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📚 Elena Ferrante é um fenômeno editorial global. Vendeu milhões de livros, virou série da HBO, formou uma legião de leitores leais ao redor do mundo, conquistou o pódio da lista de “melhores livros do século” do NYT. De quebra, segue escrevendo livros posteriores a sua tetralogia napolitana.
E nunca precisou mostrar o rosto. Nunca participou de um trend. Nunca teve Instagram. Conta unica e exclusivamente com sua voz literária para falar dos assuntos que quer, no tempo que quer.
Ferrante seguiu sendo… autora. Não “criadora de conteúdo”.
O episódio novo do É Sobre Isso, o podcast da Beet e da Ampère, questiona conteúdos e seus criadores e consumidores, passando: o que perdemos quando trocamos a figura do artista pela do conteudista?
Hoje, tudo é conteúdo. Um tutorial de maquiagem, uma denúncia de corrupção, uma receita de bolo, uma crônica íntima, um filme publicitário. De série de TV com orçamento de bilhões, a vídeo apontando para palavras flutuantes: tudo é “criação”. Será?
A palavra “conteúdo” já soou técnica e neutra, mas virou um rótulo que homogeneíza tudo: apaga o ofício, empacota a expressão e transforma a arte em entrega.
Eu, o crisdias a Catarina Cicarelli e o Guilherme Pinheiro exploramos essa provocação mudança de paradigma para perguntar: quando tudo é conteúdo, o conteúdo ainda tem conteúdo? Ou algo por aí.
Ouça no Spotify, ou veja o episódio completo no Youtube:
🏢 Um prédio novo
De novo, o novo apartamento não tinha nada.
Janelas emperradas, piso ancestral de cerâmica feia meio quebrada, tomadas padrão anos 70 e lustres e arandelas do tempo da construção do prédio — algo como 1958. Charmoso, sim, como quase tudo no novo bairro: uma área plana e arborizada, plena de faixas de pedestres e de pequenos comércios. Mas um charme meio decrépito, ansiando por renovação.
Entrei pela porta, de madeira escura por fora e branca por dentro, no dia mais frio do ano, há pouco mais de seis meses. Tudo era caixa de papelão e poeira. Tomei um banho de banheira para tentar espantar o gelado dos ossos, sem sequer perceber que a água estava suja. Nos dois dias seguintes senti tanto frio, de dentro pra fora, que logo estava no pronto-socorro, coberta por umas cinco camadas de roupa enquanto as pessoas na rua usavam camiseta.
Fiz muitas mudanças na vida e essa foi de longe a mais difícil. Talvez por ter muitas camadas. Em um período curto, encerrei um projeto importante e um relacionamento ruim, ao mesmo tempo em que voltei pro SPC. Tive que descobrir o funcionamento do lugar ao meu redor, constantemente assombrada pela certeza de ter tomado uma má decisão — eu gostava de onde estava antes e agora tinha que encarar, sozinha e doente, os resultados de uma mudança que não deveria ter acontecido.
Levei uns três meses para começar a sentir calor, a ter rotina, a achar os lugares certos para as coisas. Só me percebi instalada quando, numa tarde qualquer, o sol rasgou o ar por uma das (grandes) janelas da sala, os gatos entenderam o recado e começaram a se esticar.
Agora, finalmente, verão: sou amiga do jornaleiro, sei os nomes dos porteiros, posso abrir fiado no bar & lanches da esquina, o dono do restaurante sírio me dá doces de presente e eu finalmente encontrei um supermercado pra chamar de meu. Quase toda a mobília segue onde a encostei quando entrei pela porta naquela manhã gelada, mas agora meus santos têm um lugar pra estar, (quase) todas as tomadas funcionam, as paredes estão cheias, os travesseiros são novos e a planta do meu quarto cresce que nem mato, sempre um bom sinal.
Como é férias, as crianças brincam o dia inteiro na área comum. Talvez animados pela presença solar, os idosos passam a tarde nos bancos, conversando. Casais jovens e gente solta, como eu, circulam o dia todo, abrindo e fechando o portão ao lado da guarita, para passear com os cachorros. O Pianista Misterioso continua fazendo trilha sonora de quase todos os dias, e agora tenho um vizinho de cima que, como eu, gosta de White Lotus.
