Diálogos na USP - USP

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Diálogos na USP - USP episodes

  • Diálogos na USP #15 - Democracias da América do Sul passam por período conturbado
    A América do Sul tem passado por intensas convulsões políticas e sociais. Renúncia de Evo Morales na Bolívia, protestos generalizados no Chile, crise no Equador e turbulências entre presidente e Congresso no Peru são apenas alguns dos fatores agravantes na situação. Nem mesmo as eleições na Argentina e no Uruguai foram capazes de tirar os países de debate. O cenário venezuelano, então, está longe de encontrar uma solução.
    Para comentar o assunto, o Diálogos na USP convidou Alberto Pfeifer, professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, especialista em América Latina, que atua como coordenador do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (GACInt) da USP.
    Além dele, o programa recebeu Everaldo de Oliveira Andrade, professor de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, mestre em História Econômica, que está lançando o livro Bolívia – A Revolução Boliviana.
    Everaldo Andrade explica que as jovens democracias da América do Sul estão passando por um período conturbado devido ao sentido que se aplica à democracia. Ela não pode ser vista como uma palavra vazia, deve ter conteúdo, priorizando a ampliação dos direitos sociais, o zelo pelos mais pobres, a construção de políticas sociais e o pleno atendimento de reivindicações populares. O pesquisador diz ainda que parte da desorganização das economias de tais países e sua instabilidade são reflexos da crise econômica de 2008.
    Alberto Pfeifer diz que o que está se passando é uma revisão de processo. Nota-se uma diminuição dos conflitos interestatais e fortalecimento da democracia formal. A primeira década dos anos 2000, com o aumento de preço das commodities e exportações, fez com que os países passassem por um momento de enriquecimento e bonança econômica. Todavia, crescimento econômico não é sinônimo de satisfação popular, já que, apesar de o país ganhar dinheiro, a distribuição não é realizada de forma justa. Pesquisas recentes divulgadas pelo Latinobarómetro indicam que a população sul-americana está decepcionada com o regime democrático dos países.
    O Brasil, de acordo com Everaldo Andrade, é um exemplo da situação ilustrada. A má distribuição de renda também desequilibra a possibilidade de uma democracia razoável. Ele explica que a corrupção é um problema que existe, mas que não é exclusivo da América do Sul e que, apesar de relevante, pode ser também um foco dado pela mídia para desestabilizar os regimes. Considerando manobras do passado, o historiador cita os novos processos constituintes apresentados na Bolívia, Equador e Venezuela, que buscaram caminhos alternativos para aumentar a participação popular. Ainda não é possível afirmar o sucesso da ideia, mas, acredita-se que o fato permitiu superar algumas crises passadas.
    Alberto Pfeifer diferencia o formalismo democrático do exercício democrático propriamente dito. O segundo seria o acesso democrático aos bens públicos e ao bem-estar de forma geral, considerando que o crescimento de renda não reflete o acesso a serviços públicos de qualidade. O professor também explica que as Constituições são inspiradas em regimes populistas do início dos anos 2000, como o de Hugo Chávez na Venezuela. Ele foi o grande mentor da transformação na relação entre Estado e sociedade, e Rafael Correa no, Equador, e Evo Morales, na Bolívia, seguiram tal inspiração. No entanto, todos os processos devem ser pensados considerando o contexto do país em discussão.
    57 min
  • Diálogos na USP #14 - “Tentar limitar a arte é um perigo, você cria robôs”
    O Brasil produz mais de 150 filmes por ano, com grande diversidade regional e temática. Segundo dados da Ancine, no ano de 2017, por exemplo, o público de filmes nacionais ultrapassou 17 milhões de espectadores, gerando uma renda de R$ 240 milhões. Entre os 463 longas-metragens lançados no País, 160 eram brasileiros. Ainda assim, há pontos que precisam ser mais bem entendidos no atual cenário de produção cinematográfica brasileiro,  como o financiamento das produções, a distribuição dos filmes, a recente censura velada a produções como Aquarius e Marighella e o papel da Ancine.
