Essa semana, fiquei bastante feliz com a notícia que meu amigo, Flávio Augusto, vendeu sua participação no clube de futebol Orlando City Soccer. Tive a oportunidade de estar presente em um dos momentos mais importantes desse projeto: quando a equipe foi aceita na Major Ligue Soccer, a MLS americana, liga mais poderosa do futebol nos Estados Unidos.
Fiquei muito impressionado com o tamanho do projeto e repercussão local, afinal, são raríssimos os casos em que um brasileiro empreende com sucesso na terra do Tio Sam.
O que chamou a atenção de muita gente nesse projeto é que o Flávio investiu cerca de R$ 240 Milhões para adquirir a equipe em 2013, vendeu por algo estimado em cerca de R$ 2 Bilhões e o negócio não apresentou lucro em momento algum. Como isso é possível? Como o projeto valorizou-se em 10 vezes nessas condições?
Está aí mais um exemplo de um modelo popularizada no empreendedorismo digital que foi viabilizado nas últimas décadas, sobretudo, devido a novas fontes de investimento: o foco do empreendedor em aumentar o valor de mercado da companhia em detrimento de seus dividendos no curto prazo.
É evidente que sempre o objetivo final é ter uma empresa saudável e lucrativa, porém há uma visão temporal distinta do foco na geração de lucratividade no curto prazo. No caso do Orlando City, o próprio negócio não é um negócio de geração de dividendos. Nos Estados Unidos, os projetos esportivos em todas as Ligas profissionais têm, em geral, alta liquidez em transações de compra e venda, porém são ativos que se valorizam de acordo com sua capacidade de geração de caixa que é traduzida em patrocínios, licenciamento de produtos e venda de tickets. Por isso, a questão esportiva é tão importante, pois torna a equipe mais atraente o que resulta em mais vendas de seus produtos e serviços. A lucratividade é secundária em relação a geração de caixa nesse negócio.
No ambiente digital a perspectiva é um pouco distinta. Me recordo de uma passagem com Jeff Bezos, fundador da Amazon, quando ele, em uma reunião virtual com analistas financeiros, pede desculpas pela empresa ter apresentado um lucro maior do que o esperado naquele trimestre. Segundo Bezos, isso apontava que eles não reinvestiram todos os recursos necessários para o crescimento explosivo da empresa. A empresa e o empreendedor receberam muitas críticas dos analistas tradicionais durante anos por essa estratégia, porém, atualmente, com um lucro anual de cerca de US$ 27 Bilhões (algo em torno de R$ 150 Bilhões), fica claro que investir todos os recursos no crescimento do negócio foi uma decisão acertada.
Tenho observado que ainda existe um estranhamento (que é até natural) quanto a essa estratégia de focar na valorização da companhia em detrimento da distribuição de dividendos no curto prazo. Esse estranhamento faz com que muitos questionem o que está por trás desses projetos. Faço aqui um alerta sobre estarmos atentos a modelos novos que não faziam parte de nosso repertório. Esse é um deles, onde o empreendedor sacrifica a geração de resultados de curto prazo em prol de um retorno muito maior no longo.
É evidente que existem riscos e não são poucos. Histórias como a de Flávio Augusto, Jeff Bezos dentre tantas outras mostram, no entanto, que é um caminho cada vez mais trilhada pelos empreendedores da nova geração.
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