Olho de Gato

Olho de Gato

By Joaquim Alexandre Rodrigues | Jornal do CentroNewsNews Commentary
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Olho de Gato episodes

  • Ep 63 | Amores de verão, canenses, listas de Ruas e Azevedo

    1. Entrou Agosto. A peste está menos má, mas a desbunda não vai ser muita. É que ainda há muita vacina para dar, os festivais de verão estão proibidos e as nossas aldeias não vão ter festas nem romarias. 
    Entrou Agosto, o querido mês de Agosto. As férias. O bronze. Como é que vão ser os amores de verão? Às escondidas da dra. Graça Freitas? Às escondidas do feminismo burguês que tudo quer proibir, até os vestidos da Lenka do Preço Certo? 

    2. Na sequência de uma queixa judicial, o funcionário responsável pela página de Facebook da câmara de Nelas, ouvido pelo ministério público, explicou que ela está programada para fazer a “ocultação automática de comentários que contenham palavras ofensivas, tais como canense, índio, energúmeno, aldrabão, mentiroso.” 
    Coisa abstrusa. O município de Nelas, ao incluir “canense” no rol dos insultos, atinge em cheio Canas de Senhorim e de raspão Canas de Santa Maria, no vizinho concelho de Tondela. 
    Para além disso, vem tornar necessária uma actualização da listagem de “desconsiderações, achincalhamentos, verrinas, [e] ofensas” do célebre “Dicionário de Insultos”, de Sérgio Luís de Carvalho.

    3. No início desta semana foram conhecidas as listas para as autarquias.  
    Sem surpresa nenhuma, as listas do PSD e do PS à câmara de Viseu são uma ruptura completa com os últimos oito anos de políticas imateriais do concelho. Houve uma varredela quase total nos vereadores: dos seis da situação só fica um, dos três da oposição não fica nenhum. 
    Nota-se que Fernando Ruas foi condicionado nas suas escolhas. Teve que pôr na sua lista dois homens do aparelho laranja — João Paulo Gouveia (presidente da concelhia e potencial sucessor de Ruas a meio do mandato) e Guilherme Almeida (que não existe fora da política).
    Já João Azevedo percebeu que a concelhia socialista é um activo tóxico e procedeu em conformidade — foi buscar gente que se distingue nas suas profissões e não precisa da política para viver.
    O tempo é um patife implacável: nos seus anos de ouro, o dr. Ruas punha e dispunha e escolhia quem queria para as suas equipas. Agora essa liberdade passou para o lado de João Azevedo.

    19 min
  • Ep 62 | A bitola BPN e o sabonete de Ricardo Salgado

    1. O relatório final da comissão parlamentar de inquérito ao Novo Banco, acabado de votar no parlamento, é uma salgalhada sem interesse nenhum. Figurinhas tristes, as daqueles deputados. A cegueira partidária não deu para mais. 
    De qualquer maneira, fica o registo das audições. As perguntas dos deputados e as respostas dos “empreendedores” foram bem sumarentas:
    — confirmámos que o parlamento tem duas deputadas bem preparadas e competentes: Cecília Meireles e Mariana Mortágua;
    — ficámos a conhecer uma fila de “capitalistas” da treta, sem qualidade empresarial nem humana, mas com conta aberta no bar do “tio” Ricardo Salgado;
    — assistimos, ao vivo e a cores, ao haraquiri do presidente do Benfica.

