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Já se sabe, Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. No dia 26 de Setembro não vamos eleger 308 câmaras, vamos eleger 307 mais uma, a especial, a alfacinha.
Aquele mastodonte tem 17 mil trabalhadores (é o terceiro empregador do país, logo a seguir ao Pingo Doce e ao Continente) e tem um orçamento que ultrapassa os mil milhões de euros, é superior a nove dos dezanove ministérios do actual governo.
Para se conhecer melhor os hábitos peculiares da câmara de Medina recomendo o "Editorial do Porto Canal sobre o 'monstro' da câmara municipal de Lisboa", emitido em 22 de Junho, facilmente achável no YouTube. São 12'46'' que valem bem a pena.
Neste artigo vou ficar-me só pelas nomeações de pessoal político, assunto em que reparei pela primeira vez quando vi, com espanto, uma listagem de pagamentos do gabinete do vereador Ricardo Robles que veio a público quando aquele político caiu em desgraça. O custo daqueles dez "assessores" bloquistas ultrapassava 1,25 milhões de euros e era um tiro descarado no artigo 42º da Lei das Autarquias.
Nos termos da lei 66/2020, de 4/11, aprovada na Assembleia da República, Lisboa tem direito, no máximo, a vinte nomeados (entre assessores e secretários), mas a câmara de Fernando Medina fez uma "lei" especial para si onde cria 104 tachos. Cada lugar de assessor vale, por mês, €3750 mais IVA; cada lugar de secretário vale, por mês, €2750 mais IVA.
Desde o início deste mandato, já foram assinados 292 destes contratos de prestação de serviços por ajuste directo, a boys e girls de todos os partidos - tanto para os da situação (PS e Bloco), como para os da oposição (os outros todos, da direita à esquerda).
Some-se a esta fauna mais umas três dezenas de amesendados apensos à assembleia municipal. Como diz e muito bem o Porto Canal, aquilo é uma espécie de "Assembleia da República de Lisboa", com "gabinetes políticos" para todos os partidos.
Este caldo de cultura centralista que parasita o país (as grandes empresas facturam em todo o território, mas pagam derrama em Lisboa, onde têm sede) é visto com toda a naturalidade por esta malta com vida atapetada, que passa a vida a coçar-se nos gabinetes. Nem foi capaz de processar o e-mail da polícia que reprovava a festa sportinguista.
Estes acartadores da pasta do chefe de turno não sabem fazer mais nada, desconhecem o que custa a vida, vivem num mundo especial, só deles. É nesta rede clientelar que se formam os quadros dos partidos, os futuros deputados, os futuros governantes.
Como se constatou durante as duas horas do debate desta semana na RTP, nenhum dos doze candidatos à presidência da câmara de Lisboa denuncia, ou põe em causa, esta pouca-vergonha. Nenhum. Nem os candidatos dos micro-partidos. Todos, sem excepção, sonham um dia, também eles, poderem chuchar este maná.
Este mundo à parte, com regras à parte, esta arrogância centralista é uma humilhação para 307 câmaras deste país. É uma humilhação para a Associação Nacional dos Municípios Portugueses.
É, acima de tudo, uma humilhação para os milhares de autarcas dedicados que, por esse país fora, trabalham incansavelmente para o bem comum e o desenvolvimento das suas terras e das suas comunidades.
1. O século XX acabou em 9 de Novembro de 1989, quando caiu o muro de Berlim. O século XXI começou em 11 de Setembro de 2001, quando caíram as torres gémeas. Faz hoje exactamente vinte anos.
Enquanto todo o mundo estava mesmizado em frente às televisões que nos mostravam o que estava a acontecer no World Trade Center, George W. Bush ouvia uma história infantil lida por alunos de uma escola primária.
Os alunos liam em uníssono a "Cabra de estimação", enquanto os "pagers" dos assessores não paravam de vibrar. Ainda se usavam pagers. Steve Jobs só apresentaria o primeiro smartphone seis anos depois.
