
Sign up to save your podcasts
Or


Capítulo XIII, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)
“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
TRANSCRIÇÃO
—
XIII
Ai de mim! Não se passou com brilho, nem com alegria! Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância onde eu senti as malas de Paris (abertas na véspera) — uma rosa branca no jaquetão preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca, tufando e presa por uma pérola negra —, já todos os convidados enchiam a sala, — o D. Teotónio, o Ricardo Veloso, o dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da Quinta da Loja; todos se conservavam de pé, num magote cerrado. Em torno do sofá onde a tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as senhoras, a Beatriz Veloso, com cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com uma imensa trunfa de cabelo riçado, e as duas Rojões (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como rosinhas, ambas de branco, a mulher do dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vénus rústica… E foi na sala, como se realmente entrasse um príncipe, desses países do Norte onde os príncipes são magníficos, muito distantes dos homens, e aterram. Um silêncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos esmagasse: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando à orla da floresta surge o tigre real. Debalde, nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava através da sala, — os seus apertos de mão, e sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu prazer», foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Príncipe que subira à Serra: e as senhoras mais se conchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à volta do pastor, quando na altura surge o lobo. Eu então, já inquieto, lancei o D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.
— O sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.
O Digno sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro:
— Vossa Excelência chegou directamente de Viena?
Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu:
— Mas certamente visita muitas vezes Viena…
Jacinto sorria surpreendido:
— Viena, porquê?… Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.
O fidalgo murmurou um lento «Ah!» e ficou calado, de pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.
Eu então, que vigiava, lancei o dr. Alípio:
— O nosso doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo o distrito.
O doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e lustroso — a tia Vicência, que se erguera do sofá, chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta pessoa, muito tesa e muito vermelha.
À mesa (onde os pudins, as travessas de doces de ovos, os antigos vinhos de Madeira e Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes), Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luisinha, sua afilhada, que, por costume velho quando jantava em Guiães, sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha; — e a sopa, que era de galinha com macarrão e arroz, foi comida num tão largo, pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães, à minha mesa:
— Está deliciosa, esta sopa!
Jacinto ecoou:
— Divina!
Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e o pasmo excessivo de Jacinto, o silêncio, carregado de estranheza, mais se carregou de embaraço. Felizmente, a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar das nossas comidas portuguesas… E eu, sempre no intuito de animar, nem deixei que o meu Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, gritei:
— Como gosta? Mas é que delira! Pudera! Tanto tempo em Paris, privado!…
E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz-doce preparado no natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei logo a história, profusamente, exagerando, afirmando que o arroz-doce continha foie gras, e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz-doce, assim estragado, tão longe da serra, não interessava, apenas puxou alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, alternadamente, me voltei para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando: — Extraordinário, hem? — D. Teotónio observou, misteriosamente, que «o cozinheiro sabia para quem cozinhava». E a bela mulher do dr. Alípio ousou murmurar, corando:
— Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!
Eu então logo (ai de mim, para animar) ataquei com desabrida alegria a sr.ª D. Luísa, por ela assim defender a profanação do nosso grande prato nacional! Mas, ai de mim, tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê!, ali na serra era impossível, mesmo a peso de ouro, ter peixe, a não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, então, com aquele seu modo, tão suave, que cada sílaba para correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, lembrou que o sr. D. Jacinto possuía uma larga faixa do Douro, com privilégio para a pesca do sável. Jacinto não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis… O dr. Alípio não se admirava porque essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na mocidade do sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teotónio, não valiam dois mil réis. Se já não há sáveis!… E em torno destes sáveis, se iam formando, em torno da mesa, entre os cavalheiros mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais — que as senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando até aos frangos guisados. Eu então, receoso que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e alegria, se perpetuasse de novo, lancei-me (para animar) interpelando Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado.
— Isso foi uma das melhores histórias que nos sucedeu em Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o grão-duque Casimiro, dava uma magnífica ceia, a que o grão-duque… o grão-duque Casimiro, o irmão do Imperador…
Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas: — e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do grão-duque. E eu contei, com profusão, o peixe encalhado, o grão-duque pescando, o anzol feito com um gancho de princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no poço do elevador… Mas não se produziu um riso, e a atenção mesmo era dada com esforço, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes magníficos de grão-duques e princesas, misturados a coisas picarescas… Nenhum dos meus convidados compreendia o elevador, um prato encalhado num poço negro… Perante o gancho da princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais regelada pela exclamação da tia Vicência:
— Oh! filho, que coisas!
Mas como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora, — todos, logo, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas cavaqueirinhas discretas, a que agora o champanhe, depois do assado, dava mais vivacidade. Era a orla de murmúrios, em torno da mesa, com relevo e sem bulhas, que retomava, se estabelecia. E eu então desisti de animar o jantar. Mergulhei com a bela mulher do doutor na grande questão social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se alargou um silêncio, — e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão.
— Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua e minha senhora, a quem peço para saudar.
Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos, e logo também de pé, atirando para trás a aba da sobrecasaca:
— Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal!… Que digo eu? Que pela primeira vez honra com a sua presença a sua pátria! E que por cá fique, pelas serras, muitos anos todos bons. À tua, meu velho!
Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A tia Vicência tilintou o seu copo, quase vazio, no de Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais vermelha que uma peónia. Depois foi o encadeamento de saúdes, entremisturadas, com os copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia Vicência espalhava aquele olhar que prepara o erguer, o arrastar de cadeiras, — quando D. Teotónio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava:
— Esta é toda particular, e entre nós… Ao ausente!
Esvaziou o copo, como religião, como pontificando. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam, — eu dei o braço à tia Albergaria.
E só compreendi, na sala, quando o dr. Alípio, com a sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de «Dr. Agudo»: — Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!… — E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotónio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista, — e na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas eleições, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o «Dr. Agudo».
— Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo?
Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:
— Até corre, como certo, que o príncipe D. Miguel está com ele em Tormes!
E como eu os considerava esgazeado, o dr. Alípio, tão agudo, confirmou:
— É o que corre… Disfarçado em criado!
Em criado? Oh! Santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho. Pois não corria que o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?…
— Disfarçado em lacaio — confirmou logo o digno Rebelo.
Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas:
— Se assim é, lá me parece desplante… Que eu não desgostava de o ver. Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida… E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo…
Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, desabafar.
— Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias…
Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:
— É segundo o que Vossa Excelência chama boas ideias.
E eu agora, furioso com aquela disparatada invenção, que cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, intervim, vivamente:
— Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não… Então vamos arranjar duas mesas… O D. Teotónio há-de querer cartas.
E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se calaram, se pareciam encolher ante a aparição do meu Príncipe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do dr. Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves tímidas) que tivera um grande prazer naquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes… Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca decerto Jacinto admirara na cidade, em boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara «afrontado», e desejava respirar um bocado na varanda. Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor, — e mandei abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, mesmo ao baralhar, parara, bufando, como oprimido:
— Está abafado… Ainda temos trovoada!
E o dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e uma das éguas da caleche era escabreada, correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, morno e pesado.
— Com efeito, vai cair água.
A ramagem das mimosas farfalhava arrepiada: e o ar que agitava molemente as cortinas era morno e pesado. Decerto na sala, entre as senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.
Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava… E o dr. Alípio, puxando o relógio, propôs que, findo aquele roque, se preparasse a jornada. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando também que vinha aí uma trovoada valente.
Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que se familiarizavam, escutando, cheias de riso e gosto, a história da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada com a volta à Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bela mulher do dr. Alípio perguntava se o roque não findara. E a tia Vicência apressara o chá, que o Manuel, seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo chávenas, gracejava:
— Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha?
Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu Príncipe:
— Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas…
— Sempre o queríamos ver… com esta noite cerrada! Que fosse agora para Tormes.
