Capítulos XV e XVI (último capítulo), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
TRANSCRIÇÃO
—
XV
E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto final — porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. É até monótono, pela perfeição da beleza moral, aquele homem tão pitoresco pela desinquietação filosófica e pelos pitorescos tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras — eu quase lamentava esse outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore e, riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para fabricar queijinhos que custariam cada um duzentos mil réis!
Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possuía agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com folhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas.
Visitara já as suas propriedades de Montemor, da Beira, a Avelã, e consertava, mobilava as velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma do meu Príncipe, foi quando ele, já saído daquele primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade — entreabriu a porta de Tormes à Civilização. Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida de faias uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e ajoujados de caixotes. Eram os famosos caixotes há um ano encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam trazendo, para despejar a Cidade sobre a Serra. Eu pensei: «Mau! o meu pobre Jacinto teve uma recaída!» Mas os confortos mais complicados, que continha aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os sótãos imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos, que ele imaginara, fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta moderação a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e mais caixotes, para instalar um telefone!
— Um telefone, em Tormes, Jacinto?
O meu Príncipe explicou, com humildade:
— Para casa de meu sogro!… Bem vês.
Era razoável e carinhoso. O telefone porém, subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os braços, quase suplicante:
— Para casa do médico. Bem. Compreendes…
Era prudente. Mas, uma manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros, trazendo arame, para instalar na nossa casa o telefone. Calmei a tia Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os ombros:
— Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro… E, depois, estás tu!
Era fraternal. Mas pensei: «Estamos perdidos! Dentro de um mês temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma máquina!» Pois não! O Progresso, que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara um reino novo para desfiar, desceu, silenciosamente, despedido, e não avistámos mais sobre a serra a hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto fora o Príncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera meninos para trazer às cavaleiras, — observei ao digno preto, que lia o seu «Figaro», armado de imensos óculos redondos:
— Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o sr. D. Jacinto está firme.
O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco dedos em círculo como pétalas de uma túlipa:
— Sua Excelência brotou!
Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade, plantado na Serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor o bendiziam.
XVI
Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da Civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março garantiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem feita, viúva que sentia as necessidades do meu coração, partira com o irmão para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu… Parti eu para Paris.
Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202, — decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
— Eh, Fernandes!
Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202. Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina — por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais que o escudeiro lhe passara — o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:
— E Jacinto?
Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia às cavaleiras.
— Ah que canalha! — exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. — É capaz de ser feliz!
— Espantosamente, loucamente… Qual! Não há advérbios…
— Indecentemente — murmurou Marizac muito sério. — Que canalha!
Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarette:
— Todo esse mundo circula…
— Madame d’Oriol?
— Continua.
— Os Trèves? O Efraim?
— Continuam, todos três.
Lançou um gesto lânguido.
— Em cinco anos, em Paris, tudo continua… As mulheres com um pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um bocado mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno… E — et voilà!
— Dornan?
— Continua… Não o encontrei mais desde o 202… Mas vejo às vezes o nome dele, no «Boulevard», com versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis.
— E o psicólogo?… Ora, como se chamava ele?…
— Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinquenta… Duquesas em camisa, almas nuas… Coisas que se vendem bem!
Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do grão-duque, o comboio entrou na estação de Biarritz — e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:
— Até Paris!… Sempre Rue Cambon!
Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, com histórias muito sabidas, que murmuravam coisas muito ditas, através de sorrisos muito estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, toda de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem um acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pálidos e finos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um Sol descorado, parecia um vasto manto lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.
Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de grossos veludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas sonhei que em Tormes se construíra uma Torre Eiffel, e que em volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, até a tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses cinco anos eu ali estivera à porta do Grand-Hotel, tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da Cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da Legião de Honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos obscenas… «Santo Deus!», pensei, «há que anos eu estou em Paris!» Comprei então, num quiosque, um jornal, a «Voz de Paris», para que ele me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais ilustrados — e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou meio despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, ora voltando para o leitor duas tremendas nádegas… Eu murmurei: — Santo Deus! — No Café da Paz, o criado lívido, e com um resto de pó de arroz sobre a lividez, aconselhou ao meu apetite (comera tão tarde) um linguado frito e uma costeleta.
— E que vinho, senhor conde?
— Chablis, senhor duque!
Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria, — e eu abri, contente, a «Voz de Paris». Na primeira coluna, através de uma prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, entrevi uma princesa nua, e um capitão de dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tónicos. Depois eram crimes. — Não há nada de novo! — Sacudi a «Voz de Paris», — e então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei pelo moço lívido — que, com faca mais rija, fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No troco, que o moço me deu, com uma polidez deliciosa de uma civilização muito espalhada, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de Maio eu saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava.
Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos ónibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, com toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento indescontinuado e rude depressa entonteceu este espírito, por cinco quietos anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ónibus que parara, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ónibus — e, rápido, recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, decerto, eram os altos prédios hirtos, como as hirtas ribas de pedra e cal, que continham, disciplinavam, a torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam — e mais me cansava o perceber a incessância do trabalho, a rija canseira do lucro, que arfava por trás das fachadas decorosas e mudas. E então enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentava no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, também eu senti, como ele no Campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido num mundo que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me consolar. De que me serviriam também as excelências da alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard «Ó homens, meus irmãos!», os homens, mais ferozes que o lobo de Agubio ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem vivos naquela multidão, — a do lucro, a do gozo. Isolada entre eles, e ao contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra, composto com tolerável nobreza, só restaria esse calhau de Egoísmo, e nele, vivos, os dois apetites de Cidade, — encher a bolsa, saciar a carne! E as mesmas exagerações de Jacinto ante a Natureza me invadiam aplicadas à Cidade. Aquele Boulevard já me ressumava um bafo mortal, exalado dos milhões dos seus micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada à portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido trabalhando; todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só por dentro podridão. E considerava de uma melancolia funambulesca cútis e formas de toda aquela Multidão, a sua pressa esperta e vã, a afectação das atitudes, as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e arranjadas, a pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, mas assim eu sentia também que necessitava remergulhar na Serra, para que o seu puro ar me secasse e se me despegasse a crosta da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé Fernândico!
Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos ônibus, pensei: «Que será feito de Madame Colombe?» E, oh miséria!, pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da Rue Royale para a Praça da Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que estacou, ergueu o braço, o vozeirão, num modo de comando:
— Eh, Fernandes!
O grão-duque! O belo grão-duque, de jaquetão alvadio, e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do príncipe, que me reconhecera.
— E Jacinto? Em Paris?…
Contei Tormes, a serra, o seu rejuvenescimento entre a Natureza, minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às cavaleiras. O grão-duque encolheu os ombros, desolado:
— Oh lá, lá, lá!… Peuh! Casado, na aldeia, com filharada… Homem perdido! Ora, ora!… E um homem útil!, que nos divertia, e com gosto! O cor-de-rosa! uma festa deliciosa… Não se fez, não se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris… E então Madame d’Oriol… Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo… Potável, mulher ainda muito potável… Não é o meu género… Adocicada, leitosa, pomadada, neve à la vanille!… Ora esse Jacinto!…
— E Vossa Alteza, em Paris, com demora?
O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial:
— Nenhuma. Paris já se não aguenta… Está estragada, positivamente estragada… Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest, que era maître-d’hotel do Maire. Já lá comeu? Não? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei… Um horror! Uma salada Chambord… falhada, indecentemente falhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma manada. Mulheres, penh, tudo melado. Não há nada! Ainda assim, num daqueles teatritos de Montmartre, na Roulotte, há uma revista, que se vê: «Para cá as Mulheres» — engraçada, bem despida… A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o «Amor no Water-Closet» que diverte, tem topete… Onde está, Fernandes?
— No Grand-Hotel, meu senhor.
— Sofrível barraca… E o seu rei sempre bom?
Curvei a cabeça:
— Sua Majestade, sempre bem.
— Ainda bem, Fernandes, tive prazer… Esse Jacinto é que me desola! Pois vá ver a revista… Boas pernas, a Celestine… E tem graça o tal «Amor no Water-Closet».
