Intempérie

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By Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de AndradeArts
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Intempérie episodes

  • EP10 - Beckett, o vácuo e outros modelos de arvorar carreira
    Beckett, o vácuo e outros modelos de arvorar carreira
    Talvez a interrogação mais urgente não seja se a literatura acabou, mas se conseguimos produzir alguma coisa que não seja a reciclagem retórica mercantil da sua morte. O vácuo tornou-se especialização, a inexistência galhardeou editores, a transgressão angariou financiamento e até o funeral da literatura parece ter achado brilhante carreira académica. É neste lustroso boião de cultura que retiramos o caramelo envenenado de Murphy, o primeiro romance de Beckett. Após Beckett, tornou-se relativamente acessível parecer profundo: fugimos à narrativa, retalhamos o sujeito, exercitamos a impossibilidade da linguagem e condimentamos com um pouco de vazio no fim. A dificuldade está em empreender o que Beckett fez, e que tanto se imitou posteriormente: arquitetar a forma em sintonia com a necessidade de ruptura existencial autêntica, e evitar que a vida seja acrescentada como rótulo de museu. A vanguarda acabou em instituição, mas aqueles que a conheceram por dentro talvez perguntassem hoje se a destruição tem algum valor, quando não conduzida pela transformação daquele que a opera.
    Bibliografia
    Samuel Beckett - Murphy
    Jean-François Lyotard – Leçons sur l’analytique du sublime
    Alain Finkielkraut - La Défaite de la pensée
    Peter Sloterdijk - Kritik der zynischen Vernunft
    1 hr 22 min
  • EP9 – Os infortúnios da Pornologia
    EP9 – Os infortúnios da Pornologia - Por favor não me estraguem o orgasmo!
    O problema é que mal se avista um desejo começamos a redigir o cadastro. Sade queria receitar a chicotada e burocratizar a perversão, outros passam receitas de testosterona, mas ainda há quem queira deixar o pássaro voar antes de ter anilha. Paul Preciado vem dizer que já não estamos no palácio libertino, que tudo hoje se passa na farmácia, no Grindr, com muito mercado, muito doom scroll e dildos para vender. A Amazon aprova. Gilles Deleuze, ombreado por Félix Guattari, boceja perante qualquer teoria que se demonstre plenamente convicta de si mesma e que tente enfiar o tesão em grelhas: Édipos, géneros, testosterona e performances de arte contemporânea.
    Bibliografia
    Lacan - Seminário 7 — “A ética da psicanálise”
    Erich Fromm — “Escape from Freedom”
    Deleuze e Guattari — “Mille Plateaux”
    Paul Preciado — “Testo Junkie” e “Pornotopia”
    1 hr 9 min
  • EP8 - A produtividade não passa de alucinação colectiva
    A produtividade não passa de alucinação colectiva - elegância para desenganados, sem termos que fazer coisa alguma.
    Albert Cossery passou a vida a evidenciar que o trabalho instaura o erro conceptual, enquanto Franco Berardi e outros filósofos dedicam hoje livros inteiros à mesma conclusão, mas cheios de ansiedade e cansaço. Além disso, revelamos que apenas existem mais ou menos cinco livros por século que mereçam ser lidos, o que são péssimas notícias para quem acabou de encher as estantes.
    Em Cossery os mendicantes contemplativos são mais emancipados do que os CEOs, algo mui incómodo para quem passa a vida no LinkedIn. Conclusão: a solução passará sempre por não fazer nada… mas em elocução literária irrepreensível.
    Bibliografia:
    Herman Melville - "Bartleby, the Scrivener: A Story of Wall Street"
    Jack Halberstam – “The Queer Art of Failure”
    Bifo Berardi – “The Uprising: On Poetry and Finance.”
    Albert Cossery - “Œuvres complètes”
    1 hr 11 min
  • EP 7 - A profissão de crítico ou a técnica do adormecimento
    EP 7 - A profissão de crítico ou a técnica do adormecimento: manual de doxa e boas maneiras para nunca arriscar nada
    A crítica de arte é a gestão da revolta, profissão neoliberal que transforma a urgência política em texto sofisticado, o conflito em sopa de termos gourmet do dicionário Word, enquanto atira o risco para as notas de rodapé, até que, por fim, a arte se transforma em tópica de dissenso inofensivo. O crítico passeia na galeria de arte, na feira, no centro cultural, como quem entra num spa de massagens ideológicas: sai de lá bem informado, com a coluna mui distendida e de moral reconfortada. Nada o pode ameaçar, torna-se por isso destemido, por mais que corte a eito o inimigo não deita sangue, nem geme: eis o especialista nessa arte marcial de bater em defuntos. Tudo se apresenta com aparência “problemática”, “complexa”, “necessária” — vocábulos que não causam pruridos. A crítica deixou o julgamento porque julgar faz perder o juízo; mas não permite o silêncio porque tagarelar é o seu modo de subsistência. No fim de tanta bavardage, cumpre plenamente a sua histórica função: garantir que nada falhe na assimilação ao mundo que finge contestar.
