataques que sofreu na sua profundidade, fundamentalmente nos últimos dois meses, o que é um facto, é que a Rússia não vai claudicar. E cada vez apresenta uma capacidade bélica maior. Como se está a verificar agora, há quase uma semana que Kiev está em permanente ataque e parece que estes dirigentes não perceberam ainda que se atingiu o 'impasse doloroso' e que se calhar, era altura de negociar. Era a altura de falar, era altura de pôr a diplomacia em cima da mesa. Mas isso não vai acontecer porque não estou a ver a Kaja Kallas (chefe da diplomacia da UE) com os requisitos mínimos para se encontrar na função em que se encontra. Tivemos, aliás, uma coisa absolutamente chocante. Houve uma reunião dos ministros das Finanças do G20 (esta semana) nos Estados Unidos. Repare bem nisto: o ministro das Finanças russo foi convidado pelo ministro das Finanças americano porque os Estados Unidos eram a nação anfitriã do evento e os países europeus recusaram-se a tirar uma fotografia dos participantes na reunião. Portanto, com esta gente, não vai haver nunca diplomacia. A situação vai-se agravar ou vai continuar. A isto acrescentam-se as iniciativas de Trump relativamente ao Médio Oriente, o petróleo, independentemente daquelas tiradas de Trump para que o petróleo afinal suba menos um bocadinho. O que é um facto é que continua a subir a inflação na Europa, salvo erro, já vai na casa dos 3% e eu não vejo como é que isto vai ser revertido, porque os europeus parecem estar empenhados em ir para o confronto militar. E hoje tivemos este caso absolutamente estúpido o argumento do tal drone que os alemães não conseguiram descobrir quem e que lhes rebentou com o Nord Stream (gasoduto Alemanha-Rússia), mas descobriram agora, passado um mês, que teria sido a Rússia, mas não apresentaram provas. Eu não estou a dizer que não foram os russos que fizeram aquilo, embora eu não perceba para quê. Eu não entendo. Mas não vamos excluir a possibilidade de terem sido os russos. Apresentem provas. Isso é a primeira questão. Mas isto só está a ser trazido ao de cima, porque Merz (o chanceler alemão) leva nesta altura cerca de 20 pontos de atraso relativamente à AFD (partido de extrema-direita) e vai ter eleições dentro de menos de uma semana. Isto é que é o problema e portanto estão a utilizar uma situação destas para procurar tirar benefícios em termos de política interna. Não há outra palavra. Mas isto cria dinâmicas. Por exemplo, ouvimos o secretário-geral da NATO a fazer uma série de afirmações absolutamente ignóbeis que, no fundo estava a alinhar com esta farsa toda e no fundo a criar situações que depois são extremamente difíceis de serem revertidas.
RFI: No seu livro diz que no começo do conflito tinha havido uma possibilidade de eventualmente se chegar a um acordo de paz que foi impossibilitada, nomeadamente por líderes europeus, que convenceram Zelensky de que poderiam ter um acordo melhor e, portanto, relativamente a esta situação, quais são as possibilidades que existem neste momento de eventualmente negociar, sentar à mesa, discutir, chegar a um acordo?
