Diferente do que ocorre nos escritos filosóficos e científicos, nos quais a literalidade lógica determina uma via de leitura que, ainda que profunda, se efetua em uma única camada de sentido, encontramos nas Sagradas Escrituras um tipo sofisticadíssimo de rigor que, como numa sinfonia, possibilita uma exuberância de sentidos sem nunca perder sua articulação fundamental em uma ordem cada vez mais abrangente. Nelas, não somente as palavras significam coisas, mas as próprias coisas significam outras coisas, mais profundas e ocultas, abrindo a aparente superficialidade dos fatos narrados a um mar de significações espirituais que iluminam e revelam o sentido último do drama da vida humana. Tais significações, tão numerosas quantos são os aspectos naturais das coisas, e tão profundas quanto é a capacidade penetrante da mente do leitor, revelam ainda, como uma assombrosa face que se mostra, o rigor ao mesmo tempo matemático e lúdico com que a sabedoria divina penetra sutilmente todas as coisas - emprestando a cada uma delas a dignidade do Verbo e convidando as inteligências a um milagroso mergulho na Mente Divina. É que as Escrituras se baseiam em uma escritura anterior, sem a qual elas seriam impenetráveis: a própria Criação. Mas para perscrutar este mistério, faz-se extremamente necessária a observação não somente de princípios éticos e morais objetivos, mas de diretrizes mentais capazes de dar à atenção e ao pensamento um movimento reto que, aos poucos, fará repousar a inteligência na presença imutável da verdade. Pois é somente pela meditação constante nas Escrituras que pode o homem seguir a estrada dos desígnios divinos e ver, aos poucos, seu coração ser dilatado pelo Criador.