Entretanto, o chefe de gabinete da Casa Branca, Andrew Card, foi segredar ao ouvido do seu chefe: «um segundo avião atingiu o segunda torre, a América está sob ataque.» Mas Bush continuou a ouvir as crianças até ao fim da história. Por não a ter interrompido foi severamente criticado. E gozado, até por Osama Bin Laden. Não foi aí que George W. Bush errou.
O abalo tectónico do 11 de Setembro deu origem a duas guerras: a do Afeganistão e a do Iraque.
A primeira dessas guerras foi apoiada pela ONU e tirou base territorial ao terrorismo sunita. Acabou agora de uma maneira desgraçada com o regresso dos talibãs ao poder e correspondente tragédia que atinge, especialmente, as mulheres afegãs. Mas os responsáveis deste colapso são Obama, Trump e Biden, especialmente o primeiro. A culpa não é de GWB.
Já na segunda guerra directamente causada pelo 11 de Setembro, a invasão do Iraque, George W. Bush cometeu um erro moral e um desastre estratégico estrutural: a partir de então, os EUA entraram em decadência e o centro de gravidade do mundo começou a transferir-se do Ocidente para a Ásia.
2. Esta é uma grande semana noticiosa do Jornal do Centro: na quarta-feira publicou uma sondagem sobre a eleição para a câmara de Viseu, na quinta emitiu um debate de mais de duas horas com os oito cabeças de lista.
Os comentários nas redes sociais a esta sondagem são muito divertidos. O jornal é acusado de tudo e um par de botas. Já se sabe: quem não gosta de uma mensagem quer sempre "matar" o mensageiro.
A recolha de dados da Eurosondagem, feita entre 4 e 6 de Setembro para o Jornal do Centro, dá seis vereadores ao PSD, três ao PS e revela que ainda há 11,8% de indecisos.
É um retrato que causa alguma surpresa. Os sinais provenientes da mobilização das freguesias parecem indicar que João Azevedo arranca para as duas semanas de campanha já com quatro vereadores firmes.
Enfim, como se diz sempre nestes casos, uma sondagem "vale-o-que-vale". Já falta pouco para o "tira-teimas".
O debate entre os candidatos à câmara de Viseu, transmitido esta semana pela RTP3, foi organizado exactamente nos mesmos termos do de há quatro anos.
Em 2017, o candidato laranja, o malogrado António Almeida Henriques, muito democraticamente, esteve presente e ganhou com uma perna às costas.
Desta vez, o candidato laranja, Fernando Ruas, primou pela ausência, com argumentos de prima-dona: eu não vou à RTP, a RTP que venha a mim.
O dr. Ruas podia ter ganho, ou não, a João Azevedo. Com esta falta de comparência, ainda por cima com justificações pífias, perdeu. E o candidato socialista não desperdiçou a oportunidade para lembrar os resultados que obteve na captação de investimento privado e emprego no período em que governou Mangualde.
Esta recusa em trocar democraticamente argumentos com os adversários é política à antiga. Lembra a arrogância de Cavaco no tempo das suas maiorias absolutas.
O dr. Ruas podia ter aproveitado a antena da RTP3, na terça-feira, para mostrar aos viseenses que, para além de ser um homem com um respeitável passado, é também um homem de futuro, com projectos novos e com ideias capazes de mobilizar e fazer sonhar os viseenses.
Desperdiçada esta oportunidade, as dúvidas subsistem: o que quer o candidato do PSD? O que o faz mexer? O que o motiva? Vai romper com o legado dos oito últimos anos ou vai fazer só alguns ajustes? Vai continuar a apostar nos eventos e no marketing territorial? Não? Se não, o que vai fazer?
Se ganhar, o dr. Ruas leva o mandato até ao fim, ou, a meio, passa a pasta a João Paulo Gouveia? A resposta, com verdade, a esta última pergunta é imperativa. Os viseenses precisam de saber se o voto no dr. Ruas é por inteiro ou é só por metade.
1. Este Agosto foi muito amável, suave na meteorologia, afreguesado nas esplanadas, nos areais, nos passadiços e nos baloiços com vista prá paisagem.
Dão-se os últimos chapinanços na água.