    2. O contribuinte português paga impostos de país nórdico e recebe serviços públicos de terceiro mundo. 
    Além disso, especializou-se na benemérita arte de salvar bancos, banquinhos e banquetas. Tanto oxigena bancos privados com falta de ar (mal-empregados aqueles 3,2 mil milhões de euros derretidos no Banif...), como salva do naufrágio a CGD, o banco dos elefantes brancos e dos berardos (que agora se dedica a sacar despesas de manutenção das contas dos velhos, enquanto os vai enxotando dos balcões e lhes vai fechando agências).
    Quando se trata de dinheiro para bancos, é sempre aos milhares de milhões de euros. São tantos milhares de milhões que até se perde a noção do custo deste “rendimento social de inserção” para banqueiros em situação difícil. 
    Usemos como bitola o BPN, o primeiro a dar o estoiro. Aquela banqueta do cavaquismo custou-nos 6,2 mil milhões de euros. Se no final desta história o BES — um banco a sério dirigido por gente que não o era — nos custar menos do dobro que nos custou o BPN, podemos dizer que as coisas até nem correram muito mal. 
    Ora, pelas últimas previsões do Tribunal de Contas, parece mesmo que tal vai acontecer. Em termos absolutos, o ex-dono-disto-tudo causou uma cratera horrível, mas, usando a bitola BPN, pode dizer-se que podia ter sido bem pior: o buraco do “divino” espírito santo vai ficar em 10,8 mil milhões de euros (4,9 mil milhões assumidos por Passos Coelho, mais 5,9 mil milhões por António Costa). 
    É que, em cima dos 3,9 mil milhões de euros que a geringonça tem estado a pagar à Lone Star, em nada suaves prestações anuais, ainda há mais 2 mil milhões de euros pendurados com uns “ses”. Mário Centeno diz que “a melhor estimativa” para esses condicionalismos de rácios de capital põe-os a custo “zero”. Mas nós já sabemos o que quer dizer “custo zero” quando se trata de bancos.

    3. Entretanto, Ricardo Salgado está de férias na Sardenha. Em vez de estar a apanhar o sabonete num duche do Estabelecimento Prisional da Carregueira.

    14 min
  • Ep 61 | Os benefícios de uma vitória insossa

    1. Faltam nove semanas para as eleições autárquicas. As rotundas do país transbordam de outdoors.
    As autárquicas são "A" festa da democracia. São milhares e milhares de candidatos, muitos sonhos, muito amor-à-terra, muita dedicação ao colectivo. 
    Já se sabe que nem tudo é luminoso nas realizações humanas, mas, mesmo com as suas zonas de sombra, mesmo com um ou outro autarca menos recomendável, mesmo assim o poder local democrático é do pouco que ainda se safa nesta centralista e corrupta terceira república, que nos últimos vinte anos tem estado a levar alegremente o país para a cauda da “Europa”.
    Já o disse aqui, mas repito-o mais uma vez: a terceira república tem duas realizações extraordinárias — o SNS e o poder local democrático. 
    Este, com menos de 10% do orçamento de estado, mudou a face das nossas cidades, vilas e aldeias. Fez evoluir o nosso viver colectivo. Deu e dá uma resposta de proximidade às necessidades e emergências das populações. 
    Não menos importante: o poder local é a nossa mais importante escola de aprendizagem e participação democrática. As centenas de milhar de cidadãos que são ou já foram autarcas nas freguesias e nos municípios, que têm um conhecimento por dentro de como funcionam as instituições, são um esteio moderado e sensato, são um baluarte na defesa da nossa democracia contra os perigos provenientes dos radicalismos identitários à esquerda e à direita. 

    2. A António Costa convém que o PS ganhe, mas não por muito. Não é prudente ao primeiro-ministro seguir o conselho do bispo Alves Martins que, em matéria de sal, prescrevia: “nem muito nem pouco, só o preciso”. 
    Sal na vitória socialista das autárquicas de 26 de Setembro? O mínimo dos mínimos, muito menos do que “o preciso” de que falava aquele bispo liberal. O ideal para o governo é que a festa seja insulsa, descondimentada, com menos sal do que a comida de um hipertenso. 
    É que:
    — se o PS amarfanhar muito o PSD, os laranjas põem uns patins em Rui Rio e o primeiro-ministro deixa de contar com a inabilidade do actual chefe da oposição;
    — se o PS continuar a esmifrar câmaras ao PCP, como fez há quatro anos em que lhe sacou nove, com que condições é que Jerónimo de Sousa vai poder continuar a geringonçar?

