“desacelero no atravessamento de vias,
caminho de exu, das encruzilhadas.
uma ave de rapina, de asas curtas, garras e bico recurvo
passa como flecha pelo vidro sujo do carro
e pousa, atenta e sorrateira, no fio de luz
próximo à copa esverdeada e densa da samaúma,
que abriga um ninho com filhotes e ovos.
em seguida, bradando pios de revolta e luta,
avançando em investidas afrontadoras,
tenta enfrentá-lo e afastá-lo.
penso na disputa desigual
desse modelo de vida, predador-presa,
mas acelero, avanço, sigo em frente,
confiante, fortalecida e satisfeita
com a potência dos não-fracos,
pelo pequeno bem-te-vi de peito amarelo”.