O verde do jardim anda decorado por fiozinhos de luzes de Natal e acende de noite. Para os morcegos que circulam ali de noite, não fez a menor diferença. Sei que logo mais o inverno volta, mas agora sei também o motivo de tanto frio: um amplo vão vazio debaixo do meu chão. Para isso: tapetes. Quando o frio voltar, terei tapetes coloridos.
🛌 Férias
A partir de amanhã, a TTMT vai tirar uma folguinha. Volto na segunda quinzena de janeiro.
Leia toda essa edição em http://gaiapassarelli.substack.com/p/um-predio-novo
Tá todo mundo tentando: flanar
Eu não sei quando foi que deixei de andar pela cidade. Provavelmente, efeito da pandemia. Antes eu andava muito, e sempre. Mas sinto que tenho caminhado cada vez menos. Talvez tenha a ver com uma proximidade das coisas no bairro novo que, de fato, não exigem que eu ande muito. Um amigo definiu bem: agora eu moro na bolha.
Andar, já escrevi aqui antes, sempre foi parte importante da minha vida e, num nível mais exagerado, até um traço de personalidade. Sempre gostei muito de andar, quando criança tinha o hábito de sair andando sem rumo certo, às vezes deixando minha mãe preocupada, mas na maior parte das vezes voltado antes que alguém desse pela minha falta. Caminho como processo terapêutico, rota de fuga, estratégia de isolamento ou para matar pequenas e grandes curiosidades. Na fazenda dos meus avós, no Mato Grosso, eu saia andando da casa na direção de qualquer pasto, me sentindo meio heroína de romance inglês, uma jovem Jane Eyre no cerrado.
Mais tarde, andar era uma forma de matar tempo quando eu não queria ir pra escola (e eu nunca queria ir pra escola) e também para reconhecer os novos territórios entre as minhas muitas mudanças de casa.
E as viagens, claro. Aprendi viajando que não tem jeito melhor de conhecer um lugar do que caminhar por ele. Andar para entender. Poderia escrever um livro inteiro, como a Lauren Elkin em "Flaneuse", sobre andar em cidades que não conheço bem.
Descobrir como nos EUA, fora de NY e SF, as cidades não são feitas para pedestres. Como andar na Índia é caminhar o tempo todo numa situação de saída de festival. Como é seguro caminhar pelas vielas de Alfama, bêbada, às três da manhã. Caminhei pela Banglatown de Londres, por estradas na Escócia e por trilhas na Patagônia. Pelo mercado de Chichicastenango na Guatemala, pela PCT no Oregon, tentando entender o Google Maps em Veneza, a esmo por Buenos Aires, Durban, Cochin. Sempre com um caderno na bolsa, mais uma influenciada pela imagem da Geração Perdida escrevendo nos cafés parisienses do período entre guerras, embevecida pela minha própria imagem, viciada na minha própria angústia, tentando colocar qualquer coisa pra fora, fosse pelas mãos ou pelos pés.
E, claro, por São Paulo: minha cidade, a cidade que me vi obrigada a reconhecer, com quem tantas vezes rompi, perdoei e fiz as pazes e onde me vi presa, por vontade própria, quando tive que parar de viajar. De certo modo, morar por anos na Av Paulista me fez andar cada vez menos, ainda que eu tenha botado minhas solas e saltos em cada centímetro daqueles 3,5 km de calçadas.
Agora, em outro bairro e em outra vida, levei uns seis meses até acatar a vontade de sair andando — e isso aconteceu numa noite de domingo, na chuva, uma hora inteira passando por cima de tudo que tem de errado no centro de SP, fumando cigarro e me sentindo meio James Dean naquela foto icônica, sem nenhum medo de algo dar errado e sabendo reconhecer a hora de parar.
Leia mais em http://gaiapassarelli.substack.com/flanar
Tá todo mundo tentando: descansar
Há um dia lindo lá fora. Mas não do jeito que você provavelmente pensa quando a gente fala ”dia lindo“. Há um dia de chuva forte, céu cinza, com o jeito que vai ficar assim pelas próximas muitas horas. Eu gosto de chuva quando tô em casa e quando não é chuva demais. Me dá uma sensação de céu limpo.
