Passarinho Urbano

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Passarinho Urbano episodes

  • Não é sobre café - Jéssica Ferreira.
    Mais um gole no mesmo café aguado de sempre,
    e por algum motivo eu insisto em tentar fazer dar certo.
    Algo me diz que um dia o café vai sair forte,
    algo me diz que um dia eu vou sair forte de casa,
    certa do que quero,
    mas insisto no erro.
    Conformismo é a pior forma de morte em vida,
    e eu continuo virando a cara pro tamanho do abismo que se encontra na minha frente,
    ignorando a minha própria condição.
    Já fiz sala pra muita gente com esse café morno, insosso
    Consigo contar nos dedos de uma mão as pessoas que continuaram o assunto interessadas,
    as pessoas que continuaram a beber de seus copos,
    antes de chegarem ao fim
    do café
    do interesse
    de mim.
    A gente se acostuma com a porta fechando depois duma despedida,
    com a louça da visita na pia
    memórias de um encontro efêmero demais.
    A gente se acostuma a colocar intensidade nas coisas sem ao menos perceber,
    e nossa, como eu queria que pelo menos uma vez,
    eu parasse de colocar intensidade nas coisas que eu sinto
    e começasse a colocar mais pó no bendito café
    que eu acostumei a aguar demais
    depois que me foi dito
    que se forte demais
    não há quem queira
    desse café,
    de mim
    beber.
    2 min
  • Silêncio.
    silencio.
    o silencio da manhã e o canto dos passaros sobre o marmore mortuário.
    memórias silenciadas entre tumulos e a multidao. paredes de concreto e madeira separando o lado de lá e o de ca.
    o real e o indecifrável. a limitação e o infinito.
    o grito e o choro, do silencio indefinido. silencio.
    o silencio rói a casa e os homens. (Passarinho Urbano).
    1 min
  • Trecho de Into the Wild (Na Natureza Selvagem).
    Os únicos presentes do mar são golpes duros, e as vezes a chance de sentir-se forte.
    Eu não compreendo muito o mar, mas sei que as coisas são assim por aqui. E também sei como é importante na vida não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte. Confrontar-se ao menos uma vez. Achar-se na maior condição humana. Enfrentar a pedra surda e cega a sós, sem outra ajuda além das mãos e da cabeça (Alex Supertramp).
    1 min
  • Caminho contigo sobre a cabeça - Allan Jonnes.
    caminho contigo sobre a cabeça
    menos como caminham as roupas
    desatentas
    na bacia de Nanã
    ou como caminham os piolhos satisfeitos
    de voltas e voltas no mesmo cacho
    caminho contigo sobre a cabeça
    como quem descobriu outra geografia
    para ladeira
    como quem carrega a herdeira Dele
    em meio a uma legião de bestas
    com o dia em que lambi o teu indicador
    da primeira vez
    porque é ele o teu melhor dedo
    e os teus dentes
    níquel por crômio ferro por molibdêmio
    caminho com o dia em que você
    falou de Eclesiastes
    e da ternura que sentiu
    quando eu matei um pássaro criança
    de tanto ter cuidados
    caminho com o dia em que você me limpou
    com o seu cabelo
    com o dia em que eu enxuguei seu olho sem
    saber uma palavra e hoje
    da primeira vez
    eu estourei o choro
    estourei como choram os bichos
    chorei biológico
    de dizer o nome
    e morder as espumas dos cigarros
    de querer abrir no mundo
    e procurar a sua casa
    e porque você me percorreu
    eu caminho como um homem percorrido
    2 min
  • Planta de Maceió - Lêdo Ivo.
    O vento do mar rói as casas e os homens.
    Do nascimento à morte, os que moram aqui
    andam sempre cobertos por leve mortalha
    de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
    mordem, dia e noite, os que não procuram
    esconder-se no ventre dos navios
    e se deixam sugar por um sol de areia.
    Penetrada nas pedras, a maresia
    cresta o pêlo dos ratos perdulários
    que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
    do oceano esvaído em bolsões de mangue
    e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
    Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
    cega a noite dos homens e desbota as corujas.
    A ventania lambe as dragas podres,
    entra pelas persianas das casas sufocadas
    e escalavra as dunas mortuárias
    onde os beiços dos mortos bebem o mar.
    Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
    são sempre separados pela brisa
    que semeia a insônia nas lacraias
    e adultera a fretagem dos navios.
    Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
    como a lama no fundo da noite lacustre.
    E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
    e serei este vento e a luz do farol,
    e minha morte vive na cioba encurralada
    2 min

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"Passarinho Urbano" é um podcast onde eu recito algumas das poesias que eu gosto e que talvez sejam as mesmas que as suas. Ou não.