Desvelada

Desvelada

By Ravena OlindaArtsBooks
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Desvelada episodes

  • Amar - Carlos Drummond de Andrade
    Que pode uma criatura senão,
    Entre criaturas, amar?
    Amar e esquecer, amar e malamar,
    Amar, desamar, amar?
    Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
    Que pode, pergunto, o ser amoroso,
    Sozinho, em rotação universal, senão
    Rodar também, e amar?
    Amar o que o mar traz à praia,
    O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
    É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
    Amar solenemente as palmas do deserto,
    O que é entrega ou adoração expectante,
    E amar o inóspito, o cru,
    Um vaso sem flor, um chão de ferro,
    E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
    E uma ave de rapina.
    Este o nosso destino: Amor sem conta,
    Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
    Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
    E na concha vazia do amor à procura medrosa,
    Paciente, de mais e mais amor.
    Amar a nossa falta mesma de amor,
    E na secura nossa, amar a água implícita,
    E o beijo tácito, e a sede infinita.
    2 min
  • Cântico Negro - José Régio
    Cântico negro
    José Régio
    "Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
    Estendendo-me os braços, e seguros
    De que seria bom que eu os ouvisse
    Quando me dizem: "vem por aqui!"
    Eu olho-os com olhos lassos,
    (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
    E cruzo os braços,
    E nunca vou por ali...
    A minha glória é esta:
    Criar desumanidades!
    Não acompanhar ninguém.
    — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
    Com que rasguei o ventre à minha mãe
    Não, não vou por aí! Só vou por onde
    Me levam meus próprios passos...
    Se ao que busco saber nenhum de vós responde
    Por que me repetis: "vem por aqui!"?
    Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
    Redemoinhar aos ventos,
    Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
    A ir por aí...
    Se vim ao mundo, foi
    Só para desflorar florestas virgens,
    E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
    O mais que faço não vale nada.
    Como, pois, sereis vós
    Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
    Para eu derrubar os meus obstáculos?...
    Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
    E vós amais o que é fácil!
    Eu amo o Longe e a Miragem,
    Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
    Ide! Tendes estradas,
    Tendes jardins, tendes canteiros,
    Tendes pátria, tendes tetos,
    E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
    Eu tenho a minha Loucura !
    Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
    E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
    Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
    Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
    Mas eu, que nunca principio nem acabo,
    Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
    Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
    Ninguém me peça definições!
    Ninguém me diga: "vem por aqui"!
    A minha vida é um vendaval que se soltou,
    É uma onda que se alevantou,
    É um átomo a mais que se animou...
    Não sei por onde vou,
    Não sei para onde vou
    Sei que não vou por aí!
    José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.
    3 min
  • Retrato - Cecília Meireles
    Retrato
    Eu não tinha este rosto de hoje,
    assim calmo, assim triste, assim magro,
    nem estes olhos tão vazios,
    nem o lábio amargo.
    Eu não tinha estas mãos sem força,
    tão paradas e frias e mortas;
    eu não tinha este coração
    que nem se mostra.
    Eu não dei por esta mudança,
    tão simples, tão certa, tão fácil:
    - Em que espelho ficou perdida
    a minha face?
    Cecília Meireles , Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.
    1 min
  • Menino do Mato - Manoel de Barros
    Eu queria ser banhado por um rio como um sítio é.
    Como as árvores são.
    Como as pedras são.
    Eu fosse inventado de ter uma garça e outros pássaros em minhas árvores.
    Eu fosse inventado como as pedrinhas e as rãs em minhas areias.
    Eu escorresse desembestado sobre as grotas e pelos cerrados como os rios.
    Sem conhecer nem os rumos como os andarilhos.
    Livre, livre é quem não tem rumo.
    1 min
  • Te amo - Pablo Neruda
    te amo de uma maneira inexplicável
    de uma forma inconfessável
    de um modo contraditório
    Te amo
    Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
    e mudam de humor continuadamente
    pelo que você já sabe
    o tempo
    a vida
    a morte
    Te amo
    Te amo, com o mundo que não entendo
    com as pessoas que não compreendem
    com a ambivalência de minha alma
    com a incoerência dos meus atos
    com a fatalidade do destino
    com a conspiração do desejo
    com a ambiguidade dos fatos
    ainda quando digo que não te amo, te amo
    até quando te engano, não te engano
    no fundo levo a cabo um plano
    para amar-te melhor.
    Te amo
    Te amo, sem refletir, inconscientemente
    irresponsavelmente, espontaneamente
    involuntariamente, por instinto
    por impulso, irracionalmente
    de fato não tenho argumentos lógicos
    nem sequer improvisados
    para fundamentar este amor que sinto por ti
    que surgiu misteriosamente do nada
    que não resolveu magicamente nada
    e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
    melhorou o pior de mim
    Te amo
    Te amo com um corpo que não pensa
    com um coração que não raciocina
    com uma cabeça que não coordena
    Te amo
    Te amo incompreensivelmente
    sem perguntar-me porque te amo
    sem importar-me porque te amo
    sem questionar-me porque te amo
    Te amo
    simplesmente porque te amo
    eu mesmo não sei por que te amo
    2 min

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