Em dias assim não sinto ansiedade de sair. Andei vendo mais gente do que o meu normal (normalmente introspectiva, normalmente caseira, normalmente tranquila). Aqui dentro tem laranja lima pra fazer suco, tem livro pra ler, tem coisa pra escrever, tem cama arrumada com lençóis frescos e a companhia dos meus gatos no sofá. Um dia qualquer, embalado por boas lembranças da última semana (flores! uma lhama! jantar! gols do Richarlisson!). Ideal para fazer vários nadas.
Todavia, ela: a ansiedade. Sim, sempre há muita coisa pra fazer. E quanto mais a lista cresce na minha cabeça (de coisas imediatas e necessárias tipo fazer mercado até coisas hipotéticas e trabalhosas como trocar o forro do sofá azul) menos me sinto capaz de realizar algo. Descansar, inclusive.
Todo mundo com quem falo está exausto de alguma coisa, normalmente de muitas coisas. Exaustos de 2012 pra cá, exaustos de noticiário surreal, exaustos de preço de comida e boleto de aluguel, exaustos de desesperança mesmo quando a esperança parece começar a dar as caras.
É que foi difícil mesmo. Nos últimos anos cada um se virou como conseguiu, muitos ficaram no caminho, muitos perderam muita coisa e de alguma forma, todo mundo lutou. Tudo urgente. Identificar e denunciar racismo e homofobia, combater a fome e o autoritarismo, não desistir da educação, não ceder à desinformação, não pirar.
E não pirar cansa.
Junte-se isso ao esforço diário e espanto que foi (é?) viver debaixo da ditadura do absurdo. Pelo menos quatro anos de uma montanha russa que só vai pra baixo, cada curva em velocidade cada vez maior, desligando nossa capacidade de espanto, de revolta e de ação — mas nem todos, nem tudo, nem sempre. Eu e você seguimos fazendo o que era possível fazer, às vezes nem isso, quase sempre muito longe do ideal. E agora: vai acabar?
Vontade de chorar de exaustão, disse uma amiga, ainda que tenhamos trabalho, teto, água limpa, uma privada que funciona. Ainda que tenhamos planos. Ainda que tenhamos o conforto do lar em um dia para descansar. Há que descansar antes de cumprir qualquer coisa, mesmo que sem fechar os olhos.
Leia todo o post em http://gaiapassarelli.substack.com/p/descansarAssine a Tá Todo Mundo Tentando em http://gaiapassarelli.substack.com/subscribe
Coceira fantasma
Todos os dias eu acordo nesse apartamento onde eu não deveria estar, mas estou, e sigo mais ou menos a mesma rotina: acordo muito cedo, limpo a boca, faço xixi, me peso, me visto, passo o café no moedor manual, cozinho dois ovos, às vezes torradas, às vezes tapioca, às vezes cuscuz. Às vezes tomo chá também. Banho costumo tomar de noite, mas faço o que hoje chamam de "skin care", que é passar uns creminhos na cara. Às vezes escrevo, às vezes não. Baixo podcasts de notícias enquanto me visto pra academia. Amo o ar fresco do jardim do prédio - esse que não é meu. Antes das nove já estou trabalhando. Tem sido assim. Mas eu já tive outras rotinas. Eu já fui outra pessoa, antes disso tudo que tá aí. E essa outra pessoa teve outras manhãs.
Em Ushuaia (fala “ussuaia") repartindo pedaços de pão caseiro com azeite e investigando mapas dos fiordes da Patagônia, com um senhorzinho argentino que, ao longo de uma semana, uma manhã por vez, convenceu a pegar o último barco para a Isla Navarino.
Vendo o sol nascer dourado pela janela do trem em algum lugar do Oregon.
Em Brasilândia, MS, com meu avô me animando a levantar da cama antes das cinco para pegar leite fresco na ordenha da manhã — a xícara dele com um dedinho de conhaque, a minha com Nescau.
No San Lorenzo de Roma, sentindo o cheiro das torradas queimando no forninho enquanto eu, estupefata, olhava o pedaço de muralha romana nos fundos da casa.
Tomando rooibos e comendo biscoitos vendo os wildebeests pastando ao lado da varanda em Gondwana, sul da África do Sul.
Em um hotel cinco estrelas em Aguas Calientes, onde um fiozinho de água fria descia da montanha por dentro do meu quarto para alcançar o rio lamacento no mesmo vale que os Incas olhavam de Machu Picchu.
