Seja por aí

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Seja por aí episodes

  • Eu só sei que é você
    Eu não sei o endereço de onde você mora
    Não sei qual sua cor favorita - que está estampada em metade de suas camisetas
    Nem ao menos a música que você escolhe quando busca aconchego
    Não sei o sonho que preenche seus dias iguais
    Nem o medo que te arranca o juízo
    Não conheço as pintas que trilham o seu corpo
    Não estou familiarizada com sua gargalhada indiscreta
    Com seu falar sozinho pela casa
    Nem com suas declarações nos bilhetes
    Não conheço o tom da sua voz me dizendo “surpresa”
    Nem me pedindo para ficar
    Não sei como meus cabelos sentem seu cafuné
    Como seu abraço encaixa no meu
    E nem como seus dedos cabem no meio dos meus dedos
    Não conheço as histórias que você conta repetidas vezes
    Não conheço os pesadelos que te acordam assustado
    Não sei de qual mania você não abre mão
    E de qual momento mais se arrepende
    Não sei seu livro preferido
    Seu filme preferido
    Seu nome preferido
    Não sei qual a última vez que chorou
    Nem o porquê
    E o que mais te marcou nos seus aniversários
    Não conheço seu prato preferido
    E o que te dá alergia
    E o que te dá alegria
    Não sei qual perfume você continua comprando quando acaba
    Nem o cheiro que fica grudado no seu pijama
    Não tenho nada além dessas ideias
    E disso tudo guardado no peito
    Eu só sei que é você
    Eu só sei que quando você chegar, essas palavras serão do seu tamanho
    E servirão em você
    Como pele
    Pele que afaga
    E me tranquiliza
    Pele que encontra
    E me deseja
    Pele que aquece
    E me abraça
    Eu só sei que meus sonhos servirão como uma luva no seu mundo
    Eu só sei que será você
    Seja lá como for.
    4 min
  • Você me tem
    Lembre-se que você me tem.
    Uma
    única
    e inteira
    pra te seguir nessas curvas.
    Dona de um par de ouvidos
    que te acolhem,
    pronta e imediatamente.
    “Você me tem”.
    Vem
    e pode se derramar.
    Guardei no casaco os achismos
    e hoje,
    te vejo.
    Você me tem,
    me preenche.
    Não porque não sou completa
    mas porque,
    em três minutos,
    eu já sabia.
    Sabia que as quatro fases da lua passariam,
    mas você, não.
    Não esse sentimento.
    Não essas marcas.
    Entre confissões,
    eu me refiz. E me doei.
    Você se doeu. E me teve.
    Pelos cinco sentidos, nadamos.
    Tão ao lado.
    Tão sincronizados.
    Entre sonhos e suspiros,
    nos moldamos e nos aceitamos.
    No sexto mês,
    descobri suas arestas
    e você me cobriu com suas particularidades.
    você me tem.
    3 min
  • Teu valor vai muito além
    Se alguma vez você se olhou com algo menos do que amor
    E se julgou como algo menos do que digno
    Se acolha:
    Esse tal amor de que se fala é compreender que você
    mergulhou por profundezas que mais ninguém viu
    E ganhou desenhos que fazem do teu corpo uma edição única.
    Você já chorou por pessoas que ninguém mais teve
    Já entendeu coisas que quem te cerca ainda nem pensou
    Já aprendeu línguas, atalhos, truques...
    Já se livrou, com destreza, de amarras que te machucaram.
    E como ousa comparar tudo isso
    à alguém que não tem o mesmo brilho no olhar que você?
    Tuas pintas são o céu estrelado que você admira.
    Teus números são o mapa para aquele lugar que é teu refúgio.
    Tuas marcas são histórias contadas em braile.
    E você ousa proferir palavras ruins ao que te carrega para todos os lados,
    ao que te põe a dançar quando a alegria toma conta,
    ao que te permite trabalhar.
    Ao que te permite amar.
    Tem algo mais forte
    Do que as batidas do teu coração
    Que não erram uma única vez
    Sem que você peça?
    Tem algo mais lindo
    Do que tuas palavras
    Que antecipam o sorriso alheio sem jeito?
    Por isso, se alguma vez você se olhou com algo menos do que amor
    Se abrace:
    Teu valor vai muito além do que aquilo que se vê.
    3 min
  • Eu chamo de saudade
    Eu chamo de saudade
    o rosto que ilustra feito filme em minha memória
    e me carrega
    até o berço dos sorrisos tímidos.