    13 min
  • Ep 60 | Um zombie com uma pipa de massa

    Em Novembro de 2012, com o país ainda entroikado, António José Seguro propôs a criação de um banco de fomento “de propriedade pública, focado no apoio ao investimento e beneficiando dos próximos fundos comunitários.”
    Esta proposta do então líder da oposição não pareceu grande espingarda a ninguém e a comunicação social não lhe ligou grande coisa. Ao fim e ao cabo, o país já tinha um banco público “focado no apoio ao investimento” em elefantes brancos e berardos. Chamava-se e chama-se Caixa Geral de Depósitos. Para quê criar outro?
    A troika também torceu o nariz a um segundo banco público. Mas o facto é que este acabou por ser cozinhado discretamente por “chefs” devidamente ataviados de luvas e avental. Em Outubro de 2014, o bloco central criou a “IFD - Instituição Financeira de Desenvolvimento”, com um capital público de cem milhões de euros. Uma curiosidade: a sede ficou no Porto e não em Lisboa. Deve ter caído um santo do altar.
    Ora bem, desde a sua fundação, a IFD foi sempre uma nulidade. Dali não veio nada que correspondesse ao sonho de António José Seguro. Durante seis anos, houve a criação de alguns empregos na “Inbicta”, mas pouco mais: a IFD foi um "banco de fomento zombie", completamente "irrelevante" (qualificativos que peço emprestados ao director do jornal online Eco).
    Isto enquanto as águas iam passando debaixo da ponte da Arrábida e os tempos mudavam: veio a primeira geringonça e as selfies de Marcelo e o golo do Éder e o boom das escapadinhas em alojamento local, veio a segunda geringonça e a covid.
    A peste é uma desgraça sanitária e é uma desgraça económica. Para a primeira, a UE arranjou as vacinas, para a segunda, a bazuca. Para as vacinas, temos o vice-almirante. Para a bazuca, boys. Portugal costuma derreter fundos comunitários mal e devagar, agora vai ter de os derreter depressa, a bem ou a mal.  
    Para responder a esta premência, António Costa e o ministro Siza Vieira enfiaram numa panela a morta-viva IFD, depois, para dar àquilo algum sabor, acrescentaram-lhe a PME-Investimentos e a Sociedade Portuguesa de Garantia Mútua, a seguir mexeram bem aquelas três instituições, acrescentaram lá para dentro 255 milhões de euros de capitais públicos, deixaram apurar ao lume, e, tarããã!: no dia 3 de Novembro de 2020, ficou cozinhado o Banco Português de Fomento.
    Foi  exactamente para “chairman” deste novo banco que o governo designou Vítor Rodrigues, o gestor que acaba de ser atropelado pelos sarilhos de Luís Filipe Vieira. Foi exactamente ao lado de Vítor Rodrigues que, em 14 de Abril, o ministro Siza Vieira anunciou o aumento de “poder de fogo” do Banco Português de Fomento com mais 1,25 mil milhões de euros provenientes da bazuca. Um balúrdio.
    O jogo vai começar. De um lado vamos ter um banco sem líder, cozinhado à pressa através da fusão de três instituições com culturas organizacionais diferentes, e com uma pipa de massa para distribuir. Do outro lado, temos glutões de fundos comunitários com décadas de treino.
    Vai correr tudo bem, não vai? 

    15 min
  • Ep 59 | D. Afonso Henriques, D. Duarte, Siza, Saramago

    D. Afonso Henriques, D. Duarte, Siza, Saramago


    1. Durante os quase novecentos anos que tem Portugal, onde nasceram os nossos chefes de estado, os reis e os presidentes da república?

    Pedro Correia, do semanário Novo, fez esta pesquisa e a conclusão mais surpreendentes é nunca ter nascido nenhum rei nem nenhum presidente no Porto. Acrescente-se que catorze das dezoito capitais de distrito estão também a zeros. Já Viseu está bem colocado nesta estatística: foi o berço de D. Afonso Henriques (embora alguns historiadores apontem ainda o nascimento do nosso primeiro rei para Guimarães) e de D. Duarte (neste caso, nenhuma dúvida). 

    Falta agora a Viseu dar ao país um presidente da república. Quem sabe se já não terá nascido...


    2. A petição contra a cobertura fotovoltaica do Mercado 2 de Maio, em Viseu, deu origem a um fortíssimo movimento de cidadãos, que teve muito impacto, e não só nos media nacionais.

