Desde maio que ele vem dando voz a alguns dos escritores que se dedicaram a escrever sobre a cidade, neste ano em que o Rio é Capital Mundial do Livro. Agora, em ‘Sempre o mesmo neto’, crônica assinada pelo âncora do CBN Rio Leandro Resende, Tony revive alguns dos seus personagens mais marcantes e das histórias que tem com a cidade.
Leandro Resende - Sempre o mesmo neto
Houve uma época em que sonhar custava dois cruzeiros. Tinha cheiro, gosto e era bonito de ver. Era, também, um segredo. Era uma nota com o rosto de Duque de Caxias, papelzinho amarelado e dobrado que minha avó colocava na minha mão. Um chocolate, um refrigerante e o sonho projetado em uma tela grande, na Vila Maria, em São Paulo.
O cinema se chamava Candelária… Anos depois, para onde eu fui, lembraria daquele lugar ao passar por uma igreja, no Centro. Assistia Oscarito, imprevisível e divertido como a vida deveria ser. Era o sonho… Quem sabe um dia? Comecei a imitá-lo, e a tantos outros que me despertaram para essa palavrinha curta, simples, que mudou minha vida: arte. Pequenas plateias riam: será que tenho o dom?
Um dia minha avó me deu uma camisa listrada azul e branca, uma calça de tergal azul-marinho e um sapato Paso Doble, com sola de borracha. Fui fazer um teste. Precisava estar aprumado para entrar em todas as casas, por uma tela menor. Aracy, Lima, Laura, Elias, com eles aprendi, fiquei e cresci. E em determinado momento, senti aquele comichão de mudar.
Deixo a terra da garoa e meu primeiro pouso na mais maravilhosa das cidades é na Rua Redentor, Jardim Botânico. Minha companheira pára o carro em frente a uma padaria, na Rua Von Martius, abre um guia e traça nossos sonhos: é aqui, neste lugar, que eles continuam. Aqui nossos filhos crescem, chegam nossos netos. Essa é a nossa cidade, cujo mistério desbravo.
Não vou só. Ganho outros tantos nomes. O menino da Vila Maria passou por um espelho mágico e virei, veja só, minha avó: Márcio. Sentado nos degraus de um chafariz, na Praça Afonso Viseu, no Alto da Boa Vista, tirei notas de lamento de um trompete.
Desci aquelas curvas todas de lá até a Zona Sul, onde mantenho meus encontros regulares com meu segundo lar: o palco. Ele é imorredouro. Passo um ano no bairro da Glória pagando promessas e me torno Zé do Burro. Deixo ele do meu jeito, assim como deixei Getúlio, Boanerges, Riobaldo. Figuras da nossa e da minha história.
Eles são múltiplos. Bons, maus, complexos e divertidos. Não me desafiam nunca: me estimulam. Os estudo, discuto com minha companheira e ganhamos os céus. Às vezes literalmente, quando sobrevoei esta cidade pilotando um helicóptero: éramos eu, Quinzinho e João Victor, dois ou três de mim.
Fui filho de Helena… E me apaixonei por uma, no Leblon, em meio a tantos livros e às bossas de João Gilberto, Vinícius de Moraes. E de Tom Jobim, que encontrei uma vez na velha churrascaria Plataforma. Ah, este Leblon. Tentei fazer com que o saxofone de Téo balançasse no ritmo do mar que me encanta e acalma. Ali vi uma rua parar, quando a realidade dura e as histórias que conto se tocaram numa mesma tragédia - lugar em que esta cidade também se reconhece....
Fui, eu mesmo, uma Helena. Por um tempo curto, afinal, eu era Cláudio. E nessa confusão, do outro lado de uma tela grande no Largo do Machado, uma avó e um outro menino riram a mesma gargalhada de todo o país, este meu, a quem entrego há tantos aquela palavrinha que Oscarito me ensinou enquanto sonho: arte.
Paranaense, paulistano e há tantos anos carioca. Grego, português, indiano. Galã, herói, injustiçado, vingativo, divertido, engenheiro, falido, milionário, apresentador. Radialista. André, Zé Maria… Abel. Antônio.
No fundo, o mesmo menino com a nota de dois cruzeiros dobrada na mão. Vó Dodô, acredite: fui, sou e serei tantos.
Mas o Rio de Janeiro inteirinho só me chama de Tony.
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