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Cafezinho 256 – Mundos Morais
Um amigo com quem adoro tomar um chopp é meu oposto político. Ambos queremos um mundo mais justo, mas divergimos na forma de chegar lá.
Para mim, esse “chegar lá” significa respeitar a lei, a autoridade, a liberdade individual, reconhecer que não sei tudo, que o mundo e o homem são imperfeitos e que é impossível resolver as coisas com uma revolução. O que dá para fazer é consertar o que está errado e conservar o que está certo. Quando erro, primeiro acho que a culpa é minha e devo arcar com as consequências.
Já o meu amigo lá do “outro lado” entende que por um bem maior, a lei pode ser “contornada”. Questiona a autoridade e acha que algo que não prejudica diretamente alguém, não deve ser proibido. Quando erra, culpa fatores externos e não acha justo assumir sozinho a responsabilidade.
Valores morais, e por consequência a ética, dependem do espaço geográfico e temporal que você ocupa. Onde e quando você está. Enquanto alguns valores morais têm raízes biológicas profundas, outros são resultado de pressões sociais, condicionamento emocional, imitação ou exposição aos grupos nos quais convivemos. Alguns têm a ver com racionalidade, outros com a natureza humana.
Será que existem então múltiplas moralidades, hein?
Olha, talvez vivamos em mundos morais diferentes e nenhum discurso político nos levará ao consenso.
Quem não entender isso, vai azedar o chopp.
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Cafezinho 255 – Melhores inimigos
Havia um ótimo documentário na Netflix, chamado Melhores Inimigos, que mostrava o encontro durante as prévias das eleições para presidente dos EUA em 1968, de dois intelectuais que não se suportavam. Eram o conservador William Buckley Jr. e o liberal, nos termos norte-americanos, escritor Gore Vidal numa série de dez debates exibidos pela emissora ABC.
As exibições ao vivo eram tensas, pois os dois eram brilhantes e as discussões repletas de indiretas e ofensas. Foi um arraso de audiência, com o público saboreando o conteúdo e a forma de entrega de cada um dos debatedores.
Lembrei disso ao ver alguns debates diários em emissoras brasileiras de rádio e TV nas últimas semanas.
Olha, descontando que os debatedores estão a anos luz de distância da capacidade intelectual de Buckley e Vidal, o que chama a atenção é que os idiotas são colocados no mesmo patamar de quem tem conteúdo. Não há uma seleção, talvez por falta de material humano. No começo é divertido, mas chega uma hora que cansa, viu? pois os idiotas jogam o debate para baixo. E o confronto de ideias acaba, restando apenas as ofensas e a iminente agressão física conforme a temperatura aumenta.
E isso joga a audiência para o céu, afinal, quem está interessado em debate de ideias, hein?
Queremos é o barraco.
Aliás, Buckley ameaçou dar um murro em Vidal ao ser chamado de cripo-nazista, mostrando que mesmo a paciência dos intelectuais, têm limite.
Eu teria dado o murro.
Parece que Melhores Inimigos não está mais na NetFlix. Que pena, eu mataria a saudade de um bom debate.
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Um homem de fé, um rabino, com uma história fascinante de rebeldia contra tradições, que o fez despontar na comunidade judaica como alguém que está provocando uma revolução cultural em seu meio.
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Patrick Santos é um jornalista que tem uma trajetória importante no rádio brasileiro. Em 2019 ele lançou um livro e na sequência começou a produzir o podcast 45 Minutos do Primeiro Tempo na rádio Jovem Pan. E me convidou para um bate -papo.
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Uma das bases do meu trabalho, que chamo de “fitness intelectual”, é a distribuição de “iscas intelectuais”. É isso o que faço com este cafezinho. A definição de “iscas” está no nome: iscas não matam a fome, apenas abrem o apetite. Iscas intelectuais servem, portanto, para despertar o apetite intelectual das pessoas. Um fragmento de texto, uma música, uma ideia, um argumento, um poema, uma frase… são gatilhos para quem pratica o fitness intelectual. Servem como motivação para sair atrás dos conceitos, autores, artistas e escritores citados, gente com conteúdo relevante capaz de enriquecer repertórios. E recebo constantemente mensagens de agradecimento de leitores e ouvintes, felizes com as descobertas que fazem a partir das minhas iscas.
Mas para que as iscas funcionem, é necessária uma contrapartida do leitor ou ouvinte. Ele tem que exercer a curiosidade, mergulhar mais fundo, sair atrás. Tem que buscar compreender aquela ironia, o que há por trás daquele texto, daquela música. Tem de querer mais e sair atrás. Caso contrário, as iscas não funcionam.
Quem morde a isca, aprende. Quem não morde corre o risco de sair da leitura ou da audição provavelmente apenas ofendidinho. Não aprende nada, não ganha nada, não aproveita nada. Fica a dica então:
Seja sempre bem-vindo ao Cafezinho.
Mas morda a isca.
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Num cafezinho anterior apresentei o termo “brasiliência” como uma forma de ver a vida, que faz com que as pessoas, mesmo sofrendo, sintam-se felizes. Brasiliência é a soma de brasileiro com resiliência. Liguei essa característica a nosso jeito brasileiro de ser, deixando no ar uma questão: brasiliência é virtude ou defeito? Bom... depende.
Se você olha-la como resultado da flexibilidade, da liberdade, da disposição a correr riscos, da criatividade, da capacidade de fazer piada nos momentos mais tensos, de apanhar, apanhar, apanhar, e continuar lutando, de encontrar saída de qualquer beco... Cara, a brasiliência é uma virtude! Ela nos ajuda a aceitar os desiguais, a tocar o barco, não importa quem nos dirige. Nos ajuda a conviver em harmonia, pretos, brancos, amarelos, vermelhos.... A brasiliência nos dá uma vantagem competitiva em qualquer lugar do planeta. A gente topa tudo e entra e sai de perrengues com uma competência... E se a coisa complicar, é só abrir uma cerveja.
Mas se você olhar a brasiliência como um motivador para encurtar caminhos a bel prazer, quebrar regras, olhar para si sem ligar para os outros, usar esperança como estratégia, acreditar num santo e ter a convicção de que sairemos ilesos de qualquer fria.... aí complica. Especialmente quando “os outros” são norte americanos, europeus, japoneses, a brasiliência é interpretada como resultado da irresponsabilidade, falta de comprometimento, incompetência... Seus sistemas e processos detalhados, sua ânsia pela antecipação, não ornam com nossa indisciplina e irreverência. Eles não dependem de um santo.
E a brasiliência, que poderia ser a nossa maior qualidade, é também nosso maior defeito. Como é que faz, hein?
Olha, eu não sei você, mas eu vou abrir uma cerveja.
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