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De Halbwachs a Koselleck, a história, a memória e as revoluções têm sido temas de constantes visitações e inquietações. Para o primeiro, existem memórias construídas coletivamente, que vão além do individual, e que são arquivadas como memória oficial da sociedade; para o outro, chamar algo de revolução ou de revolta é um ato de legitimação exercido por quem tem o privilégio de outorgar nomes e categorias.
Quando se fala sobre Cuba, todas essas discussões vêm à tona inevitavelmente. Nas últimas décadas o embate do revisionismo tem querido emplacar a ideia de que a ilha pré-revolução era um grande paraíso de prosperidade e avanço econômico.
Esse assunto dá a motivação inicial para o episódio dessa semana, que sai justamente no aniversário de Fidel Castro, a figura que fez de Cuba um ponto visível no universo.
Qual era o projeto de país proposto pela Revolução? Como foram pensadas as instituições e os processos dentro do universo socialista cubano? O que é sacrificado no caminho da construção de um ideal de país?
Nos acompanhe em mais um capítulo de Cuba do avesso.
Essa semana o desafio é falar sobre oposição em Cuba. E chamamos de desafio porque este não é mais um grupo uniforme ou fácil de ser definido. Talvez nunca foi, mas alguns elementos eram comuns à maior parte dos que se autoproclamavam opositores do governo: ligações diretas com os Estados Unidos, sentimento diaspórico e discurso agressivo. Hoje, apesar de que algumas dessas características ainda podem ser encontradas, o espectro da oposição se ampliou, ganhando uma heterogeneidade maior e aderind o pautas e discursos mais universais.
Do 27N ao Movimento San Isidro e as manifestações populares; da intelectualidade às redes sociais, muita coisa pode e deve ser falada sobre os movimentos opositores em Cuba, mas sem o intuito de esgotar o assunto, escolhemos focar nos pontos fundamentais do cenário atual para tentar entender como essa “nova” oposição se coloca (dentro e fora de Cuba) nas estratégias políticas da ilha.
Diante do fato de que a maior parte dos atores levantados pela mídia internacional e, inclusive, aqueles outros que conseguiram ter um diálogo direto com a administração Biden, pertencem à bolha da cultura, achamos necessário explicar porque o setor cultural e intelectual cubano é um dos principais alvos da política intervencionista dos Estados Unidos. Nesse setor, fundações, universidades e ONGs norte-americanas e europeias tem investido consistentemente milhões de dólares em ajudas, fomentos, inserção nos circuitos internacionais, bolsas de estudo e premiações. Pelo que não é difícil encontrar entre as principais caras da oposição atual, jovens criadores, que alimentam um descontentamento com o espaço que suas produções têm dentro dos estreitos limites da produção nacional.
Mas qual o peso deles dentro de Cuba? Existe de fato uma intenção de diálogo? Qual o papel das redes sociais na criação da representação desses atores?
Nos acompanhe em mais um capítulo de Cuba do Avesso.
Textos recomendados:
La contrarrevolución cultural cubana: raperos y artistas apoyados por el gobierno de EE.UU. ganan fama como “catalizadores de las protestas”
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J11 in Cuba and the United States’ role: a contribution to the debate
Template Revolutions: Marketing U.S. Regime Change in Eastern Europe
Exporting exile on TV Martí
How Foundations exercise power
NGOs and ‘modernization’ and ‘democratization’ of media
Os teóricos o chamam de entrelugar. Para ela, a migração tem sido um caminho de reencontro com a cubanidade, e é hoje parte de uma conciliação entre suas duas metades.
Yipsy nasceu e cresceu em Cuba, lá se formou como engenheira e trabalhou até que, em 2005, decidiu vir para o Brasil fazer um mestrado. Seu objetivo não era migrar, mas aqui está ela, 16 anos depois, porque a vida é um caminho não escrito.
Neste episódio de Cuba do Avesso, ela nos conta sobre essa vida construída no Brasil, sua relação com Cuba, suas impressões sobre o momento atual da ilha e ainda dá umas dicas de filme e música que ajudam a entender um pouco melhor a vida no singular país do Caribe.
