Ficções Botânicas

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Ficções Botânicas episodes

  • 12. Um botânico são-tomense

    Em 1957, Arnaldo Rozeira, botânico nascido em S. Tomé, regressa pela segunda vez à sua terra natal integrado numa missão científica, tendo-lhe sido atribuída a chefia da brigada de sociologia botânica. Apaixonado pela diversidade vegetal tropical, a sua carta ao “pai” da fitossociologia clássica, Josias Braun-Blanquet, não esconde a dificuldade da campanha, mas também é testemunho do seu entusiasmo: “os fetos, líquenes e musgos formam jardins suspensos, de extraordinária complexidade, pingando água e mantendo vida permanente”.

    Este episódio encerra o podcast Ficções Botânicas, um projeto nascido no ano de 2020 no quadro das ações de comunicação cultural – neste caso no âmbito histórico-científico – provocadas pela pandemia de COVID-19. Texto de Cristiana Vieira, Sofia Viegas e Manuel Miranda Fernandes

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    Referências Bibliográficas:
    Blanquet, J. Braun, Silva, A. Pinto da. 1952-. “Résultats de deux excursions géobotaniques à travers le Portugal septentrional et moyen I – Une incursion dans la Serra da Estrela.”, Agron. Lusitana, 14(4): 303-323.
    Caldas, F. B. (1984) -  In memoriam Arnaldo Deodato da Fonseca Rozeira. Anais da Faculdade de Ciências do Porto, 65: 5-10.
    Exell, A. 1958. “Aditamento à flora das ilhas de S. Tomé e do Príncipe.” Sep. 6.ª Conferência Internacional dos Africanistas Ocidentais, 3:77-91.
    Moreira I. 1994. A fitossociologia em Portugal. – Anais Inst. Super. Agron. 44: 17–37.
    Rozeira, A. 1934. “Notas Folclóricas sobre S. Tomé.” Actas do I Congresso Nacional de Antropologia Colonial.
    Rozeira, A. 1958. “Nomes populares de algumas plantas das ilhas de São Tomé e Príncipe.” Sep. 6ª Conferência Internacional dos Africanistas Ocidentais, 3:169-173.

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    Referências de Herbário:
    Herbário, cartas e fotos de Arnaldo Deodato da Fonseca (herbário PO)

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    Agradecimentos:
    Maria Irene Rozeira Cayolla (filha do Dr. Arnaldo Deodato da Fonseca Rozeira)

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    Música – excertos de:
    “Pagodes”, de Estampes, de Claude Debussy, sequência MIDI de Katsuhiro Oguri, http://www.kunstderfuge.com; canto ngoundi de fim de luto; solo de berimbau mboko; solo de sanza badouma, Musique Bantou d’Afrique Équatoriale Française, Mission Ogooue – Congo, 1946, BAM LD 324; canto histórico do Daomé [atualmente Benim], com flautas mpété, Guinée, Sénégal, Dahomey, Afrique vol. 2, recolhas de Gilbert Rouget, Mission de l’Institut Français d’Afrique Noire (1952), Collection du Musée de l’Homme, Vogue, Série Contrepoint EXTP 1029.  

    12 min
  • 11. No trilho dos Newton

    Estamos na primeira década do novo século, e a agitação social atravessa a Europa, da Rússia a Portugal, onde o governo monárquico se transforma em ditadura efetiva, dando força à revolta republicana. Mas não são essas as preocupações das irmãs Newton na missiva que uma delas, Laura, dirige a Gonçalo Sampaio para que interceda pelo seu irmão Francisco.

    Assolado pela malária, torturado pelo reumatismo, pelo clima angolano e, sobretudo, pela falta de dinheiro, Francisco Newton definha. O antigo guarda-livros que teve a oportunidade de ser naturalista – e cujo nome não deve ficar esquecido – aproxima-se do fim da sua vida, e esta não foi fácil.

    Contudo, outras injustiças ocupam também Laura Newton, como a atávica subalternidade das mulheres na ciência, com poucas exceções a marcar a diferença, embora o ano de 1907 já tivesse um ligeiro perfume do futuro: na Finlândia, eram eleitas as primeiras mulheres para o parlamento, num sufrágio que já era universal, e mais de 3000 mulheres tinham protagonizado em Londres a primeira grande marcha sufragista. A Laura não deviam escapar estes sinais de mudança…

    Texto de Cristiana Vieira e Manuel Miranda Fernandes. Locução de Cristiana Vieira e Adriana Ribeiro.