Surpreendida por uma boxer bebê na manhã do meu aniversário de dez anos em Ribeirão Pires, com minha mãe ainda dormindo.
Brava com mais uma manhã de neblina e garoa sem trégua em Corpach, no inverno das terras altas da Escócia.
Ouvindo as preces da mesquita ao lado do hotel em Kanyakumari, para botar os pés no único lugar do mundo onde três mares se encontram (e onde, dizem, jogaram as cinzas do Mahatma).
Comendo tapiocas com queijo e sucos de frutas em um barco a caminho do Xixuaú, Roraima, assustada com a fumaça das queimadas.
Com meu filho me chamando para sair do berço na casa onde moramos por pouco tempo na Granja Viana — as melhores manhãs da minha vida.
Com suco de morango geladinho para espantar a ressaca em algum lugar da Praça da República.
Sentindo cheiro de pão caseiro assando no forno da cozinha no segundo andar de uma casa de trezentos anos no Dorsoduro de Veneza, a cidade mais linda do mundo (no inverno).
Comendo torrada de pacotinho e chocolate quente de máquina em um hotel de beira de rodovia, sem charme e com cheiro de gasolina, como são quase todos os hotéis dos EUA.
Com uma jarrinha de suco fresco das laranjas do Alentejo, na cidade mais bonita de Portugal: Évora.
Recebendo café preto, quente, sem açúcar e recém passado, para tomar de dois em uma xícara só, vendo telejornal da manhã, em um lugar de São Paulo que não existe mais.
A gente se engana em qualquer lugar. Em Durban, Glasgow, Carapicuíba, Porto, Trivandrum, Londres, Guatemala City, Palmas, Oaxaca, Liverpool ou São Francisco, onde alguma coisa no lençol do hotel me causou uma doença de pele — não fui embora pq era o hotel mais barato da cidade, e o único que eu podia pagar.
De alguma forma tudo isso, e mais, cabe aqui nesse apartamento onde eu não deveria estar. Em cima da estante de livros, uma mala azul, que foi da minha tia aeromoça, me vigia, insistindo que é preciso voltar a fazer as malas e criar novas histórias. Dentro dela, memórias que seguem coçando sem existir, como a ansiedade de separação de um membro fantasma.
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Tempo de poda
A única parte boa de envelhecer é que a gente cresce.
E para crescer bem, no sentido de crescer forte e saudável, é preciso podar. Botar fora o que não serve mais.
Podar significa aparar arestas, cortar tudo que é excesso, dar novo uso para o que atrapalha, tirar do caminho aquilo que consome nutrientes e impede o crescimento.
Olhando de fora, parece até um passo para trás – olha lá, a árvore tão grande, tão alta, tão bonita, com tanta história, com tanta sombra. Como ter coragem de cortar esses galhos?
Acontece que as coisas mudam, e depois vem chuva, vem vento, e a árvore (alta demais, com braços finos demais, fraca demais, com raízes rasas demais) não se sustenta. Ela cai, ela quebra, ela causa transtorno, ela leva um tempão para crescer de novo. Às vezes, ela morre antes e nem cresce mais.
Por isso: a poda.
E depois da poda, toda a madeira cortada e folhas secas voltam para a terra, adubam futuras árvores, alimentam fogueiras. Pra tudo tem uso.
Há umas semanas, uma equipe da prefeitura apareceu por aqui podando as árvores da minha rua. Levou vários dias e de dentro de casa, todas as manhãs, eu escutava a serra.
Sempre que vejo alguém cortando árvore em São Paulo sou tomada de certa agonia: a expectativa é ver a árvore transformada em toco morto.
Nesse caso, não.
O moço subiu na árvore preso por um equipamento de segurança, usando capacete e segurando uma serra comprida, algo como um cabo de vassoura com uma Makita na ponta. Sentou numa junção segura de tronco e galho e dirigiu a serra na direção do que precisava sair.
Ao redor dele, outros trabalhadores acompanhavam o trabalho gritando pra ir pra mais pra cá ou mais pra lá, e fechando a rua para evitar acidentes — vai que nessa coisa de podar algum desavisado acaba tomando um galho de árvore na cabeça, né?