Convidada: Yipsy Roque
Foto / Arte: Rosana Berjaga Méndez
Gravação, montagem e Edição: Leonardo Farah
Mais uma semana difícil na ilha do Caribe. Por trás da aparente calma, que alguns colocam como presságio de uma nova tormenta, uma guerra de narrativas toma conta dos espaços simbólicos dentro e fora da ilha. País adentro, uma tentativa de colocar uma pedra em cima dos eventos e seguir em frente através da pacificação e da aplicação de medidas emergenciais. Fora das fronteiras, por outro lado, o empenho é por não deixar morrer a raiva que estremeceu o país nos últimos dias e conseguir tirar dele o melhor proveito.
A pergunta que fica é: o melhor proveito para quem?
Bem-vindos ao terceiro capítulo do nosso Podcast Cuba do Avesso.
Texto da Introdução - Manuel Castells - Ruptura: A crise da democracia liberal
Foto / Arte: Rosana Berjaga Méndez
Gravação, montagem e Edição: Leonardo Farah
Para entender o que acontece em Cuba desde o passado 11/07 é preciso saber de três questões essenciais:
1. As manifestações (algumas pacíficas e outras não) que levantaram reclamos iniciais como comida, eletricidade e medicamentos, e que depois evoluíram entre alguns manifestantes para pautas como liberdade ou queda do sistema.
2. Uma má gestão da crise de parte do governo, que incitou ao confronto no lugar de chamar ao diálogo e autorizou / promoveu ações repressivas, deslegitimando os protestos.
3. Uma campanha de manipulação externa que pegou carona nos reclamos dos manifestantes para emplacar pautas anexionistas e pedir intervenção militar externa na ilha.
O podcast dessa semana é uma tentativa de analisar a tensão que Cuba vivencia hoje, a partir dos fatos, mas passando inevitavelmente pelo coração apertado de uma cubana, que se entende também como pesquisadora e analista política, e um brasileiro cidadão-político que embarcou nessa difícil aventura de contar um país.
Foto / Arte: Rosana Berjaga Méndez
Edição de áudio: Leonardo Farah
Sobre Cuba existem tantas histórias como versões tem o nascimento do mundo. Eu já tinha percebido isso, mas parar para pensar, de verdade... apenas quando me esbarrei, durante a minha dissertação de mestrado, com uma frase de Fernando Morais, incluída no seu livro A Ilha: “Todas as orações, no que se escreve sobre Cuba, têm cláusulas restritivas, a favor ou contra. Tudo que se diz da ilha, de bem ou de mal, parece vir com um fundo falso feito mala de contrabandista”. Até esse momento, eu achava que meu papel como pesquisadora e como pensadora devia ser me manter isenta, para não comprometer a credibilidade da minha pesquisa. Não sei se você sabe, mas todo cubano que sai de Cuba passa por um rígido processo de escrutínio externo para definir se ele é a favor ou contra os Castro, se ele fugiu ou se é um enviado do governo, como se para os cubanos, não existissem mais opções do que ser fugitivo ou agente. Dito assim parece absurdo, né? Mas na maior parte das vezes, você acaba sendo coagido para se referir ao seu próprio país de origem como o inferno ou o paraíso, e dependendo de sua plateia, você será vitimizado, sem importar o seu posicionamento. Mas o que é realmente engraçado é que tenha sido a leitura de um autor brasileiro o que abriu os meus olhos para o fato de que Cuba é um lugar tão complexo e tão silenciado, que eu precisava, sim, defender um posicionamento e dar valor a ele.
É por isso que nasceu esse podcast e desde já aviso, se você chegou aqui procurando “A verdade”, assim em caixa alta, não é aqui, porque Cuba é muitos países dentro de um único país. Eu estou aqui para contar sobre aquele lugar que meus pais, meus amigos e eu construímos, sofremos e amamos, que não necessariamente é o mesmo país daquele seu vizinho cubano ou daquele seu amigo que viajou para Cuba e achou o paraíso... ou o inferno. Aqui você vai achar discussões políticas e geográficas, mas também comentários sobre música, religião, comida, tradições, porque? Porque eu acredito firmemente que falar em cultura e em comida é tão político quanto falar em regimes.
Agora que você está avisado, aceite nosso convite para desaprender tudo o que você já ouviu sobre o meu país e permita-se enxergar um país real, com seus erros e acertos.
Bem-vindo a Cuba do avesso.
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