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Há umas cartas atrás, falei sobre uma forma que vejo de olhos fechados. Preciso de retomar esse assunto, porque tenho de confessar que não fui totalmente honesto. Ou melhor, entretanto percebi mais umas coisas que tornam aquilo que escrevi não totalmente verídico.
A liberdade é um conceito demasiado vasto para ser entendido com exactidão na mente humana. É tão vasta e tão invisível, que parece não existir; que é a mesma coisa que dizer que parece que, não existindo, não faz falta.
Rui desconhecia que a sua inquietação era fruto da falta. Era incapaz de compreender o que sentia, de adormecer o espírito na calada da noite. Do desejo, conhecia-lhe tudo, menos a consciência da sua existência. O seu desejo era fulminante, atirado a tudo o que não podia possuir. Olhava Tomás, que seguia à sua frente.
Viajava de comboio e olhei pela janela quando passava junto à praia. O sol punha-se, como se põe todos os dias, formulando o clichê das stories do Instagram, do fotógrafo amador. Pensei em sacar do telemóvel e tirar uma fotografia. Não o fiz. Amanhã há outro pôr-do-sol.
Na carta sobre a inocência, disse que o medo do escuro é, na verdade, medo do desconhecido. Seria preciso, antes de falarmos sobre o desconhecido, percebermos o que é o desconhecido. Ou melhor, não o que ele é, mas o que significa. Se fosse o que ele é, deixava de sê-lo, certo? O que significa, portanto, o desconhecido: é isso que pretendo definir, antes de pensar sobre ele.
Olhas para cima e é noite escura. De todo o lado ecoa o tremor do chão, os graves dos sons ritmados que surgem do palco. Luzes intermitentes e coloridas varrem as centenas, milhares, milhões de corpos que ali se espalham, movimentando-se ao mesmo tempo, na mesma cadência, num ritual de purificação da alma. Mas não é sobre os outros. É sobre ti e ele.
Este sábado o Paulo e o Ricardo perguntaram-se se escrever estas cartas me estavam a fazer bem. A resposta curta que dei foi que sim, que ajudavam a descarregar algumas das coisas que me vão pela cabeça.
Tomás enterrou os pés na areia enquanto fitava o mar à sua frente, o sol iniciando a sua descida vertiginosa pelo horizonte. Os grãos afiados rasgavam-lhe suavemente a pele entre os dedos, mas não o detinham. Deixava-se imergir na areia, como que uma apatia se instalasse nas pernas, um sono benevolente e confortável que lhe servia de cama. As ondas do mar despedaçavam-se em espuma de um brilho incandescente, a água aproximando-se rapidamente das suas pernas, cada vez mais submersas.
A página em branco é um terror. Tocar uma única nota num piano, enquanto se pressiona o pedal da sustentação, para que o som se prolongue o mais possível, abafando-se lentamente na propagação que dita a sua morte. Tocar outra vez na mesma tecla, a mesma nota, o mesmo pedal, durante o mesmo tempo.
Tem 33 anos, mas a pele seca do rosto e as duras feições dão ar de quarentas. O cabelo é preto e rapado nas laterais. Acompanha-lhe uma barba densa, escura e curta. Não é muito alto, mas os ombros ocupam espaço. O peito, volumoso, desenha-lhe a t-shirt larga, abraçando o ar que sobra por debaixo. A t-shirt é preta, pousa sobre os ombros. No verso estampam-se umas palavras quaisquer. O tecido está gasto, mas não é velho, é vintage. A t-shirt afunila-se na cinta estreita, desaparecendo para dentro das calças de ganga azul. As calças circundam o rabo redondo, hirto, e deixam-se levar pelo resto das pernas curtas, em bocas largas, desvendo botas de sola alta, escuras, de couro.
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