Não sei porque o serviço veio agora. Na minha imaginação, tem a ver com a chegada da primavera. Essa primavera que chegou há dois meses e que tem sido meio estranha: foi em setembro mas parece que faz uns três anos e tanta coisa ainda precisa mudar antes de encararmos o que tem tudo pra ser O Grande Verão de Nossas Vidas.
Você também sente isso por aí?
Eu pelo menos tô me preparando.
As árvores também. Uma vez podadas, agora elas têm agora a motivação irrefreável de voltar a crescer.Leia mais em http://gaiapassarelli.substack.com
Anteontem perdemos, em questão de horas, Gal Costa e o Rolando Boldrin. E a primeira coisa que pensei, perdão, foi que bom que vi Milton Nascimento cantar há uma semana, no último show dele em São Paulo — o último de todos é logo mais em Belo Horizonte.
Vou aos shows, de qualquer tamanho ou tipo. Sou uma pessoa pequena, só enxergo ombros, o som chega embolado nos meus ouvidos e, no geral, não me sinto bem no meio de muita gente. Escolhi ir nesse por captar um sentimento de despedida de algo grandioso. Como a Elle publicou sobre a morte da Gal essa semana: estamos vendo o fim de uma era luminosa da música brasileira.
Quando a banda que acompanhava Bituca começou os primeiros acordes da melodia de "Ponta de Areia", meu coração começou a desaguar. Não parou ainda. Essas músicas são uma parte enorme de quem somos. Músicas do Milton, do Lô Borges. Músicas cantadas pela Elis, pela Gal, pela Bethânia. Músicas do Caetano, do Gil, do Chico Buarque, do Djavan. Músicas da Violeta Parra, da Mercedes Sosa. Ouvi-las, na voz de Bituca acompanhado por centenas de pessoas na plateia, me levou para um lugar que eu tinha esquecido.
Através do coro da platéia que incentivava Bituca a continuar cantando apesar do cansaço, achei algo com que me conectar: a música que minha mãe cantava no carro quando eu era criança, a música que a banda do meu pai tocava em todos os shows, a música que eu cantei uma vez, em outra vida, caminhando de mãos dadas na praia de Itaúnas quando ainda era uma vila de chão batido.
E então, teve o dia seguinte.
Há 35 anos, uma tia-avó me escreveu uma carta. Só li agora — agora mesmo, sábado passado, após o show do Milton.
A carta é longa e escrita em letra miudinha. Fala de viagens e de livros, bichos e música. E fala da minha família também. Ler foi como ouvir as músicas na noite anterior, reencontrar um chão que eu tinha perdido — quando? Não sei dizer. Envelhecer tem essa qualidade surreal de nos tornar quem sempre fomos, mas eu tô só na metade da vida e ainda tem muito que não sei, não entendo, não enxergo. Mas sei que sem as músicas eu não estaria preparada para ler e portanto, não tinha mesmo que ter lido antes.
No meu peito, agora, tudo é uma grande bagunça sul-americana com cheiro de café passado, com fumo solto em cima de papel de pão, com jornais em cima da mesa da cozinha, a tv mostrando os protestos pelas eleições diretas, adultos falando alto, crianças se metendo em problema, gatos, cães, plantas, papagaios e em algum lugar a Gal cantando que o amor é azulzinho.
Continuo procurando o sentido, apesar do meu mapa astral que é todo água e fogo e apesar do meu coração de vendaval. Sempre com os pés firmes na terra, sempre com a alma repleta de chão.
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Respirar
Não sei vocês, mas eu quero demais olhar pra frente.
Sei que teremos que lidar com o alto custo dos últimos anos. Sei que essa reconstrução é longa, é dificílima e que não acontece por milagre ao longo duma noite só. Mas me deixem aproveitar esse momento e respirar um pouco. Respirar pensando (sem medo!) no que virá.
Não é mais tempo de disfarçar e é, finalmente, tempo de poder querer muitas coisas. Tempo de cantar alto e sair andando na rua de chinelo, sem celular nem carteira — como fiz domingo passado depois que o telejornal noticiou aquilo que eu não achei que ia ouvir, mas ouvi.
Ouvi meus vizinhos abrindo as janelas para gritar, a batucada do bloco do bairro no boteco da esquina, as buzinas dos carros, as risadas das pessoas. Por uma noite nós respiramos e fomos despreocupadamente felizes e ansiosos pelo futuro. Esse futuro: nós o construiremos. Não importa o que digam, pensem ou façam.
