Aprender a ler e a escrever não é um mero processo mecânico de memorização de sílabas; é um ato de libertação e de conquista de autonomia. As motivações dos alunos revelam o peso da exclusão histórica e o desejo profundo de recuperar a dignidade:
- A busca pela independência total, para não ter de perguntar nada a ninguém dentro da própria casa.
- A vontade de se deslocar de forma autónoma, como o sonho de caminhar sozinha pelo Rio de Janeiro sem depender de guias ou de favores.
- A necessidade prática e emocional de ler a sua própria correspondência e de identificar o nome das flores numa revista.
- A superação do medo de “não saber nada”, evoluindo para a segurança de conseguir assinar o nome e ler o letreiro de um autocarro.
O momento em que a técnica encontra a vida produz uma carga simbólica avassaladora, como se observa no relato sobre o aluno Joaquim ao escrever o nome da sua companheira:
“Foi aqui nesta sala que um Joaquim se levantou durante o processo da pesquisa, foi ao quadro negro, apanhou o giz e escreveu Nina. Quando acabou de escrever, deu uma gargalhada nervosa… Ele olhou para mim e disse: ‘Puxa, Dina é o nome de minha mulher’. Eu percebia nos olhos deles uma espécie de alívio centenário, como se tivessem sacudido para fora uma pedra que há séculos repousava sobre os seus ombros.”