Um rijíssimo aperto de mão, — e Sua Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou… Excelente homem, este grão-duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias magras, pedalando escarranchados sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. Galfarros esguios, de gâmbias finas, fugiam numa linha esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, giravam, mais rapidamente, no prazer equívoco da carreira escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, vitórias e faetontes a vapor, com uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação estridente, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando: «Se um grego do tempo de Fídias visse esta nova beleza e graça do caminhar humano!…»
No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Mas quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que me revivesse a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na antecâmara, grandes lonas recobriam as tapeçarias heróicas — e a mesma lona parda escondia os estofos das paredes e dos móveis, as largas estantes de ébano na Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num concílio pareciam assim separados do Mundo, por aquele pano que sobre eles descera, depois de finda a comédia da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de ébano, desaparecera aquela matula de instrumentozinhos, de que eu perdera a memória: e só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezas de metais, numa frieza morta, na inércia definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num museu, para exemplificar a instrumentação caduca de um mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola da electricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de antiguidades, e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais pura e exacta da Vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos da Supercivilização, e, como eu, encolhendo desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona.
Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas rolara momentos pela Avenida das Acácias, no silêncio decoroso, apenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, imóveis, o mesmo pó de arroz, as mesmas pálpebras amortecidas, os mesmos olhos farejantes, na mesma imobilidade de cera! O homem do «Boulevard» passou numa vitória, fixou em mim o binóculo defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros, entre a harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as acácias, espapado em duas cadeiras, o director do «Boulevard» mamava o resto do seu charuto. Madame de Trèves continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos dos lábios secos.
Abalei para o Grand-Hotel, bocejando, — como outrora Jacinto. E findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo Parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a faiscar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, entre um áspero e lúgubre farejar de prostitutas, farejando a presa. Em duas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina. Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida, de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:
— Mulheres de Madagáscar… Foram importadas logo que a França ocupou a ilha!
Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pós de arroz, de entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços garrafas do nosso rascante e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château Isto, Château Aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo pilhérias senis. Esta sordidez da Planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre — e aí, no meio de uma multidão elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, todo o pessoal da Cidade, recebia, do alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das Nobres Damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, por me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula de um Censor, de um Catão austero. «Oh senhores!», pensava eu, «pois não me divertirei nesta deliciosa cidade?»
Entrara comigo o bolor da velhice? Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e muito larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, sobre as instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, logo o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou — espalhando em redor um olhar frio e sereno, depois remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado — ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte — mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre magras mãos, que se estendiam para estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um macfarlane de xadrez, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:
— Que querem eles? É embirração com o professor… Política?
O velho abanou a cabeça, espirrando:
— Não… É sempre assim, agora, em todos os cursos… Não querem ideias… Creio que queriam cançonetas, porcarias. Amor da troça.
Então, indignado, berrei:
— Silêncio, brutos!
E eis que um abortozinho, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me grita:
— Sale maure!
Ergui o meu tremendo punho serrano, — e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, — enquanto o furacão de uivos e cacarejos, e guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples.
Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade — e o único dia alegre e divertido que nela passei, foi o derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização, — vapores de aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo pavorosamente; bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafos no ventre…
E enfim abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, um adeus à Cidade:
— Pois adeuzinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas. E o que tens de bom, que é o teu génio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio!
Enfim numa tarde de domingo, debruçado da janela do comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo feito de azul e sol, avistei na plataforma da quieta estação, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava na mão uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei aquela tribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até beijoquei o Pimentinha, que a estalar de obesidade se açodava gritando ao carregador com o cuidado das minhas malas.
Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano, jaqueta, e polainas altas, de novo me abraçou:
— E esse Paris?
— Medonho!
De novo abri os braços para o bravo Jacintinho.
— Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?
— Do castelo! — declarou ele com uma bela seriedade nos seus grandes olhos.
A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara, com ela almoçara, com ela descera de Tormes!
— Bravo! E, oh prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris… Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?
— Tudo óptimo! — gritou Jacinto. — A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.
No pátio debaixo da figueira, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com cadeirinha, para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro o heróico Jacintinho, ambos levados à rédea por dois criados. E ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que eu me sortira na estação de Orléans, toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:
— Deita isso fora!
E eu atirei para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquela podridão da ligeira Civilização. E montei. Mas, já ao dobrar para o caminho empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, que eu esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo de lixo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a sedução de Paris.
Em fila começámos a subir para a serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes de flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Janelas distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, dentro do seu cesto, com a haste bem agarrada na mão. Era a bandeira do castelo, afirmava ele muito sério. E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da Natureza campestre e mansa, — o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu, — tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos — para o Castelo da Grã-Ventura!
FIM