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Décimo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
TRANSCRIÇÃO
—
Numa dessas manhãs — justamente na véspera do meu regresso a Guiães —, o tempo, que andara pela serra tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando toda a Natureza, desde os pássaros aos regatos, subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas, com um lento murmúrio de choro.
Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia de o aterrar:
— Sudoeste! Gralhas a grasnar por todos esses soutos… Temos muita água, sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de água! E agora é que se vai saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer!
O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nas algibeiras:
— Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e tirar um casacão impermeável… Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.
Mas como o Melchior lhe afiançara que «a chuvinha só viria para a tarde», Jacinto decidiu ir antes de almoço à Corujeira, onde o Silvério o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos, e ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse à prova de água. Não andáramos porém meio caminho, quando, depois de um arrepio nas árvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava no vento, avistámos num campo mais alto, à beira de um alpendre, o Silvério, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançara num desespero todo o arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.
Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvério nos esperava à beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiámos naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Príncipe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:
— Apre! que ferocidade!
Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma serra tão amável e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra, e suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios discretos de ribeirinhos mansos.
— Santo Deus! Vêm muitas vezes assim, estas borrascas?
Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:
— Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor! Mas há-de Vossa Excelência ver no Inverno, se Vossa Excelência se aguentar por cá! Então é cada temporal, que até parece que os montes estremecem!
E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo de manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapéu de chuva e calçara as suas grandes botas.
— Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a figueira… Mas a mulher tem estado doente, já há dias… E como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: «Nada, o seguro morreu de velho!» Meti para o alpendre… E não passara um credo quando lobriguei a Vossa Excelência… Coisa assim!… E o sr. D. Jacinto é voltar para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de água.
Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, de um céu ainda negro, onde o vento se calara; e para além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, passando a mão pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus prognósticos:
— Pois, não senhor… Ainda estia! Nunca pensei. É que tornejou o vento.
O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ângulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu Príncipe se sentara, enrolando um cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos três nos calávamos, naquela contemplação inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e retém olhos e almas.
— Ó sr. Silvério, — murmurou lentamente o meu Príncipe — que é que o senhor esteve aí a dizer de bexigas?
O procurador voltou a face surpreendido:
— Eu, Excelentíssimo Senhor?… Ah sim! a mulher do Esgueira! É que pode ser, pode ser… Não imagine Vossa Excelência que faltam por cá doenças. O ar é bom. Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve, mas às vezes, se Vossa Excelência me dá licença, vai por aí muita maleita.
— Mas não há médico, não há botica?
O Silvério teve o riso superior de quem habita regiões civilizadas e bem providas.
— Então não havia de haver? Pois há um boticário, em Guiães, lá quase ao pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido… o Firmino, hem, sr. Fernandes? Homem capaz. Médico é o dr. Avelino, daqui a légua e meia, nas Bolsas. Mas já Vossa Excelência vê, esta gentinha é pobre!… Tomaram eles para pão, quanto mais para remédios!
E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a prometedora claridade não se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes húmidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!
E, então, surdiu por trás da parede do alpendre um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. Silvério imediatamente o conheceu.
— Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?
Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, interessado:
— Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
Foi o Silvério que informou respeitosamente:
— É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo deste… Filharada não lhe falta.*
— Mas este pequeno também parece doente! — exclamou Jacinto. — Coitadito, tão amarelo… Tu também estás doente?
O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:
— Nada, este é sãozinho… Coitado, assim amarelito e enfezadito porque… Que quer Vossa Excelência? Mal comido, muita miséria… Quando há o bocadito de pão aquilo é para o rancho. Muita fomezinha, muita fomezinha.
Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
— Fome? Então ele tem fome? Mas há aqui fome?
Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Príncipe:
— Está claro que há fome, homem! Tu imaginavas que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria… Em toda a parte há pobres, mesmo na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no Douro…
O meu Príncipe teve um gesto, de aflita impaciência:
— Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha quinta, dentro destes campos que são meus, há gente que trabalhe para mim, e que tenha fome, e criancinhas, como esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das realidades da serra:
— Pois está bem de ver, meu senhor, que há aqui na quinta caseiros que são muito pobrinhos — quase todos. Isso vai por aí uma miséria, que se não fosse alguma ajuda que se lhes dá, nem eu sei… Este Esgueira, com o rancho de filhos, é uma desgraça… Havia Vossa Excelência de ver as casitas em que eles vivem… São chiqueiros. A do Esgueira, acolá, ao pé da figueira.