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    Referências Bibliográficas:

    FIGUEIREDO, E. SMITH, G. F., & CERIACO, L. M. (2019). The vascular plant collections of Francisco Newton (1864–1909) in Angola. Phytotaxa, 413(3), 207-224.
    GOMES DA SILVA; J (1881). Herborisação e herbários. Revista da Sociedade d’Instrucção do Porto. I, II, III, IV.
    GUELKE, J. K., & MORIN, K. M. (2001). Gender, Nature, Empire: Women Naturalists in Nineteenth Century British Travel Literature. Transactions of the Institute of British Geographers, 26(3), 306–326. 
    SAMPAIO, J. (1946). Subsídios para a história da botânica em Portugal. I —O colector Isaac Newton e o estudo das criptogâmicas celulares portuguesas. Brotéria, Ci. Nat, 15, 144-189.
    SANTOS, B. & CERÍACO, L. (2021). Francisco Newton's Zoological Expedition to Angola (1903-1906): Review of a forgotten expedition. 15. 31-45.
    [Termo declarativo de nacionalidade de Isaac Newton]: Documento/Processo, 1878/04/24 – 1878/04/24: PT-CMP-AM/PUB/CMPRT/DOCS-SCN/161/A.PUB.2332.123

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    Música – excertos de:
    “Prelúdio N.º 5 em Ré Maior” e “Prelúdio N.º 10 em Dó# Menor”, de 24 Prelúdios, Op. 11, de Alexandre Scriabin, sequências MIDI de Thomas Lefeldt, http://www.kunstderfuge.com. “Mboi II” e “Emasire”, Sound of Africa Series 126: Congo (Buudu/Bira), Ilam, 2014

    14 min
  • 10. A arte da ciência

    1938. As nuvens de uma nova guerra começam a adensar-se sobre a Europa, mas estão ainda ausentes das preocupações de dois amigos para quem as principais sombras são as memórias da participação na Primeira Guerra nos territórios coloniais ou a impotente constatação pessoal de que a mente humana, em desequilíbrio, nos pode levar a uma existência torturada. Mas o que terá Américo Pires de Lima, fundador do atual Jardim Botânico do Porto e diretor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto durante uma década, que ver com o livre-pensador, o cientista, o artista, o perigoso pedagogo Abel Salazar, cuja “influência deletéria (…) sobre a mocidade universitária” tinha levado à sua expulsão da instituição universitária por um Estado Novo ainda na infância, mas já ostensivamente demonstrando a intolerância ideológica que marcaria cerca de meio século da vida de Portugal?

    É a arte, senhores… e a ciência… E a arte da ciência.

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    Referências Bibliográficas:

    Anuário da Universidade do Porto: Ano escolar de 1953-1954. "Professor Gonçalo Sampaio", p. 16.
    BARROS, Susana Pacheco (2022). "Eis a Reitoria". JN História, pp 78-91.
    CARVALHO, João Alberto de (1938). "Do valor artístico de Abel Salazar na sua exposição de pintura, desenho e gravura". Sol Nascente. Ano I, 23, pp. 10-11.
    Catálogo da exposição de quadros do Prof. Dr. Abel Salazar, organizada pelos seus amigos: Salão Silva Porto. Porto, Imprensa Portuguesa, 1938.
    LIMA, Américo Pires de (1933). Na costa d'África: memória de um médico expedicionário a Moçambique. Vila Nova de Gaia, Pátria.
    LIMA, Américo Pires de (1948). Notas à margem da iconografia broteriana. Porto, Imprensa Portuguesa.
    LIMA, Américo Pires de (1954). "Palavras pronunciadas na inauguração do monumento a Gonçalo Sampaio no Jardim Botânico, em 1 de Abril de 1954". Porto, Imprensa Portuguesa (Separata dos Anais da Faculdade de Ciências do Porto. Tomo XXXVII – Fasc. 4).
    SALEMA, Roberto (1989). Homenagem ao professor Américo Pires de Lima. Porto, Faculdade de Ciências/Instituto Botânico Dr. Gonçalo Sampaio.
    SEQUEIRA CABRAL, A. C. de (2001). Os Pires de Lima de Santo Tirso. Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica e História da Família da Univ. Moderna, 136 p.

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    Música – excertos de:

    "Prelúdio III", de Dez Prelúdios para Piano, dedicados a Vianna da Motta, por Luís de Freitas Branco; António Rosado, piano, NUM 1143, Numérica, 2007. "Mzeno", Venancio Mbande Orchestra Mozambique, Naxos, 2002.