    No final de Fevereiro, o jornal espanhol ABC dedicou um artigo ao assunto, intitulado "El proyecto para cubrir una plaza remodelada por Álvaro Siza desata la polémica en Portugal", onde descreveu com algum detalhe a solidariedade que se formou à volta de Siza Vieira. Este, como se sabe, reprova o que está a ser feito. O jornal espanhol cita-o: "es una barbaridad cubrir una plaza de un centro histórico tan denso".

    Como se sabe, o então "alcalde de Viseu", o malogrado António Almeida Henriques, mandou avançar as máquinas. Espera-se que esta campanha eleitoral, para além da poluição visual que plantou nas rotundas, possa debater este assunto e que os seis candidatos à câmara digam de sua justiça sobre o que está ali a ser feito.

    Por causa desta obra, este artigo do ABC faz um retrato pouco agradável do "municipio onde nació Joao Félix, la estrella del Atlético de Madrid". 

    É claro que estarmos a ser observados, como neste caso, é bom. É óptimo também para podermos reparar bem no olhar de quem virou os binóculos para nós. 

    Apreciemos então ao que veio Francisco Chacón, o articulista do ABC. Depois de ter ganho a atenção dos leitores espanhóis com a referência à cidade-berço de D. Afonso Henriques, perdão, com a referência à cidade-berço de João Félix, o homem avançou em toda a força: 

    - que em Portugal desama-se a arte, até se vandaliza uma obra do estimável Pedro Cabrita Reis com dizeres horríveis: «una vergüenza», «com nuestros impuestos», «300.000 euros»;

    - que Álvaro Siza Vieira é maltratado em Portugal, como acaba de acontecer em Viseu;

    - que Álvaro Siza Vieira é idolatrado em Espanha, foi-lhe atribuído até o Prémio Nacional de Arquitectura em 2020;

    - que "a patria del fado" é habitada por jovens hunos que não mostram por Siza Vieira "el respeto que se le ha mostrado en España";

    - que são os velhos, os "coetáneos" de Siza, que ainda mostram por ele uma "férrea solidaridad";

    - que, se não fossem estes velhadas, o nosso Siza "podria plantear seguir el mismo camino que José Saramago quando abandonó Portugal para instalar-se en Lazarote".

    10 min
  • Ep 58 | O passado e o futuro do trabalho

    Ao longo da história humana houve sempre profissões a ficarem obsoletas e a serem substituídas por outras. 

    Foi sempre assim no passado, não é muito certo que vá ser sempre assim no futuro: é que as máquinas, cada vez mais "inteligentes", estão a ser desenhadas para dispensarem a intervenção humana. 

    Isto é bom (maior produção, maior riqueza) e é um sarilho (mais desigualdade, mais pobreza, mais precariedade).



    Trabalhos-que-havia-mas-já-não-há


    Colocadores de pinos no bowling (perderam o emprego para a máquina que faz isso automaticamente), ascensorista (os elevadores automáticos desgraçaram-nos), operadores de linótipo (a fotocomposição mandou-os para casa), calculadores humanos (vitais antes das máquinas de calcular, eram normalmente mulheres, o que só surpreende os machistas enrustidos), despertadores humanos (tinham o trabalho de andar a acordar as pessoas batendo-lhes com um pau nas janelas, os relógios-despertadores desempregaram-nos em meados do século XIX ), ressurrecionistas (desenterradores de corpos para estudo anatómico, perderam o emprego por motivos éticos óbvios), …, ...

    A estas ex-profissões — achadas num artigo intitulado “45 empregos estranhos que já não existem hoje” — podia acrescentar um exemplo muito mais pacato e mais recente: empregado de videoclube (uma cinéfila profissão que quem tem mais de 20 anos conheceu, quem tem menos nem sabe bem como é que aquilo dava dinheiro).



    Trabalho-que-ainda-há-mas-vai-deixar-de-haver


    Como se sabe, a automatização começou por tirar o trabalho aos colarinhos azuis, mas está agora a tirá-lo também aos colarinhos brancos. As máquinas começaram por substituir os humanos em actividades físicas penosas, depois, aos poucos, começaram a ser capazes de fazer tarefas cada vez mais complexas.

