Segue uma versão organizada da homilia, já com pontuação e parágrafos, e a caber confortavelmente em 4000 caracteres (cerca de 3620, com espaços incluídos).
Em termos litúrgicos, celebramos hoje o último dia da oitava de Natal. As grandes festas, Páscoa e Natal, têm oitava; e este último dia coincide com o primeiro dia do ano civil e com a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Desde Paulo VI, assinala-se também o Dia Mundial da Paz. À primeira vista, parecem temas dispersos, como realidades que não casam. No entanto, casam quando olhamos para Cristo.
Depois da ressurreição, sempre que Jesus aparece aos discípulos, começa do mesmo modo: «A paz esteja convosco». O sinal mais perfeito de que o Ressuscitado está no meio de nós é, precisamente, a possibilidade de falar de paz e de a desejar, apesar de tudo. É verdade que, nos nossos dias, falar de paz pode soar irónico: há conflitos sociais, há guerra na Europa, há guerras no mundo; basta ligar a televisão, a rádio ou a internet. Ainda assim, faz todo o sentido: se celebramos o nascimento de Jesus Cristo, somos chamados a ser homens e mulheres de paz.
A primeira leitura, do Livro dos Números, é luminosa: «O Senhor te abençoe e te proteja; o Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e seja favorável; o Senhor volte para ti o seu olhar e te conceda a paz». Muitas vezes desvalorizamos a bênção, reduzindo-a a superstição ou a uma espécie de amuleto para “correr bem”. Mas a bênção é outra coisa: abençoar é dizer bem; e deixar que a Palavra de Deus faça bem, reorganize a vida, cure o coração, abra caminhos. Quando transformamos a bênção em juízo moral, fazemo-lo muito mal: não somos juízes de ninguém; podemos, sim, bem dizer a Deus e deixar que Deus faça o seu bem em cada pessoa. Isso não se nega a ninguém.
É nesta luz que se entende a segunda leitura: «Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar filhos adotivos». Celebrar Maria, Mãe de Deus, é afirmar uma verdade fundamental: Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É na nossa carne e na nossa história que a salvação nos visita; é na vida concreta que podemos saborear a novidade de Deus e renovar a relação com Ele.
Mas a paz tem uma ambiguidade. Pode ser paz interior, e isso é bom; porém, pode degenerar num comodismo egoísta: “eu estou em paz, não me meto com ninguém, ninguém se mete comigo”. A Escritura não diz: bem-aventurados os que apenas vivem em paz. Diz: «Bem-aventurados os construtores da paz». E aqui está a mudança decisiva: a paz não se alcança de pantufas no sofá; constrói-se quando se combate o mal nas suas formas quotidianas, quando se cuida do que se diz e do que se faz, quando se vigia a forma como nos relacionamos com os outros, no que potenciamos e no que evitamos, para que a paz aconteça.
O Evangelho ajuda-nos a perceber por onde começar. Os pastores, então considerados pobres e excluídos, aproximam-se do Menino, contam o que viram e ouviram, e «todos se admiravam». Deus começa pelos que estão à margem; e talvez isso nos peça uma conversão do olhar: menos à procura de “grandes sinais” e mais atentos aos que estão ao nosso lado. A paz começa nas pequenas pontes, nos laços de proximidade, na dignidade reconhecida a quem parece não contar.
No Baptismo e na Confirmação fomos ungidos com o santo crisma. O óleo deixa marca e, com o tempo, alarga-se: faz nódoa, espalha-se. Assim também a unção de Cristo, fonte da paz: onde nos colocamos, deve alargar o bem. Se cada um construir paz à sua beira, essas marcas tocam-se e a nossa textura social torna-se mais pacífica, mais harmoniosa, mais conforme à lógica do Ressuscitado. Que o Senhor nos abençoe e nos conceda a paz, fazendo de nós construtores de paz.