— Vamos ver essa! — atalhou Jacinto, com uma decisão exaltada.
E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda caía, mais leve e mais rala. Mas então Silvério alargou os braços diante dele, com ansiedade, como para o salvar de um precipício.
— Não! Vossa Excelência lá na casa do Esgueira não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e o seguro morreu de velho!
Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:
— Obrigado pelo seu cuidado, Silvério. Abra o guarda-chuva, e marche!
Então o procurador vergou os ombros e, como Sua Excelência mandava, abriu com estrondo o imenso guarda-sol, abrigou respeitosamente Jacinto, através do campo encharcado. Eu segui pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus mandava àquele pobre casal por um remoto senhor das Cidades! Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.
Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através de anos, ali acumulado trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e vinhas nos olmos, e sombras e charcos, que tornavam deliciosa, para uma écloga, aquela morada da Fome, Doença e Tristeza.
Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério empurrou a porta, chamando:
— Eh! tia Maria… Ó rapariga!
E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados que se espantaram para nós, serenamente.
— Então como vai a tua mãe? Abre lá a porta, que estão aqui estes senhores…
Ela abria, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e toda arrastada mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
— Ora, coitada, como há-de ir? Malzinha, malzinha.
E dentro, num gemido que subia como do chão, de entre abafos, amodorrado e lento, a mãe retomou a desconsolada queixa:
— Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!… Ai Senhor!
O Silvério, sem mesmo se abeirar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma vaga consolação:
— Não há-de ser nada, tia Maria!… Isso foi friagem! Foi friagem! — E, sobre o ombro de Jacinto, encolhendo ele os ombros: — Já Vossa Excelência vê… Muita miséria! Até chove dentro.
E, no bocado de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha húmida reluzia, da chuva caída através da telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquela penumbra de porcaria escura parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos, cacos, restos, onde só mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou simplesmente:
— Está bem… está bem…
E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto o Silvério decerto revelava à rapariga a presença augusta do «fidalgo», porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolente:
— Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos trémulos a torturar o bigode, e murmurava:
— É horrível, Zé Fernandes, é horrível.
Ao lado o vozeirão do Silvério trovejou:
— Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!
Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que delas, como de deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago «Está bem… está bem…» Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar das nossas pessoas. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda como no sulco da nossa magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:
— Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!…
— E nós vamos almoçar — lembrei eu olhando o relógio. — O dia ainda vai estar lindo.
Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as varria, despejadas e vazias, para um canto escuso dos céus.
Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura que bebera largamente reluzia consolada.
Bruscamente, ao sairmos da estreita vereda, para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:
— Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na quinta.
O procurador deu um jeito aos ombros, com um vago «Eh! eh!» de obediência e dúvida.
— Antes de tudo — continuava Jacinto — mande já hoje chamar esse dr. Avelino para aquela pobre mulher… E os remédios que os vão buscar logo a Guiães. E recomendação ao médico para voltar amanhã, cada dia; até que ela melhore… Escute! E quero, Silvério, que lhe leve dinheiro à pobre gente, para os caldos, para a dieta, uns dez ou quinze mil réis… Bastará?
O procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns tostões bastavam… Nem era bom acostumar assim, aquela gente a tanta franqueza. Depois todos queriam, todos pedinchavam…
— Mas é que todos hão-de ter — disse Jacinto simplesmente.
— Vossa Excelência manda! — murmurou o Silvério.
Vergara os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:
— Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!
Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca imensa do guarda-sol vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras ideias benfazejas, cautelosamente, no seu indominável medo do Silvério:
— E as casas também… Aquela casa é um covil!… Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente… E naturalmente, as dos outros caseiros são covis iguais… Era necessário uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da quinta…
— A todos?… — O Silvério gaguejava, emudeceu.
E Jacinto balbuciava aterrado:
— A todos, enfim, quero dizer… Quantos serão eles?