    Eu chamo de medo
    a mão que me impede de segurar a tua
    e desenhar na pele os arrepios do desejo.
    Eu chamo de nostalgia
    o afago das palavras
    do ontem
    sobre o que espero do amanhã.
    E talvez, somente talvez,
    esse breve suspirar
    tenha me ensinado que é preciso falar
    que é preciso organizar,
    contar,
    desenhar.
    Só assim os pontos se religam.
    Você acha que entende
    a bagunça que causa aqui
    mas eu perco as palavras
    no meio do olhar que me dirige.
    Que bom foi te contar
    sobre o abraço tímido do bem-querer,
    já que nesses acasos da história
    os minutos nos apertam.
    E na mesma maré
    vieram esperança e questionamentos.
    E na mesma brisa,
    você e seus versos.
    Uma bagunça que segue tirando do lugar
    a ínfima tranquilidade
    que aqui reside.
    O que comumente se esquece
    é que isso não nos tira do lugar:
    a linha do tempo desliza,
    o sentimento se torna decisão,
    porque quando não se bate o martelo
    alguém o arranca de nossas mãos.
    No risco do certo
    a vida é uma aposta,
    mas eu sigo sem me importar
    com as consequências:
    eu quero o ensaio
    eu quero as histórias
    eu quero o penhasco.
    A gente espera demais o sinal
    mas
    o que você teme?
    Você sabe que mora em cada uma dessas palavras
    então me abra
    e arranca de mim essa transparência da qual me cobra,
    me deixa ser eu
    e fazer morada no acalento da tua rotina.
    Me promete tirar das entrelinhas
    a promessa de não me prometer.
    Porque eu
    te prometo
    respeitar o silêncio,
    aceitar os trejeitos,
    cuidar da singularidade,
    expor as controvérsias,
    acrescentar no enredo,
    sustentar o toque,
    falar do que me dói.
    Como você chama isso?
    4 min
  • Uma coragem tão bonita
    Acho uma coragem tão bonita
    Isso de falar o que ta dentro
    Dentro do peito
    Da cabeça
    Da vida
    Falar o que ninguém te ensinou a sentir
    Mas que você sente
    E pulsa
    E acalenta
    Não é tarefa fácil traduzir isso tudo
    Isso tudo que ta em outro idioma
    Em outro plano
    Em outro lugar
    Um dialeto tão rico em sinceridade
    Num lugar morno e tão pronto
    Pronto pra acolher
    Pronto pra guiar
    Pronto pra clarear o que já foi dúvida
    E o que já foi escuridão
    Porque, é uma coragem tão bonita
    Isso de abrir o peito e presentear o outro com palavras que acariciam
    Isso de olhar dentro da alma e ser casa
    Isso de- com três palavras- fazer com que o outro respire tranquilo
    Isso de emprestar um pedaço de si para a vida
    De doar uma porção de tempo para o tempo do outro
    Isso de abraçar o futuro porque o hoje não poderia ser melhor
    Acho uma coragem tão bonita
    Isso de o coração bater fora do próprio peito.
    3 min
  • Dançar com o silêncio
    Hoje o silêncio daqui me tirou para dançar
    Chamou para rodopiar no meio da sala
    Bem no meio da vida
    Com a taça de vinho nas mãos
    E toda a bagagem nas costas
    Como quem brinca de achar o culpado
    Com um esboço de sorriso no rosto
    E muito a compartilhar
    Agora vejo
    Sem a música que ocuparia de propósito esses espaços
    Meus pensamentos
    Tão meus
    Mas forço a continuar
    Porque hoje o silêncio quis participar aqui do meu lado
    Sussurando
    Com o olhar de quem sabe o que quer
    Na hora que quer
    Mas com a calma de quem perturba até as certezas mais sólidas
    E ao invés de me afastar
    Hesitando tropeçar entre tanto barulho e orgulho
    Me lembrei que no silêncio é que vivem as coisas boas:
    Os segredos acompanhados
    Os estalos tão claros
    E o pontinho de sonho que embebe os dias
    Porque os desfechos barulhentos não encaram a solitude
    De quem aceita dançar
    Com o silêncio.
