Estamos a iniciar hoje o tempo do Advento, tempo que, liturgicamente, prepara o Natal. A celebração do Natal pode soar a uma notícia já atrasada, porque, se andarmos pelas ruas – sobretudo à noite – vemos que já está tudo iluminado; quando vamos às lojas, deparamo-nos com as decorações de Natal. Socialmente, o tempo de preparação começa muito mais cedo.
Porquê? Porque aí vigora outra lógica – legítima e válida – a lógica do comércio e do consumo, que faz antecipar tudo. E nós vivemos neste mundo, mas com o coração e com os olhos postos em Deus. Este é o grande desafio que o Advento coloca a cada um de nós.
No Evangelho, o Senhor convida-nos a estar vigilantes e recorda os dias de Noé: casavam, davam-se em casamento, comiam, bebiam, viviam a sua vida normal, até que veio o dilúvio… e eles não deram por nada. O que é que o Evangelho nos quer dizer?
Aquilo que fazemos – o nosso trabalho, a vida familiar, os amigos, as diversões – faz parte da existência e não tem mal nenhum; é bom que assim seja. O que é mau é vivermos tudo isso como distração, sem termos o coração e os olhos postos no Senhor. As ocupações do dia a dia, os filmes que vemos, aquilo que apreciamos, não têm nada de mal; o mal está em nos deixarmos distrair do essencial, em perdermos o desejo de encontrar a Deus.
Aqui está o ponto: desejar encontrar Deus em cada circunstância e lugar. E, para isso, precisamos de incorporar em nós esta profecia de Isaías: “Vinde, subamos ao monte do Senhor; Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas.”
Este texto não é apenas memória do passado; diz o que, para mim, é essencial e desejável como o melhor que pode acontecer: “Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há-de vir a Lei e de Jerusalém a palavra do Senhor. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão-de preparar para a guerra.”
Isto mostra a forma como quero estar no mundo: alcançar as coisas não pela violência, não pela guerra, mas pelo compromisso, pelo trabalho, por aceitar aquilo que a terra e o esforço podem dar e viver dignamente. Não levantar a espada nem preparar a guerra, mas ser pacífico, viver de forma harmoniosa, inteira, no nosso convívio humano.
Aqui está uma ideia que nos pode ajudar a preparar o Advento: ter prazer em estar com os outros, em viver em ambientes de paz, harmonia e concórdia. Se nos deixarmos conduzir por este desejo de paz e de prazer bom em estar com os outros, havemos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que esses ambientes aconteçam.
São Paulo, na segunda leitura, concretiza ainda mais: “A noite vai adiantada e o dia está próximo. Deixemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.” Quais são as obras das trevas? Orgias e bebedeiras, devassidões e libertinagens, discórdias e ciúmes. Isto podemos fazer e sentir; o problema está em saber se queremos ficar ali ou sair dali.
Será que gasto tempo com ciúmes, discórdias, devassidões, libertinagens? Ou procuro viver de tal maneira que aquilo que sou e vivo possa ser mostrado diante da luz? Aquilo que se pode mostrar à luz é o que me significa, organiza e faz de mim um homem ou uma mulher mais autêntico, mais pleno.
Por isso, neste tempo de Advento – tempo curto, o Natal chega depressa, mas em que a noite vem mais cedo e temos mais ocasião de recolhimento – talvez fosse bom olharmos para nós mesmos e perguntarmo-nos o que é que realmente desejamos.
Por exemplo, podemos pensar: “O que é que eu quero que Jesus me dê?” Está a chegar o tempo dos presentes. Então vamos pedir: eu quero que Jesus me dê uma vida harmoniosa, uma vida serena e uma vida alegre.
Uma vida harmoniosa, serena e alegre pode parecer uma coisa simples, mas hoje é difícil de conseguir. No entanto, quando a alcançamos, já não queremos outra coisa, porque, na serenidade, na harmonia e na alegria, fazemos uma experiência de encontro com Deus.