O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das janelas, gritavam as ordens para o pátio negro, onde as traquitanas esperavam atreladas:
— Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!
— Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
A Vicência, criada, chegava à porta com os braços carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante, da vitória, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar, se a chuva viesse. E só o D. Teotónio, que tinha até casa meia légua de estrada boa, se não apressava, de novo filado no meu Príncipe, que levava para os lados mais solitários, em conversas profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que já chovia; — e então foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens, na antecâmara, enfiavam açodadamente os paletós.
Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada, — e uma a uma, a traquitana do dr. Alípio, a vitória das Albergarias, a velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:
— Pois, primo e amigo, Deus permita que do nosso encontro, e do mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!
Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou:
— Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que descobri por fim?… Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a restauração de D. Miguel?!
— E tu?
— Eu fiquei tão espantado, que nem o desiludi!
— Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E corre que tu tens o príncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado em criado. E sabes quem ele é? O Baptista!
— Isso é sublime! — murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.
Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam no silêncio e paz do serão debandado:
— Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto!
— Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! — exclamei desafogando o meu tédio. — Todo esse mulherio emudeceu, os amigos com um ar desconfiado…
Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:
— Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples… Todas estas raparigas me pareceram óptimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que eu não sou miguelista.
Então contámos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes… Ela ria! Que coisas! E mau seria…
— Mas o sr. Jacinto, não é?
— Eu, minha senhora, sou socialista…
Acudi, explicando à tia Vicência que socialista era ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
— O meu Afonso, que Deus haja, era liberal… Meu pai também, e até amigo do duque da Terceira…
Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra: — e uma bátega de água cantou nos vidros, e pedras da varanda.
— Santa Bárbara! — gritou a tia Vicência. — Ai aquela pobre gente!… Até estou com cuidado… As Rojões, que vão na vitória!
E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas costumadas no oratório, mesmo antes de ir guardar as pratas, e rezar depois o terço, com a Gertrudes.
By NeolivrosCapítulo XIII, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)
“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
TRANSCRIÇÃO
—
XIII
Ai de mim! Não se passou com brilho, nem com alegria! Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância onde eu senti as malas de Paris (abertas na véspera) — uma rosa branca no jaquetão preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca, tufando e presa por uma pérola negra —, já todos os convidados enchiam a sala, — o D. Teotónio, o Ricardo Veloso, o dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da Quinta da Loja; todos se conservavam de pé, num magote cerrado. Em torno do sofá onde a tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as senhoras, a Beatriz Veloso, com cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com uma imensa trunfa de cabelo riçado, e as duas Rojões (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como rosinhas, ambas de branco, a mulher do dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vénus rústica… E foi na sala, como se realmente entrasse um príncipe, desses países do Norte onde os príncipes são magníficos, muito distantes dos homens, e aterram. Um silêncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos esmagasse: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando à orla da floresta surge o tigre real. Debalde, nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava através da sala, — os seus apertos de mão, e sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu prazer», foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Príncipe que subira à Serra: e as senhoras mais se conchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à volta do pastor, quando na altura surge o lobo. Eu então, já inquieto, lancei o D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.
— O sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.
O Digno sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro:
— Vossa Excelência chegou directamente de Viena?
Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu:
— Mas certamente visita muitas vezes Viena…
Jacinto sorria surpreendido:
— Viena, porquê?… Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.
O fidalgo murmurou um lento «Ah!» e ficou calado, de pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.
Eu então, que vigiava, lancei o dr. Alípio:
— O nosso doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo o distrito.
O doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e lustroso — a tia Vicência, que se erguera do sofá, chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta pessoa, muito tesa e muito vermelha.
À mesa (onde os pudins, as travessas de doces de ovos, os antigos vinhos de Madeira e Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes), Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luisinha, sua afilhada, que, por costume velho quando jantava em Guiães, sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha; — e a sopa, que era de galinha com macarrão e arroz, foi comida num tão largo, pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães, à minha mesa:
