Edição da rubrica Grandes Livros, com António Neves, engenheiro, literato e, enquanto poeta, o homem por detrás do pseudónimo António da Néveda. Entrevista realizada na LAR DOCE LIVRO - Livraria, Café & Posta-Restante, de Angra do Heroísmo (ilha Terceira, arquipélago dos Açores, Portugal), e com o livro "O Aleph", de Jorge Luís Borges, em destaque.
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AUTORIA E APRESENTAÇÃO: Joel Neto. GENÉRICO: Guesswho. PÓS-PRODUÇÃO: Joel Neto. UMA PARCERIA Lar Doce Livro/Rádio Voz dos Açores.
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«Registar alguns traços do meu carácter e dos meus humores.» A isso se propunha Michel de Montaigne quando, em 1570, iniciou a redacção dos 107 capítulos – na verdade, 107 ensaios – que compõem "Ensaios", rapidamente consagrado como um marco na evolução da literatura e do pensamento ocidentais.
Com edições em 1580, 1588 e 1595 (esta póstuma), o livro demorou a encontrar a sua forma final em três volumes, mas na verdade era revolucionário desde o primeiro texto. É com ele que, na prática, nasce o género literário a que hoje damos o nome precisamente de ensaio: um texto eminentemente filosófico, mas ao mesmo tempo ligeiro e até alegre, capaz de combinar a erudição com o registo popular – mesmo a reportagem –, e com alcance muito para além das torres de Babel das universidades e dos centros oficiais do saber.
Apenas nos últimos quatro anos a editora E-Primatur promoveu a primeira tradução integral da obra para português de Portugal. Com tradução de Hugo Barros, a edição – em três volumes, como em 1595 –, traz prefácio de André Gide, Prémio Nobel da Literatura.
Foi publicado em 1949, no fecho da década de ouro de Jorge Luís Borges – que começa com “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, de 1941, e passa pelo também inevitável “Ficções”, de 1944 –, e resiste até hoje como uma obra revolucionária, um prodígio de narratologia que, passados 80 anos de literatura e de crítica literária, ainda ninguém conseguiu emular (ou sequer decifrar por completo).
São 17 contos heterogéneos, a maior parte deles entre o fantástico e o surrealista, e invariavelmente trespassados por pelo menos uma das grandes obsessões – ou, mais bem dito, por pelo menos um dos grandes temas literários – de Borges: o tempo, o infinito, a imortalidade e a perplexidade metafísica, mas também a identidade, o duplo, a eternidade, a soberba ou a fé.
Construídos com recurso a uma criatividade exultante, a um conjunto inigualável de recursos estilísticos e a uma erudição incomum mesmo entre os grandes escritores sul-americanos do século XX, cada um dos 17 contos que compõem o volume é o seu próprio género de labirinto de ideias e reflexões, mas talvez nenhum deles tão evidentemente assim como aquilo que acontece com o conto que encerra e dá título ao livro, O Aleph, a história da descoberta, no porão de um velho casarão de Buenos Aires, de uma esfera tão extraordinária como misteriosa, e de que se declara que contém todo o universo e abrange todo o espaço cósmico.
"O que a eternidade é para o tempo, o aleph é para o espaço", explicaria Borges, mais de vinte anos. O que isso quer realmente dizer ainda hoje é debatido por leitores, académicos e escritores de todas as índoles.