    Agora elas começam a integrar “inteligência artificial” e até a “inteligência ética” — por exemplo, um carro autónomo, daqueles que se guia sozinho, numa situação de perigo inescapável, vai ter que decidir, numa fracção de segundo, se sacrifica o passageiro ou três peões.

    Vêm aí problemas. Cada vez mais problemas. Cá estaremos para os ir resolvendo. Vamos todos fazer muitas asneiras. As máquinas também.

    Chegam-nos todos os dias notícias de “admiráveis-mundos-novos” destruidores de emprego: veículos autónomos, hotéis sem empregados, supermercados sem operadores de caixa nem repositores nem clientes, drones a fazerem entregas caseiras, máquinas agrícolas faz-tudo.

    Adeus, trabalho humano. O emprego que vai sobrando é cada vez mais precário. Os subsídios de desemprego, menores. As demais prestações sociais, sujeitas às ditas “condições de recursos”, são armadilhas que mantêm as pessoas na pobreza, ao mesmo tempo que reforçam o poder das burocracias sociais do estado, cada vez mais paternalistas, arrogantes e corruptas. 

    Burocracias que, como explicou Guy Standing, na Web Summit de 2017, fazem com que “90% desses apoios” nunca cheguem verdadeiramente aos mais pobres.

    A sobre-riqueza produzida pela automação não pode ficar só para os rentistas e para os aparelhos do Estado. Aquele professor de economia da Universidade de Londres e autor de «O Precariado - A Nova Classe Perigosa» defende a criação de um rendimento básico incondicional para todos os cidadãos, ricos, remediados e pobres, empregados ou não.

    Em Lisboa, há quatro anos, Guy Standing explicitou assim esta ideia: “a criação de um rendimento básico incondicional traria justiça social e um mínimo de segurança, uma âncora. Mais do que o dinheiro em si, traria emancipação, a liberdade de fazer escolhas. Hoje, na iminência de perderem os benefícios concedidos pelo Estado, as pessoas aceitam empregos precários, num ciclo perpétuo de precariedade.”

    Precisamos de pensar formas de desligar o trabalho dos apoios às pessoas. Perante a destruição de emprego que se anuncia — lembremo-nos, por exemplo, dos milhões de motoristas que vão ser substituídos por veículos autónomos —, não se vê outra forma para combater a desigualdade e a precariedade.

    15 min
  • Ep 57 | Algoritmos

    1. O filme “Nas Nuvens”, realizado por Jason Reitman e protagonizado por George Clooney, foi lançado nos Estados Unidos nos finais de 2009 e estreou em todo o mundo no início de 2010. 
    Clooney faz o papel de um viciado em viagens de avião, um homem que anda literalmente “Up in the air” (o título original do filme) a despedir pessoas. É um despedidor activíssimo. Que poupa aos patrões o melindre de terem de dizer, olhos nos olhos, a um seu empregado: «não preciso mais de si!» 
    Clooney é um bom actor. Se o papel é para ser frio como uma pedra, ele vira calhau de gelo, ele usa o catálogo completo dos eufemismos para aquela situação, ele doura por completo aquela pílula amargosa. As várias cenas de despedimento do filme têm uma dose de realismo extra: foram rodadas com pessoas que tinham acabado de viver na pele aquela situação por causa da crise financeira do subprime.
    A história dá muitas voltas. A certa altura, aparece uma tecnocrata ainda mais glacial do que Clooney, que vai abanar os fundamentos da vida dele. Ela quer impessoalizar ainda mais os despedimentos, quer que eles passem a ser feitos por vídeo-conferência. A mulher é uma visionária: já sonhava com o “Zoom” muito antes da Covid. 
    Vi o filme na altura da estreia, já não me lembro se aquele gelo entre os dois foi derretido na cama, nem importa muito para o caso. Fiquemos neste ponto: o despedidor-mor em risco de ser despedido por causa de um avanço tecnológico.