Silvério atirou um gesto enorme:
— São vinte e tantos… Vinte e três! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e sete…
Então Jacinto emudeceu, como reconhecendo a vastidão do número. Mas desejou saber por quanto ficaria cada casa!… Oh! uma casa simples, mas limpa, confortável, como aquela que tinha a irmã do Melchior, ao pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Excelência saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:
— Duzentos mil réis, Excelentíssimo Senhor! E é para mais que não para menos!
Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:
— Bem, meu amigo… Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, porque eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.
Então o Silvério teve um brado de terror:
— Mas então, Excelentíssimo Senhor, é uma revolução.
E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos esgazeados de horror, dos seus imensos braços abertos para trás, como se visse o mundo desabar, — o bom Silvério encavacou:
— Ah! Vossas Excelências riem? Casas para todos, mobílias, pratas, bragal, dez contos de réis! Então também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela chalaça!… Vai aqui uma bela risota.
E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade naquela extravagância magnífica:
— Enfim, Vossa Excelência é quem manda!
— Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os melhorar. Há muito que melhorar. Venha você almoçar connosco. E conversamos.
Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem recebeu mais espanto com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a Sua Excelência para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a consertar a trave da mó. Era um instante, e já estava às ordens de Sua Excelência.
Meteu logo por um atalho, saltando um cancelo. E nós seguimos, com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul alegre que reaparecia, e por toda aquela justiça feita à pobreza da serra.
— Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto — disse eu, batendo, com uma ternura que não disfarcei, no ombro do meu amigo.
— Que miséria, Zé Fernandes, eu nem sonhava… Haver por aí, à vista da minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível…
Estávamos entrando na alameda de faias. Um raio de sol, saindo de entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e lustrosas um frémito alegre e doce.
— Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?… Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio… Não, não era Santo Ambrósio. Não me lembra o santo. Ainda não era mesmo santo, apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga! Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande chaga… É talvez a tua preparação para S. Jacinto.
Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:
— É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é uma chaga que eu posso curar!
Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos bem alegremente a escadaria do casarão.
By NeolivrosDécimo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
TRANSCRIÇÃO
—
Numa dessas manhãs — justamente na véspera do meu regresso a Guiães —, o tempo, que andara pela serra tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando toda a Natureza, desde os pássaros aos regatos, subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas, com um lento murmúrio de choro.
Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia de o aterrar:
— Sudoeste! Gralhas a grasnar por todos esses soutos… Temos muita água, sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de água! E agora é que se vai saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer!
O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nas algibeiras:
— Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e tirar um casacão impermeável… Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.
Mas como o Melchior lhe afiançara que «a chuvinha só viria para a tarde», Jacinto decidiu ir antes de almoço à Corujeira, onde o Silvério o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos, e ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse à prova de água. Não andáramos porém meio caminho, quando, depois de um arrepio nas árvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava no vento, avistámos num campo mais alto, à beira de um alpendre, o Silvério, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançara num desespero todo o arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.
Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvério nos esperava à beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiámos naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Príncipe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:
— Apre! que ferocidade!
Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma serra tão amável e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra, e suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios discretos de ribeirinhos mansos.
— Santo Deus! Vêm muitas vezes assim, estas borrascas?
Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:
— Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor! Mas há-de Vossa Excelência ver no Inverno, se Vossa Excelência se aguentar por cá! Então é cada temporal, que até parece que os montes estremecem!
E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo de manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapéu de chuva e calçara as suas grandes botas.
— Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a figueira… Mas a mulher tem estado doente, já há dias… E como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: «Nada, o seguro morreu de velho!» Meti para o alpendre… E não passara um credo quando lobriguei a Vossa Excelência… Coisa assim!… E o sr. D. Jacinto é voltar para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de água.
Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, de um céu ainda negro, onde o vento se calara; e para além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, passando a mão pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus prognósticos:
— Pois, não senhor… Ainda estia! Nunca pensei. É que tornejou o vento.
O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ângulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu Príncipe se sentara, enrolando um cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos três nos calávamos, naquela contemplação inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e retém olhos e almas.
