na finaleira da quarentena, despontando o verão, depois de jurar que não sucumbiria aos efeitos do isolamento, eu também assei bolos, mudei o cabelo e criei um podcast. mania de me achar imune, forte, superior aos efeitos das crises. mas também sou uma sonhadora positiva incorrigível e saquei disso tudo algo vantajoso. fazia tempo já que era para sair o podcast, mas como a necessidade é mãe da invenção, desenvolvi o projeto em meio ao meu dilema mais antigo: ficar ou partir. percebi na solidão que preciso ter onde desabafar, senão o peso das minhas próprias ideias inconclusas me joga contra a velha parede da ansiedade. as mudanças que essa crise mundial trouxeram para a minha vida reacenderam a incerteza do futuro e me fazem querer assentar onde estou, mas o medo da estabilidade me manda ir embora, sentir mais uma vez as sensações e sabores de cada cantinho que já desbravei e buscar o desconhecido por onde ainda não passei. eu sinto que preciso da estética de budapeste, dos sabores de bruxelas, dos bares de praga, das águas de noronha, dos amigos de dublin, da tranquilidade de viena. é um problema de apego, por vezes tendo a visitar demais o museu das memórias e constantemente troco o agora pelos castelos feitos de nuvem do futuro. escolher é renunciar, é ratificar o que não se pode ter. neste episódio não tem convidado, não teria como, preciso falar da minha solidão, veja bem, sozinha, expressar meus motivos para escrever esse texto por conta própria, me responsabilizar por tomar o tempo das pessoas que me ouvem. o episódio de hoje é sobre podcasts e viajar sozinha, diretamente de portugal.
A Ingrid: @podcastparalembrardepois
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