Como é que pode?
A gente viu o orelhão usar ficha… depois cartão… depois virar ponto de referência.
“Sobe ali onde tem o orelhão.”
A gente viu gente procurar telefone na lista telefônica… nas páginas amarelas.
Hoje tu perde o celular e parece que perdeu um órgão do corpo.
Hoje é muito raro quem sabe de cor o número da mãe.
A gente viu cartas serem uma operação. Lambia o envelope, ia aos Correios, postava e esperava dias pela resposta.
Hoje tu manda um “oi”… e, se a pessoa demora oito minutos pra responder, tu já começa a revisar todos os teus erros desde 2007.
A gente viu o telegrama.
Tu escrevia uma frase e pagava por palavra.
Aquilo era o ChatGPT da época… só que chegava de bicicleta.
A gente viu o fax chegar… e pensou:
“Agora acabou. Chegamos no futuro.”
Tinha uma impressora gritando dentro do telefone.
A gente pesquisou trabalho na Barça.
Procurou palavra no Aurélio.
Sentiu o cheiro da folha de mimeógrafo.
A gente não estudava…
A gente ficava levemente calibrado com álcool.
A gente viu o MSN virar WhatsApp.
No MSN, a gente colocava subnick triste pra chamar atenção.
Hoje tu posta um story com música… e espera a pessoa entender o processo.
A gente viu cheque virar cartão.
Tem gente que hoje não faz ideia do que era o motivo 11.
Ah… um chequezinho sem fundo.
A gente viu fita virar CD.
CD virar DVD.
DVD virar Blu-ray…
E o Blu-ray nascer e morrer no mesmo churrasco.
Então, não.
A gente não é velha.
A gente é testemunha ocular de umas 47 atualizações do mundo.
Por isso, às vezes, a gente está cansado.
Não é preguiça.
É excesso de evento histórico no ombro.