Autor: Fabrício Carpinejar
É comum sermos amigos de contextos iguais…
e nos afastarmos quando os hábitos mudam.
Quando estamos solteiros, a cumplicidade nasce com quem frequenta festas
e não se apega a relações.
Quando casamos, criamos laços com outros casais,
preferimos jantares, viagens, conversas mais longas.
Quando vêm os filhos, nos aproximamos de quem também aprende
as manhas, os choros e as manhãs intermináveis dos bebês.
Mas amizade verdadeira ultrapassa a normalidade do convívio.
Ultrapassa o oportunismo das fases.
Muitas dessas relações nem chegam a ser amizade.
São afinidades circunstanciais.
Colegas de uma época.
De uma fase.
De um estilo de vida.
Elas desaparecem na primeira mudança,
na primeira transformação de quem somos.
Permanecem enquanto há um interesse imediato,
um arranjo conveniente do cotidiano.
E somem quando não existe mais uma desculpa
para se ver e se ouvir.
Os conhecidos da academia ficam no passado dos halteres
quando cansamos dos treinos.
Os da faculdade ficam no quadro-negro
quando nos formamos.
Os dos cursos de idiomas ficam nos livros de exercícios
quando dominamos uma nova língua.
Amigo mesmo é aquele que não vive a mesma fase
e, ainda assim, permanece.
É quem quebra o espelho…
e não se machuca com os cacos.
É quem não tem filhos
e vem brincar com as nossas crianças.
Não reclama dos gritos,
não se assusta com o choro,
não precisa se justificar.
Está ali.
Qualquer que seja o cenário.
É quem se separou
e não amaldiçoa a nossa nova paixão.
Quem não tem emprego fixo
e não inveja o nosso sucesso.
Quem não enfrenta grandes problemas
e, ainda assim, escuta com paciência
as nossas lamúrias.
Amigo não é o da empatia fácil,
baseada apenas em experiências iguais.
Não é só quem entende a nossa dor
porque também sofreu,
ou celebra a nossa alegria
porque também está feliz.
Amigo é mais raro.
Não dá nem para contar nos dedos.
Porque, na maioria das vezes,
ele está ocupando as mãos…
segurando as nossas.