O meu futuro eu quero que seja assim como hoje, com meus cabelos sempre curtos, a expressão sempre atenta, o corpo sempre firme e descansado. Quero escrever todas as manhas, fazer três refeições por dia, tomar banho, beber água limpa. Quero viajar, planejar, prosperar. Quero usar batom vermelho e rir largado, muito e sempre. Quero comprar lâmpadas novas, transformar a casa em lar. Trabalhar muito, e bem, colhendo os frutos desse trabalho. Responsabilizar quem merece, mas sem perseguir as más lembranças que não tem mais nada a ensinar. Voltar a sentir profundo a esperança brotando como musgo na pedra, sim, sim, sim.
tudo muda em um momentocomo mago condescendentenos afasta docementede rancores e violênciassó o amor com sua ciêncianos torna tão inocentes
Dormi bem como não dormia há anos. Na segunda-feira, confesso, senti um tantinho de inveja das amigas que escreveram sobre o resultado no auge da emoção, como a Madalosso e a Valek. Eu mesma não consegui escrever nada por uns três dias. O que há pra dizer? É um caso de imagens que falam mais que qualquer palavra. No caso, as imagens da tv e das timelines, sim, mas principalmente as imagens gravadas na minha cabeça: todas as luzes dos apartamentos do meu prédio acesas e meus vizinhos felizes agitando braços e bandeiras nas janelas.
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ansiedade
Já tem um tempo. Não sei quando começou isso de que só me sinto em paz dentro de casa. O problema é que essa casa de agora não é minha casa, não me reconheço nem dentro nem fora dela, por mais agradável que seja — há um jardim onde crianças tomam sol, há vizinhos simpáticos com filhotes de cachorro, há alguém que toca piano todas as tardes, descendo o som em cascata para as áreas comuns. Mas não é meu lugar.
Moro no térreo, e se alguém olhar com atenção consegue me ver da rua. Não que exista muito para ver: todos os dias, o dia inteiro, na mesma posição, sentada atrás do computador aberto. Da tela adiante não vejo nada, porque minha miopia piorou demais em seis meses.
Não sei explicar qual o gatilho da ansiedade que me faz estática por minutos, às vezes horas, nesse lugar. Provavelmente gatilhos, no plural, e mutáveis. Nunca estiveram tão à flor da pele quanto agora, e vem piorando desde que o mundo, ou o que achávamos que era esse mundo, começou a desabar. Era melhor se fosse de uma vez, uma marretada certeira, ao invés desse longo processo em que partes das paredes vão caindo um pouco todos os dias, mostrando que aquilo que está do outro lado não é o que você queria, mas está lá e uma hora você vai ter que olhar de frente.
A analista pergunta como sei que é ansiedade e tento descrever coisas muito físicas: aperto na garganta, frio na barriga, suadeira nas mãos, dor de cabeça, boca seca. Ela me interrompe e diz que, sim, ansiedade é uma coisa muito física mesmo, mas eu sei de onde ela vem? O que sai da minha boca é um achar que vem de tudo que não está dito. Mas tem algo de um medo muito real também.
É sempre muito quando há uma crise a caminho. Não consigo me concentrar em nada, mesmo em coisas simples do trabalho ou decisões banais como ir até a esquina almoçar PF. Quando dou por mim, já perdi umas duas horas empacada no mesmo ponto, apesar de ter disponível o que preciso para seguir em frente . Os recursos estão ali, ao alcance, mas meu braço não se move na direção deles.
Algumas pessoas comem balinhas, outras roem as unhas, fumam cigarro, rabiscam papel, olham demais o celular. Eu me limito a olhar para frente de forma vaga, e esperar. Penso em levantar e jogar uma água no rosto, beber água do filtro, mas a ideia de ir até o banheiro ou a cozinha parece uma odisséia e me sinto cansada antes de levantar da cadeira. Penso em pedir ajuda para amigos ,mas não consigo lembrar o nome de ninguém, ainda mais alguém com quem poderia falar sobre isso assim no meio de uma manhã de quinta feira.
