O Evangelho de hoje faz-nos recordar o de domingo passado, quando celebrámos a festa do Batismo do Senhor. Agora, na versão de São João, voltamos ao mesmo acontecimento, mas com outro olhar. E pode surgir a pergunta: “Isto não se repete? Não está já dito?” A verdade é que o batismo não é apenas um episódio do passado; é uma realidade que se fez em nós e que continua a fazer-se em nós. Ser batizado é entrar num caminho, numa identidade e num projeto de vida que se vai concretizando dia após dia.
Estamos também a celebrar o segundo domingo do Tempo Comum, o tempo dos paramentos verdes. Começa depois do Natal, é interrompido pela Quaresma e pela Páscoa, e retoma até ao fim do ano litúrgico. Às vezes, este tempo pode parecer um “tempo de segunda”, menos importante. Se pensássemos numa prova de ciclismo, como a Volta a Portugal, diríamos que é uma “etapa de rolar”: parece que não decide nada, parece apenas para cumprir. Na liturgia, poderíamos achar que o essencial são os tempos “roxos” da Quaresma e os tempos “brancos” do Natal e da Páscoa. E é verdade que esses tempos são belíssimos e muito intensos. Mas o Tempo Comum é decisivo, porque é no comum do dia a dia que nós nos identificamos, ou não, com o Senhor Jesus. Nos tempos fortes, tudo nos desperta e nos recorda Deus; no comum, distraímo-nos com mais facilidade.
Por isso, hoje, recordar o batismo é importante. Não para o ver como uma obrigação imposta, mas como um projeto de vida sonhado e querido por Deus. A primeira leitura diz-o com força: “Tu és o meu servo, em ti manifestarei a minha glória.” E ainda: “Ele formou-me desde o seio materno.” Nós fomos escolhidos por Deus não por sermos melhores, nem por termos méritos especiais, mas porque Ele quis, porque nos amou desde sempre, porque nunca deixa de tomar a iniciativa. E depois nós respondemos. Cantámos no salmo: “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.” E, se me permitem, tantas vezes eu sinto vontade de mudar uma palavra e dizer: “Eu venho, Senhor, para fazer a nossa vontade.” Não porque deixemos de seguir Deus, mas porque a conversão é precisamente este processo: deixar que a vontade de Deus se torne também a nossa vontade. Aquilo que Deus nos pede e sonha para nós é sempre maior e mais realizador do que aquilo que, sozinhos, conseguimos desejar.
É neste contexto que a segunda leitura, no início da carta de São Paulo aos Coríntios, faz todo o sentido. Paulo saúda a comunidade com palavras que a liturgia conserva: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco.” Reparemos na ordem: a graça vem primeiro. O amor de Deus vem antes de tudo. É sempre Deus quem dá o primeiro passo. E João aponta para Jesus e diz: “Eis o Cordeiro de Deus.” Cordeiro de Deus lembra-nos o Cordeiro Pascal: a Páscoa, a libertação, a alegria de uma vida nova, plena.
E a paz, para nós, não é apenas ausência de conflitos. Isso é pouco. Paz é harmonia interior: comigo, com os outros e com Deus. É a consequência da ação de Deus na nossa vida. Por isso somos capazes de viver tendencialmente em paz: aceitando quem somos, compreendendo a complexidade do mundo e até as feridas que por vezes nos chegam através dos outros, mas amando mesmo assim ao estilo de Deus, construindo pontes e laços.
São Paulo diz ainda: “Aos que foram santificados em Cristo, chamados à santidade.” A santidade não é privilégio de alguns; é vocação de todos. Em Cristo, somos santos e, ao mesmo tempo, estamos a caminho de o ser de forma concreta. E assim se cumpre a promessa: “Vou fazer de ti a luz das nações.” Tornamo-nos luz quando somos homens e mulheres de paz, moldados pela graça de Deus, levando aos lugares onde estamos uma presença mais pascal, mais reconciliada e mais humana.