A inteligência artificial pode transformar a documentação médica, reduzir tarefas burocráticas e devolver ao profissional mais tempo para conversar com o paciente. Mas o uso dessas ferramentas também pode gerar prontuários prolixos, informações desnecessárias e uma confiança excessiva em textos produzidos automaticamente.
Neste episódio do IA com Evidência, Alexandre Remor e Rodrigo Carneiro analisam dois artigos científicos que apresentam perspectivas diferentes sobre o uso de grandes modelos de linguagem na produção de prontuários médicos.
Um dos artigos discute o risco de degradação do prontuário. Com a facilidade de gerar textos extensos e aparentemente bem elaborados, o médico pode acabar produzindo documentos enormes, difíceis de consultar e repletos de informações que pouco ajudam na tomada de decisão.
Por outro lado, a realidade de muitos serviços de saúde envolve médicos responsáveis por dezenas de pacientes, prontuários incompletos, cópias de evoluções anteriores e registros feitos horas depois do atendimento. Nesse cenário, uma inteligência artificial capaz de transcrever a consulta e organizar corretamente as informações pode melhorar a continuidade do cuidado.
Alexandre e Rodrigo debatem por que o problema não está necessariamente no uso da IA, mas na maneira como ela é configurada e utilizada. Ferramentas padronizadas nem sempre conseguem reproduzir o estilo de documentação de diferentes médicos, especialidades e ambientes de trabalho.
A personalização dos prompts pode determinar o tamanho do prontuário, o formato da anamnese, as informações sociais que devem ser preservadas e os pontos clínicos que precisam receber maior destaque. Quanto melhor for a orientação oferecida ao modelo, mais próximo o resultado ficará da rotina real do profissional.
Ainda assim, nenhum texto produzido por IA deve ser aceito automaticamente. O médico continua responsável por revisar as informações, corrigir possíveis erros e garantir que o prontuário represente fielmente o que aconteceu durante o atendimento.
O episódio também apresenta o conceito de pajama time, utilizado para descrever o período em que médicos precisam terminar prontuários em casa, depois do expediente. A inteligência artificial pode reduzir esse tempo, mas o ganho de produtividade nem sempre significa mais descanso. Em alguns serviços, profissionais mais produtivos simplesmente passam a receber um número maior de pacientes.
Os hosts ainda discutem o risco de deskilling, a perda de determinadas habilidades causada pela dependência excessiva da tecnologia. A IA pode assumir tarefas burocráticas, mas o médico precisa continuar sabendo entrevistar, examinar, raciocinar e avaliar criticamente os resultados apresentados pela ferramenta.
Além da análise dos artigos, Alexandre e Rodrigo apresentam um caminho prático para começar a testar a inteligência artificial na documentação médica: gravar uma consulta com autorização do paciente, enviar o áudio para uma ferramenta de IA, fornecer exemplos de prontuários próprios e ajustar progressivamente o prompt até encontrar um formato adequado.
Um episódio sobre prontuários eletrônicos, escribas de IA, personalização, produtividade, senso crítico e o papel do médico em uma realidade na qual a inteligência artificial já faz parte da prática clínica.
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