Este era o episódio que sabia que queria gravar ainda antes de saber que queria criar um podcast.
Falar sobre a violência doméstica de forma não romântica mas também descomplexada, com respeito e sublinhando tantas dores diferentes, com algum riso porque é nele que tudo passa, é a missão que abracei para a vida e que ganha aqui voz pela primeira vez. Depois de tantas partilhas escritas, chegou a hora de gritar. Não o faço por mim, nem por aquela Filipa frágil que tão pouco diz de quem sou. Faço-o por quem já não pode. Por quem gritou vezes demais.
Há quatro anos, quando me libertei, não sabia que a minha história seria essencial no mundo de alguém, que transformaria vidas, que traria conforto, reconhecimento, esperança ou futuro. Receber uma mensagem da Irina, em partilha e confissão, o agradecimento e o laço eterno naquelas palavras, fez-me perceber que é preciso nunca calar. Não calar faz a diferença.
A Irina foi a primeira, mas outras mensagens se seguiram. O exemplo inspira a força. Eu fiquei tão mais forte também.
O que mais importa dizer, reforçar, lembrar, é que a violência doméstica acontece todos os dias, não tem rosto nem nome, conta bancária ou posição, estatuto ou género, idade ou experiência. Pode colar-se a todos aqueles que, em determinado momento, amam o outro mais do que o eu. É uma verdade escondida na vergonha, calada na culpa, é um momento que tudo muda. Ninguém está imune. E é por isso que nos devemos fortalecer de fé própria, olhar para os sinais com abertura para as decisões difíceis, ouvir a intuição porque sabemos sempre quando algo não é certo.
Nunca é simples, ainda assim, é por não ser que os acontecimentos se sucedem. Nesta conversa, tentámos descontruí-la, à violência nas suas tantas formas, na humildade e gratidão de reconhecer que as nossas tiveram um final feliz, mas que outras tantas historias acabam, às mãos deste "amor", num silêncio profundo. É por elas, volto a dizer. É para elas.
Fizemo-lo de forma distante e ao mesmo tempo próxima, leve e forte também, porque no fim, é isso que fica para quem nos ouve e cala, para quem nos entende e foge: podemos crescer distantes da agressão. É possível ser feliz. Há vida depois de tudo.
Peçam ajuda. Nós também estamos aqui para isso. ♡