Uma obra seminal onde Daniel Defoe, com realismo minucioso e profundidade filosófica disfarçada de aventura, cria o que muitos consideram o primeiro romance verdadeiro da literatura inglesa. Através de Robinson Crusoé, um jovem de classe média que rejeita a vida burguesa segura oferecida por seu pai para buscar fortuna nos mares, somos convidados a uma exploração da individualidade, autossuficiência e colonização que se tornaria um mito fundador da modernidade ocidental.
Um romance que começa com a rebeldia juvenil de Crusoé, que ignora os conselhos paternos para seguir uma carreira respeitável e embarca em uma série de viagens marítimas cada vez mais ambiciosas. Após experiências como comerciante na África e dono de plantação no Brasil, sua ambição o leva a uma expedição escravagista que termina em desastre quando seu navio naufraga durante uma tempestade violenta. Como único sobrevivente, Crusoé se vê lançado em uma ilha desabitada próxima à foz do Orinoco, na América do Sul.
Uma exploração meticulosa da sobrevivência humana quando Crusoé, inicialmente desesperado, gradualmente desenvolve métodos para suprir suas necessidades básicas. Com precisão enciclopédica, Defoe detalha como o protagonista cataloga os recursos disponíveis do naufrágio e da ilha, constrói abrigo, domestica cabras selvagens, cultiva cereais, fabrica utensílios, e mantém um calendário entalhando marcas em um poste de madeira para não perder a noção do tempo – criando uma microssociedade de um homem só que espelha a civilização europeia em miniatura.
Uma narrativa que adquire profundidade espiritual quando Crusoé, após anos de solidão, encontra uma Bíblia entre os destroços e experimenta uma conversão religiosa que o leva a reinterpretar seu naufrágio não como punição divina, mas como oportunidade providencial de redenção. Esta transformação espiritual o ajuda a aceitar seu isolamento e a ver sua ilha não como prisão, mas como domínio pessoal onde exerce controle absoluto – uma metáfora potente para o individualismo protestante emergente.
Uma obra que atinge seu clímax dramático quando, após 24 anos de solidão completa, Crusoé descobre uma pegada humana na praia, levando-o a perceber que a ilha é visitada por canibais que trazem prisioneiros para rituais. Eventualmente, ele resgata um desses prisioneiros, a quem nomeia "Sexta-Feira" (por ser o dia de seu resgate), e assume o papel de colonizador benevolente, ensinando-lhe inglês, convertendo-o ao cristianismo, e estabelecendo uma relação hierárquica que reflete as atitudes europeias em relação aos povos nativos.
Um romance que culmina no eventual resgate de Crusoé após 28 anos, quando ele retorna à Inglaterra para descobrir que seus investimentos no Brasil prosperaram, tornando-o um homem rico. Em um epílogo frequentemente ignorado, Crusoé revisita sua ilha, agora colonizada por espanhóis, e continua suas aventuras na Ásia, demonstrando que seu espírito inquieto permanece mesmo após décadas de isolamento forçado.
Uma obra que, através de seu protagonista que transforma adversidade extrema em triunfo da vontade humana e da razão prática, estabeleceu o mito do indivíduo autossuficiente que moldaria profundamente o pensamento ocidental, enquanto sua representação da relação entre Crusoé e Sexta-Feira forneceu um modelo literário influente para a justificação do colonialismo europeu.