    2. Os despedimentos da TAP foram entregues a uma empresa norte-americana, a Boston Consulting Group, que desenvolveu um algoritmo que “inputa” os parâmetros “produtividade, absentismo, experiência, contributo, custo e habilitações” de cada um dos trabalhadores e “outputa” quem continua a voar e quem é ejectado daquela companhia aérea.
    O ministro Pedro Nuno Santos afirma que este “é um método que garante maior imparcialidade na gestão desse processo”. Por sua vez, os sindicalistas vêem nele “uma artimanha inventada pelas consultoras e advogados de turno”.
    Dá para perceber a evolução dos tempos. Agora, empregos “nas nuvens” como o de Clooney já não há. Agora, os “algoritmos” fazem esse trabalho sujo. É o chamado “progresso”. Que o ministro prefere. Não o reprovo por isso. Ser ludista não adianta, não é solução.
    Contudo, progresso a sério, progresso dos bons será quando houver um “algoritmo” que despeça a chamada “grande advocacia de negócios”, esse cancro rentista que está sempre presente em todos os negócios do estado. Que factura sempre com todos os nossos desastres financeiros e, portanto, também no buraco sem fundo chamado TAP.

    3. Como se sabe, o candidato socialista à câmara de Viseu está internado com problemas cardíacos.
    Caro João Azevedo, força! As melhores melhoras. Completas e rápidas. Saúde primeiro. Política depois.

    10 min
  • Ep 56 | As três repúblicas portuguesas: 16 anos + 48 anos + (50-3) anos

    Os militares deixaram que a primeira república durasse dezasseis anos e depois acabaram com ela, deixaram que a segunda república se arrastasse por quarenta e oito longos anos e depois, num “dia inicial inteiro e limpo”, acabaram com ela.
    Foram também os militares que fizeram o parto da terceira república. Que entretanto cresceu e já é bem adulta. Tem quarenta e sete anos. Está quase a ultrapassar, em duração, os anos salazarosos. O actual regime está para durar. Os tempos são outros. Os militares agora já não fazem golpes de estado.
    A terceira república prepara-se para festejar o seu meio século. E sem olhar a despesas. Já lá vamos a esse boyismo. Antes disso, façamos um scanning rápido, quase esquemático, pelos anos já vividos da nossa democracia.

    1974 a 1986 — o tempo dos fundadores

    Neste período turbulento, os fundadores do regime — MFA/Eanes, Soares, Cunhal, Sá Carneiro, Freitas — fizeram a descolonização, a desmilitarização do poder e prepararam a entrada na “Europa”. 
    Neste período, precisámos de pedir dinheiro duas vezes ao FMI: 
    — em 1977, empréstimo no valor de 1% do PIB, por causa do retorno das colónias; este resgate foi um sucesso, permitiu integrar rapidamente mais de meio milhão de concidadãos vindos de África;
    — em 1983, 2,8% do PIB; desta vez foi traumático, houve muita fome e os rendimentos foram engolidos por inflações elevadíssimas; em 1983 o poder de compra caiu 7% e, no ano seguinte, 12,5%.

    1986 a 2001 — o tempo dos sucessores

    Numa boa parte desta década e meia tranquila, o pai do regime, Mário Soares, pontificou em Belém, mas foram os sucessores — Cavaco e Guterres — que trataram do essencial: infraestruturação do país, consolidação do poder local, aprofundamento do estado social, preparação para a entrada na moeda única.
    Não houve nenhuma bancarrota durante este período, o que não admira se nos lembrarmos das receitas das privatizações e do fluxo dos fundos comunitários.

    2002 a 2021 — o tempo dos funcionários

    Nestas duas décadas, passámos a ser governados por líderes sem vida fora da política. Durão, Santana, Sócrates, Passos e Costa têm óbvias diferenças entre si, mas todos eles fizeram da política a sua profissão.
    Nestes anos do pântano, tivemos aumentos de impostos, corrupção descarada e impune, parasitação partidária e degradação dos serviços do estado, centralismo, abandono do interior.
    Entre 2011 e 2014, a bancarrota socrática obrigou a um resgate no valor de 45,5% do PIB (!), causando desemprego, emigração e desesperança. 
    As últimas gerações no poder pouco mais têm sido do que okupas do futuro. A dívida pública, que os nossos filhos e os nossos netos vão ter de pagar, não pára de aumentar. No virar do milénio, era de 78 mil milhões de euros (57,4% do PIB), agora mais do que triplicou, já ultrapassa os 270 mil milhões de euros (133,7%). 
    Levamos duas décadas seguidas de estagnação. Os países de leste — que entraram na UE nos alargamentos de 2004, 2007 e 2010 — ou já nos ultrapassaram ou preparam-se para o fazer.

