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Nono capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
TRANSCRIÇÃO
—
Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava para o desejo da Acção… E de uma acção directa e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.
Depois de tanto comentar, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a criar.
Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel Hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:
— É curioso… Nunca plantei uma árvore!
— Pois é um dos três grandes actos, sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!
— Sim… Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.
E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca acreditara inteiramente — pobre homem! — no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:
— Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?
Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e divertido:
— Semear, patrão? Agora é antes colher… Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.
— Pois sim… Mas sem ser milho nem cevada… Então ali no pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?
O riso do Manuel crescia.
— Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca…
O meu Príncipe sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.
— Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.
Não! O empenho era criar a árvore. Pela árvore contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternais.
No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:
— Oh Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?
— Eh, meu Jacinto… A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de eucaliptos…
— Tudo tão lento, Zé Fernandes…
Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no começo do Inverno…
— Um carvalho!… Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom para Deus, que pode esperar… Patiens quia æternus. Trinta anos! Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!
— Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto…
— Filhos! Onde os tenho eu?
— É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por aí terras agradáveis… Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
Ele murmurou, cruzando as mãos sobre os joelhos:
— Tudo leva tanto tempo!…
E à borda do tanque nos quedámos, calados, na fresca doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o crescente da Lua, que surdia dos telhados de Tormes.
E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios através da quinta, ele lhe notava a solidão.
— Faltam aqui animais, Zé Fernandes!
Imaginava eu que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre escasso de águas, agora mais ressequido por Verão de tanta secura, o meu Príncipe parou a considerar os três carneiros do caseiro, que retouçavam com penúria uma relvagem pobre.
E, de repente, como magoado:
— Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordíssimos como bolas de algodão pousadas na relva!… Era lindo, hem? É fácil, não é verdade, Zé Fernandes?
— Sim… Trazes a água para o prado. Águas não faltam, na serra.
E o meu Príncipe encadeando logo nesta inspirada ideia outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados, esses verdes ferregiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hem? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e útil, toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela água… Hem? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e até mais moral, que a instalação de uma queijeira, à fresca moda holandesa, toda branca e reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os Camemberts, os Bries… os Coulommiers… Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!
— Pois não te parece, Zé Fernandes?
— Com certeza. Tu tens, em abundância, os quatro elementos: o ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
— Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia… Mas uma queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez no país uma indústria nova e rica! Ora com essa instalação, perfeita, quanto me poderá custar cada queijo?
Fechei um olho, calculando:
— Eu te digo… Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil réis.
O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres espantados para mim.
— Como trezentos mil réis?
— Ponhamos duzentos… Tem a certeza! Com todos esses prados, e os encanamentos de água, e a configuração da serra alterada, e as vacas inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as máquinas, a extravagância, e a patuscada bucólica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em cada queijo, uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e cinquenta réis!
O meu Príncipe não desanimou.
— Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por semana, ao sábado, para o comermos nós ambos ao domingo!
E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, tão ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvério e o Melchior por cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silvério, que ele não afastasse brandamente, com jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.
Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Rijamente sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despesas que se afiguravam sobre-humanas à sua parcimónia serrana, forçado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomara na serra o jeito que Jacinto deixara em Paris, — e era ele que corria pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados… Enfim uma tarde desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, mordomo-mor da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos de uma queijeira perfeita.
— Pois, sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre lhe digo que o sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos… Dezenas de contos!
E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem todas essas obras tão vastas, que alterariam o antiquíssimo rosto da serra, não custavam mais que a outros o conserto de um socalco, — o bom Silvério atirou os longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:
— Pois por isso mesmo, sr. Fernandes! Se o sr. D. Jacinto não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para diante; e eu não o censuro pela ideia. Lograsse eu a renda de Sua Excelência, que me atirava também a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, sr. Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de desbancar os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O sr. Fernandes não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de fartar, e aí trinta perus na capoeira…
— Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o solar da família, e aqui começaram no século XIV os Jacintos…
O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à secular nobreza da casa.
— Ora! Até ficam mal ao sr. Fernandes essas ideias, neste século da liberdade… Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em República? Leia o «Século», sr. Fernandes!, leia o «Século», e verá! E depois eu sempre quero ver o sr. D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a serra!… Olhe, até mesmo por amor da saúde o sr. D. Jacinto, que é fraquinho e acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, em Montemor é que Sua Excelência estava bem. E o sr. Fernandes, tão amigo dele e assim com tanta influência, devia teimar, e berrar, até que o levasse para Montemor.
Mas, infelizmente para a quietação do Silvério, Jacinto lançara raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, donde brotara a sua raça, e o antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, tão do chão, e preso ao chão, como as árvores que ele tanto amava.
E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca, — dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles como numa festa ou numa glória.
Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o de um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta, já de chapéu desabado, já de bengalão de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase orgulhosa:
— Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!
Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das trinta e nove escovas protestava contra esse desbarato efeminado de um tempo devido aos fortes gozos da terra.
Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, desembocávamos da alameda de plátanos, e diante de nós se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a sua pressa findava, e penetrava na Natureza com a reverente lentidão de quem penetra num templo. E repetidamente sustentava ser «contrário à Estética, à Filosofia e à Religião andar depressa através dos campos». De resto, com aquela subtil sensibilidade bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio domingo, depois da missa, no cabeço, junto a um velho curral desmantelado, sob uma grande árvore, — só porque em torno havia quietação, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmúrio de regato entre canas verdes, e por sobre a sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda noviça — o meu Príncipe rugia, com a indignação de um poeta que descobre um merceeiro bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.
— Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno proprietário. Para mim não se trata de saber se a terra é linda, mas se a terra é boa. Olha o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E não diz: «Contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»
— Pudera! — exclamava o meu Príncipe. — Um livro escrito por judeus, por ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, por um momento, nos trinta mil réis que ele rende! Verás que pela sua beleza e graça ele te dá mais contentamento à alma que os trinta mil réis ao corpo. E na vida só a alma importa.
Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio cerradas, os soalhos borrifados para aquelas quentes réstias de sol de Junho, que depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.
Mas realmente a alegre actividade do meu Príncipe não cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o Sol mesmo parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto, com o espírito acordado, — ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade — tomava com delícia o seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo ambula, caminha! — também certamente lhe gritara et lege, e lê. E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de ler um livro. Quando eu correra a Tormes (depois das revelações do Severo na venda do Torto), ele findava o «D. Quixote», e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu Príncipe mergulhara na «Odisseia», — e todo ele vivia no espanto e no deslumbramento de assim ter encontrado, no meio do caminho da sua vida, o velho errante, o velho Homero!
— Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter lido Homero?…
— Outras leituras, mais urgentes… o «Figaro», Georges Ohnet…
— Tu leste a «Ilíada»?
— Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a «llíada».
Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.
— Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que se gabava de não ter lido a «Ilíada»?
— Não.
— Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
— Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a «Odisseia»!
Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da «Odisseia» — resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas Divinas, — exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam… Embalado pela recitação grave e monótona do meu Príncipe, eu cerrava as pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e céu, me alvoroçava… E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: «Sublime!» E sempre, nesse momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a clemência dos príncipes, ou reclamava presentes devidos ao hóspede, ou surripiava astutamente algum favor aos deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico… E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca…
Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os campos. E a essa hora, sempre mais activo, voltava com ardor aos «seus planos», a essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite de uma horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes, clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de dálias. A água das regas desceria por lindos córregos de louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel, pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que o Melchior e o Silvério, consultados, longamente contemplaram, — um coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente cruzados, e o sobrolho trágico.
Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, de um pombal tão povoado que todo o céu de Tormes às tardes se tornaria branco e todo fremente de asas — não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa, platónicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.
Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistência reboluda e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inércia do Silvério se quedavam, encalhados, os planos do meu Príncipe, como galeras vistosas em rochas ou em lodo.
Não convinha bulir em nada (clamava o Silvério) antes das colheitas e da vindima! E depois (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande promessa) «para boas obras mês de Janeiro» porque lá ensina o ditado:
Em Janeiro — mete obreiro
Mês meante — que não ante.
E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a bengala por cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto meditava estas transformações da terra, muito progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu Príncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os moços, quando à borda de um caminho ou num campo em monda eles se endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. Decerto o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada supercivilização até à rude simplicidade daquelas almas naturais — mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupações e de interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, tirando também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal ênfase de polidez que eu por vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros: «Tenha Vossa Excelência muito boas tardes… Criado de Vossa Excelência!»
Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um saber ainda frágil) a época das sementeiras e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis e vagas.
— Então, isso vai andando?… Ora ainda bem!… Este bocado de torrão aqui é rico… O talude ali adiante está precisando conserto…
E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e consolidasse a sua encarnação em «homem do campo», deixando de ser uma mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não cruzava no caminho o mocinho atrás das vacas, que não o detivesse, o não interrogasse: «Para onde vais tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E, contente consigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de água, e as delimitações da sua quinta.
— Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos Albuquerques.
E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe era então uma alma que se simplificava — e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do café, estendido numa cadeira, sentindo, através das janelas abertas, a nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez estrelada do céu.
As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abade, da tia Vicência, dos nossos parentes da Flor da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo, a crónica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças por causa de servidões ou de águas. Também por vezes nos enfronhávamos com aferro numa partida de gamão, sobre um belo tabuleiro de pau-preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o Silvério. Mas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.