Major-General Carlos Branco: Eu vejo isso de forma muito remota. Isso só será possível, isso que eu vou dizer é incómodo, mas penso que nesta altura não há outra volta que é a vitória militar de uma das partes. Só haverá negociações quando se atingir aquilo que se chama de 'impasse doloroso', quando as partes perceberem que têm mais a ganhar à mesa das negociações do que no campo de batalha. Quando psicologicamente interiorizarem essa situação -e é o que nós dizemos- atingiu-se a maturidade e, portanto, há portas abertas para se avançar nesse caminho. Agora estamos longe de isso acontecer, porque a Ucrânia está a ser partida todos os dias. Há um sofrimento brutal para o povo ucraniano, mas os seus dirigentes estão a alimentar uma situação que está perdida. E eu sublinho isto. Mas vai ser até ao último ucraniano. Exactamente. Estes líderes não têm maturidade para perceber isto que eu estou a dizer e portanto vão continuar até ao fim. Para isto contribui também o papel dos europeus, porque se os europeus não dessem fogo a esta fornalha, se não criassem nos ucranianos o sonho de que isto pode ser revertido, de que podem derrotar a Rússia, quer dizer, eu não consigo perceber como é que isso acontece. O próprio chefe de gabinete do presidente Zelensky, Kyrylo Budanov, mas não só, foi também o seu lugar-tenente, que vieram dizer que a Ucrânia precisa de 30.000 soldados por mês. Não sou eu que digo. Portanto, um país que se encontra numa situação destas, que tem largos milhões de cidadãos fora das suas fronteiras, que está a recrutar da forma que é conhecida, que as pessoas são apanhadas no meio da rua e levadas à força, um país que está numa situação destas, a meu ver, está numa situação de grande vulnerabilidade. Mas os seus dirigentes continuam a achar que não. 'Não, isto ainda a gente ainda pode ganhar'. Portanto, é exactamente por causa disso e pela irresponsabilidade do estímulo que é dado pelos presidentes europeus. Aliás, vimos agora quando foi das comemorações do 35.º aniversário da independência da Ucrânia e que foram lá uma série de dirigentes a Kiev. E eles estavam com uma cara muito sorridente a tirar uma fotografia com o presidente. E eu interrogo-me: estão sorridentes porquê? Quer dizer, isto é de uma falta de senso e de uma falta de capacidade de análise da situação. Esta gente não sabe o que é que está a acontecer. Vivem numa bolha exactamente por causa disso. O futuro não pode ser brilhante. Para já, veremos se não há nenhuma movimentação incauta por parte de determinados países da Europa e que venham depois chamar a NATO. Até porque a tentativa de envolver a NATO com este argumento do ataque directo e na tentativa de provocar o artigo quinto (defesa colectiva no caso de um membro ser atacado), já houve várias. Portanto, nós estamos recordados quando houve o míssil ucraniano que caiu na Polónia e que matou, salvo erro, dois agricultores (em Novembro de 2022). O ministro dos Negócios Estrangeiros polaco e a Ucrânia começaram logo a dizer 'isso foi à Rússia, foi à Rússia' e, portanto, já abriu portas para Zelenksy, porque sabe que não consegue sozinho ganhar a guerra. Precisa dos europeus. E o Biden veio mandá-los calar. Objectivamente, foi isso que aconteceu. Portanto, não alinhou nesse projecto porque o que queria, não era criar uma guerra na Europa. O que queria era remover o Putin do poder e colocar lá um seu apaniguado. Mas é que as pessoas às vezes não conseguem distinguir uma coisa da outra. Aliás, isso é outra coisa importantíssima. Biden nunca esteve muito empenhado na vitória militar da Ucrânia. Isso é outra questão que está profusamente documentada. O que ele queria era provocar uma alteração do poder em Moscovo. São coisas diferentes. poderão ter caminhos paralelos, poderão interceptar-se nalgumas fases, mas são coisas diferentes porque, em última análise, o objectivo estratégico é distinto. Portanto, não ter clarividência sobre esta matéria é dramático.
RFI: Outro aspecto também importante do seu livro tem a ver com a forma como também são apresentados os acontecimentos pela comunicação social aqui na Europa. É bastante crítico relativamente ao papel da comunicação social.
Major-General Carlos Branco: Sim, é verdade. A comunicação social está, com algumas excepções, mas muito reduzidas, plenamente alinhada com uma das partes, está entrincheirada e, portanto, não é um espaço de debate sobre o que está a acontecer, mas é fundamentalmente um espaço onde se divulga de uma forma exclusiva e frequentemente propagandística, os pontos de vista de uma das facções. E o espaço de debate está extremamente reduzido. E muitas das vezes quem tem uma opinião que não coincide com a do meio, acaba por ser marginalizado. Associado a isso, a União Europeia tem-se tornado cada vez mais um organismo autoritário, porque há indivíduos que tiveram maior protagonismo no espaço público e o que lhes aconteceu foi inclusivamente congelarem-lhes as contas bancárias. Portanto, isto que está a acontecer é uma deriva autoritária na qual a comunicação social está a alinhar. Relativamente a estas matérias, não vi estas notícias na televisão e muito menos manifestação de desconforto e de discussão destes assuntos, porque estes assuntos são cruciais. Os americanos saberão muito bem o que aconteceu no rescaldo do 11 de Setembro e as tentativas de calar opiniões, críticas e outras opiniões, vamos pôr isto nesses termos, e a Europa vai por esse caminho.
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