"O poema sintetiza, através da construção da obra de Hermes Fernandes, o que seria uma infância violada, uma infância renegada por um outro que a “rouba”. Na sua obra não há dados históricos, nem a referência de um lugar específico, muito menos de um caso particular. O autor não está preocupado em dizer quem é esse que está do outro lado, se é que podemos dizer que seria uma única pessoa, ele se preocupa em colocar no seu verso um choro reprimido; um sonho escondido (ou perdido); uma “culpa” silenciada; um grito baixo desesperado; a resistência de quem luta contra o que lhe impede de avançar; de quem teve sua infância violada (ou até de quem perdeu a sua infância). Enfim, o autor dá voz a uma figura ou as muitas figuras que tiveram suas vozes silenciadas, seus sonhos apagados, que desistem de sonhar. Ele sintetiza a luta de muitas Marias, de muitos Joãos que querem resistir até o fim, que querem voltar com o seu herói de infância, que querem ser criança. Mas como ser criança ou adolescente em um ambiente que viola seus direitos, que viola quem você é? Como sonhar, se lhes tiraram os sonhos, como pensar na sua vida, se ela é uma vida tão difícil. Temos muitas Marias na nossa história, Marias meninas, Marias mulheres, que lutam (só ou na coletividade) por um amanhã, um amanhã diferente do hoje, do ontem."