    10 min
  • 9. Excursionistas Hermínios

    Já não muito longe do final de oitocentos, dois estudantes da Academia Politécnica – Raimundo Ferreira dos Santos e João Lopes do Rio – sobem à serra da Estrela acompanhados do entusiástico e experiente coletor Joaquim Tavares, jardineiro do Jardim Botânico da mesma academia. Seria talvez tanto passeio turístico quanto expedição botânica, mas isso não impediu o Comércio do Porto de publicar uma notícia que inchava as expectativas da sociedade culta portuense.

    Deste périplo, o futuro engenheiro Raimundo dos Santos deixou uma narrativa vívida, com belas descrições que nos transportam para aquele espaço natural tal como era há cerca de 140 anos, e onde também ficamos a apreciar o cavalheirismo e a hospitalidade que, nos magníficos e rudes píncaros de Portugal, não deixavam de existir.

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    Referências Bibliográficas

    Fonte manuscrita

    Santos, R. F. (1884) “Notas de Viagem de Raimundo Ferreira dos Santos. Um passeio à Serra da Estrela”. 7 a 13 de Setembro de 1884. (Texto inédito e manuscrito).

    Fontes impressas

    Daveau, S. (1981). "A expedição científica à Serra da Estrela, organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa em Agosto de 1881". Finisterra 16(32): 314-318.

    Henriques, Júlio Augusto (1883). Expedição scientifica à Serra da Estrella em 1881: secção de botânica: relatório. Lisboa: Imprensa Nacional.

    Navarro, E. (1884). Quatro dias na serra da Estrela: notas de um passeio. Porto: Livraria Civilisação de Eduardo da Costa Santos.

    Santos, R. F. (1886). "O nascer do sol na serra da Estrela”. Julho. A Pérola n.º 2 – 15.

    Vieira, C., A. C. Antunes & S. Faria (2020). "Uma tríade botânica na paisagem oitocentista portuense: jardins e hortos de excelência científica e económica." Cultura, Espaço e Memória 11(11): 218-238.

    Agradecimentos

    D. Maria Josefina Nunes, bisneta do Engenheiro Raimundo Ferreira dos Santos

    13 min
  • 8. À moda do Norte

    Onde descobrimos que o célebre naturalista, químico e pensador económico Domenico (Domingos) Vandelli, fundador do primeiro jardim botânico nacional, o da Ajuda, era também um industrial da cerâmica. Não será assim tão surpreendente se considerarmos o interesse deste lente de Coimbra pelo aproveitamento dos recursos naturais endógenos, seja através (e principalmente) da agricultura, seja pela indústria. Assim disse: “as fábricas que merecem a maior atenção são aquelas que fazem uso das produções nacionais”. E assim fez, fabricando louça de notável qualidade e sucesso.

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    Referências bibliográficas:

    CABRAL, J. (2018). A história natural de Portugal em Domingos Vandelli, Edições Colibri.

    CARDOSO, J. L. (2003). Memórias de história natural - Domingos Vandelli, Porto Editora.

    CRUZ, L. (1976). “Domingos Vandelli: alguns aspectos da sua actividade em Coimbra”. Sep. Bol. Arq. Univ. Coimbra.

    FERREIRA, G. O. J. (2017). A ciência como estratégia social: as atividades científicas de Domingos Vandelli nas redes clientelares de Portugal, 1764-1788. Imprensa da Universidade de Coimbra.

    GRISLEY, G. J. A. C. (1661). Viridarium lusitanicum. Ulyssipone: Ex praelo Antonii Craesbeeck.

    LEÃO, M. (1999). A cerâmica em Vila Nova de Gaia. Fundação Manuel Leão.

    PUIG-SAMPER, M. Á. (2017). Pehr Löfling. Estudio Crítico FHL. Fundación Ignacio Larramendi.

    VALENTE, V. (1950). Cerâmica artística portuense dos séculos XVIII e XIX. Livraria Fernando Machado.

    VANDELLI, D. (1789). Dominici Vandelli ... Viridarium Grisley lusitanicum linneanis nominibus illustratum, Ex Typographia Regalis Academiae Scientiarum Olisiponensis.