— Ó sr. Silvério, — murmurou lentamente o meu Príncipe — que é que o senhor esteve aí a dizer de bexigas?
O procurador voltou a face surpreendido:
— Eu, Excelentíssimo Senhor?… Ah sim! a mulher do Esgueira! É que pode ser, pode ser… Não imagine Vossa Excelência que faltam por cá doenças. O ar é bom. Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve, mas às vezes, se Vossa Excelência me dá licença, vai por aí muita maleita.
— Mas não há médico, não há botica?
O Silvério teve o riso superior de quem habita regiões civilizadas e bem providas.
— Então não havia de haver? Pois há um boticário, em Guiães, lá quase ao pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido… o Firmino, hem, sr. Fernandes? Homem capaz. Médico é o dr. Avelino, daqui a légua e meia, nas Bolsas. Mas já Vossa Excelência vê, esta gentinha é pobre!… Tomaram eles para pão, quanto mais para remédios!
E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a prometedora claridade não se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes húmidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!
E, então, surdiu por trás da parede do alpendre um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. Silvério imediatamente o conheceu.
— Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?
Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, interessado:
— Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
Foi o Silvério que informou respeitosamente:
— É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo deste… Filharada não lhe falta.*
— Mas este pequeno também parece doente! — exclamou Jacinto. — Coitadito, tão amarelo… Tu também estás doente?
O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:
— Nada, este é sãozinho… Coitado, assim amarelito e enfezadito porque… Que quer Vossa Excelência? Mal comido, muita miséria… Quando há o bocadito de pão aquilo é para o rancho. Muita fomezinha, muita fomezinha.
Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
— Fome? Então ele tem fome? Mas há aqui fome?
Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Príncipe:
— Está claro que há fome, homem! Tu imaginavas que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria… Em toda a parte há pobres, mesmo na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no Douro…
O meu Príncipe teve um gesto, de aflita impaciência:
— Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha quinta, dentro destes campos que são meus, há gente que trabalhe para mim, e que tenha fome, e criancinhas, como esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das realidades da serra:
— Pois está bem de ver, meu senhor, que há aqui na quinta caseiros que são muito pobrinhos — quase todos. Isso vai por aí uma miséria, que se não fosse alguma ajuda que se lhes dá, nem eu sei… Este Esgueira, com o rancho de filhos, é uma desgraça… Havia Vossa Excelência de ver as casitas em que eles vivem… São chiqueiros. A do Esgueira, acolá, ao pé da figueira.
— Vamos ver essa! — atalhou Jacinto, com uma decisão exaltada.
E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda caía, mais leve e mais rala. Mas então Silvério alargou os braços diante dele, com ansiedade, como para o salvar de um precipício.
— Não! Vossa Excelência lá na casa do Esgueira não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e o seguro morreu de velho!
Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:
— Obrigado pelo seu cuidado, Silvério. Abra o guarda-chuva, e marche!
Então o procurador vergou os ombros e, como Sua Excelência mandava, abriu com estrondo o imenso guarda-sol, abrigou respeitosamente Jacinto, através do campo encharcado. Eu segui pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus mandava àquele pobre casal por um remoto senhor das Cidades! Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.
Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através de anos, ali acumulado trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e vinhas nos olmos, e sombras e charcos, que tornavam deliciosa, para uma écloga, aquela morada da Fome, Doença e Tristeza.
Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério empurrou a porta, chamando:
— Eh! tia Maria… Ó rapariga!
E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados que se espantaram para nós, serenamente.
— Então como vai a tua mãe? Abre lá a porta, que estão aqui estes senhores…
Ela abria, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e toda arrastada mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
— Ora, coitada, como há-de ir? Malzinha, malzinha.
E dentro, num gemido que subia como do chão, de entre abafos, amodorrado e lento, a mãe retomou a desconsolada queixa:
— Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!… Ai Senhor!
O Silvério, sem mesmo se abeirar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma vaga consolação:
— Não há-de ser nada, tia Maria!… Isso foi friagem! Foi friagem! — E, sobre o ombro de Jacinto, encolhendo ele os ombros: — Já Vossa Excelência vê… Muita miséria! Até chove dentro.
