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Or


Você pensou que eu fosse alguém,
eu sou só o pedaço
dum homem que se partiu
e não morreu
Se o escuro fosse um fragmento de papel roxo
e os seus lábios fossem traços de giz branco,
inebriantes, tomassem conta da minha boca
e me impedissem de ser tão franco,
tão cruel comigo mesmo,
quem sabe eu fosse mais do que um sopro pode carregar
Se a minha cama fosse o fundo do poço
e você fosse a minha corda,
talvez seria menos difícil levantar todas as manhãs;
mas por que você quer erguer essa carcaça quase morta?
Com tantos apartamentos,
por que bater à minha porta?
Se eu fosse mais que um amontoado caótico de gelo,
você poderia mergulhar em mim,
nadar sem ter bordas,
e não se preocupar com o fim
Se eu ainda tivesse as minhas asas de anjo,
fosse feliz como quando eu era criança
e tinha um redemoinho no cabelo,
eu saciaria seu desejo voar,
quiçá teria contigo um filho
que não gosta de posar para fotos
Se eu não fosse um miserável
te amaria profundamente
e não tentaria me afastar de ti,
te mandar embora;
se não fosse mais que pó,
agora
estaríamos juntos,
entrelaçados num abraço nu
que só se desmancharia no sol nascente,
um daqueles com os mais bonitos raios
que não iluminam uma sessão de fotos no Instagram;
seríamos o instante
desentercedido de passado ou futuro,
seríamos na infinitude momentânea,
a pura sensação de viver
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“Não tenhas medo de mim”,
é o que tento dizer com os meus olhos,
mas as suas retinas sempre me escapam
e as minhas palavras se despedaçam
antes de saírem pelos lábios
Eu ando pelas ruas
procurando a cor das suas
pupilas,
mas elas só refletem o asfalto,
pra você, eu sou apenas o fantasma de outros homens,
eu queria que você realmente pudesse me ver,
nem amigo, nem amante,
nem efêmero, nem importante,
só outro humano,
alguém perto de você
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Na cidade há muitos carros,
muitas cores,
luzes,
outdoors,
todo aquele barulho,
toda aquela gente apressada,
na cidade tudo é magnífico e caótico,
não sobra tempo para a poesia,
a poesia é coisa do campo,
de quem vê passar o dia,
é para quem respira devagar
e não sente cheiro de maresia
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Quando eu ouço os pássaros chilreando para anunciar a primavera,
eu me lembro do teu rosto,
tua voz acariciando meus ouvidos,
vinte mil poemas perdidos,
a cada segundo do nosso enlaço,
mas o destino é uma feiticeira
e ela soprou seu laço,
foste embora numa manhã de terça-feira,
que os anos já levaram para bem longe,
nas profundezas da minha solidão,
mas às vezes
parece que eu consigo escutar a tua alma cantando
dentro do meu coração
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Se já não tivesses a tua ilha,
eu gostaria
de ser teu horizonte,
abrir os braços
e deixar o meu peito ser o teu mar,
que te afundasses em mim sem te afogar,
que procurasses meu confim
até não poderes mais nadar
Queria te fazer feliz
no vai-e-vem das ondas,
ouvir o teu suspiro de alegria
ao te jogares na beira da praia,
queria te ver dormir com o canto dos meus pássaros,
e nunca te deixar esquecer
o gosto do meu sal
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Se eu pudesse escolher
um lugar para morrer,
nas geleiras da Noruega,
nas areias deserto do Atacama,
ou nas areias do caribe, diante do mar aberto;
me jogaria com total entrega,
me esqueceria dos desígnios da cama,
dispensaria o errado e o certo,
chegado o dia,
morreria de alegria,
detentor da certeza
de todo esplendor da natureza
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Quando a caduquice vier,
não quero mais ter exigências
e mastigar rabujos como um ancião qualquer;
quero nos meus devaneios repletos de eloquências
perder todo o critério,
pois no dia em que eu for bem velho
e não puder mais quebrar ossos de frango com os dentes,
quero que a vida não seja mais feita de repentes,
que se instaure a calmaria,
que os dias passem como versos cantarolados duma doce poesia;
quero uma casa cheia de livros mofados pela maresia;
serão dias de descanso,
uma cadeira de balanço
para quem não aguenta mais,
sem mentiras, sem intrigas, sem ranço,
que eu finalmente encontre a paz
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Nem todas as poses são para fotos,
nem todos os amores são para vida,
nem todas as dores são para remédios,
nem todos os tédios são para televisão,
Nem todas as flores são de primavera,
nem todos sonhos de verão,
nem todos os amores morrem no outono,
nem todo frio é de inverno
e nem todo inferno
é fruto da nossa ingratidão
Nem tudo na vida,
que é finita,
um mero diapasão,
vai durar,
tudo, na verdade, é efêmero,
as delícias e as dores,
os amigos e os amores,
os pomares e as flores,
a gente planta
para um dia se acabar
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Eu plantei uma semente na minha nuca,
esse caroço,
no meu pescoço
fez crescer mais que nunca,
crescia e não havia buraco, caçamba, caçapa ou sinuca,
não havia arapuca,
eu era areia e uma vez furado o saco,
me expandia pelo universo
como cada letra que expande meu verso;
minha mente explodiu sem regresso,
eu crescia e crescia, passava o teto,
o forro,
o telhado,
as pedras do Corcovado,
passava o Cristo Redentor,
crescia como a puta que para mim se despia sem pudor,
passei a atmosfera,
passei das estrelas,
dos outros planetas,
asteroides e cometas,
mais do que o homem conhecer pudera;
cresci e fui muito além daquilo que tinha de pior
velejei até encontrar o meu fim,
morri cremado abraçando o sol de outra galáxia
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Não era um pássaro,
não era um avião,
não era um super-herói,
era um homem sem motor,
plumado de sonhos,
e pelado de razão,
tão consumido pelo rancor que ficou mais leve que o ar;
aquilo que não mata dói
e o que não te destrói,
te faz flutuar
Ressecado por dentro como se só bebesse água do mar,
às portas do Paraíso negado,
recusava-se a descer
e pelas nuvens ousava velejar;
sem morrer,
sem ser arrebatado,
era menos que homem,
uma carcaça navegante,
uma sombra de céu desimportante;
mesmo sem vida, não estava necrosado,
mesmo nu, não estava despido,
tinha flechas de paixão e não era desejado,
tinha charme e não era aprumado,
tinha voz e não era ouvido,
por todos os cantos atacado,
mas não ainda destruído,
tinha fama e era desconhecido,
tinha cama e não satisfazia a libido,
era vazio de pleno,
era divertido de tão sério,
inquieto de tão sereno,
enigmático de tão pouco misterioso,
tinha boca e não beijava,
um sexo que a outro não colava;
sozinho de homens e mulheres,
ficou com a companhia das nuvens,
tornou-se amante da chuva
e se sentia orgulhoso de ouvir seus trovões,
gozava com seus raios,
dissolvia-se no mar
e deixava sua pele morta virar coral
É uma fragata que não rouba peixes, mas pedaços de azul,
a cada pontada de maior vigor,
ele fica mais leve,
indelével, vai sobrevoando como um esquilo voador,
de canto em canto,
tentando fugir da própria dor
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