    3 min
  • Nem ouse me roubar de mim
    Eu quero por inteiro
    A parte boa e tudo o que vem com ela
    Eu quero por inteiro e aceito os riscos
    De ser real
    De ser imperfeito
    De ser inconstante
    Assumo os riscos porque cada dia o sol nasce diferente
    E garantias absolutas não existem
    Mas existe conversa
    Existe entendimento
    Existe cessão: ora lá, ora cá
    Então, a única condição é ser inteiro
    Não dá pra ser mais ou menos
    Quando dá
    Quando é conveniente
    Pela metade
    Eu quero por inteiro e aceito as consequências
    De ser intenso
    De ser verdade
    De ser frágil para, assim, poder ser sólido:
    É na sutileza que a gente ganha
    Eu quero por inteiro
    Porque inegociável é ser medíocre
    Ser comum
    Ser banal
    Porque inteiro é carnal
    É alma
    É bom e ruim junto
    E eu aceito
    E eu escolho
    Porque ser inteiro vem com as cicatrizes que marcaram a vida
    Vem com as palavras preferidas
    Com o tempo correndo livre
    E também com as conversas difíceis nos prendendo
    Ainda sim: eu quero por inteiro
    Porque não existem variações do “sim”
    Eu quero as histórias mais antigas
    Os sonhos mais remotos
    Os desejos mais imediatistas
    Eu quero as palavras mais avoadas
    As compras mais impulsivas
    As surpresas mais premeditadas
    Porque, isso tudo é ser inteiro
    E nesse quesito, não há meias vontades
    Nem meias palavras
    Eu quero por inteiro:
    Ou nem ouse me roubar de mim.
    3 min
  • Não se arrependa
    O que eu quero é que você não se arrependa
    De ter achado bobagem
    De ter adiado, nomeando bonitas desculpas
    Que seduzem como pretexto
    Como se tivesse controle de cada próximo passo
    Afinal
    Nem tudo depende do seu lado
    Você não joga sozinho
    Mesmo que acredite que basta um meio sorriso pra vencer
    Que você não se arrependa de deixar para o amanhecer
    e lhe faltar o ar quando perceber que ele não há
    Quando um pensamento paralisar
    a idealização do que estava ao seu alcance
    E o céu não responder o pedido por um sinal
    Pois todos já haviam sido emitidos
    Enquanto você estava distraído demais
    com a ilusão de que seria só o começo
    Que você não se arrependa
    Quando não houver volta ao início
    Quando súplicas forem silenciadas
    e abafadas
    Pelo som da minha escolha de sorrir para o outro lado
    Que você não se arrependa
    ao se ver naquela foto
    mas não se enxergar
    Como se um dia algo fosse te fazer mudar de ideia
    E ainda houvesse tempo para lhe servir
    Como se o amor fosse mágica e não decisão
    Que você não se arrependa
    Por ter depositado no destino as fichas que nós é que deveríamos jogar
    O que eu quero é que você não se arrependa
    Porque estava em suas mãos
    Mas você deixou escapar.
    3 min
  • Num impasse entre permitir e encarar
    Bem que avisaram-me sobre hoje
    Quando o sol acorda manhoso
    E, flutuante sobre o propósito, o espreguiçar é tímido
    Falaram-me do pé que toca o piso frio
    E da mão que recolhe a nuca quente
    Afinal, o mundo todo está ali
    Há decisão
    Há prorrogação
    Mas, entre os silêncios, há vida!
    Bem que avisaram-me que tudo bem
    Quando o céu aparece límpido
    E, em contraste com os sonhos turvos, a realidade é convocada
    Num impasse entre permitir e encarar
    Desenham-se mapas para o navegar
    Já que tudo o que temos é o agora
    E aqui não faltam lembretes.
    2 min
  • Ainda estamos sós
    Aqui, nessa noite quieta
    Onde o ar pesado marca o fim da chuva
    E toma o espaço
    Me esparramo
    E alcanço, com os pés, a parte fria da cama
    Aquela que me lembra que nada é para sempre.
    Aqui, nessa noite embrulhada pelas cobertas quentes
    Como no acalento de um recém-nascido
    Que não mais chora, pois já está envolvido
    Me perco.
    E vejo, num sonho lúcido, a parte machucada da alma
    Que me lembra o quanto somos frágeis
    E pequenos.
    Aqui nessa noite
    Viajei em pensamento para outro tempo
    Onde ainda era frio
    Mas já fazia sol
    E o relógio não nos obrigava a sair do nosso templo
    Enquanto tudo o que tínhamos era aquele único instante
    Mas, mesmo depois dos planos, das promessas
    Ainda estamos sós
    E talvez esse seja o futuro
    Porque aqui, nessa noite quieta
    Sou apenas eu
    Numa cama fria
    Fazendo das cobertas quentes, você.
    -Bruna Tozzi.
    2 min

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O seu momento do dia para ser por aí- dentro de uma poesia.