    Notas finais:
    — as designações “tempo dos fundadores, dos sucessores, dos funcionários” são de Joaquim Aguiar, as três divisões temporais são minhas;
    — a comemoração dos 40 anos do 25 de Abril custou ao todo 250 mil euros; agora, esse valor não chega sequer para pagar as mordomias de Pedro Adão e Silva, o comissário executivo para a comemoração dos 50 anos;
    — o costume: fora da capital estado mínimo, na capital estado máximo; a corte centralista, tanto a política como a mediática, acha que assim é que é natural, assim é que está bem; é por isso que ninguém se deve admirar por a melhor e mais completa biografia daquele videirinho ter sido feita pelo Porto Canal e não por nenhum media alfacinha.

    15 min
  • Ep 55 | O dedo levantado de Ai Weiwei

    Durante o confinamento do início deste ano as coisas estiveram tão mal em Portugal  que até a publicidade quase desapareceu das ruas. Um dos poucos cartazes que as pessoas podiam ver durante os seus “passeios higiénicos” era o anúncio da exposição RAPTURE, do artista chinês Ai Weiwei, na Cordoaria Nacional, em Lisboa.
    “Rapture” abre este fim-de-semana, pode ser vista até 28 de Novembro e é “O” acontecimento cultural do ano no nosso país. 
    Esta exposição —  a maior de sempre de Ai — vai ter trabalhos seus já conhecidos (por exemplo, a “Snake Ceiling” agarrada ao tecto, feita com centenas de mochilas, em homenagem às milhares de crianças mortas num terramoto na China) e vai ter trabalhos novos (vários incorporam materiais e técnicas portuguesas — azulejo,  cortiça, tecido, pedra). O artista comprou uma casa em Montemor-o-Novo, no Alentejo, e tem estado cá a trabalhar com artesãos portugueses.
    A obra de Ai Weiwei não é separável nem entendível fora do seu activismo pelos direitos humanos e a liberdade de expressão. Ele é um príncipe da liberdade e não pode, de maneira nenhuma, ser confundido com a fauna agora muito numerosa de “activistas” de teclado, chuis da linguagem e do politicamente correcto, que uiva nas universidades, nos media e nas redes sociais, perseguindo e cancelando gente por “delito” de opinião. 
    Ai Weiwei é perseguido no seu país. Enquanto lá governar a lógica neo-maoísta de Xi Jinping, se regressar será imediatamente preso. 
    O que não seria novo nem para ele nem para a sua família: 
    — em 1958, o seu pai, o poeta Ai Qing, foi acusado do “crime” de escrever poesia “formalista” e, por causa disso, foi posto a lavar retretes num campo de trabalho em Xinjiang (conhecida como a “pequena Sibéria” chinesa), enquanto jovens comunistas se entretinham a atirar-lhe tinta à cara e pedras ao corpo todo;
    — por sua vez, Ai Weiwei (que tinha um ano quando o pai foi preso) também já conheceu as masmorras chinesas: esteve preso oitenta e um dias, em 2011, num local ainda hoje desconhecido, foi sujeito a cinquenta interrogatórios sempre algemado; algemas que, logo no ano seguinte, usou numas danças divertidas e bem-dispostas com uns amigos, num vídeo intitulado “Gangnam Style” facilmente achável no YouTube; três anos depois, o artista fez umas algemas em jade e uma réplica claustrofóbica da sua cela; essas duas obras estão em Berlim, no museu Martin-Gropius-Bau.

    Só mais dois trabalhos de Ai Weiwei:

    “CORONATION” — um filme sobre o “lockdown” de Wuhan, logo no início da pandemia. Este documentário não foi rodado por  Ai mas por vários seus colaboradores que, clandestinamente, lhe fizeram chegar imagens e sons  daquele enclausuramento total de uma cidade de onze milhões de habitantes. 
    Por pressão da China, “Coronation” não passou nas netflixes e nos festivais de cinema deste mundo, o que diz tanto das pulsões censórias do sr. Xi JinPing como da cobardia do mundo em geral e do ocidente em particular.