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    Agradecimentos:

    - António Pacheco (Museu Nacional Machado de Castro)

    - Maria José Meireles (Museu de Alberto Sampaio)

    - Raul Pereira (Investigador em Património Cultural)

    - Teresa Soeiro (Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

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    Música – excertos de:

    J.S. Bach, Clavierbüchlein II für Anna Magdalena (Leipzig 1725), sequências MIDI de Alessandro Simonetto, Nausica Th. Classical. W.A. Mozart, Sonata para piano n.º 10 em Dó maior, KV 330, 2. Andante Cantabile, sequência MIDI de Katsuhiro Oguri. http://www.kunstderfuge.com

    14 min
  • 7. Para sempre aluno

    Esta é uma carta que poderia ter sido redigida num momento conturbado, mas decisivo, da carreira profissional de Gonçalo Sampaio, que aos 31 anos, ainda aluno na Academia Politécnica do Porto e vacilando entre várias decisões e vocações, desabafa com o seu antigo mestre do liceu de Braga – o erudito José Joaquim Pereira Caldas –, de quem se tornou amigo e correligionário republicano.

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    Referências Bibliográficas:

    AEVEDO, A. M. F. P. (2019). Salvaguarda e valorização do Património Bibliográfico: o caso do acervo de Pereira Caldas na Escola Sá de Miranda, em Braga. Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho.

    AZEVEDO, A.; BATISTA, C. (2019). Espólio bibliográfico Pereira Caldas [Catálogo]. Agrupamento da Escola Sá de Miranda, Braga.

    CABRAL, J. P. – Gonçalo Sampaio Professor e Botânico notável. Porto, Universidade do Porto, 2009.

    LEITE DE VASCONCELOS, J. (1919). Como se fórma um culto. Revista Lusitana: 234-238. https://archive.org/details/RevistaLusitana22/page/n235/mode/2up

    LIMA, A. P. – O Professor Gonçalo Sampaio: elogio histórico. [Porto, Imprensa Portuguesa], 1938.

    PEREIRA-CALDAS, M. (1901) - Flora-Medica da Ribeira de Visella. Dissertação Inaugural apresentada à Escola Médico-Cirurgica do Porto. Porto.

    ROZEIRA, A. – Gonçalo Sampaio: o botânico e o mestre. [Porto, Imprensa Portuguesa], 1966.

    SAMPAIO, G. (1896). Estudos de flora local. I. Vasculares do Porto. Revista de sciencias naturaes e sociaes (vol. IV, n.º 15, pp. 150-158, n.º 16, pp. 195-202).

    SAMPAIO, G. (1902). Plantas novas para a flora de Portugal: 2ª série – Tomo VIII. - Porto: Separata dos Annaes de Sciencias Naturaes, Tomo VIII, 1902. - 13 págs.; 23 cm. - Cota: ESSM BE/A (RES) (PC) 58 SAM

    Referências do Lyceu de Braga

    Livro de matrículas para exame de alunos estranhos (1881-1888).

    Livro de matrículas de alunos internos (1880-1891).

    Referências de herbário

    Carta manuscrita de José Joaquim Pereira-Caldas (DATA)

    Caderno manuscrito de GS com anotações de “Flora Vascular de Póvoa de Lanhoso, por Gonçalo Sampaio (1894-1907)”.

    Caderno manuscrito de GS com anotações de “Flora Vascular dos arredores de Braga, por Gonçalo Sampaio (1896)”.

    Agradecimentos

    Andreia Azevedo, pelas informações relativas ao seu estudo sobre o acervo Pereira-Caldas; Cândida Batista e Rodrigo Azevedo, professores na Escola Secundária Sá de Miranda, pelas informações prestadas sobre Pereira Caldas e Gonçalo Sampaio; José Bento Silva, autor da monografia de S. Gens de Calvos, pelas informações sobre Gonçalo Sampaio; Mariana de Sá Pereira, da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, pela bibliografia cedida; Maria Helena L. Q. F. Sampaio Reis, bisneta de Gonçalo Sampaio.

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    Música – excertos de:

    Claude Debussy, Images (oubliées) 1. Lent e 2. Dans le mouvement d’une sarabande (1894). Sequência MIDI de Thomas Lefeldt, http://www.kunstderfuge.com

    13 min
  • 6. Vivam os livros livres!

    Em agosto de 1833, o Porto lambia as feridas frescas do cerco que o torturara por mais de um ano, e o lente de Botânica e Agricultura Agostinho Albano da Silveira Pinto preparava já o regresso ao ensino. Apenas um mês antes, ainda entre o fogo dos obuses que maceravam a cidade, tinha sido oficialmente criada no Porto – à custa das bibliotecas privadas – a primeira biblioteca pública portuguesa, uma vez que “a ignorância é a inimiga mais irreconciliável da liberdade”. Impaciente, Silveira Pinto escreve (ou assim imaginam Cristiana Vieira e Ana Freitas, reais autoras da missiva...) ao segundo bibliotecário: será que existiam alguns livros que fossem de interesse para si e para os seus estudantes? E será que não havia nenhum exemplar de sobra para a depauperada biblioteca da Academia? De Alexandre Herculano, pois é ele o destinatário, não se sabe a resposta.

