A Forja apresenta: Entrevista do RPGames Brasil com Rafael47
Neste episódio, o Rafael 47 sentou na bancada para responder a uma série de perguntas enviadas pela equipe do RPGames Brasil a respeito do projeto do RPG Next e do cenário atual de jogos no país.
Entre os temas abordados, rolou conversa franca sobre:
Os bastidores e desafios de manter os projetos do RPG Next rodando;
Conselhos práticos para quem quer criar e publicar RPG no Brasil hoje;
A realidade do mercado independente, comunidade e produção de conteúdo.
Se você curte entender o que rola por trás do escudo e quer acompanhar a nossa visão sobre o ecossistema brasileiro de RPG, não deixe de conferir!
ATENÇÃO: Esse podcast é recomendado para maiores de 16 anos.
Com a participação de:
Rafael 47.
Edição de:
Rafael 47.
Uma produção RPG Next.
Versão em texto da entrevista do RPGames Brasil com o Rafael47:
1. Para começar, como foi seu primeiro contato com o RPG e em que momento você percebeu que essa paixão poderia se transformar em um projeto como o RPG Next?
Resposta:
O meu primeiro contato com o RPG é difícil de estabelecer com uma certeza exata, porque foram várias lembranças que acabaram se somando.
Uma das primeiras foi quando eu era criança, por volta dos 10 aos 12 anos. Eu fui com meu pai e meu irmão numa loja da Mesbla no shopping — que nem existe mais hoje, mas era uma loja de departamentos que tinha de tudo — para escolher um jogo de aniversário pro meu Master System. No meio de vários títulos, me chamou muito a atenção uma capinha com uns personagens: um cara com espada e armadura, uma garota com escudo e espada, um com machado, um mago e um bichinho que parecia um Pikachu. Era o Phantasy Star. Na capa estava escrito "RPG" ao lado de "4 Mega", que era o tamanho do cartucho. Eu perguntei pro meu pai o que era aquela sigla "RPG" e ele não sabia; quando fui jogar, vi que era um jogo de aventura e exploração.
Mais ou menos nessa mesma época, por volta de 1994, aos meus 13 anos — no começo do Plano Real —, teve uma feira do livro na escola. Minha mãe me deu uma quantia que dava para comprar uns três livros normais, mas eu bati o olho num livro gigante, futurista, com uma arte cyberpunk de um beco com pessoas conectando cabos na cabeça. Estava escrito Shadowrun. Eu gastei todo o meu dinheiro nele. Fui tentar ler, não entendi nada na época, fiquei perdido e acabei abandonando porque não tinha maturidade ainda.
Junto a isso, também joguei uma partida meio improvisada de tabuleiro que depois entendi que era o D&D da Grow (ou o First Quest); comprei livrinhos-jogos da série Aventuras Fantásticas; e ganhei o Hero Quest da Estrela, que vinha com "O ABC do RPG" na caixa e passava comercial na TV — joguei com meu irmão meio que tentando decifrar as regras sozinhos. Mais tarde, comecei a comprar a revista Dragão Brasil nas bancas e adquiri o Dungeoneer do Steve Jackson, que realmente ensinava a jogar RPG de mesa de fato. Ninguém chegou para mim e disse "Rafael, isso aqui é RPG"; fui descobrindo tudo sozinho entre bancas de jornal, videogames e livros.
Depois de um longo período afastado, o momento em que essa paixão começou a caminhar para se tornar o RPG Next foi por volta de 2015.
Eu já vinha ensaiando um retorno: entre o mestrado e as aulas de inglês que eu lecionava, eu cheguei a usar o D&D 4ª Edição com turmas pequenas para ensinar gramática e vocabulário através do jogo. Já em 2015, trabalhando na universidade junto com o Sky na produtora de jogos, eu estava com muita vontade de voltar a jogar com frequência. Só que eu não queria apenas jogar e deixar a partida se perder no ar.
Naquela época, eu já escutava podcasts gringos de pessoas jogando RPG desde 2010/2011 para matar a vontade, e o Jovem Nerd tinha acabado de lançar os primeiros episódios de RPG deles em áudio. Eu vi aquilo e pensei: "Caraca, que legal, dá para fazer isso!". Falei com o Sky: "Por que a gente não grava as nossas partidas e lança como podcast?".
O nome RPG Next surgiu justamente dessa fase, porque o D&D 5ª Edição ainda estava em desenvolvimento e era chamado oficialmente de D&D Next. Um dia, combinando por e-mail, a gente escreveu: "Quando que a gente vai lá jogar o RPG next?". O nome pegou e acabou virando o projeto.
2. O RPG Next está no ar há mais de uma década produzindo podcasts, campanhas e conteúdos sobre RPG. Como nasceu o projeto e qual era a proposta inicial?
Resposta:
O RPG Next completou 11 anos agora em 2026 — a gente começou lá em maio de 2015.
O projeto nasceu diretamente daquela conversa que tive com o Sky na produtora de jogos da universidade onde trabalhávamos. Eu estava sentindo muita falta de jogar RPG, mas tinha essa inquietação de não querer apenas jogar uma partida solta e deixar aquela história se perder no tempo. Como eu já vinha consumindo podcasts gringos de mesas de jogo e o Jovem Nerd tinha acabado de publicar as primeiras aventuras deles em áudio, a ideia foi juntar as duas pontas: reunir os amigos para jogar e gravar as sessões.