    “STUDY OF PERSPECTIVE” — este “estudo de perspectiva” é uma longa série fotográfica em que Ai Weiwei mostra o dedo do meio da sua mão esquerda dirigido a instituições, monumentos, sítios marcantes ou icónicos. A ideia é imitar, de uma maneira corrosiva, as fotografias típicas que os turistas gostam de prantar nas redes sociais. 
    Weiwei já levantou o dedo dezenas de vezes por esse mundo fora: à Casa Branca em Washington, à Ópera em Sydney, à Mona Lisa no Louvre, à Sagrada Família em Barcelona, à Trump Tower em Nova York, à..., ao...   
    O primeiro pirete é de 1995 e foi feito ao retrato de Mao na Praça Tiananmen, em Pequim. Foi na praça a que o regime chama da “PazCelestial”, onde, seis anos antes, foram massacrados milhares de estudantes que lutavam pela liberdade. 
    Um pirete livre. Um pirete coragem. Enquanto houver Ai Weiweis neste mundo a liberdade não morre.

    16 min
  • Ep 54 | Pendências e alfacinhismo

    1. No início deste mês tratei aqui de “três casos peculiares” que estavam a aquecer o ambiente político em três concelhos do distrito de Viseu. Vejamos como estão agora estas três pendências:
     
    (i) Em Vila Nova de Paiva, tudo na mesma: José Manuel Rodrigues, que mudou de camisola e é agora candidato do PSD, continua com os fundilhos grudados à cadeira da presidência da assembleia municipal para onde foi eleito há quatro anos pelo PS, o partido que agora vai combater.

    (ii) Em Viseu tudo também na mesma: o lóbi dos eventos e das festas escreve cartas a “D. Sebastião” Sobrado, a ver se este arranja uma camisola. 
    João Azevedo já avisou que não liga a “cortinas de fumo”. E, como é sabido, Fernando Ruas também não aprecia ambientes enfumarados.

    (iii) Já em Resende há novidades: como se sabe, o patriarca socialista  António Borges e o seu operacional que está a presidente da concelhia não queriam reconduzir Garcez Trindade, o presidente da câmara eleito. Até arranjaram uma proto-candidata, a vereadora Sandra Pinto. Tudo isto a acontecer enquanto Garcez ameaçava que, se lhe fizessem essa desfeita, ia a votos como independente.
    Perante esta guerra entre irmãos desavindos — em que não se sabe bem quem é Abel nem quem é Caim —, perguntei eu aqui: “António Costa consegue meter juízo na cabeça dos socialistas de Resende?”
    Lá teve mesmo António Costa que intervir. Um “volte-face” chamou-lhe este jornal. Apesar das manobras borgistas, Garcês Trindade é o candidato oficial do PS em Resende. Vai tentar um terceiro mandato. Até já teve esta semana uma visita oficial da ministra Ana Abrunhosa às Caldas de Aregos.

    2. Perante a subida das infecções na capital, o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, anunciou na terça-feira “uma aceleração do processo de vacinação em Lisboa». 
    Nunca falha. É pavloviano. Os governos têm todos a mesma doença: sofrem de alfacinhismo. Primeiro, Lisboa. A seguir, a “paisagem” leva as sobras. Se houver.
    Isto é um padrão. Foi o mesmo com os descontos para os passes nos transportes públicos. Uma matéria do orçamento de estado de 2019 que foi anunciada pelo presidente da câmara alfacinha — 60 milhões de euros para passes fofinhos em Lisboa. Depois, claro, perante o clamor  do resto do país, lá foram estendidos uns carinhos e uns afagos à “paisagem”. 
    O mesmo aconteceu agora com as vacinas. Valeu ao país a voz independente do presidente da câmara do Porto (a quem o cartel partidário só não derrubará se não puder) e a firmeza do vice-almirante Gouveia e Melo (que não é um boy e, portanto, corta a direito; é um nome a ter em conta para as próximas eleições presidenciais).

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