    Co-criação: Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de Andrade
    Produção: associação Mural Sonoro
    Indicativo: Xana
    1 hr 23 min
  • EP 6 - Da morte ontológica da arte ao Karaoke Bar nos escombros
    A “morte da arte” não implica que os ditos “artistas” venham a cessar a sua actividade industrial, essa produção de insólitas mercadorias para decoração dos apartamentos vazios e alvíssimos de Manhattan, e dos salões também brancos das galerias, ou performances e eventos para animar a black box do centro cultural da esquina. Todavia, a arte perdeu o seu lugar de privilégio: pouco revela sobre a verdade (Hegel), não orienta as alminhas deste purgatório para o além ideal (Platão), já não progride segundo narrativa temporal provida de τέλος (Danto) e deixou de conseguir ser ponto de fuga ao mercado, à alienação e ao circuito controlado e totalitário das imagens (Baudrillard). Tentaremos aqui também esboçar os prolegómenos a toda a ilusão contemporânea e futura: a fé supersticiosa de que ainda podemos ser “artistas”, quando a realidade é apenas de gestão burocrática das visibilidades e dos regimes de escuta.
    Bibliografia
    Hegel - Lições sobre a Estética
    Adorno - Teoria Estética
    Arthur C. Danto - Depois da morte da arte
    Jean Baudrillard - A Conspiração da Arte
    Foucault - A Hermenêutica do Sujeito
    Boris Groys - O poder da Arte
    Rosi Braidotti - O conhecimento Pós-humano
    Yuk Hui - Sobre a existência de objectos digitais
    Jerrold Levinson - Reagir com emoção à arte
    1 hr 28 min
  • EP 5 - Da contemplação ao olhar apressado - a morte da atenção no capitalismo mediático
    Vivemos tempos inquietantes em que a distração passou a ser dever cívico, e a atenção recurso natural escasso. O neoliberalismo já não necessita de grandes fogueiras para queimar livros incómodos ou obras de arte inconvenientes, basta-lhe incinerar o olhar de quem lhes poderia dar atenção. Entre tictocts, vídeos, e posts, vendemos a alma a pequenas prestações de foco, mesmerizados pela alucinação interactiva que configura nova forma de trabalho incessante, para animar as redes tecno-feudais. São os tempos da plataformização totalitária da vida, em que o capitalismo colonizou o tempo “livre”, e neste surge outra morte da arte, diluída em excesso de likes do olhar utilitário ou curioso, mas superficial. Demorar numa obra pode ser hoje novo acto de rebelião.
    Bibliografia:
    Walter Benjamin - A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica
    Jakub Marek - The Impatient Gaze: On the Phenomenon of Scrolling in the Age of Boredom
    Bernard Stiegler - La société automatique
    Franco Berardi - The Soul at Work e Futurabilidade
    McKenzie Wark - Raving
    Conversas anartísticas e profundamente comprometidas com os estados dos espíritos
    ou
    Um espaço de crítica livre sobre os infortúnios da história cultural e das artes com Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de Andrade com indicativo sonoro de Xana (Imagem do podcast sob Agathos Daimon, pintura de Elagabal Aurelius Keiser).
    Para quem nos quiser continuar a enviar eventuais perguntas, comentários ou sugestões:
    1 hr 34 min
  • EP 4 - Política da Arte em vez de Arte política: outro dos aspectos da morte da arte
    Inspirados pela “Carta a D’Alembert sobre os espectáculos” de Rousseau, tentamos explorar outro vector da morte da Arte, a sua instrumentalização enquanto parte da política de entretenimento que nos quer passivos a salivar perante o espectáculo da liberdade, da democracia e da suposta abundância. Método ancestral de nos reduzir à função de focas amestradas que batem palmas ou assinam em cruz um cheque em branco às elites políticas.
    Conversas anartísticas e profundamente comprometidas com os estados dos espíritos
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    Um espaço de crítica livre sobre os infortúnios da história cultural e das artes com Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de Andrade com indicativo sonoro de Xana (Imagem do podcast sob Agathos Daimon, pintura de Elagabal Aurelius Keiser).
    Para quem nos quiser continuar a enviar eventuais perguntas, comentários ou sugestões:
    1 hr 2 min
  • EP3 - Do movimento desnomeado às Bastardas da revisitação punk pós-feminista
    Para ouvir podem subscrever o Intempérie no SoundCloud ou no Spotify.
