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Não sou fã de mensagens de despedida. Na verdade, esta não é uma. É uma nota de intenções. Uma justificação, vá. Também não sou grande fã delas, mas penso que o motivo a permite. Confundidas às vezes com chamadas de atenção (e elas abundam), as mensagens de que “vou sair do insta!” são percebidas dessa forma, como se alguém quisesse saber verdadeiramente. Manifestam-se como cuidados com a saúde mental, ou necessidade de uma pausa higiénica, e nestes primeiros dias do ano deparei-me com algumas. Grandes declarações de despedidas… para uma semana depois voltarem sem alarido.
Rui sente com a palma da sua mão direita o asfalto do campo de futebol da escola, a rugosidade da pedra marcando o terreno da sua pele com minúsculos vales de dor. Empurra a mão contra o chão o mais que pode, quer ver até onde o solo consegue entrar no seu corpo.
Tomás segura o seu copo de cerveja com a mão direita. Encosta-se a uma coluna na lateral do bar, a música gritando aos seus ouvidos. As luzes rasgam os rostos e os corpos dos fugitivos da noite, obrigando-os a uma dança ritmada imperturbável. Perscruta os olhares de quem passa, procurando alguma identificação, alguma correspondência ensopada em suor. Não há nada. O seu próprio rosto é indecifrável, não diz nada, e ele sabe-o porque de repente encontra-se num espelho e, olhando para si mesmo, permite-se sair do seu corpo e entrar num éter emanado pela cerveja, como se o si que olha a si mesmo fosse outro que olha outro. Percebendo-se de fora, é incapaz de se mover, remetendo-se a uma catadupa de pensamentos desconexos que culminam num refluxo de vómito.
Falhar é fazer falta. Faz falta percorrer os caminhos outrora hipotéticos, outrora quotidianos. Faz falta introduzir conceitos alienígenas numa conversa aberrante ao sábado à noite. Ao sábado à noite bebe-se fuma-se conversa-se grita-se dança-se. Ao sábado à noite é domingo de manhã. Faz falta o espaço intermédio, límbico, entre a noite e a manhã, feito de tempo prenhe de possibilidades, antes da conclusão da expectativa, que se faz de um vazio que começa no âmago e termina no copo deixado num parapeito qualquer.
Para a carta de hoje, decidi recuperar o tema da minha dissertação de mestrado, no qual, a partir de um projecto fotográfico, escrevi sobre o conceito de masculinidade, a sua representação na arte e, sobretudo, a forma como os homens gay olham para os seus corpos e os dos outros. Todas as pessoas são afectadas por certas expectativas ou ideais construídos socialmente e replicados culturalmente, mas a sua proeminência insistente e esmagadora na comunidade homossexual masculina parecia-me especialmente opressiva, por ser um fenómeno autogerado e reproduzido: os homens gay desejam-se de uma forma e desejam os outros dessa forma.
A pele é um terreno ardiloso. Existe numa suavidade incomparável, salpicada de interrupções que desencaminham os dedos deslizantes. Deslizam, porque a pele desce. Inicia-se num topo, um qualquer topo, e depois desce.
Já falamos aqui na questão da ocupação de espaços. Ocupar é usar um espaço contra a vontade do seu dono (legítimo ou não). O espaço pode ser físico ou metafórico. Ou ambos. Um espaço metafórico é o ar que respiramos, a possibilidade da existência. Ser-se num ar hostil é ocupá-lo. A própria insistência no pensamento do opressor é também uma ocupação.
Estou sentado num chão desnivelado e desconfortável, descansando os ouvidos dos tremores apressados da música que ecoa dentro da sala negra, a conversar com o Pedro e a Francisca, calmamente, quando o cimento se ilumina. Olho para o céu e por cima de mim, por cima de nós, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto.
Ocupar um espaço implica conquistá-lo. Ocupar um espaço é, por definição, fazê-lo à revelia. Não se ocupa com permissão. Ocupar não é a mesma coisa que utilizar. Utilizar um espaço é passageiro, ocupar é permanente. Uma nova ocupação implica a expulsão da anterior, ainda que o seu espectro se mantenha. É um acto político disruptivo, no verdadeiro sentido da palavra, e não no jargão tecnocrata que achata e amaina qualquer efusividade. A disrupção é um golpe profundo e concreto que gera vítimas. As vítimas serão violentadas e violentas, procurarão interromper o processo de ocupação, usarão todos os meios ao seu dispor para sufocar a revolução e manter o status quo cristalizado e cristalizante.
A possibilidade da acção anima o espírito. É o acto que materializa o pensamento. Esse, divorciado de qualquer acção, é essencialmente individual, hermético e introspectivo. Um pensamento que não implica uma acção não tem, nessa óptica, efeito no mundo. Pensar num copo de água não cria o copo de água: é necessário mover o corpo, alcançar o copo, enchê-lo de água. Pensar num texto não cria o texto: é necessário pegar numa folha de papel e numa caneta, ou num computador, e escrevê-lo. Pensar num beijo não cria o beijo: é necessário olhar nos olhos, tocar na mão, aproximar os lábios.
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