    Locução: Cristiana Vieira e Augusto Ribeiro

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    Referências Bibliográficas:

    BALBI, A. (1822). Essai statistique sur le royaume de Portugal. Vol. II (Paris, 1822), p. ccxiii.

    BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL DO PORTO (1933). Documentos para a sua história. Porto: Imprensa Portuguesa.

    CRUZ, A. (1983) – A Biblioteca pública municipal do Porto na cidade e na região. Conferência proferida a 4 de novembro de 1983 integrada nas comemorações do 150º aniversário da Fundação da B. P. M. P.

    CABRAL, L. (2010). Alexandre Herculano: crónica breve de um bibliotecário. Cadernos BAD, (1/2).

    OLIVEIRA, J. A. (2019). D. João de Magalhães e Avelar e a Fundação da Real Biblioteca Pública Municipal do Porto (1833). POLISSEMA – Revista de Letras do ISCAP, (9), 91–133.

    RIBEIRO, J. S. (1871). Historia dos estabelecimentos scientíficos litterários e artísticos de Portugal: nos succesivos reinados da monarchia.

    SILVEIRA PINTO, A. A. (1827). Primeiras linhas de chimica e botânica coordenadas para uso dos que frequentam a aula de agricultura na real acad. da marinha e commercio. Parte lªPorto.

    SILVEIRA PINTO, A. A. (1835). Código pharmaceutico lusitano, ou tractado de pharmaconomia, no qual se explicam as regras e preceitos com que se escolhem, conservam e preparam os medicamentos, e se apresentam as virtudes, usos e doses das formulas phurmaceuticas. l.a ediç. Coimbra.

    SILVEIRA PINTO, A. A. (1841). Discurso do deputado Agostinho Albano da Silveira Pinto sobre a questão dos vinhos do Alto Douro na Camara dos Deputados de 1841: pronunciado no dia 13 de março: precedido d'uma memoria introductiva escripta pelo mesmo deputado. Porto : Typographia da Revista.

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    Música – excertos de:

    Mozart, Sonata para Piano n.º 10 em dó maior, KV 330, sequência MIDI de Š Katsuhiro Oguri, http://www.kunstderfuge.com/

    18 min
  • 5. A ilha-hospital

    Tuberculoso, o Barão de Castelo de Paiva refugiou-se, como aliás muitos dos seus contemporâneos oitocentistas, na ilha da Madeira, cujo ar era aconselhado para quem sofria dessa doença pulmonar. Imaginamo-lo hoje como um naturalista apaixonado e irrequieto, a quem a tísica não impedirá a exploração das ilhas da Macaronésia, contribuindo para o conhecimento científico das espécies botânicas e zoológicas desta região, com o grato reconhecimento dos seus pares. Estamos exatamente no período em que cientistas pioneiros – entre os quais Charles Darwin – tentavam compreender a diversidade do mundo vivo através da minuciosa observação e classificação das espécies.

    O escritor Júlio Dinis, que morrerá novo da mesma doença, também conheceu António Castelo de Paiva, indubitavelmente uma personalidade generosa que, depois de uma crise de consciência, renega um passado ateu para descobrir a presença de Deus na natureza que observa. É a relação entre o reputado académico e naturalista e o jovem médico e escritor que aqui imaginamos através de uma carta ficcionada. Texto de Cristiana Vieira.

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    Referências bibliográficas:

    DINIS J (1979). Obras completas de Júlio Dinis. Oitavo volume. Inéditos e esparsos. Círculo de Leitores. 1ª edição.

    CASTELO DE PAIVA (1867). Monographia molluscorum terrestrium, fluvialium, lacustrium insularium Madereusium, Olysipone.

    LOWE, R T (1868). A manual flora of Madeira and the adjacent Islands of Porto Santo and the Desertas / by Richard Thomas Lowe. - London: John Van Voorst, 1868. - 2 vol. em 1 (xii, 618; 113, [2] p.); https://purl.pt/17179.

    MACHADO, A (2006). T. Vernon Wollaston (1822-1878). Un entomólogo en la Macaronesia. Fundación César Manrique. 176 pp.