    Para debater sobre os dilemas do cinema brasileiro e suas possíveis soluções, o Diálogos na USP recebeu o professor Roberto Franco Moreira, da Escola de Comunicações e Artes da USP, diretor de cinema e de séries de televisão, e o cineasta David Schurmann, diretor de vários filmes, entre eles Pequeno Segredo, selecionado para representar o Brasil no Oscar em 2017.
    Roberto Moreira afirmou que “tivemos esse surto de produção, alguns filmes que conquistaram e vêm conquistando cada vez mais espaço nos festivais internacionais, então, este ano, foi muito importante a participação do Bacurau, de Uma Vida Invisível, no Festival de Cannes”. Ainda assim, no mercado, os nossos filmes estão com dificuldades. O professor explicou que, na verdade, “a gente não tem a presença que os filmes dos anos 70 tiveram no mercado. Naquela época, tínhamos mais de 30% de marketshare e hoje a média é em torno de 13%”.
    David Schurmann relembrou que, naquela época, “não tínhamos streaming, cabo, televisão, enfim, outras formas de as pessoas consumirem cinema ou cultura audiovisual”. Dessa forma, o desafio de dialogar com o público fica maior. “Os grandes filmes da Marvel e desses grandes impérios conseguem arrastar a juventude para assistir ao filme. Eu acho que nós, como cineastas brasileiros, não estamos conseguindo dialogar através do cinema, mas sim através de outras plataformas”, afirmou o cineasta.
    Moreira recordou alguns casos de censura velada do governo e afirmou que “existe um limite para a ação do governo, que é dado pela Constituição, e a gente tem que lutar para garantir que não haja censura no Brasil. Dito isso, é claro que o governo federal tem condições, sempre teve e sempre as exerceu, de controlar mais ou menos a produção cinematográfica. É assim desde a ditadura militar”. O professor ainda complementou que, “enquanto a produção cinematográfica estiver atrelada ao financiamento estatal, do jeito que ele é, vai passar por essa censura”.
    O caso do filme Bruna Surfistinha é um exemplo, para Schurmann, de uma hipocrisia crescente não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. “O caso da Bruna Surfistinha é fantástico. Se o brasileiro tem curiosidade de assistir, e é uma vida, uma realidade de muita gente, tentar censurar isso é como esconder o sol com a peneira”, disse. O cineasta ainda disse acreditar que “tentar limitar a arte é um perigo enorme, porque você cria robôs, pessoas pensando da mesma forma sem poder ser expostas a coisas diferentes”.
    54 min
  • Diálogos na USP #13 - Envelhecimento ainda é visto com medo e preconceito
    De acordo com dados da ONU, há 962 milhões de pessoas no mundo com mais de 60 anos. A estimativa é que esse número continue aumentando nas próximas décadas: em 2030, serão 1,4 bilhão de idosos em todo o planeta. Em 2050, todas as regiões do mundo, com exceção da África, terão um quarto de sua população formada por pessoas com mais de 60 anos, totalizando 2,1 bilhões de idosos. No Brasil, segundo dados do IBGE, a população idosa irá dobrar até 2042.
    Para debater o espaço do idoso na sociedade e o ageísmo, o Diálogos na USP, apresentado por Marcello Rollemberg, recebeu Egídio Dorea, médico nefrologista do Hospital Universitário, responsável pelo programa de envelhecimento ativo da Universidade de São Paulo, coordenador da Universidade Aberta à Terceira Idade e diretor do Centro Internacional de Longevidade, e a professora Marília Louvison, da Faculdade de Saúde Pública da USP, médica sanitarista, conselheira da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e também do Centro Internacional de Longevidade.
    O ageísmo foi um termo criado, em 1969, por Robert Butler, gerontologista norte-americano. O termo foi cunhado com base em denominações já existentes, como racism e sexism, e aí surgiu o ageism, que, de acordo com Egídio Dorea, “seria o ato de você criar estereótipos, geralmente negativos, ou discriminar pessoas ou um grupo de pessoas baseados na sua idade”. O médico relembrou que as descrições negativas do envelhecimento datam de muito antes. “A primeira descrição que nós temos do envelhecimento data de 2500 a.C., quando um poeta egípcio definiu o envelhecimento como algo penoso”, afirmou.