A proposta inicial era justamente essa: registrar as nossas partidas de RPG de mesa e lançá-las em formato de podcast para que outras pessoas pudessem acompanhar a história, gerando conteúdo a partir da nossa própria vontade de jogar. Foi dessa dinâmica de marcar as primeiras sessões de teste — aproveitando a transição das regras que na época eram chamadas de D&D Next — que o grupo se estruturou e o projeto foi para o ar com o lançamento das nossas primeiras campanhas.
3. O podcast foi, durante muitos anos, uma das principais portas de entrada para novos jogadores no Brasil. Na sua visão, qual o papel desse formato na divulgação do RPG?
Resposta:
Na minha visão de consumidor, quem fez o maior trabalho de divulgação e foi a verdadeira principal porta de entrada para novos jogadores no Brasil foi a revista Dragão Brasil. Ela trazia muito conteúdo de diversos sistemas, ganchos de aventura, dicas de mestre e novidades numa época em que não tínhamos esse acesso fácil à informação.
O podcast veio como uma vertente posterior importantíssima. Com o surgimento do formato e a facilidade de produção em relação ao vídeo, ele se tornou um excelente canal de difusão. Depois vieram os vídeos no YouTube, que são bem mais trabalhosos de produzir, mas chamam muito mais a atenção do grande público — vide o trabalho gigante do Cellbit com o Ordem Paranormal e o próprio Jovem Nerd com as publicações deles. Mas vale pontuar: não foi o RPG por si só que atraiu essa massa inicial, e sim grandes criadores de conteúdo que já tinham milhões de seguidores em outras áreas e resolveram apresentar o RPG para o público deles.
O grande papel e a maior vantagem do podcast em relação a outros formatos é a conveniência para conteúdos de longa duração. Acompanhar uma sessão de RPG exige tempo, e o áudio facilita demais essa experiência. É muito mais simples você ouvir um áudio longo enquanto faz outras coisas no dia a dia — limpando a casa, dirigindo ou trabalhando — do que passar horas parado na frente do celular ou da tela do computador olhando para um vídeo. Inclusive, acho que muita gente que consome mesas no YouTube deixa o vídeo rodando em outra janela e fica apenas ouvindo.
Ao mesmo tempo, existe uma confusão comum do público leigo com a sigla RPG: as pessoas veem um jogo eletrônico de fantasia, ou até mesmo um jogo como Magic: The Gathering, e acham que tudo que tem elfo, demônio e monstro é RPG de mesa. Elas conhecem a estética, mas não a dinâmica do jogo em si.
Então, vejo o podcast como parte fundamental de uma crescente: primeiro as revistas (ao lado de videogames e eventos presenciais, onde as pessoas podiam experimentar de fato), e depois os podcasts, que prepararam o terreno na internet e ajudaram a espalhar a dinâmica real de uma mesa antes da explosão dos formatos em vídeo.
4. Hoje o RPG Next reúne podcasts, vídeos, transmissões e uma comunidade bastante ativa. Como você equilibra a produção de tantos formatos diferentes sem perder a identidade do projeto?
Resposta:
Eu não sei bem se posso dizer que consigo equilibrar tudo perfeitamente, e nem posso cravar que o projeto não perde a sua identidade.
O RPG Next nasceu com a premissa de ser um grande guarda-chuva para vários programas diferentes. Dessa forma, cada programa tem espaço para construir a sua própria identidade:
A Forja: nosso podcast mais coringa, focado em bate-papos sobre RPG e cultura nerd;
Contos Narrados: focado exclusivamente em histórias contadas e totalmente sonorizadas;
Tarrasque na Bota: o nosso carro-chefe das aventuras e campanhas jogadas;
Regras do D&D e Regras do GURPS: focados na leitura e explicação detalhada dos manuais;
Além de novos conteúdos e parcerias que vão surgindo, como o pessoal do Neuronautas.
Para equilibrar essa produção multiformato sem sobrecarregar a equipe, a gente adota um fluxo prático: nós fazemos a transmissão ao vivo da gravação. Com isso, já geramos o conteúdo em vídeo e, dessa mesma transmissão, extraímos o áudio para editar e alimentar os feeds de podcast.
Sobre a questão da identidade, ela também se apoia no fato de que os programas não pertencem exclusivamente a uma única pessoa. Eu sempre incentivei a rotatividade: se alguém quer mestrar ou jogar no Tarrasque na Bota, faça; se quer conduzir A Forja, faça. A Forja, por exemplo, nasceu com o Pedro Quitete lá atrás; o Contos Narrados começou com o Fernando, depois eu assumi e editei, enquanto outras pessoas gravavam as vozes. O único programa que mantenho estritamente comigo é o Regras do D&D, porque faço a leitura e os comentários sozinho — se colocasse mais gente para debater, os episódios passariam facilmente de três horas.
Por fim, eu não vejo problema caso a identidade do projeto passe por mudanças. O RPG Next tem mais de uma década de estrada; as pessoas mudam com o passar dos anos, e é natural que a identidade do projeto se adapte e ac