Fizeram o homem um pouco dado ao fatalismo. Quem o criou, usou uma caneta Bic preta, macabra até à ponta.
Há várias alturas da nossa vida, dos comuns dos mortais, gostaria de dizer que não sou uma delas, mas estou nessa fila do pão...há várias alturas em que fazem questão que prolonguemos o sofrimento. Se pensarmos no mais terrível dos eventos, daqueles que queríamos adiar a nossa chegada - o funeral - ou cerimónia fúnebre como chamam todos os que ganham a vida com a morte, é um dia que não nos poupam. Podia ser como um penso rápido, ou como enviar uma encomenda por correio azul, mas não é nem barato nem rápido. Como se não bastasse ver um corpo que parece dormir num sono pesado numa caixa de madeira, o brilho da caixa de fósforos quer enganar a morte, mas ela permanece opaca.
As únicas coisas que ficam translúcidas são os olhos de quem fica na plateia. Ninguém comprou bilhete, ninguém quer estar ali, mas os ossos do ofício da vida, bem da morte, obrigam-nos a enterrar outros ossos.
O momento que deveria estar nas "cenas eliminadas" é o de ver o elevador chegar ao andar menos um. A lentidão daquela descida faz-se da maneira mais sofrida, a terra a ser lançada como se tivessemos a colocar sal num bife suculento não é uma coisa interessante, bonita nem prazerosa.
Quando a terra chega à madeira provoca aquele som medonho que nos deixa tontos como se tivessemos acabado de sair daquele carrossel "a chávena". Mas não estamos nas festas da aldeia. Deveria bastar enviar a encomenda, não olhar para a forma como fazem o embrulho. Nós queríamos ver laços, um sorriso, bem sei...mas não é um dia de festa.
Não estamos no Natal, só queremos ir embora.