“Ora, ajuntando-se uma grande multidão, e vindo ter com ele gente de todas as cidades, disse Jesus por parábola: Saiu o semeador a semear a sua semente. E quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho; e foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra caiu sobre pedra; e, nascida, secou-se porque não havia umidade. E outra caiu no meio dos espinhos; e crescendo com ela os espinhos, sufocaram-na. Mas outra caiu em boa terra; e, nascida, produziu fruto, cem por um. Dizendo ele estas coisas, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Perguntaram-lhe então seus discípulos o que significava essa parábola. Respondeu ele: A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; mas aos outros se fala por parábolas; para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam. É, pois, esta a parábola: A semente é a palavra de Deus. A que caiu à beira do caminho são os que ouvem; mas logo vem o Diabo e tira-lhe do coração a palavra, para que não suceda que, crendo, sejam salvos. A que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; mas estes não têm raiz, apenas crêem por algum tempo, mas na hora da provação se desviam. A parte que caiu entre os espinhos são os que ouviram e, indo seu caminho, são sufocados pelos cuidados, riquezas, e deleites desta vida e não dão fruto com perfeição. Mas a que caiu em boa terra são os que, ouvindo a palavra com coração reto e bom, a retêm e dão fruto com perseverança”.
Antes de começarmos a meditar sobre os elementos dessa passagem da Bíblia, vamos esclarecer um ponto importante que pode passar despercebido. Se você leu essa passagem com atenção, eu sei que leu, vai perceber que após Jesus terminar de falar com a multidão, os seus discípulos o interrogam sobre o significado das coisas que ele acabara de falar. É quando Jesus responde o seguinte para eles: “A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; mas aos outros se fala por parábolas; para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam”. Isso é curioso, não é? Perceba que o próprio Jesus deixa claro que falava por parábolas para que ninguém compreendesse aquilo que ele estava dizendo. A pergunta é: por que será que Jesus usava desse tipo de ilustração, se ninguém compreendia o que ele falava? Na verdade, o que está acontecendo aqui é o seguinte: desde o início de seu ministério, como podemos perceber nos sete primeiros capítulos desse livro de Lucas, Jesus falava abertamente para a multidão sobre quem ele era e sobre o caminho que Israel deveria seguir, ou seja, ele anunciou ser o filho de Deus e por isso, Israel deveria recebê-lo como sendo o Messias anunciado por João Batista e pelos profetas, mas o que aconteceu foi justamente o oposto, o povo o rejeitou. Inclusive, no capítulo 4 desse mesmo evangelho, Lucas narra uma passagem em que Jesus é rejeitado em sua própria cidade (Nazaré). Por isso, Jesus ao perceber que o povo não o recebera, começou a usar das parábolas como uma forma de rejeitar aquelas pessoas que não creram que ele era o filho do Deus vivo, cumprindo-se aquilo que as escrituras dizem: “Veio para os que eram seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1:11). “Aquele que me negar diante dos homens, eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10:33). Portanto, as parábolas serviam como forma de ocultar os mistérios do Reino de Deus para os que não creram nele.