“O escritor escreve tentando recompor, quem sabe, um mundo perdido, os amores perdidos, a casa perdida, o paraíso perdido. Nesse paraíso perdido está a infância.”
Esta é Lygia Fagundes Telles, em vinheta inicial do programa Roda Vida da TV Cultura exibido em 1996.
Ela nasceu em São Paulo e viveu sua infância no interior do estado. Sua estréia literária se deu em 1938 com o livro de contos Porão e Sobrado. Desde então, foi laureada com os principais prêmios de literatura do Brasil e o Prêmio Camões em 2005, maior premiação em língua portuguesa. E em 2016, foi nomeada para o Prêmio Nobel de Literatura, sendo a única mulher brasileira indicada ao prêmio até o momento.
Considerada sua primeira magnum opus, Ciranda de Pedra trata do sentimento de não-pertencimento e de inadequação concernente a todos nós.
Primeiro romance de Lygia Fagundes Telles, lançado em 1954, Ciranda de Pedra narra a história de uma família cindida pela loucura e pelos tabus sociais e cristãos da época. Pelos olhos de Virgínia, a filha caçula, adentramos um mundo exuberante da infância de classe média nos anos 1940. Figuras femininas complexas e multifacetadas completam o rol de personagens.
Com uma linguagem cheia de analogias com o universo dos insetos, o amadurecimento de Virginia se dá na sua relação com as irmãs mais velhas e seus amigos; o seleto grupo no qual quer pertencer. As figuras adultas também impactam a visão de mundo de Virgínia, visão esta que vai do maravilhamento à decepção, passando pelo desprezo e pela compaixão. Não é atoa que o universo metafórico é o dos insetos: são animais que se desenvolvem por metamorfose. Ciranda de Pedra é um romance de amadurecimento.
Dividido em duas partes, a primeira contrapõe a ensolarada casa paterna com a penumbra da casa da mãe, enovelada pelos delírios, pelos medos e pequenas maldades infantis de Virginia, mas também pelo cuidado de Daniel, médico e amante da mãe Laura. Apesar do espaço materno ser pautado pela fragilidade da condição mental de Laura, a casa paterna só tem aparência de ordem e estabilidade.
Na segunda parte do romance, esse aspecto decadente vai se desvelando. Uma metonímia interessante é o jardim, antes muito bem cuidado por Frau Herta, a preceptora das meninas, agora ceifado. Virgínia, quase adulta, se arma de audácia para estar à altura das irmãs e do grupo de amigos delas. Mas acaba por se deparar com sombras antigas e o constante sentimento de rejeição. Apesar da ciranda ser um movimento de roda, é um movimento circular, sem começo nem fim. Ao mesmo tempo que é de pedra, estática, como se congelada no tempo. Essa ciranda é um símbolo persistente na vida de Virginia.
O romance ainda trata de sexualidades - no plural mesmo -, de traição feminina, de moral religiosa e ainda outros temas que não vou dizer para não estragar a experiência de quem ainda não leu.
“Agora as asas da libélula estremeciam. Moveu as patinhas com esforço. Virgínia aproximou-se fascinada. Parecia morta quando a retirara e eis que as asas, secas sob o sol, já tentavam alçar vôo. Soprou-a. “Vá, não perca tempo!” E vendo que a libélula enveredava por entre os juncos, ficou pensando que mais importante do que nascer é ressuscitar.”
O romance ganhou duas adaptações em telenovela, uma em 1981 e outra, diferente da anterior, exibida em 2008. Além de tradução para diversos países.
Eu me despeço aqui, e te espero no próximo episódio de Travessia. [fim da áudio descrição]
Texto base: Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. São Paulo: Companhia das Letras. 2009
Músicas: Caixinha de música quebrada - Heitor Villa-Lobos (Anna Stella Schic)
Efeitos sonoros: 99sounds.org