E, no bocado de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha húmida reluzia, da chuva caída através da telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquela penumbra de porcaria escura parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos, cacos, restos, onde só mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou simplesmente:
— Está bem… está bem…
E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto o Silvério decerto revelava à rapariga a presença augusta do «fidalgo», porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolente:
— Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos trémulos a torturar o bigode, e murmurava:
— É horrível, Zé Fernandes, é horrível.
Ao lado o vozeirão do Silvério trovejou:
— Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!
Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que delas, como de deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago «Está bem… está bem…» Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar das nossas pessoas. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda como no sulco da nossa magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:
— Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!…
— E nós vamos almoçar — lembrei eu olhando o relógio. — O dia ainda vai estar lindo.
Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as varria, despejadas e vazias, para um canto escuso dos céus.
Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura que bebera largamente reluzia consolada.
Bruscamente, ao sairmos da estreita vereda, para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:
— Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na quinta.
O procurador deu um jeito aos ombros, com um vago «Eh! eh!» de obediência e dúvida.
— Antes de tudo — continuava Jacinto — mande já hoje chamar esse dr. Avelino para aquela pobre mulher… E os remédios que os vão buscar logo a Guiães. E recomendação ao médico para voltar amanhã, cada dia; até que ela melhore… Escute! E quero, Silvério, que lhe leve dinheiro à pobre gente, para os caldos, para a dieta, uns dez ou quinze mil réis… Bastará?
O procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns tostões bastavam… Nem era bom acostumar assim, aquela gente a tanta franqueza. Depois todos queriam, todos pedinchavam…
— Mas é que todos hão-de ter — disse Jacinto simplesmente.
— Vossa Excelência manda! — murmurou o Silvério.
Vergara os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:
— Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!
Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca imensa do guarda-sol vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras ideias benfazejas, cautelosamente, no seu indominável medo do Silvério:
— E as casas também… Aquela casa é um covil!… Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente… E naturalmente, as dos outros caseiros são covis iguais… Era necessário uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da quinta…
— A todos?… — O Silvério gaguejava, emudeceu.
E Jacinto balbuciava aterrado:
— A todos, enfim, quero dizer… Quantos serão eles?
Silvério atirou um gesto enorme:
— São vinte e tantos… Vinte e três! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e sete…
Então Jacinto emudeceu, como reconhecendo a vastidão do número. Mas desejou saber por quanto ficaria cada casa!… Oh! uma casa simples, mas limpa, confortável, como aquela que tinha a irmã do Melchior, ao pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Excelência saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:
— Duzentos mil réis, Excelentíssimo Senhor! E é para mais que não para menos!
Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:
— Bem, meu amigo… Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, porque eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.
Então o Silvério teve um brado de terror:
— Mas então, Excelentíssimo Senhor, é uma revolução.
E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos esgazeados de horror, dos seus imensos braços abertos para trás, como se visse o mundo desabar, — o bom Silvério encavacou:
— Ah! Vossas Excelências riem? Casas para todos, mobílias, pratas, bragal, dez contos de réis! Então também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela chalaça!… Vai aqui uma bela risota.
E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade naquela extravagância magnífica:
— Enfim, Vossa Excelência é quem manda!
— Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os melhorar. Há muito que melhorar. Venha você almoçar connosco. E conversamos.
Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem recebeu mais espanto com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a Sua Excelência para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a consertar a trave da mó. Era um instante, e já estava às ordens de Sua Excelência.
Meteu logo por um atalho, saltando um cancelo. E nós seguimos, com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul alegre que reaparecia, e por toda aquela justiça feita à pobreza da serra.
— Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto — disse eu, batendo, com uma ternura que não disfarcei, no ombro do meu amigo.
— Que miséria, Zé Fernandes, eu nem sonhava… Haver por aí, à vista da minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível…
Estávamos entrando na alameda de faias. Um raio de sol, saindo de entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e lustrosas um frémito alegre e doce.
— Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?… Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio… Não, não era Santo Ambrósio. Não me lembra o santo. Ainda não era mesmo santo, apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga! Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande chaga… É talvez a tua preparação para S. Jacinto.
Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:
— É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é uma chaga que eu posso curar!
Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos bem alegremente a escadaria do casarão.

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