Aula 11 do Curso Online de Filosofia, Olavo de Carvalho apresenta um diagnóstico duro: a vida intelectual brasileira, quase desapareceu como busca da verdade e sobrevive, na maioria, como adestramento de condutas. Distingue três camadas da formação humana — moral, social e intelectual — e sustenta que, no Brasil, as duas primeiras engoliram a terceira. Em vez de compreender, o aluno aprende protocolos; em vez de buscar o sentido, treina sinais de pertencimento. Resultado: a mente confunde obediência com entendimento e a linguagem se torna instrumento de adesão, não de descoberta.
A aula alterna teoria, exemplos e memórias. Ao relembrar um impasse juvenil em Geometria, o professor contrasta “adestramento” e aprendizado real: quando a regra substitui a compreensão, o estudo vira condicionamento e a inteligência se ressente. O argumento se amplia para uma crítica das universidades e de movimentos estudantis que treinariam coesão de grupo e mobilização retórica — não amor ao conhecimento. A consequência é a perda da função “nominativa” da linguagem (no sentido de Karl Bühler): fala-se para agradar, para calar, para pressionar, raramente para nomear com precisão e compreender.
Contra esse quadro, ele propõe um programa de reconstrução que refaz conscientemente as três formações. No plano moral, recomenda o exame de consciência diário (segundo Tanquerey), a coragem de confessar erros e a vigilância sobre três vícios recorrentes: a covardia aprendida, a carência por aprovação e o ódio ao conhecimento. No plano social, aconselha abandonar a mendicância de prestígio, cultivar independência material e até “inventar a própria profissão”. No plano intelectual, prescreve um regime claro: leitura lenta dos clássicos, especialmente Aristóteles; exercícios de imitação estilística para educar a língua; diário de estudo; necrológio para dar forma à memória; e treino de voz e postura (cantar, recitar, ler em voz alta).
Outro eixo da aula é a relação entre emoção, imaginação e razão. Emoções, diz ele, são medidas do peso que os fatos têm para nós: suprimidas, perdemos proporção; desligadas do real e pilotadas pelo imaginário, convertem-se em histeria. A objetividade, portanto, não nasce da frieza afetada, mas de afetos educados por fatos e palavras justas. A partir daí, surgem recomendações de leitura e notas de edição: a Comédia Humana de Balzac organizada por Paulo Rónai; os diários de Henri-Frédéric Amiel; Sertillanges e sua tipologia de leituras; Lonergan e a estrutura do ato cognitivo; e autores do Direito como Del Vecchio, Legaz y Lacambra e Igino Petrone, úteis para perceber o jogo entre norma, valor e realidade.
O bloco de perguntas e respostas traz conselhos práticos: privilegiar momentos de atenção plena; evitar a cristalização precoce em esquemas conceituais; marcar livros a lápis; diferenciar leitura formativa, informativa, de inspiração e de entretenimento; e organizar a vida com autonomia. Há também uma reflexão sobre amizade por afinidade de fins (mais sólida que a simpatia), prudência para entrar em disputas apenas quando houver dever moral e, acima de tudo, disciplina para transformar o estudo em hábito vital, não em pose.
O tom é franco e polêmico. Entre críticas a vícios institucionais e à cultura da aparência, a aula combina denúncia e método: aponta deformações, mas oferece um roteiro de cura — disciplina do coração, hábitos de estudo, repertório literário, treino da linguagem e da imaginação, coragem para sustentar a verdade sem mendigar aprovação. A meta é formar gente capaz de ver com os próprios olhos, falar com sinceridade e abrir, entre consciência e ação, um lugar real para a vida intelectual. Para quem busca não apenas conteúdos, mas um modo de estudar e viver, este episódio funciona como manifesto e manual: menos slogans, mais consciência; menos adestramento, mais inteligência; menos plateia, mais verdade. Ouça com tempo e o caderno.