Descem as persianas das casas dos emigrantes. O silêncio regressa às aldeias. Nos cafés, as televisões continuam na CMTV, mas agora há mais mesas vazias do que parceiros para a sueca.
*****
Quase, quase fim de Agosto. Foi bom mas está a acabar. Mais uns dias e é Setembro. Já está quase toda a gente vacinada.
O vice-almirante prepara-se para despir o camuflado. Em visita a Viseu, lembrou que, quando tinha quinze anos, viveu na cidade dos viriatos. E, numa entrevista ao jornal Nascer do Sol, Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo fez mais confidências: que, no verão quente de 1975, teve uma namoradinha viseense que lhe atirava “uns bilhetinhos para o chão” e que ele achava aquilo “ridículo”. Já se sabe: todas-as-cartas-de-amor-são-ridículas. Atiradas para o chão ainda mais.
*****
Este Agosto está a acabar. O verão começou a dizer adeus. Os dias mingam. As noites crescem, pedem um casaquinho.
No Facebook e no Instagram, ainda se publicam pores-do-sol a dourar areais e falésias, mas há no ar um princípio de tristeza. De vésperas de fim. Não tardam aí as contas dos cartões de crédito.
Este é um tempo de blues: “The thrill is gone”, B. B. King.
2. Quando uma câmara fica falida, recebe apoio do estado central ao abrigo do PAEL - Programa de Apoio à Economia Local e fica obrigada a cobrar as taxas mais elevadas dos impostos municipais. Compreende-se, gastou demais, precisa de mais receita e menos despesa. Nos termos da lei, autarca que falhe estas obrigações perde o mandato.
Ora, como há seis presidentes de câmara em risco por desrespeito do PAEL, cinco do PS e um do PCP, estes dois partidos da geringonça aprovaram no parlamento um diploma que perdoava aqueles autarcas.
A terceira república está assim: quando um político não cumpre a lei, não há consequências. Muda-se a lei. Marcelo acaba de vetar esta pouca vergonha. De uma maneira ou outra, o mais provável é aparecer uma safa “legal” qualquer para aquele “bando dos seis”.
Este é um tempo de blues: “Evil”, Howlin' Wolf.
O Despacho n.º 8127/2021, de 17 de Agosto, redigido e mandado publicar no Diário da República pelo Gabinete do Secretário de Estado Adjunto e da Educação, trata da comida que se pode vender nos bufetes e nas máquinas de venda automática das escolas portuguesas.
Com este diploma, o secretário de estado João Costa tem um objectivo virtuoso: ele quer que os alunos cresçam para cima e não para os lados.
Por isso e para isso, este virtuoso despacho faz uma lista do que é proibido vender à juventude esfaimada:
— nada de “pastelaria, designadamente bolos ou pastéis com massa folhada e/ou com creme e/ou cobertura, como palmiers, jesuítas, mil-folhas, bola de Berlim, donuts, folhados doces, croissants ou bolos tipo queque”; 262 anos depois, nova expulsão dos “jesuítas” das escolas portuguesas (João Costa é um novo Marquês de Pombal, brincou alguém no Facebook).
— os “salgados, designadamente rissóis, croquetes, empadas, chamuças, pastéis de massa tenra, pastéis de bacalhau ou folhados salgados” são também exilados para os cafés à volta das escolas;
— para além da razia que faz na pastelaria e nos salgados, este index alimentar tem ainda mais quinze alíneas; a última delas proíbe os gelados (até os Pernas-de-Pau do Sporting, brincou alguém no FB).
Os burocratas do ministério da educação são tão exaustivos que até cansa. Não se julgue que eles estão só ali para retirar comida. É verdade que eles exterminam os “bolos tipo queque”, mas, ralados com a raleza das sandes, recheiam-nas com “alface, tomate, cenoura ralada e couve roxa ripada” por cima e por baixo do “fiambre com baixo teor de gordura e sal, preferencialmente de aves”. Mas, atenção!: nem pensar em “molhos, designadamente ketchup, maionese ou mostarda.”