    A professora Marília Louvison ressaltou que esse preconceito não vem apenas dos mais jovens e que muitas vezes aparece nos mais velhos também. “Às vezes, as próprias pessoas que envelhecem têm um certo preconceito de que não são velhos. A gente quer viver para sempre sem ficar velho”, disse. Ao invés da negação da passagem do tempo, Marília acredita que “temos que pensar como envelhecer bem, e não como não envelhecer”.
    Marília Louvison apontou que as políticas públicas estão longe do necessário, muito devido aos vários problemas enfrentados pelos idosos simultaneamente. “O idoso, ele, a princípio, não tem aquela doença única, aguda, que o médico faz o diagnóstico, trata e cura. Esses probleminhas se atrapalham”, explica. As várias adversidades muitas vezes requerem um coquetel de medicamentos, que podem ter interação entre si. Por isso, a professora conta que “o geriatra, quando vai cuidar de um idoso, a primeira coisa que ele faz é tirar todos os remédios para ver o que sobra, o que realmente é necessário”.
    Egídio Dorea ressaltou a importância de se ter um planejamento para a velhice focado na prevenção de doenças e não apenas no tratamento. “A partir do momento que você faz uma promoção de hábitos saudáveis de vida, que você faz uma prevenção efetiva de doenças e não fica somente focado na questão do tratamento, você vai ter uma probabilidade maior de envelhecer de uma forma saudável”, afirmou.
    52 min
  • Diálogos na USP #12 - Como os impactos ambientais têm afetado a economia mundial?
    Quando se fala em mudanças climáticas, pensa-se logo em problemas envolvendo o meio ambiente. No entanto, o fato não se resume a isso, mas envolve também um desafio social e econômico. Este foi o tema do Diálogos na USP, da Rádio USP, desta semana. Apresentado pelo jornalista Marcello Rollemberg, o programa contou com a presença de Elisabeth de Almeida Meirelles, professora da Faculdade de Direito (FD) da USP e especialista em Direito Internacional Público e Direito Ambiental, e de Wagner Costa Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP.
    Foi na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, também conhecida como Rio 92 em razão de sua sede, que as discussões sobre o clima começaram a se firmar. Ribeiro explica que, na época, todos os países envolvidos concordaram em reduzir a emissão de gases de efeito estufa, o que não tinham como certeza era quando e quem seria responsável por isso.
    Anos mais tarde, em 1997, foi assinado o Protocolo de Kyoto, que conseguiu fazer com que 37 países somados à União Europeia (UE) estabelecessem metas de redução dos gases. Finalmente, em 2015, com o Acordo de Paris, os países passaram a apresentar metas voluntárias com um valor fixo de redução; todavia, vê-se hoje que o número ainda é insuficiente para reduzir o aquecimento global de maneira ideal.
    Elisabeth Meirelles acredita que, mesmo com tantas convenções e acordos, o que tem sido observado é uma distorção da situação, a qual transforma a questão em uma bandeira para defender certa posição política. Há uma manipulação ideológica, os líderes mundiais se apropriaram da questão de uma forma que se sentem livres para ignorar a ciência.
    Ribeiro traz à tona a questão do aquecimento global: alguns creem que há uma mudança natural do clima, outros justificam com a ação humana e muitos sustentam o discurso de que tudo isso é uma invenção. Todavia, os dados são objetivos e as variações climáticas, perceptíveis. É preciso analisar a forma em que se está vivendo e modificar o estilo de vida, as matrizes energéticas, entre outros fatores cruciais para a solução do problema.
    No âmbito econômico mundial, Elisabeth exemplifica o descaso do governo com as mudanças climáticas, usando as grandes empresas. O que seria mais cômodo, aumentar seus gastos em prol de uma causa ou se manter no discurso de que o aquecimento global é uma invenção? O dinheiro será priorizado através da apropriação de um discurso. Olhando para o Brasil, nota-se um retrocesso da sua posição e um encolhimento do mesmo em discussões fundamentais, fator prejudicial no campo econômico.
    53 min

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