— Está deliciosa, esta sopa!
Jacinto ecoou:
— Divina!
Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e o pasmo excessivo de Jacinto, o silêncio, carregado de estranheza, mais se carregou de embaraço. Felizmente, a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar das nossas comidas portuguesas… E eu, sempre no intuito de animar, nem deixei que o meu Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, gritei:
— Como gosta? Mas é que delira! Pudera! Tanto tempo em Paris, privado!…
E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz-doce preparado no natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei logo a história, profusamente, exagerando, afirmando que o arroz-doce continha foie gras, e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz-doce, assim estragado, tão longe da serra, não interessava, apenas puxou alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, alternadamente, me voltei para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando: — Extraordinário, hem? — D. Teotónio observou, misteriosamente, que «o cozinheiro sabia para quem cozinhava». E a bela mulher do dr. Alípio ousou murmurar, corando:
— Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!
Eu então logo (ai de mim, para animar) ataquei com desabrida alegria a sr.ª D. Luísa, por ela assim defender a profanação do nosso grande prato nacional! Mas, ai de mim, tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê!, ali na serra era impossível, mesmo a peso de ouro, ter peixe, a não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, então, com aquele seu modo, tão suave, que cada sílaba para correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, lembrou que o sr. D. Jacinto possuía uma larga faixa do Douro, com privilégio para a pesca do sável. Jacinto não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis… O dr. Alípio não se admirava porque essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na mocidade do sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teotónio, não valiam dois mil réis. Se já não há sáveis!… E em torno destes sáveis, se iam formando, em torno da mesa, entre os cavalheiros mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais — que as senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando até aos frangos guisados. Eu então, receoso que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e alegria, se perpetuasse de novo, lancei-me (para animar) interpelando Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado.
— Isso foi uma das melhores histórias que nos sucedeu em Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o grão-duque Casimiro, dava uma magnífica ceia, a que o grão-duque… o grão-duque Casimiro, o irmão do Imperador…
Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas: — e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do grão-duque. E eu contei, com profusão, o peixe encalhado, o grão-duque pescando, o anzol feito com um gancho de princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no poço do elevador… Mas não se produziu um riso, e a atenção mesmo era dada com esforço, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes magníficos de grão-duques e princesas, misturados a coisas picarescas… Nenhum dos meus convidados compreendia o elevador, um prato encalhado num poço negro… Perante o gancho da princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais regelada pela exclamação da tia Vicência:
— Oh! filho, que coisas!
Mas como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora, — todos, logo, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas cavaqueirinhas discretas, a que agora o champanhe, depois do assado, dava mais vivacidade. Era a orla de murmúrios, em torno da mesa, com relevo e sem bulhas, que retomava, se estabelecia. E eu então desisti de animar o jantar. Mergulhei com a bela mulher do doutor na grande questão social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se alargou um silêncio, — e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão.
— Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua e minha senhora, a quem peço para saudar.
Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos, e logo também de pé, atirando para trás a aba da sobrecasaca:
— Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal!… Que digo eu? Que pela primeira vez honra com a sua presença a sua pátria! E que por cá fique, pelas serras, muitos anos todos bons. À tua, meu velho!
Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A tia Vicência tilintou o seu copo, quase vazio, no de Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais vermelha que uma peónia. Depois foi o encadeamento de saúdes, entremisturadas, com os copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia Vicência espalhava aquele olhar que prepara o erguer, o arrastar de cadeiras, — quando D. Teotónio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava:
— Esta é toda particular, e entre nós… Ao ausente!
Esvaziou o copo, como religião, como pontificando. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam, — eu dei o braço à tia Albergaria.
E só compreendi, na sala, quando o dr. Alípio, com a sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de «Dr. Agudo»: — Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!… — E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotónio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista, — e na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas eleições, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o «Dr. Agudo».
— Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo?
Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:
— Até corre, como certo, que o príncipe D. Miguel está com ele em Tormes!
E como eu os considerava esgazeado, o dr. Alípio, tão agudo, confirmou:
— É o que corre… Disfarçado em criado!
Em criado? Oh! Santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho. Pois não corria que o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?…