Agora a sério:
— merece aplauso esta preocupação das autoridades escolares com a qualidade da comida nas nossas escolas e com os problemas de obesidade infantil e juvenil;
— não merece aplauso nenhum esta fúria regulamentadora, feita por rebanhos de burocratas inúteis instalados em Lisboa, que se julgam capazes de prever tudo e de mandar em tudo;
— estas matérias há muito que deviam ter sido deixadas ao auto-governo das comunidades, às autarquias e às direcções das escolas;
— despachos como este só têm uma utilidade: dão matéria para memes e gozo nas redes sociais.
1. Há muito, muito tempo, no tempo em que era tudo analógico, os Ban, uma banda do Porto, lançaram uma canção que foi um êxito. Chamava-se ela “Irreal Social”, era muito dançável, e dizia que “popular” era “surrealizar por aí”.
Foi mesmo há muito, muito tempo, no tempo em que se ouvia música em cassetes de áudio e se via filmes em cassetes que tinham de ser devolvidas devidamente rebobinadas no videoclube. No tempo em que digital tinha a ver com dedos e não com uns e zeros.
Repare-se: o surrealismo ainda era assunto, até de cantigas de discoteca. Ainda era popular. Ainda estava in. Agora não. Agora o surrealismo está out. Perdeu brilho e clientela. Breton e os seus manifestos, Freud e o seu id, Dali e o seu bigode, Cesariny e a sua dentadura, tudo cheio de teias de aranha.
Se fosse agora, Ana Deus e João Loureiro, os vocalistas dos Ban, cantavam que “popular” é “viralizar por aí”. Lá isso é. Especialmente no Twitter e no Facebook, as duas plataformas de “irreal social” em que passamos mais horas.
Estamos sempre agarrados aos smartphones: no semáforo vermelho, na fila da caixa do supermercado, até no passeio higiénico do cão, a trela na mão esquerda, o polegar da mão direita a scrollar no telelé.
Numa pesquisa recente sobre o uso dos telemóveis em nove países de quatro continentes, uns estudiosos da University College London chegaram à conclusão que somos uns “caracóis humanos que carregamos as nossas casas no bolso”. O estudo foi citado em todos os media mundiais. Lá está: viralizou.
2. Atenção. Esta coisa do “viralizar por aí” tem os seus quês. Nunca se sabe bem quando é que o formigueiro das redes sociais pega num assunto e o espalha como fogo num dia seco num prado seco em dia de alerta vermelho da protecção civil.
Por exemplo, João Loureiro já não viraliza grande coisa. Nem quando passou por aquelas vicissitudes com um voo em jato privado ao Brasil.
A virose, nestas autárquicas, também anda fraca. Os “tesourinhos” são poucos. Tentam fazer-nos cócegas com uns nomes mais patuscos de candidatos ou de terras, mas é quase tudo tristonho.
Esta semana houve alguma chispa com os outdoors de “Poço, Alexandre Poço”, o candidato galã do PSD em Oeiras. As meias e a pose dele alegraram um pouco os olhares das eleitoras. Se der para subtrair votos ao dinossauro Isaltino não faz mal nenhum.
O que viralizou por aí muito, ainda com mais velocidade do que a variante Delta do SARS-CoV-2, foi um filme do director dos recursos humanos da TAP, na Plaza Mayor de Madrid, que deixou indignado o pavio curto do ministro Pedro Nuno Santos. Tiro e queda. Melhor dito: filme e queda. Esta semana, o homem lá teve de deslargar o emprego.
Também viralizou por aí muito uma filmagem feita à má fila a Paulo Rangel, que o mostrava aos baldões numa bruxuleante rua de Bruxelas. Por “bruxedo”, aquele vídeo foi parar ao FB a poucos meses das próximas eleições internas do PSD.
Pouco tempo depois da divulgação desse vídeo, saiu uma primeira página miserável do semanário Tal & Qual com assuntos da intimidade do eurodeputado laranja. Felizmente, essa manchete não viralizou.
Estamos em Agosto. Mês de descanso, de férias. Evitemos coisas pesadas. Deixemos para um futuro Olho de Gato a reflexão sobre este vírus reles que invade, cada vez mais, as vidas privadas das figuras públicas. E até das menos públicas.
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