    Um episódio em que convocamos para a conversa certas ideias para uma nova tradição. Passamos por Arthur Rimbaud, Peter Sloterdijk, Elizabeth Grosz, Virgine Despentes, Paul B Precíado, Camille Paglia, bell hooks e, demoramo-nos nas intervenções textuais-sonoras de María Galindo...GaLINDA; sobretudo a mais recente publicação, pela mão de uma pequena editora portuguesa (Barricada de Livros), de Feminismo Bastardo. Tem isto a ver com o quê? Ouvindo pode ser que nos consigam explicar.
    Conversas anartísticas e profundamente comprometidas com os estados dos espíritos
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    Um espaço de crítica livre sobre os infortúnios da história cultural e das artes com Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de Andrade com indicativo sonoro de Xana (Imagem do podcast sob Agathos Daimon, pintura de Elagabal Aurelius Keiser).
    Para quem nos quiser continuar a enviar eventuais perguntas, comentários ou sugestões:
    1 hr 33 min
  • EP2 - Fascismos, micro-fascismos, poéticas da diversidade
    #2
    Neste episódio rondamos os temas do crescimento da extrema direita num mundo em que as cenouras, cada vez mais escassas, parecem estar a deixar de substituir os chicotes. Falamos de micro e macro fascismo, de extrema direita, extremo centrão e extrema esquerda, como faces da hiperrealidade política que dissimula a política real: controle digital cada vez mais apertado, miséria quotidiana, novas formas de contornar a liberdade de expressão, consensualidade compulsiva, interiorização da culpa, feudalismo digital e a impostura da arte contemporânea. E propomos alguma bibliografia para delinear estes temas: Sigmund Freud - Psicologia de Grupo e a Análise do Ego ; Wilhelm Reich - Psicologia de Massas do Fascismo; Jean Baudrillard - Simulacros e Simulação; Félix Guattari - «Todos querem ser fascistas»; Édouard Glissant - Poética da Relação; Introdução a uma Poética da Diversidade.
    Conversas anartísticas e profundamente comprometidas com os estados dos espíritos
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    Um espaço de crítica livre sobre os infortúnios da história cultural e das artes de Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de Andrade com indicativo sonoro de Xana (Imagem do podcast sob Agathos Daimon, pintura de Elagabal Aurelius Keiser).
    Para quem nos quiser enviar eventuais perguntas, comentários ou sugestões:
    1 hr 7 min
  • Episódio 3 - Classe, Mulheres, Violência, Luigi Mangione
    #3
    Gravado no início da semana, este episódio poderia começar assim: certas pessoas ilustradas falam abertamente do que pode levá-las a ser profundamente críticas no seu quotidiano e em todos os seus actos, mais e menos vistos, de todas aquelas criaturas num roda-roda-constante em torno do centro do umbigo, e que, ao longo da história, têm dado a mão ao palratório sobre si em torno de si.
    Tomámos como ponto de partida o livro Shoot the Women First, traduzido e editado entre nós em 1998 pela extinta Fenda, livro que parte da compilação de várias entrevistas de Eileen MacDonald a mulheres de organizações armadas em lugares como Síria, Palestina, Irlanda, País Basco, Itália, Alemanha... No domínio da rebelião e da crítica do mundo envolvente os homens brancos burgueses não têm a exclusividade da violência. Embora só a segunda das estirpes humanas ocupe os escaparates analógicos e digitais envolta de um certo prestígio e justicialismo. Invariavelmente.
    Vistas como intrusas num universo másculo, destruindo a ideia de fraqueza física arreigada no mundo bélico, em defesa das convicções mais profundas, sejam de natureza dita política, ou dita cultural, elas, as outras, as que raramente interessa que apareçam nas contagens e figurações, também são capazes de matar. E se Luigi Mangione fosse qualquer uma destas retratadas no livro de MacDonald? Se fosse pobre e imigrante? Toda a crítica mediática é feita do lugar do falo consternado. É, de facto, um gigantesco edifício discursivo, cheio de gambiarras natalinas, de métodos contra métodos, um academicismo contra academicista, ambos prenhes de glosas já ripadas, já pensadas, já riscadas; porém, murcho das experiências convocadas, reiterando repetidamente a lógica das coisas por via do mundo dos bens garantidos para sua subsistência e afirmação de uma superioridade.
    Para quem nos quiser enviar eventuais perguntas, comentários ou sugestões:
    Conversas anartísticas e profundamente comprometidas com os estados dos espíritos
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    Um espaço de crítica livre sobre os infortúnios da história cultural e das artes com Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de Andrade
    Indicativo podcast
    Voz: Xana
    mistura indicativo: Gonçalo Zagalo Pereira
    Imagem do podcast sob Agathos Daimon, pintura de Elagabal Aurelius Keiser
    1 hr 38 min

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