— Disfarçado em lacaio — confirmou logo o digno Rebelo.
Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas:
— Se assim é, lá me parece desplante… Que eu não desgostava de o ver. Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida… E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo…
Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, desabafar.
— Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias…
Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:
— É segundo o que Vossa Excelência chama boas ideias.
E eu agora, furioso com aquela disparatada invenção, que cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, intervim, vivamente:
— Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não… Então vamos arranjar duas mesas… O D. Teotónio há-de querer cartas.
E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se calaram, se pareciam encolher ante a aparição do meu Príncipe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do dr. Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves tímidas) que tivera um grande prazer naquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes… Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca decerto Jacinto admirara na cidade, em boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara «afrontado», e desejava respirar um bocado na varanda. Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor, — e mandei abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, mesmo ao baralhar, parara, bufando, como oprimido:
— Está abafado… Ainda temos trovoada!
E o dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e uma das éguas da caleche era escabreada, correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, morno e pesado.
— Com efeito, vai cair água.
A ramagem das mimosas farfalhava arrepiada: e o ar que agitava molemente as cortinas era morno e pesado. Decerto na sala, entre as senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.
Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava… E o dr. Alípio, puxando o relógio, propôs que, findo aquele roque, se preparasse a jornada. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando também que vinha aí uma trovoada valente.
Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que se familiarizavam, escutando, cheias de riso e gosto, a história da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada com a volta à Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bela mulher do dr. Alípio perguntava se o roque não findara. E a tia Vicência apressara o chá, que o Manuel, seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo chávenas, gracejava:
— Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha?
Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu Príncipe:
— Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas…
— Sempre o queríamos ver… com esta noite cerrada! Que fosse agora para Tormes.
O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das janelas, gritavam as ordens para o pátio negro, onde as traquitanas esperavam atreladas:
— Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!
— Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
A Vicência, criada, chegava à porta com os braços carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante, da vitória, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar, se a chuva viesse. E só o D. Teotónio, que tinha até casa meia légua de estrada boa, se não apressava, de novo filado no meu Príncipe, que levava para os lados mais solitários, em conversas profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que já chovia; — e então foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens, na antecâmara, enfiavam açodadamente os paletós.
Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada, — e uma a uma, a traquitana do dr. Alípio, a vitória das Albergarias, a velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:
— Pois, primo e amigo, Deus permita que do nosso encontro, e do mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!
Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou:
— Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que descobri por fim?… Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a restauração de D. Miguel?!
— E tu?
— Eu fiquei tão espantado, que nem o desiludi!
— Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E corre que tu tens o príncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado em criado. E sabes quem ele é? O Baptista!
— Isso é sublime! — murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.
Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam no silêncio e paz do serão debandado:
— Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto!
— Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! — exclamei desafogando o meu tédio. — Todo esse mulherio emudeceu, os amigos com um ar desconfiado…
Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:
— Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples… Todas estas raparigas me pareceram óptimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que eu não sou miguelista.
Então contámos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes… Ela ria! Que coisas! E mau seria…
— Mas o sr. Jacinto, não é?
— Eu, minha senhora, sou socialista…
Acudi, explicando à tia Vicência que socialista era ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
— O meu Afonso, que Deus haja, era liberal… Meu pai também, e até amigo do duque da Terceira…
Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra: — e uma bátega de água cantou nos vidros, e pedras da varanda.
— Santa Bárbara! — gritou a tia Vicência. — Ai aquela pobre gente!… Até estou com cuidado… As Rojões, que vão na vitória!
E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas costumadas no oratório, mesmo antes de ir guardar as pratas, e rezar depois o terço, com a Gertrudes.

42 Listeners

14 Listeners

90 Listeners

40 Listeners

21 Listeners

0 Listeners

1 Listeners

0 Listeners