É essa paralisia que entrega o que preciso saber. Tento lembrar que como todo vagalhão, a crise passa. É importante não tentar controlar o relógio, nem me preocupar com a duração do transe ansioso e nem superanalisar caminhos de saída. Esperar. Olhar pela janela sem os óculos.
Andei sentindo tanto ódio que comecei a andar na rua com um martelo dentro do bolsa, como se fosse revidar fisicamente naquilo que me aflige. Recentemente, usei o martelo para pendurar quadros e dar alguma cor nas paredes do apartamento novo e depois o guardei de volta na caixa de ferramentas, possivelmente evitando uma tragédia.
A questão é que a raiva passou e o que entrou no lugar dela foi medo. Nem toda esperança estrelada do mundo é capaz de me fazer esquecer que a reconstrução é muito longa e que há ainda várias marretas por aí tentando impedi-la.
Ainda assim: é preciso começar. E a previsão do tempo diz que domingo, aqui em São Paulo, a chuva dá uma trégua e o sol volta.
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Te desejo uma fé enorme. Em qualquer coisa, não importa. Aquela fé que a gente teve um dia. Me deseje também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que nos faça acreditar em tudo outra vez.
Caio F, em Morangos Mofados
Acordei sozinha antes das seis da manhã. Descansada, o corpo e a cabeça em paz. Foi uma boa semana.
No geral, tem sido um bom mês. Me fiz dizer alguns nãos, apertando muito o cinto, para tentar ter setembro como um mês de descanso físico e mental, para conseguir ver pessoas, reatar laços, dormir sempre que possível, me exercitar quando der vontade, ler muito, escrever sempre.
Férias não, porque não dá. É mais uma preparação para o presente próximo, me dando espaço para limpar o organismo depois de vomitar a âncora de metal enferrujado que me pesava no estômago.
Quase todas as pessoas com quem falo ensaiam um sentimento parecido, ainda um pouco acanhado, de que estamos em preparo, de que há uma alvorada logo ali. Estamos nos recompondo, limpando, abrindo espaço para o que virá.
Mesmo assim: tenho sonhado pouco.
Não o sonho sem controle de quando a gente dorme — esses, que todo mundo sonha, mesmo quem não lembra, tem são constantes. Depois que comecei a acordar lentamente, me dando tempo para absorver o filminho do inconsciente, meus sonhos estão cada vez mais intensos e (acho) cheios de sinais.
Não é misticismo, é só uma coisa de prestar atenção. Tente, você, dormir sem o celular no quarto, tente acordar devagar e prestando atenção aos sinais do seu corpo, tente não fugir do que acontece na sua cabeça, tente valorizar os sinais que sua voz te manda.
O sonho que anda vindo pouco é outro: aquele do sonhar acordada, da divagação. Aquele sonhar esperançoso.
Aquele sonhar de deitar no sofá pra dar um tempo, ficar olhando pro teto, pensando no que se quer, no que se espera, no que vem por aí. Uma coisa assim muito Peixes com Lua em Câncer que tenho mas perdi porque nos últimos anos me vi obrigada a suprimir. Manter a cabeça fora da água era difícil demais — sonhar, imagine!
Não sou só eu. A realidade tem sido tão dura que nosso sonhar, desejar, ansiar para além daquilo que é carnal e imediato sumiu. Pra quê eu vou pensar no que pode ser melhor, uma casa, uma relação, um país, se IRL a coisa tem sido tão... indizível?
Mas (chame de dois de outubro, de medicação eficiente, de análise, de axé, do que for) sinto esse jeitinho de sonhar voltando. É assim por aí? Um jeito de permitir sonhar, desejar, ansiar por aquilo que mereço. De saber que tal coisa está acontecendo dentro da minha cabeça e que não devo satisfação para ninguém, mas que alguns desses sonhos podem, sim, vir a ser. Aquele emprego, aquele amor, aquela viagem, aquele look, aquela festa, aquele jantar.
Aquele futuro.
Eu posso, podemos querer que seja melhor do que já foi, melhor do que tem sido. Podemos parar de viver para o que é pequeno e limitante, sair desse círculo de se satisfazer com o que tem para hoje. Teve ontem. Foi um lixo. E o que terá amanhã pode ser outra coisa.
Só que pra isso, antes, é preciso sonhar.
E votar. Dia dois tem eleição. Vote.
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