By NeolivrosNono capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
TRANSCRIÇÃO
—
Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava para o desejo da Acção… E de uma acção directa e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.
Depois de tanto comentar, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a criar.
Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel Hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:
— É curioso… Nunca plantei uma árvore!
— Pois é um dos três grandes actos, sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!
— Sim… Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.
E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca acreditara inteiramente — pobre homem! — no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:
— Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?
Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e divertido:
— Semear, patrão? Agora é antes colher… Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.
— Pois sim… Mas sem ser milho nem cevada… Então ali no pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?
O riso do Manuel crescia.
— Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca…
O meu Príncipe sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.
— Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.
Não! O empenho era criar a árvore. Pela árvore contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternais.
No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:
— Oh Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?
— Eh, meu Jacinto… A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de eucaliptos…
— Tudo tão lento, Zé Fernandes…
Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no começo do Inverno…
— Um carvalho!… Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom para Deus, que pode esperar… Patiens quia æternus. Trinta anos! Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!
— Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto…
— Filhos! Onde os tenho eu?
— É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por aí terras agradáveis… Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
Ele murmurou, cruzando as mãos sobre os joelhos:
— Tudo leva tanto tempo!…
E à borda do tanque nos quedámos, calados, na fresca doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o crescente da Lua, que surdia dos telhados de Tormes.
E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios através da quinta, ele lhe notava a solidão.
— Faltam aqui animais, Zé Fernandes!
Imaginava eu que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre escasso de águas, agora mais ressequido por Verão de tanta secura, o meu Príncipe parou a considerar os três carneiros do caseiro, que retouçavam com penúria uma relvagem pobre.
E, de repente, como magoado:
— Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordíssimos como bolas de algodão pousadas na relva!… Era lindo, hem? É fácil, não é verdade, Zé Fernandes?
— Sim… Trazes a água para o prado. Águas não faltam, na serra.
E o meu Príncipe encadeando logo nesta inspirada ideia outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados, esses verdes ferregiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hem? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e útil, toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela água… Hem? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e até mais moral, que a instalação de uma queijeira, à fresca moda holandesa, toda branca e reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os Camemberts, os Bries… os Coulommiers… Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!
— Pois não te parece, Zé Fernandes?
— Com certeza. Tu tens, em abundância, os quatro elementos: o ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
— Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia… Mas uma queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez no país uma indústria nova e rica! Ora com essa instalação, perfeita, quanto me poderá custar cada queijo?
Fechei um olho, calculando:
— Eu te digo… Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil réis.
O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres espantados para mim.
— Como trezentos mil réis?
— Ponhamos duzentos… Tem a certeza! Com todos esses prados, e os encanamentos de água, e a configuração da serra alterada, e as vacas inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as máquinas, a extravagância, e a patuscada bucólica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em cada queijo, uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e cinquenta réis!
O meu Príncipe não desanimou.
— Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por semana, ao sábado, para o comermos nós ambos ao domingo!
E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, tão ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvério e o Melchior por cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silvério, que ele não afastasse brandamente, com jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.
Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Rijamente sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despesas que se afiguravam sobre-humanas à sua parcimónia serrana, forçado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomara na serra o jeito que Jacinto deixara em Paris, — e era ele que corria pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados… Enfim uma tarde desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, mordomo-mor da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos de uma queijeira perfeita.
— Pois, sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre lhe digo que o sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos… Dezenas de contos!
E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem todas essas obras tão vastas, que alterariam o antiquíssimo rosto da serra, não custavam mais que a outros o conserto de um socalco, — o bom Silvério atirou os longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:
— Pois por isso mesmo, sr. Fernandes! Se o sr. D. Jacinto não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para diante; e eu não o censuro pela ideia. Lograsse eu a renda de Sua Excelência, que me atirava também a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, sr. Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de desbancar os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O sr. Fernandes não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de fartar, e aí trinta perus na capoeira…
— Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o solar da família, e aqui começaram no século XIV os Jacintos…
O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à secular nobreza da casa.
— Ora! Até ficam mal ao sr. Fernandes essas ideias, neste século da liberdade… Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em República? Leia o «Século», sr. Fernandes!, leia o «Século», e verá! E depois eu sempre quero ver o sr. D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a serra!… Olhe, até mesmo por amor da saúde o sr. D. Jacinto, que é fraquinho e acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, em Montemor é que Sua Excelência estava bem. E o sr. Fernandes, tão amigo dele e assim com tanta influência, devia teimar, e berrar, até que o levasse para Montemor.
Mas, infelizmente para a quietação do Silvério, Jacinto lançara raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, donde brotara a sua raça, e o antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, tão do chão, e preso ao chão, como as árvores que ele tanto amava.
E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca, — dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles como numa festa ou numa glória.
Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o de um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta, já de chapéu desabado, já de bengalão de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase orgulhosa:
— Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!
Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das trinta e nove escovas protestava contra esse desbarato efeminado de um tempo devido aos fortes gozos da terra.
Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, desembocávamos da alameda de plátanos, e diante de nós se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a sua pressa findava, e penetrava na Natureza com a reverente lentidão de quem penetra num templo. E repetidamente sustentava ser «contrário à Estética, à Filosofia e à Religião andar depressa através dos campos». De resto, com aquela subtil sensibilidade bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio domingo, depois da missa, no cabeço, junto a um velho curral desmantelado, sob uma grande árvore, — só porque em torno havia quietação, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmúrio de regato entre canas verdes, e por sobre a sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda noviça — o meu Príncipe rugia, com a indignação de um poeta que descobre um merceeiro bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.
— Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno proprietário. Para mim não se trata de saber se a terra é linda, mas se a terra é boa. Olha o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E não diz: «Contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»
— Pudera! — exclamava o meu Príncipe. — Um livro escrito por judeus, por ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, por um momento, nos trinta mil réis que ele rende! Verás que pela sua beleza e graça ele te dá mais contentamento à alma que os trinta mil réis ao corpo. E na vida só a alma importa.
Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio cerradas, os soalhos borrifados para aquelas quentes réstias de sol de Junho, que depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.
Mas realmente a alegre actividade do meu Príncipe não cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o Sol mesmo parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto, com o espírito acordado, — ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade — tomava com delícia o seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo ambula, caminha! — também certamente lhe gritara et lege, e lê. E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de ler um livro. Quando eu correra a Tormes (depois das revelações do Severo na venda do Torto), ele findava o «D. Quixote», e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu Príncipe mergulhara na «Odisseia», — e todo ele vivia no espanto e no deslumbramento de assim ter encontrado, no meio do caminho da sua vida, o velho errante, o velho Homero!
— Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter lido Homero?…
— Outras leituras, mais urgentes… o «Figaro», Georges Ohnet…
— Tu leste a «Ilíada»?
— Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a «llíada».
Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.
— Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que se gabava de não ter lido a «Ilíada»?
— Não.
— Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
— Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a «Odisseia»!
Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da «Odisseia» — resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas Divinas, — exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam… Embalado pela recitação grave e monótona do meu Príncipe, eu cerrava as pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e céu, me alvoroçava… E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: «Sublime!» E sempre, nesse momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a clemência dos príncipes, ou reclamava presentes devidos ao hóspede, ou surripiava astutamente algum favor aos deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico… E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca…
Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os campos. E a essa hora, sempre mais activo, voltava com ardor aos «seus planos», a essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite de uma horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes, clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de dálias. A água das regas desceria por lindos córregos de louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel, pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que o Melchior e o Silvério, consultados, longamente contemplaram, — um coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente cruzados, e o sobrolho trágico.
Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, de um pombal tão povoado que todo o céu de Tormes às tardes se tornaria branco e todo fremente de asas — não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa, platónicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.
Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistência reboluda e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inércia do Silvério se quedavam, encalhados, os planos do meu Príncipe, como galeras vistosas em rochas ou em lodo.
Não convinha bulir em nada (clamava o Silvério) antes das colheitas e da vindima! E depois (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande promessa) «para boas obras mês de Janeiro» porque lá ensina o ditado:
Em Janeiro — mete obreiro
Mês meante — que não ante.
E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a bengala por cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto meditava estas transformações da terra, muito progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu Príncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os moços, quando à borda de um caminho ou num campo em monda eles se endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. Decerto o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada supercivilização até à rude simplicidade daquelas almas naturais — mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupações e de interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, tirando também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal ênfase de polidez que eu por vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros: «Tenha Vossa Excelência muito boas tardes… Criado de Vossa Excelência!»
Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um saber ainda frágil) a época das sementeiras e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis e vagas.
— Então, isso vai andando?… Ora ainda bem!… Este bocado de torrão aqui é rico… O talude ali adiante está precisando conserto…
E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e consolidasse a sua encarnação em «homem do campo», deixando de ser uma mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não cruzava no caminho o mocinho atrás das vacas, que não o detivesse, o não interrogasse: «Para onde vais tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E, contente consigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de água, e as delimitações da sua quinta.
— Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos Albuquerques.
E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe era então uma alma que se simplificava — e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do café, estendido numa cadeira, sentindo, através das janelas abertas, a nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez estrelada do céu.
As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abade, da tia Vicência, dos nossos parentes da Flor da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo, a crónica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças por causa de servidões ou de águas. Também por vezes nos enfronhávamos com aferro numa partida de gamão, sobre um belo tabuleiro de pau-preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o Silvério. Mas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.

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