    SALLES CARDOSO, F (1868-1883) – Decima Cadeira da Academia Polythecnica e Jardim Botanico 1º. In Manuscrito não publicado de Francisco de Salles Gomes Cardoso, lente da X Cadeira (Botânica), Academia Polytechnica do Porto.

    VIEIRA C, ANTUNES AC & FARIA S (2020). Uma tríade botânica na paisagem oitocentista portuense: jardins e hortos de excelência científica e económica. Revista do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço & Memória» Dossier Temático. «Paisagens Patrimoniais». 11: 218-238.

    WOLLASTON, T. V. 1867. Coleoptera Hesperidum: being an enumeration of the coleopterous insects of the Cape Verde archipelago. London. https://www.biodiversitylibrary.org/bibliography/48651#/summary

    Historia dos estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos de Portugal, vol. XIII (1885), p. 163-167.   

    Biografia de António da Costa de Paiva (Barão de Castelo de Paiva, 1806-1879). Universidade Digital / Gestão de Informação, 2012. Revisão científica de Jorge Fernandes Alves (FLUP).

    Referências de herbário:

    Escola Rodrigues de Freitas (Porto): Herbário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho. (1879). Flora da Ilha da Madeira.

    Kew Gardens (K0000226213;K000272611;K0010097371;K000455906; K000226715);

    Botanical Museum –University of Helsinki (H9510750; H9510642);

    Conservatoire er Jardin botaniques de la Ville de Genève (G00064173).

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    Música – excertos de:

    Fryderyk Chopin, Prelúdio Op. 28. Sequência MIDI de Ron Lubetsky, http://www.kunstderfuge.com

    13 min
  • 4. A árvore mais silvestre

    Em 1916, Tude Martins de Sousa, um regente florestal rendido ao amor pela Árvore mas atormentado por dúvidas sobre a origem do pinheiro-silvestre encontrado no Gerês, escreve a Gonçalo Sampaio, botânico e professor, seu tutor no estudo de alguns dos mistérios vegetais da Serra do Gerês, onde havia trabalhado nos onze anos anteriores. Estas são as possíveis palavras da carta trocada entre estas duas notáveis personalidades, que anteviram a criação de um Parque Nacional no Gerês mais de meio século antes da sua concretização. Com Cristiana Vieira, Curadora do Herbário do MHNC-UP, e Manuel Miranda Fernandes, investigador do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território – FLUP.

    Referências Bibliográficas:

    Fernandes, M. M., Bento, J., & Devy-Vareta, N. (2015). Aspetos biogeográficos e paleoambientais de uma população finícola de Pinus sylvestris L. na serra do Gerês (NW Portugal). GOT - Revista de Geografia e Ordenamento do Território, 7, 159-181. doi:dx.doi.org/10.17127/got/2015.7.007

    Silva, J. B. A. (1815). Memoria sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal, particularmente de pinhaes nos areaes de beira-mar; seu methodo de sementeira, costeamento e administração. Lisboa, Academia Real das Sciencias, 187 p.

    Sousa, T. M. (1909). Serra do Gerez. Estudos – Aspectos – Paizagens. Porto, Livraria Chardron, 1909, pp. 109-110

    Sousa, T. M. (1912). A Árvore. Leituras Florestais para Crianças / Notas para Criar, Desenvolver e Fomentar o Amor pelas Árvores e pela Montanha. Porto, Livraria Chardron, 200 p.

    Sousa, T. M. (1918). O pinheiro silvestre de Portugal. Problema de arqueologia e investigacao apresentado a Conferencia Florestal. Boletim da Secretaria de Estado da Agricultura 1: 65-71.

    Sousa, T. M. (1919). Conferência Florestal de 1916. Excursões dos conferentes. Lisboa, Separata d’A Voz d'O Lavrador, La Becarre, 8 p.

    Sousa, T. M. (1926). Mata do Gerês. Subsídios para uma Monografia Florestal. Coimbra, Separata d'A Voz do Lavrador, Imprensa da Universidade, 253 p.

    Música:

    Bela Bartók, Danças Populares Romenas (1. Bot tánc / Jocul cu bâtă, 3. Topogó / Pe loc), sequências MIDI de Ramón Pajares, http://www.kunstderfuge.com

    9 min

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Em “Ficções Botânicas” os espécimes e documentos do Herbário do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto são um pretexto para imaginar o que terá acontecido no passado. Com fragmentos de informação indiscreta existente no herbário sobre coletores e aficionados da botânica, imaginam-se cartas que se leem sem nunca por eles terem sido escritas.